Escrever é preciso! – III


A utilidade do fazer crítico: escrever é preciso!

………………(As armas da crítica contra a crítica desarmada)

 

“Sem dúvida [a situação] está abaixo do nível da história, abaixo de toda a crítica: não obstante, continua a ser um objeto da crítica (…). A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma (…), mas a teoria também se torna força material quando se apodera [dos homens]. A teoria se apodera [dos homens] quando demonstra ‘ad hominem’, e demonstra ‘ad hominem’ tão logo se torna radical. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz.” (MARX, Karl. “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”. Boitempo, São Paulo, 2013, p. 153-157).

Em 24 de setembro de 2010, o professor titular de Teoria Literária da Unicamp e membro da Accademia Ambrosiana de Milão publicou, na revista Sibila, o texto “O inconfessável: escrever não é preciso”. Parte do título foi emprestada do poema “O artista inconfessável”, de João Cabral de Melo Neto, do qual o articulista cita os quatro primeiros versos como epígrafe. Aliás, não passa despercebido ao leitor atento que, no crédito bibliográfico, consta a estranha ressalva “adulterado”. Para entender a razão do particípio do verbo “adulterar”, fui à obra “Museu de tudo”, verificando que o quarto verso do poema é “mais vale o inútil do fazer”: o adulterador reescreveu-o, contudo, acrescentando o advérbio “não”. Em inadmissível apropriação indébita, produzindo uma drástica alteração/deformação semântica, que inverte/perverte o sentido original a fim de que a autoridade do rigoroso bardo lhe servisse de lastro às esdrúxulas teses, eis a versão falsificada: “mais vale o inútil do não fazer”. Focalizada a adulteração, convém reproduzir – a bem da honestidade intelectual no exercício da boa crítica – a epígrafe e o poema, para que o próprio leitor tenha diante dos olhos a prova cabal da despudorada manobra retórica: com a ressalva de que a confissão (entre parênteses, quase despercebida) do articulista, evidentemente, não o isenta de responsabilidade pelo uso – não autorizado, sublinhe-se – do verso “adulterado”. Enfim, é só comparar ambas para não ter dúvida do oportunismo do adulterador:

 

I – A farsesca:

“Fazer o que seja é inútil.

Não fazer nada é inútil.

Mas entre fazer e não fazer

mais vale o inútil do não fazer.

(João Cabral, adulterado, “O artista

inconfessável”, em Museu de tudo, 1975)”.

 

II – A original:

“Fazer o que seja é inútil.

Não fazer nada é inútil.

Mas entre fazer e não fazer

mais vale o inútil do fazer.

Mas não, fazer para esquecer

que é inútil: nunca o esquecer.

Mas fazer o inútil sabendo

que ele é inútil e que seu sentido

não será sequer pressentido,

fazer: porque ele é mais difícil

do que não fazer, e difícil-

mente se poderá dizer

com mais desdém, ou então dizer

mais direto ao leitor Ninguém

que o feito o foi para ninguém.”

(NETO, João Cabral de Melo. “O artista inconfessável”. In: “Museu de tudo e depois: 1967-1987”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 286).

 

Sem o contexto em que se inscreve a epígrafe, obviamente, é impossível entender por que o ilustre professor teria acrescentado o impertinente “não”, contradizendo a tese cabralina de que “entre fazer e não fazer” – inutilidade por inutilidade – “mais vale o inútil do fazer”, como quem estrategicamente ignora a justificativa do criterioso autor (razão de ser, aliás, do próprio poema) de que é “porque ele é mais difícil/ do que não fazer”. Na inversão semântica operada pelo articulista – não custa “desenhar” o que salta aos olhos (de quem tem “olhos de ver”, como diria o Vieira de que o campineiro é especialista, evocando Santo Antônio de Armino) -, a conclusão é que o melhor mesmo seria não escrever: isto é, que mais valeria o inútil do não fazer, porque ele seria mais difícil do que fazer. A propósito do “escrever não é preciso”, que certamente o leitor ilustrado reconheceu – depois dos dois-pontos no título – como alusão à célebre ambiguidade aforismática da “Mensagem” pessoana, uma réplica bem cabralina – com sutileza irônica, economia de meios, precisão cirúrgica – seria suprimir o “não”: escrever é preciso. Quem leu bem João Cabral, obviamente, sabe muito bem que, para o poeta “engenheiro”, escrever sempre foi “preciso” nos dois sentidos: tanto porque necessário quanto porque exato. Em contrapartida, quem leu bem o apropriador indébito não ignora porque, para ele, “escrever não é preciso”: primeiro, porque não foi “exato” na transcrição do verso; segundo, porque não seria “necessário” – sobretudo a quem deveria zelar pela memória literária – expor-se à tamanha vergonha pública, recorrendo a subterfúgio tão flagrantemente amadorístico – e antiético – para corroborar seu desfocado ponto de vista.

Feitas essas considerações preliminares, antes de proceder à análise do problemático artigo publicado na Sibila (revista de que era coeditor à época, atenção!), vale informar que, quanto à estrutura, ele se organiza em uma sequência de notas sumárias, numeradas de 1 a 37, tendo por eixo temático a crise da produção literária contemporânea, que se manifestaria através da grande quantidade de obras, por um lado, e da baixa qualidade estética, por outro. Como não é possível transcrevê-las uma a uma, evidentemente, nos limites desta crítica, serão citadas na íntegra apenas as que condensam as ideias centrais do autor, apresentando-se então nossas objeções pontuais sobre elas. Para começar, assim, o périplo pelas intrépidas teses do “adulterador” de Cabral, seguem as três notas que abrem o texto, dando o tom geral do debate:

“1. Ao contrário do que usualmente se supõe, a passagem dos anos não tem obrigação nenhuma de revelar algum grande autor ou mesmo um autor apenas razoavelmente bom. A regra estava valendo para o passado, que revelou tantos autores extraordinários, quanto vale para os próximos cem ou mil anos, que talvez nunca vejam nenhum outro, assim como podem ver centenas deles. Se grandes autores apareceram com regularidade, ou aparecerão da mesma forma, isso são contingências, não necessidade ou decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos.

