Terra em Trânsito


| A distopia como refúgio |

  ÚLTIMA CHAMADA

Espelhado em nossa nova realidade de seres à distância, e a exemplo de outros autores e diretores teatrais, Gerald Thomas traz de volta, agora online, Terra em Trânsito, peça estreada em 2006 pela excelente Fabiana Gugli, novamente em atuação ímpar. Trata-se de uma atriz plena, que possui domínio total de expressões, timing perfeito, e interpretação absolutamente impactante. Com cenário montado na casa da atriz, o texto de Gerald Thomas, que, aparentemente, pode parecer excessivamente fragmentado e fragmentário, na verdade retrata o pensamento das gerações nascidas na década de 50, 60, e 70. Gerações essas, que já pegaram a terra em verdadeiro trânsito, com seus “estados artificiais”, com seus “estados mentais” também “artificiais”, com o retorno de atores de diásporas e novas diásporas acontecendo, com a sombra fantasmagórica de refugiados que nunca chegam a lugar algum que não seja algum tipo de campo, de concentração ou dispersão, tanto faz. E com toda a sorte de artifícios que se pode ter à mão para se manter algum reconhecimento dos fatos, contando com aquilo ao que o autor se refere comumente como “melting pot”, versão anglo-saxônica do termo “caldeirão”, onde poções e misturas não garantem, na totalidade, uma dose de realismo. Antes, uma cisão com o mundo real, tal qual o desmonte da estrutura mental do ser humano comum, que pulsa, teme, projeta, espera, e em que se encaixa a protagonista (também uma atriz), que acaba praticando quase um monólogo, febril, frenético, e, por isso mesmo, demasiadamente humano, quando não está conversando com um cisne – que vem sendo excessivamente alimentado por ela para se tornar foie gras – e com um Ney Latorraca, que deixa dúvidas no espectador quanto às personas alvo de suas admirações.

 

– Fabiana Gugli em cena de Terra em Trânsito – Foto de Luiz Maximiniano –

 

Gerald Thomas não quer contar uma história. Ele é a história. Andarilha, sem território demarcado, sem partida, chegada, nacionalidade. Ele é a história da atriz, presa em seu camarim, aguardando o início da peça, apesar das chamadas não a conduzirem ao reconhecimento de que o tempo de exílio no camarim diz que alguma coisa está errada, e que ela deve entrar em cena. (Quando demoramos muito a reconhecer alguma coisa, a tendência é essa coisa fugir à nossa vista, se desmanchar, ou se reconfigurar em uma próxima realidade. A ideia que Gerald quer transmitir com Terra em Trânsito, é um pouco dessa perda de referência por excesso da mesma. É não saber direito com quem nos parecemos por, falsamente, nos parecermos com todo mundo. Tudo muito atual.) Entretanto, enquanto, volta e meia, engole comprimidos, provavelmente ansiolíticos, e conta ao cisne suas últimas experiências vividas, a personagem se esquece de que a vida, lá fora, se desenrola ao som das chamadas de que a peça está prestes a começar. Isso nos leva também a sondar o espectro do esquecimento, da solidão, e do confinamento, não apenas imposto por acasos fortuitos, mas autoimpostos, como forma de justificar a nossa não participação no cenário dos viventes que tentam articular algum tipo de decisão, entendimento, ou realização. Talvez, pelo fato de estarmos tão ocupados, nos referenciando em um mundo feito de múltiplas identidades, nos esquecemos dos chamados pessoais, que são aqueles pelos quais lutamos arduamente até o esgotamento de nossos nervos, ou até que nos arranquem o suor que já não temos, para provar que somos capazes de algo que já sabemos que somos, mas que já não importa: o cansaço, mascarado pelo esquecimento, venceu.

 

– Fabiana Gugli em cena de Terra em Trânsito – Foto de Luiz Maximiniano –

 

Nesse nada admirável mundo novo, ser esquecido, ou morrer, tem peso pena na grande condução de engrenagens sobrepostas, uma por uma, sobre um por um. Tudo o que temos, verdadeiramente, à mão, é uma vasta rede de informações, que no desenrolar dos conflitos, acaba servindo apenas de pano de fundo para decisões, as quais não temos alcance. Ou nunca tivemos. Algum fio condutor invisível continua dando as cartas, e nosso desamparo é quase tangível. Continuamos à mercê de alguém que abra a porta para que possamos atuar nesse inexorável palco chamado vida. Afinal, nenhum novo receptáculo imunológico, que dê conta de nossas singularidades, foi lembrado no momento da concepção de nossa história, e tudo o que temos à frente é um conjunto de fatores mecânicos que não se rende aos nossos sentimentos. É por aí que o espectador de Terra em Trânsito vai se locomover ao longo de quase 50 minutos de espetáculo, em que Fabiana Gugli (mais uma vez: magistral), nos conduz pela mente do diretor, cujo texto demonstra uma percepção profunda desses anos todos que precederam o momento atual, em que tudo se repete, agora em escala exponencial, e que não nos isenta de responsabilidade sobre os fatos, apesar de não termos mais controle sobre suas narrativas. Junto à protagonista, somos também espectadores trancados em uma espécie de camarim eterno, enquanto quem está no centro do grande palco nos é totalmente desconhecido.

 

TERRA EM TRÂNSITO – Versão 2021 | ONLINE |

Onde: https://www.youtube.com/watch?v=Gx5bKONogKI

Quando: até dia 31 de maio de 2021

Texto e Direção: Gerald Thomas

Elenco: Fabiana Gugli / voz do cisne: Marcos Azevedo / cisne: Isabela Carvalho

 

Ana Peluso, 1966, escritora, poeta, web designer, lançou  70 Poemas, que  integra a Coleção Patuscada da Editora Patuá, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.  Participou também da antologia deZamores pela Editora Escrituras, em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan. Também participou de diversas antologias do grupo Anjos de PrataPoetrix, e, recentemente do TOC140. Em 2007 participou da antologia de minicontos MOSCAS, em homenagem ao escritor guatemalteco Augusto Monterroso, com publicação da Edições Dulcinéia Catadora, resultado da oficina literária do escritor Marcelino Freire no centro cultural b_arco. Também participa da antologia É que os Hussardos chegam hoje também pela Editora Patuá, 2014, e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014. Possui publicações nas revistas Coyote e Ciência e Cultura (UNICAMP), e no extinto jornal O Pasquim. Também possui publicações em revistas eletrônicas,  tais como Germina LiteraturaReleiturasCronópiosMusa RaraLazanhaDiversos AfinsFora de Mim etc. Blogue:  http://anapeluso.tumblr.com




Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook