Gota de óleo na superfície d’água


 

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M TEMPOS DE AMOR LÍQUIDO, este é um livro sobre a impossibilidade e a possibilidade de amar. Também é um livro sobre amores possíveis e sobre desamores. No fim, é um livro que pergunta: afinal, estamos preparados para o amor livre? Antes, é um livro que pergunta: o que é o amor livre?

Promessa tem ares de cidade grande, onde as pessoas se relacionam na liquidez típica dos grandes e anônimos centros urbanos. Pracabá, cidade portuária em vias de se modernizar, conserva ainda muitos traços da época em que seus moradores ainda tinham nos barcos a vapor o principal meio de transporte. Medida do Bonfim é entranhada no grande sertão desse Brasil fictício multitemporal e simultâneo, onde a eletricidade acabou de chegar, modificando toda a estrutura social do lugar.

É nesse cenário que Júlio, Leila e Madalena vivem um triângulo amoroso pouco convencional, onde a chave é a busca pela libertação de si no respeito aos limites do outro, ao mesmo tempo em que se deparam com a incompletude essencial de sermos humanos.

Seguindo a estrutura narrativa típica do romance contemporâneo, o autor nos apresenta uma fragmentação peculiar no entanto, própria do contador de memórias que, vira e volta, vai e vem no tempo da narrativa conforme vem contando, transitando entre os quatro focos narrativos que compõem o livro, o que dá ao livro característica de um exercício de compreensão do outro. Por ser uma narrativa construída em conjunto, a quatro vozes, a partir de quatro narradores que vão intercalando a condução da narrativa e mostrando percepções particulares do enredo que vivem; entrelaçando-se a partir do que percebem de si e do outro.

Em seu romance de estreia, o autor recupera o fôlego vertical – agora horizontal – de seu primeiro livro, demonstrando, como diz a certa altura, que “tudo tem história, e as histórias pulsam pra serem contadas”.

 

 

Como gotas que vagueiam pela superfície da água

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Como gotas de óleo que vagueiam pela superfície da água, vamos vagando pelo Planeta e vamos encontrando (e desencontrando) almas afins, em uma procura incessante daquela alma que nos completará definitivamente: a nossa. Essa é a premissa do instigante primeiro romance do Leo Mackellene, que li em três noites e me rendeu uma insônia criativa, por causa desse processo assustador, mas necessário, de conhecer a si mesmo.

Na vida vamos construindo uma colcha de retalhos que nos define como seres humanos. Colcha feita de livros, discos, pessoas, caminhos, papos, sons, noites, amigos, afetos, ilusões, viagens, delírios, fracassos e vitórias e que se revela no ritmo dinâmico e cinematográfico do romance, com cenas curtas e intensas. Nessa busca de completar essa colcha existencial, os personagens Júlio, Leila e Madalena vivenciam e prendem o leitor numa jornada de amor-desamor entre eles e numa ciranda de emoções que às vezes parece um carrossel, em certos momentos se revela roda-gigante, e em outras passagens simula um louco espalha-brasas, que deixa rastros no leitor fértil.

Para dar conta da diversidade de escolhas que se apresentam aos personagens, assim como na nossa vida, se alternam narradores, tempos, lugares, sertão, rio e mar, infância e juventude, esperança e desalento. A dicção do romance vai amadurecendo ao longo dos capítulos na mesma medida em que vão se descontruindo e reconstruindo as certezas dos personagens… ou seria o contrário?

Cheio de cenas de delicada beleza e de suave sensualidade, o romance traz momentos como Madalena subindo um rio para se encontrar, ou o mar lambendo as pernas dos amantes, ou a epifania de Júlio, ou a revolução de Leila, ou a dor pelo amigo perdido, que podem nos levar a viajar em nossa própria epifania.

O certo é que o livro agarra o leitor pelas bitacas e só solta quando ele quer. Vem correr perigo?

 

 

Cleudene Aragão, professora do curso de letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Curadora da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará.

 




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