  1. Antologias de autores promissores ou novos lançamentos de escritores contemporâneos não cessam de aparecer, por piores que sejam. Alguns são jovens, outros são célebres, outros são simples amigos do editor: qualquer coisa basta. Por isso mesmo, nada é suficiente como critério de edição, e o publicado basicamente ajuda a encobrir a percepção evidente de que não há nada de relevante sendo escrito, nem mesmo há indícios de que essa relevância possa ser descoberta outra vez no domínio da literatura.
  2. Não parece haver nada relevante sendo escrito, essa é a mais provável razão desse poço, desse mar de coisa escrita.”

Procedendo aos comentários, não foge ao esperado que o enunciador, coerente com o empenho em fabricar a imagem de “polemista”, tenha aberto a nota com a locução adverbial “ao contrário”: no caso em tela, opondo-se a uma pressuposta crença dominante de que o decurso do tempo se encarregaria, por si só, “de revelar algum grande autor” ou, no pior dos quadros, um nome “apenas razoavelmente bom”. O que o crítico não identifica objetivamente (para colocar em termos bem eufemísticos) é quem seriam estes que “usualmente supõem” – como se movidos por uma espécie de fé fervorosa na redenção literária póstera – que o tempo teria a “obrigação” de produzir novos gênios criativos. Em termos mais diretos, essa questionada confiança triunfalista na bonança estética vindoura (o pleonasmo é enfático) seria compartilhada, por exemplo, por críticos, editores, autores, professores e também por leitores não especializados de literatura? Para não parecer que o “adversário” teria sido forjado como mero pretexto retórico, operando como uma entidade enunciativa hipotética necessária para instaurar – explicitamente – o debate e justificar a polêmica, conviria que o “polemista” citasse no mínimo alguns excertos de artigos, entrevistas ou, até mesmo, de posts em redes sociais, para ilustrar com propriedade a tal “suposição” equivocada do senso comum. Em síntese, para que ao menos se pudesse levar a sério o ponto de partida de suas conjecturas, condição “sine qua non” para subscrevê-las ou contestá-las, o professor deveria deixar claro tanto “quem” foi exatamente que disse, quanto “o que” precisamente foi dito.

Posto isso, se o eminente catedrático, tendo reconhecida competência de escrita, formulou tão mal suas ideias já no introito, parece-me que é porque de fato carece não de pleno, mas de mínimo domínio sobre o objeto que se propôs a analisar. Em outras palavras, diria que, não lhe faltando conhecimentos técnicos de redação, se aqui escreve mal é porque, efetivamente, não pensa bem (o trocadilho eufemístico é traço de delicadeza irônica). Focalizando bem de perto, então, sua paradoxal linha de raciocínio, para que não haja dúvidas das contradições em que amadoristicamente incorreu, em primeiro lugar, seria imprescindível que ele tivesse corrigido aquilo que contradisse sobre o que “usualmente se supõe” (a voz passiva sintética, com apagamento do agente, é sintomática): ou seja, que o conceito de “obrigação” (o “dever”, modalidade deôntica) é impróprio para tratar da categoria “tempo”. Se optasse por justificar a tal impropriedade, por exemplo, recorrendo à metalinguagem da semiótica greimasiana, poderia dizer aos “equivocados” que o tempo histórico, no discurso deles, é como se obedece a um “dever” (ou “querer”) imposto por um “destinador de valores” – com a devida ressalva nietzschiana – “humano, demasiado humano”. Se quisesse dar um xeque-mate, noutra perspectiva teórica, com um argumento de autoridade marxista, viria bem a calhar jogar-lhes na cara este certeiro trecho de um ensaio clássico do pensador germânico: “Os homens fazem sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles que escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos.” (MARX, Karl. “O 18 de brumário de Luís Bonaparte”. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 25).

Sendo bem realista, é evidente que o coeditor da revista em que publicou suas “notáveis” notas não poderia valer-se de argumentos semióticos, que – na melhor das hipóteses – mal conhece, tampouco lançar mão da epistemologia marxista, que – certamente – desconhece. Ainda que não recorresse a esta ou àquela, mas a diferentes matrizes teóricas, homologando-as numa leitura sistêmica, para dar corpo – o trocadilho é “sinto(so)mático” – a uma análise orgânica do problema, haveria ao menos uma base mais sólida delimitando os termos do debate. O que esperar, entretanto, de um “grande crítico” (há quem o celebra – pasme! – com o distinto epíteto) que chega à mais rasteira constatação de que podem aparecer ou não “grandes autores”, e que “isso são contingências, não necessidade ou decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos”? A propósito dos despropósitos, aliás, não deixa de chamar a atenção que justamente ele, que sublinhou o “inefável” na gestação das obras maiores, o “imponderável” na gênese dos gênios literários, tenha usado não só o termo “regra”, mas também o cognato “regularidade”: “A regra estava valendo para o passado, que revelou tantos autores extraordinários (…). Se grandes autores apareceram com regularidade (…).” Parece que o eminente pensador, pensando tão mal, não pensou nem no elementar “princípio da não contradição”, afirmando “A” e “Não A” simultaneamente, não? Se “contingente” é aquilo que é incerto, possível ou não de ocorrer, e se “regular” é o que segue a regra, obedece a um padrão, ocorre com constância, logo, professor, um fenômeno que se manifesta com “regularidade” não poderia estar propriamente no campo da “contingência”, certo?

Pelo menos não – importante ressaltar – do ponto de vista da lógica formal. Já na perspectiva da lógica dialética (quem dera o articulista tivesse lido “Lógica Formal/Lógica Dialética”, de Henri Lefebvre!), é claro, são outros quinhentos… Sem entrar em detalhes, para não parecer que isto é uma aula básica para o professor que ignora tão amadoristicamente o método, diria apenas, em primeiro lugar, que não há dúvida de que os fatos históricos não são da ordem lógica dos “raciocínios necessários” – será que o catedrático conhece tão bem mesmo a “Arte Retórica” de Aristóteles? -, passíveis de “demonstração”, como os teoremas. Em segundo, acrescentaria que, mesmo sendo sujeitos também à “contingência”, inscritos em margens de incerteza, isso não implica necessariamente que sejam independentes (leia Marx falando sobre os “ziguezagues” no curso da história, mestre!) das condições materiais e espirituais de produção e reprodução da vida humana. Aproveitando o ensejo, enfim, como já expliquei ao ilustre linguista a definição marxista do termo “materialismo” (vide as duas críticas a ele publicadas em minha coluna no Musa Rara), que empregou com tamanha frouxidão conceitual em sua “não resenha” no jornal Rascunho, passo a palavra a Engels para lhe dar – em excertos de dois textos distintos – a mesma lição (parece que custa muito ao mestre aprender, né?):

“A palavra ‘materialista’ serve, geralmente, a muitos (…) como simples qualificativo com que se rotula, sem qualquer análise, todo tipo de coisa (…). Mas a nossa concepção da história é, sobretudo, um guia para o estudo (…). É necessário voltar a estudar toda a história, devem-se examinar em todos os detalhes as condições de existência das mais diversas formações sociais antes de procurar deduzir delas todas as ideias políticas, jurídicas, estéticas, filosóficas, religiosas etc. que lhes correspondem (…). Quanto a isso pouco se fez até agora, porque poucas pessoas se dedicaram seriamente ao estudo (…). Mas, em vez disso, muitos (…) se limitam a empregar o termo ‘materialismo histórico’ (…) para reunir num sistema definido e o mais rapidamente possível os seus escassos conhecimentos históricos”. (Carta de Engels a Conrad Schmidt, 1890. In: “Cultura, arte e literatura: textos escolhidos”, Karl Marx e Friedrich Engels, Expressão Popular, São Paulo, 2012, p.107).

“Sem a escravidão seriam inconcebíveis o Estado, a arte e a ciência gregos; sem a escravidão, o Império romano não teria existido. E sem as bases do helenismo e do Império romano, tampouco haveria de constituir-se a Europa moderna. Jamais deveríamos esquecer que todo o nosso desenvolvimento econômico, político e intelectual teve como condição prévia uma situação em que a escravidão não era apenas uma instituição necessária, mas aceita e reconhecida de um modo geral.” (ENGELS, Friedrich. “Anti-Dühring”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, pp. 158-159).

Com mais base teórica para compreender a extensão e a profundidade dos equívocos de raciocínio do membro da Accademia Ambrosiana de Milão – a sua indisfarçável ignorância “materialista histórica” -, retomemos este trecho da nota introdutória: “A regra estava valendo para o passado, que revelou tantos autores extraordinários, quanto vale para os próximos cem ou mil anos, que talvez nunca vejam nenhum outro, assim como podem ver centenas deles.” Só para não deixar passar em branco nenhum detalhe de suas más formulações, sobretudo em se tratando de ser o mesmo autor de uma obra intitulada “Problemas de redação”, se fosse membro uma banca examinadora, apontaria certamente ao candidato à carreira de crítico literário um problema de ordem técnica, que afeta a imagem de competência linguística do enunciador especializado. Ou seja, a “coesão” (um dos critérios qualificantes do texto dissertativo – em exames vestibulares e concursos públicos, de nível médio e superior) do trecho é falha; faltou atenção do eminente mestre ao paralelismo sintático: “a regra estava valendo para o passado [como] vale para os próximos (…)”, e não “quanto vale”; ou, então, “a regra estava valendo [tanto] para o passado quanto vale para os próximos (…)”. Se julgasse com os mesmos pesos e medidas esse mesmo deslize na redação de um inexperiente adolescente, ou de um limitado concursando com diploma de uma faculdadezinha qualquer, seria excesso de rigor (ou mesmo um equívoco, se a linha argumentativa do texto fosse coerente). Todavia, em se tratando de um professor titular de uma prestigiada universidade, que tem formação em linguística e já publicou uma obra sobre “Problemas de redação”, o que lá teria menor peso, aqui se torna agravante.

Aliás, antes o problema “grave” do artigo do especialista fosse apenas este, restrito ao plano da “coesão textual”. Com benevolente vista grossa, caberia a desculpa de que a pressa – só para não perder o trocadilho proverbial – é inimiga da revisão. Se não fosse um gênero de discurso dissertativo, com maior grau de padronização, submetido a mais inflexíveis “coerções de dizer”, seria justificável dizer – evocando a autoridade do linguista Michel Charolles – que os elementos coesivos gramaticais não são necessários nem suficientes para um texto ser coerente. A questão é que o problema é mais embaixo, exatamente no nível da “coerência textual”: tanto a “interna”, que concerne às relações semânticas – de identidade – entre as partes do texto, quanto a “externa”, que se refere à compatibilidade de sentido entre o que o texto afirma e o que o conjunto de textos universalmente consagrados diz. No primeiro caso, o articulista se trai – abstrai a “metarregra de não contradição” (segundo Charolles) quando atribui “regularidade” a um fenômeno que caracteriza como “contingente”: em termos semióticos, o que segue a regra, obedece a um padrão, é da ordem do “dever ser” (modalidade alética), lexicalizado como “necessário”; em contrapartida, o que é modalizado pelo “poder ser/ poder não ser”, submetido às incertezas da “contingência”, pertence à esfera do “provável”. Enfim, se o professor sublinhou que, ao longo da história da grande literatura, a margem de probabilidade criativa sempre se provou de fato bem maior, deveria ao menos sinalizar quais foram as condições históricas – materiais e espirituais – de produção e reprodução “regular” dessa profícua excelência literária.

Dizer categoricamente que o que vale para o passado vale igualmente para o futuro parece afirmação simplista de quem desconsidera a história. O quadro de relações escravocratas, por exemplo, em que se forjaram filósofos como Platão e Aristóteles, poetas como Homero e Hesíodo, dramaturgos como Sófocles e Eurípedes, é bem diverso daquele que foi berço iluminista da filosofia de Rousseau e Montesquieu, da pintura de Jacques-Louis David e Jean-Baptiste Chardin e das letras de Voltaire (pseudônimo literário de François Marie Arouet). Em linhas bem gerais, se há algo em comum entre tão distintas épocas e lugares, para tentar entender a complexa questão da gênese dos gênios (bem guardadas as devidas proporções), muito provavelmente é a sólida formação intelectual viabilizada pelo acúmulo de riqueza, garantia também da disponibilidade integral de tempo para o “ócio criativo” das classes dominantes, não é mesmo? Se é verdade que as condições materiais e espirituais mais favoráveis não necessariamente asseguram o surgimento de dez, cem ou mil “grandes autores”, é fato que reduzem a margem da “contingência”: da mesma forma, em contextos históricos regressivos, marcados por aguda crise econômica e degradação cultural, não é de estranhar que seja bem menor a probabilidade de uma produção estética extensa e altamente qualificada. Enfim, diante dessas ponderações sumárias, valeriam para o digníssimo crítico – que já dera uma entrevista ao Jornal da Unicamp decretando o fim dos grandes paradigmas do pensamento dos séculos XIX e XX, como o estruturalismo, a psicanálise e, é claro, marxismo (questionei a prédica fatalista no artigo “Isto não é uma crítica – I”, publicado em minha coluna no Musa Rara) – estas palavras certeiras de Karl Marx:

“Storch dá as costas a esta concepção histórica: vê na produção material apenas a produção de bens materiais em geral e não uma forma historicamente desenvolvida e específica desta produção. Assim procedendo, abandona o único terreno em que se torna possível compreender tanto os componentes ideológicos da classe dominante quanto a livre produção intelectual própria de uma formação social concreta. Ele não pode, pois, ir além das suas trivialidades. Ademais, o problema não é tão simples quanto ele, de antemão, imagina. Por exemplo, a produção capitalista é hostil a certos setores da produção intelectual, como a arte, a poesia etc. Sem aquela concepção histórica, chegaremos àquela pretensiosa mania dos franceses do século XVIII, tão graciosamente ridicularizada por Lessing: posto que tenhamos superado os Antigos na mecânica etc., por que não seremos capazes de escrever um poema épico? E eis que Voltaire escreve ‘Henriade’ para não ser menor que o autor da ‘Ilíada’.” (MARX, Karl. “Teorias da mais-valia”. In: “Cultura, arte e literatura: textos escolhidos”, Karl Marx e Friedrich Engels, Expressão Popular, São Paulo, 2012, p.150).

Considerando que esta crítica cumpre também um papel pedagógico (a ilustração, afinal, é um antídoto contra a repetição de clichês idiotizantes), e que é preciso avançar no tempo para compreender as particularidades da crise estética contemporânea, convém recordar alguns excertos da obra mais conhecida da dupla Marx-Engels (sem referência bibliográfica para não subestimar a inteligência do notável articulista que não consegue “ir além das trivialidades” – afinal, ao menos esta brochura ele deve ter lido, né?). Para não perder a deixa e não deixar por menos (com o trocadilho sempre no gatilho), como o “Manifesto” focaliza aqui o então “novo” sujeito histórico hegemônico, pontuando a perda da “auréola sagrada” também dos artífices da poesia, não é demais citar uns trechos de um célebre ensaio da filósofa Jeanne Marie Gagnebin, uma das maiores especialistas na obra de Walter Benjamin, o marxista heterodoxo (será que o professor leu Michael Löwy?) que tratou da perda da “aura” nos primórdios da “era da reprodutibilidade técnica” dos objetos artísticos. A bem do rigor, aliás, Gagnebin, evocando o Baudelaire tão caro a Benjamin, usou exatamente a expressão “perda de auréola do ‘Spleen de Paris'”. Nos limites deste artigo, não cabe entrar em detalhes sobre a distinção entre a “unidade” do universo simbólico clássico e a “fragmentação” do discurso estético alegórico moderno (quem sabe, na aguardada réplica do criticado, o tema encontre o devido lugar e mereça uma análise sistemática). Sem mais, pois, com a palavra as vozes autorizadas, para que o leitor tire a prova do raciocínio amadorístico do “grande” exegeta das letras brazucas:

“A burguesia despiu de sua auréola sagrada todas as atividades até então veneráveis e reputadas como dignas. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela (…). Foi ela quem primeiro provou o que a atividade dos homens pode realizar: criou maravilhas maiores que as pirâmides egípcias, os aquedutos romanos e as catedrais góticas; levou a cabo expedições de maior porte que as antigas migrações e as cruzadas (…). A contínua subversão da produção, o ininterrupto abalo de todas as condições sociais, a permanente incerteza e a constante agitação distinguem a época da burguesia de todas as épocas precedentes. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com o seu cortejo de representações e concepções secularmente veneradas; todas as relações que as substituem envelhecem antes de se consolidarem. Tudo o que é sólido e estável se dissolve no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são enfim obrigados a encarar, sem ilusões, a sua posição social e as suas relações recíprocas”.

“A alegoria cava um túmulo tríplice: o do sujeito clássico que podia ainda afirmar uma identidade coerente de si mesmo, e que, agora, vacila e se desfaz; o dos objetos que não são mais os depositários da estabilidade, mas se decompõem em fragmentos; enfim, o do processo mesmo de significação, pois o sentido surge da corrosão dos laços vivos e materiais entre as coisas, transformando os seres vivos em cadáveres ou em esqueletos, as coisas em escombros e os edifícios em ruínas.

(…) Esta morte do sujeito clássico e esta desintegração dos objetos explicam o ressurgimento da forma alegórica num autor moderno como Baudelaire. Benjamin vê no capitalismo moderno o cumprimento desta destruição. Não há mais sujeito soberano num mundo onde as leis do mercado regem a vida de cada um, mesmo daquele que parecia poder-lhes escapar: do poeta. Baudelaire reconhece que não pode mais ser um poeta independente, voz lírica cantando num mundo que o respeita na sua divina inspiração. É o famoso motivo da perda de auréola do ‘Spleen de Paris’, um motivo retomado por Benjamin na sua teoria da perda da aura. A grandeza de Baudelaire consiste, segundo Benjamin, em ter tematizado esta transformação em mercadoria de todo objeto, inclusive da poesia, dentro do próprio poema.” (GAGNEBIN, Jeanne Marie. “História e Narração em W. Benjamin”. São Paulo: Perspectiva, 1999, p. 39).

Como não é difícil perceber (aos que têm “olhos de ver”, é claro), os problemas são tantos, e de tão distintas ordens de saber, que – para dar conta de todos, e com a devida verticalidade analítica – só a primeira nota já renderia um longo ensaio. Para não perder a progressão do raciocínio e encerrar o artigo sem tratar ao menos das duas subsequentes, convém passar logo à segunda, em que o ilustre titular em Teoria Literária fez menção às “antologias de autores promissores ou novos lançamentos de escritores contemporâneos [que] não cessam de aparecer, por piores que sejam.” Em primeiro lugar, registre-se que, se o adjetivo “promissores” não expressa a avaliação positiva do enunciador, o termo deveria estar entre aspas, demarcando a “conotação autonímica” da enunciação (conforme a categoria da analista do discurso Jacqueline Authier-Revuz): ou seja, se “por piores que sejam” é o juízo de valor negativo do “grande crítico” (essas aspas irônicas, por exemplo, destacam a minha opinião), quem os julga “promissores” são outros, certo? Outro problema de má formulação das ideias: o fato de que alguns desses autores sejam “jovens”, “célebres” ou “amigos do editor” não é a questão central, mas a qualidade das publicações. Em outras palavras, se os autores têm pouca idade, se são conhecidos ou se têm amizade com os respectivos editores, mas escrevem bons livros de poesia, isso sim é que deveria ser “suficiente como critério de edição”, não é mesmo?

Feliz do grande artífice da retórica barroca conceptista ter os ouvidos cerrados há mais de três séculos para não escutar tanta “discurseira de arrastão” (aliás, citei essas aspas de Mário de Andrade nos outros dois artigos): justamente o “grande especialista” (Authier-Revuz de novo) nos Sermões – por mais insólita que pareça a ironia – é quem se mostra tão vexatoriamente inconsistente em seu percurso argumentativo. De olhos bem abertos, vejamos para descrer da autoridade do colunista da Sibila: se ele afirmou que “o publicado basicamente ajuda a encobrir (…) que não há nada de relevante sendo escrito”, o que “encobre” – manobra ardilosa – tornaria, portanto, a “percepção” não “evidente”, correto? Não custa repetir ao professor, a propósito, aquela velha lição do conceito marxista de “ideologia”, recordando esta sintomática analogia de ordem visual sobre a fabricação discursiva da percepção da realidade: “Se em toda ideologia os homens e as suas relações aparecem de cabeça para baixo como numa câmara escura, é porque esse fenômeno do seu processo histórico de vida, da mesma maneira que a inversão dos objetos na retina, deriva do seu processo diretamente físico da vida”. (ENGELS, Friedrich e MARX, Karl. “A ideologia alemã”. São Paulo: Expressão Popular, 2012, p. 31). Em outros termos, recorrendo a uma matriz epistemológica diversa, poderíamos lembrar a lição de Michel Foucault sobre as relações desiguais e combinadas (conceito de Trotsky) entre “saber” e “poder” nas diferentes “ordens de discurso”, em que um conjunto de instituições, papéis sociais e gêneros discursivos determinam o que deve/pode – ou não – ser dito.

Nessa perspectiva, no caso particular da ordem de discurso da literatura, o “zeitgeist” estético seria definido pela ação articulada de uma série de agentes, como escritores, editores, livreiros, jornalistas, jurados de prêmios literários, autores de obras didáticas e leitores – especializados ou não, mas formadores de opinião. Esse heterogêneo concerto polifônico, essa orquestra de distintos instrumentos institucionais e vozes sociais em uníssono – veja bem! – é que constituem o “arquivo” (conceito foucaultiano) da época, condenando ao silêncio, em contrapartida, tudo o que não se inscreve no universo valorativo hegemônico e está em desacordo com os grandes interesses mercadológicos. Se o articulista problematizasse essas questões que nos parecem centrais para a compreensão do processo, certamente prestaria um grande serviço à crítica literária, provando que, ao menos neste domínio, haveria algo “de relevante sendo escrito”. Mas aventar essa hipótese, diante de tantos equívocos, seria o mesmo que esperar inocentemente – como diria o sarcástico “Macário” de Álvares de Azevedo – “som de uma harpa sem corda” (ou, em vão no breu, “luz de uma lâmpada queimada”). Sendo mais direto, se o “grande crítico” explicasse o que considera “relevante” no cânone literário consagrado (a redundância é enfática), para esclarecer – afinal, o sentido se configura por contraste – por que é irrelevante o que vem “sendo dito” (o cacófato é sintomático) na poesia brasileira contemporânea, o epíteto estaria honrosamente livre das aspas autonímicas. Aliás, como não haveria de estar aprisionado entre elas quem pensa e formula tão mal, a ponto de ignorar que, se “não há nada de relevante sendo escrito”, não seria possível vislumbrar, obviamente, quaisquer “indícios” de “relevância”: a bom entendedor, eminente mestre, essa conclusão parece muito lógica, não?

O absurdo, entretanto (entre tantos), não para por aí. Fazendo por merecer epítetos à altura desse texto tão “abaixo do nível da história, abaixo de toda a crítica”, ao prever o futuro apocalíptico das letras, o estudioso de Vieira comporta-se menos como um crítico literário do que como um “Nostradamus da Unicamp”, uma “Mãe Dinah de Campinas” ou – para não perder o trocadilho pleonástico com o nome da revista que coeditava – um “Oráculo da Sibila”. Aproveitando a deixa, para não deixar de lado a providencial ironia aforismática heraclitiana (banhando o infausto escolástico na fonte “protodialética” grega), diria ao mestre com carinho (isso não precisa de aspas, né?) que nenhuma “relevância” pode “ser descoberta outra vez”: porque a “relevância” não é mais a mesma; porque a “descoberta” já é outra. Para qualquer intelectual familiarizado com a tradição clássica grega, por exemplo, não é novidade que o Homero da “Odisseia” já não era o mesmo daquele da “Ilíada”, e que o épico Virgílio que conjugou ambas as obras inaugurais na “Eneida” – e não poderia ser chamada propriamente de Homero romano – era outro quando escrevera as éclogas “Bucólicas”, não é mesmo? Ironias à parte, como prova de boa vontade, trocando de papel (?) para representar o advogado do diabo do profeta sibilino, enfim, recordaria o que disse Laurette Veza sobre Ezra Pound, citado por José Lino Grünewald na introdução de “Os Cantos”: “é, ao mesmo tempo, um adeus ao passado e uma promessa de futuro”. Não esqueceria também este parecer de Hugh Kenner, para quem a obra monumental do bardo moderno é “uma épica sem enredo”. Ou então, fechando com chave de ouro a arguição, daria voz ao próprio grande autor: “Alguém disse que sou o último americano a viver a tragédia da Europa”. (In: “Os Cantos”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 11, 14 e 15).

O ilustre professor provavelmente não conhece a famosa abertura de “O 18 de brumário de Luís Bonaparte, em que Marx evoca Hegel, que dissera que os grandes fatos históricos seriam encenados duas vezes, para então corrigir o mestre que desbancou: o filósofo idealista só teria se esquecido de dizer que, da primeira vez, como tragédia, depois, como farsa. Posto isso e aquilo, enfim, a esta altura do julgamento crítico, dá até para ouvir os silvos da claque da “Associação de Amigos do Oráculo da Sibila” e os grunhidos dos groupies do fã-clube “Acadêmicos Unidos do Nostradamus da Unicamp”: “Com uma defesa dessas, nem precisa de acusação”; “Não se respeitam mais os proféticos catedráticos como antigamente”. Engrossando o coro fanático, meus ouvidos  – tão fartos de asneiras gritantes – até escutam os filhos fiéis do terreiro unicampestre da “Mãe Dinah de Campinas” proclamando sentenciosos, no fundão da plateia, a derradeira previsão apocalíptica do guia visionário: “Não há nada de novo sob o sol, nem jamais haverá, irmãos, porque o sol se pôs definitivamente abaixo da linha do Equador”. Quem dera, nesses tais hipotéticos sermões insanos (que pesadelo!), uma única voz lúcida se projetasse no púlpito literário para advogar em defesa do indefensável decano da Teoria Literária, evocando uma ponderação lapidar de Pound que lhe teria ajudado a formular um pouco melhor (na melhor das hipóteses – ou, ao menos, menos pior, na pior) a tese da crise da literatura contemporânea brasileira. Seria bem maior a chance de êxito, é claro, se o membro da Accademia Ambrosiana de Milão não começasse já abstraindo o quadro histórico de “uma sociedade capitalista que, no último estado de sua podridão, sempre considerou como merda a percepção inteligente ou as capacidades literárias” (In: “Os Cantos”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 15).

Aliás, convenhamos, se o “grande crítico” fosse capaz de articular essa afirmação do bardo americano com aquelas de Marx-Engels e de Benjamin (comentadas por Gagnebin), investigando as particularidades das relações “desiguais e combinadas” nas economias periféricas (conforme a expressão de Leon Trotsky), bem como focalizando o modo de funcionamento específico da “ordem de discurso” literário (segundo a metodologia proposta por Michel Foucault), poderia ter dado uma contribuição substancial ao debate. Nesse caso, ainda que houvesse pontos a criticar em sua análise (como em qualquer análise, certamente, há sempre faltas e insuficiências, imprecisões e impertinências, inadequações e inconsistências a criticar), no final das contas, os méritos – muito maiores – eclipsariam os equívocos. O balanço, então, seria positivo, sob as perspectivas qualitativa e quantitativa: aliás, condensadas no termo “maior”, por oposição a “menor”. Ou seja, do ponto de vista valorativo, o acerto seria “maior” porque “vale mais”, porque tem mais peso argumentativo; do ponto de vista estatístico, porque o número de “bolas dentro” superaria significativamente o de “bolas fora”. O problema, contudo, é que os problemas são muito maiores: na verdade, até aqui o “craque” das Letras não acertou uma bola; em vez de “gol de letra” (com o trocadilho sempre no gatilho!), só fez “gol contra”.

Como este outro, por exemplo, na nota 3: “Não parece haver nada relevante sendo escrito, essa é a mais provável razão desse poço, desse mar de coisa escrita.” Notem o absurdo nexo de causalidade que o “grande pensador” estabeleceu entre a impressão de “não nada relevante sendo escrito” e a constatação do “mar de coisa escrita”: ou seja, a falta de qualidade estética, na sua lógica ilógica, produziria como efeito negativo a imensa quantidade de obras literárias publicadas. Traduzindo minha perplexidade “em língua de dia de semana” (na expressão do matuto “Famigerado” de Rosa), perguntaria ao “Oráculo da Sibila”, sem papas na língua: “O que o cu tem a ver com as calças”? Com o perdão da impaciente expressão chula, o fato é que não dá para não ver que o “visionário ciclópico” (o epíteto “polifêmico”, aliás, que vem bem a calhar “em terra de cegos” – em guerra de egos) não enxerga a relação dialética entre quantidade e qualidade. Já desde a primeira nota, aliás, quando afirmou – sem esboçar explicação – que a aparição de “grandes autores” não é “decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos”. Não fosse tão evidentemente “escolástico”, sua militância crítica poderia fazer escola, desmontando habilmente os tais esquemas mecanicistas de leitura do senso comum. À sua maneira, poderia esclarecer aos replicadores de clichês as bases epistêmicas necessárias para operar – com toda a propriedade conceitual – com as complexas categorias quantitativas e quantitativas. Como o fez, por exemplo, Leon Trotsky nestes trechos de suas notas de estudos filosóficos:

“A dialética está construída na transição da quantidade em qualidade e vice-versa. A lei da transição da quantidade tem qualidade é (provavelmente) a lei fundamental da dialética (…). É importante reconhecer que a lei fundamental da dialética é a conversão da quantidade em qualidade porque nos oferece a fórmula geral de todo o processo evolutivo – tanto da natureza como da sociedade.

O conhecimento começa com a diferenciação de coisas, com a oposição de uma em relação a outra, com a classificação de suas diferenças qualitativas. As definições quantitativas operam com particularidades independentes, consequentemente dependem de definições qualitativas (5 dedos, 10 anos, 100 amperes). (…) O princípio da transição de quantidade em qualidade tem significado universal, enquanto tomemos o universo inteiro – sem nenhuma exceção – como um produto da formação e transformação, e não como fruto da criação [do “Espírito Absoluto” hegeliano] consciente (…). O próprio Hegel indiscutivelmente atribuiu à lei da transição da quantidade em qualidade a enorme importância que ela plenamente merece (…). Engels, seguindo a Hegel, chamou de metafísicos àqueles que pensavam em categorias absolutas e imutáveis, isto é, àqueles que visualizavam o mundo como um agregado de qualidades imutáveis.” (TROTSKY, Leon. “Escritos filosóficos”. São Paulo: Edições Iskra, 2015, pp. 70-73).

Não esquecendo que este artigo cumpre também uma função pedagógica, atento à necessidade de instruir jovens críticos para que não cometam erros – tão amadorísticos – como os do velho crítico, convém acrescentar ao rol de citações autorizadas estas esclarecedoras análises de Walter Benjamin e Aldous Huxley (o escritor foi citado pelo filósofo na nota 76 do clássico ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”). Que o leitor tire a prova, enfim, entre o alto nível de qualidade destas formulações e o que está bem  “abaixo do nível da crítica” nas páginas da Sibila:

“Durante séculos as coisas se deram de tal modo na literatura que a um pequeno número de escritores opunha-se um número milhares de vezes maior de leitores (…). Com a expansão crescente da imprensa (…), uma porção cada vez maior da comunidade leitora – a princípio ocasionalmente – ingressava na comunidade escritora (…), e hoje as coisas estão de tal modo que mal se pode encontrar um único europeu incluso no processo de trabalho que não tenha de algum modo tido em alguma parte a oportunidade de publicar uma experiência profissional, uma reclamação, uma reportagem ou algo do tipo. Com isso, a diferença entre o autor e o público está a ponto de perder o seu caráter fundamental.” (BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Porto Alegre: L&PM, 2017, p. 82)

“Os avanços técnicos (…) levaram à vulgaridade (…), a reprodutibilidade técnica e a prensa rotativa possibilitaram uma multiplicação incalculável de escritos e imagens. A formação escolar generalizada e os salários relativamente elevados formaram um público muito grande capaz de ler e de se abastecer de material literário e imagético. Para fornecê-lo, estabeleceu-se uma indústria significativa. O talento artístico, porém, é algo bastante raro; disso segue (…) que a todo tempo e em toda parte a porção preponderante da produção artística tenha sido medíocre. Hoje (…) a porcentagem de lixo no conjunto da produção artística está maior do que nunca (…). Enfrentamos aqui um problema aritmético simples. No decorrer do século passado a população da Europa Ocidental pouco mais que dobrou. Estimo, porém, que o material literário e imagético tenha crescido no mínimo na proporção de 1 para 20, talvez até para 50 ou 100. Se uma população de x milhões possui n talentos artísticos, uma população de 2x milhões terá provavelmente 2n talentos artísticos. A situação deixa-se resumir do seguinte modo: para cada página impressa contendo material literário e imagético há cem anos são impressas hoje vinte, se não cem páginas. Se, por outro lado, existia um talento artístico há cem anos, existem hoje em seu lugar dois. Eu concedo que, devido à formação escolar generalizada, um grande número de talentos virtuais que antes não teriam chegado a desenvolver os seus dons podem hoje tornar-se produtivos. Estabeleçamos, pois (…), que hoje correspondam três ou mesmo quatro talentos artísticos a cada talento artístico de outrora. Mesmo assim, continua indubitável que o consumo de material literário e imagético tenha ultrapassado de longe a produção natural de escritores e desenhistas dotados (…). Disso resulta, pois, que em todas as artes, falando tanto absoluta como relativamente, a produção de lixo é maior do que antes; e assim deve permanecer enquanto as pessoas seguirem, como atualmente, a exercer um consumo desproporcional de materiais literários, imagéticos e sonoros.” (HUXLEY, Aldous. In: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Porto Alegre: L&PM, 2017, pp. 114-115).

A propósito de tantos despropósitos, vale acrescentar também – indo direto à fonte autoral – esta outra observação arguta de Huxley, na apresentação de uma reedição de seu mais conhecido romance

“A arte possui também sua moralidade, e muitas das regras desta são iguais, ou pelo menos análogas, às da ética comum. O remorso, por exemplo, é tão indesejável com relação à nossa arte de má qualidade quanto com relação ao nosso mau comportamento. A má qualidade deve ser identificada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro (…). Por ter dito isso em diversos livros recentes (…), ouvi de um eminente crítico acadêmico a observação de que eu sou um triste sintoma do fracasso de uma classe intelectual em tempo de crise.” (HUXLEY, Aldous. “Admirável Mundo Novo”.  São Paulo: Círculo do Livro, 1983, pp. 7-8).

Infelizmente, levando em conta a quantidade de equívocos, não foi possível ir além da terceira nota – quem sabe em outro artigo avancemos um pouco mais – do texto do “Oráculo da Sibila”. Aliás, não poderia concluir esta crítica sem apontar outro problema sintomático, que reflete – em outro lugar – aquele do verso “adulterado” (ressalva do próprio adulterador naquela vexatória epígrafe forjada tão oportunisticamente) do poema de João Cabral de Melo Neto. Indo direto ao ponto crítico, para que não digam que estou sendo muito duro no julgamento da “redação” do professor, tenho por método não analisar um único texto, mas o conjunto da obra do enunciador. Assim, depois de ler alguns artigos, entrevistas e livros seus, fui pesquisar o currículo “Lattes” (mas não morde, né?) do professor titular de Teoria Literária da Unicamp, encontrei outra “adulteração” (se cabe aqui também o termo) de crédito. Lá consta que “O inconfessável: escrever não é preciso” teria sido publicado na Sibila em 2006: “PÉCORA, ALCIR. O Inconfessável: escrever não é preciso. Sibila (Cotia), v. 10, p. 92-99, 2006.”. No link da revista que coeditou, contudo, a data da publicação é 24 de setembro de 2010, como se pode conferir em http://sibila.com.br/critica/o-inconfessavel-escrever-nao-e-preciso/3977. Tentando entender esse desencontro de informações, então, eis que outra fonte e data tornam os erros – agora no plural – mais flagrantes: “Publicado originariamente no site WWW.CRONÓPIOS.COM.BR, em 13/10/2005 14:09:00”.

Antes de encerrar, não poderia deixar de lembrar também que, quando publiquei aqueles dois artigos criticando-o em minha coluna no Musa Rara (https://www.musarara.com.br/isto-nao-e-uma-critica; https://www.musarara.com.br/isto-nao-e-uma-critica-ii), tenha comparado o “Oráculo da Sibila” – o mesmo que adulterou Cabral – àquele paraguaio da antiga propaganda televisiva que, tentando se passar por japonês e passar para frente como original um produto falsificado, apresentava-se ao desconfiado comprador como lastro de qualidade da mercadoria fajuta: “La garantía soy yo”. O silêncio do “grande crítico” diante de tantas objeções, pois, é muito eloquente: “o inconfessável”, na verdade, é ter cometido tamanhos deslizes, inadmissíveis para quem exibe tantos títulos e se exibe como grande e impiedoso intelectual. No título do apocalíptico artigo, enfim, a “Mãe Dinah de Campinas” parece ter previsto sua própria impotência terminal: para acrescentar mais asneiras às milhares já ditas e replicadas à exaustão, de fato, “escrever não é preciso”. Eis a “Mensagem” pessoal – pessoana – e intransferível ao mestre com carinho (aspas não é preciso, né? – nem é preciso sublinhar que a concordância está correta, certo?).

 

PS: Seria um bom começo de diálogo crítico se o “grande crítico”, por exemplo, respondesse sibilante (não sibilino) – reconhecendo dignamente os muitos e graves erros – à altura destes versos do “miglior fabbro” do último século:

 

“E não sou um semideus,

Não posso fazê-lo coerir.

(…)

para ‘ver de novo’,

o verbo é ‘ver’, não ‘andar por andar’

i.e. coere com perfeição

mesmo que minhas notas sejam incoerentes Muitos erros,

uma pequena retidão,

para perdoar o inferno dele

e meu paradiso

(…)

E, quanto a quem copiará este palimpsesto?

al poco giorno

ed al gran cerchio d’ombra?

Mas firmar o fio de ouro na fôrma

(Torcello)

(…)

Confessar-se em erro sem perder a retidão:

(…)

Uma leve luz, como a de vela,

para levar de volta ao esplendor.”

 

(POUND, Ezra. “Canto CXVI”. In: “Os Cantos”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 830-831).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo César de Carvalho (Quem dera ouvisse também esse “canto” da boca de um amigo que me condenou ao arbitrário silêncio, simplesmente porque “ousei” não silenciar – por princípios est/éticos que me são caros, meu caro! – diante dos grandes equívocos de seu amigo, que julga – sem justificar – inquestionável “grande crítico”)




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