Os anos aireanos


por Joaquín Correa
tradução: Joca Wolff

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Ninguém percebeu. Mas foi um milagre: o ano passado foi o primeiro ano aireano no Brasil. Apareceu uma quantidade significativa dos seus textos, tal e como acontece na Argentina ou no mundo hispano-falante, ano após ano. A editora Rocco publicou O santo em 2019, quando também saíram Dalí (revista Landa-UFSC) e O ensaio e seu tema (revista Serrote, antecedida por outra versão do mesmo ensaio em 2018 na Landa), além da novelinha Picasso (em edição impressa da Cultura & Barbárie). Igualmente, na virada para 2019, apareceu Sobre a Arte Contemporânea pela Zazie Edições. E, também em 2019, Laura Erber e Victor da Rosa organizaram uma coletânea de ensaios sobre a obra do escritor argentino, publicada na mesma Zazie e intitulada como um dos romances do próprio Aira: O Congresso de Literatura. Ensaios sobre César Aira. Como se não bastasse, em dezembro de 2019 apareceu a edição da sofisticada revista Olympio, de Belo Horizonte, incluindo uma versão do relato “O carrinho”.

Para ganhar a força do costume, nesse ano de 2020, a Micronotas, editora joinvilense, publicou uma rara avis na produção aireana, a novelinha Dante e Reina, e o Suplemento Pernambuco resgatou um pequeno ensaio de Aira de 1986 dedicado à literatura brasileira (“Desdenhosa ignorância da literatura do Brasil”). Quase ao mesmo tempo apareceu na revista Landa uma versão revisada de “Raymond Roussel: a chave unificada”, sendo que a editora Cultura e Barbárie acaba de publicar, em versão impressa (mas também disponível em e-book), uma das novelas mais recentes de Aira, Pinceladas musicais. Esse percurso de publicações aleatórias em editoras de todos tamanhos é outra característica do escritor argentino, prática que define o seu leitor, sempre alerta aos lançamentos – edições e reedições da sua obra – que são publicados simultaneamente em vários países.

Publicada originalmente em 2015 na Espanha, inaugurando a Biblioteca César Aira da Random House, O santo é uma das suas últimas grandes novelinhas (ou novelitas, nome que ele dá aos seus relatos, seja qual for a extensão). Espécie de relato bizantino, tal como os presentes na primeira parte do Quixote, O santo é uma eletrizante fábula medieval ou, ainda, como diz o narrador, uma dessas “histórias legendárias do cristianismo primitivo, em que os fatos se sucediam a toda velocidade, tanta quanto se demorava para contá-los”. Nesta novelinha um velho padre milagreiro decide abandonar a Catalunha para ir passar seus últimos dias no pequeno povoado italiano onde nasceu. O todo-poderoso abade, a quem comunica sua decisão, entra em pânico pelos danos econômicos que a ausência do santo provocaria ao mosteiro e à comunidade, locais para os quais a fama de milagreiro atraía fieis dos quatro cantos do mundo. Desse modo, sua última viagem acabaria com a indústria do turismo local imediata e futura, toda ela assentada nessa fama comprovada de realizador cotidiano do impossível, justificada no momento na sua presença viva, e no porvir através das suas relíquias, e também em nome dos fartos rendimentos do mosteiro. Numa reviravolta pouco ortodoxa e diante das súplicas da comunidade e os interesses das autoridades eclesiais, nenhuma delas atendidas pelo velhinho, é acionado o último e definitivo recurso: contratar um assassino profissional, de nome lendário, Cobalto, para acabar com a vida do Santo, recuperar seu corpo do anseio egoísta e assim garantir a continuidade das atividades econômicas de todo o povo em nome de alguns.

Mas eis que o Santo, naquela noite, pula da cama e sem razão aparente sai ejetado pela janela do seu quarto. Aí é que começa a sua aventura mediterrânea e africana, aventura imensa com peripécias e anedotas sem fim que, embora pareçam transcorrer num tempo prolongado, se sucedem em poucos dias, uma semana e um dia, tendo o Santo uma dose extra vital, rejuvenescendo e entrando em vários outros mundos. As páginas do livro voam e os dias do Santo se comprimem em mil e uma experiências. Fugindo da morte, o Santo encontra a vida, o erotismo, a crueldade e os começos mí(s)ticos da economia. Como um recém-chegado ao mundo, como um descobridor em terras alheias, o Santo tenta enxergar essas novas realidades que mal tem tempo de assimilar, nunca chegando a uma compreensão total, descansando na melancolia e na reflexão incessante. De escravo numa galera grega passa a ser um servo inútil, um estranho puxador de conversa e mais um conselheiro de Abdul Malik, um poderoso guerreiro abissínio. Enviado por este a pesquisar novos mercados no deserto, eufemismo para se desfazer dele, o Santo ganha mais uma dobra na sua vida: torna-se amante da sensual e trágica rainha Poliana. Suspendendo ou apagando a identidade de velhinho milagreiro, sua vida adquire outras dimensões, primeiro enquanto força de trabalho e valor de venda, depois como corpo erotizado em procura constante de intensidades e prazeres, vivendo profundamente sua primeira história de amor como “uma interrupção dos trabalhos e sobressaltos da existência”. A saída do claustro rejuvenesce o Santo, cuja vida sedentária tinha apagado a potência vital e o aproximava do fim dos seus dias, sem outra coisa para fazer senão milagres, e opera nele não só uma mas várias transformações que são, no abismo católico, transfigurações. Como sugere a capa da edição da Rocco, trocando a poupança desta vida em favor da glória no além pelo gasto sem concessões, o dispêndio, o Santo – que nunca deixa de ser santo, porque a santidade cobriu seu nome e o definiu e renomeou de vez – passa de uma forma da santidade a outra, o erotismo, e Aira, com ele, consegue responder a uma incômoda colocação: uma leitora comentou que não havia, na centena das suas novelinhas, nenhuma pegada de sexo explícito. Claro que é um exagero, não porque não haja nenhuma manifestação dos gozos carnais senão porque ninguém, salvo Ricardo Strafacce (autor de César Aira, un catálogo), leu todos os livros de Aira.

O Santo de Aira tem, pelo menos, dois antepassados no próprio corpus: o padre de O batismo, que também sobrevive a uma tempestade e é profundamente acordado eroticamente pelo corpo de um efebo peronista, e o padre Tomás, protagonista de “A Igreja”, que abre as Três lendas pringlenses (Cultura e Barbárie). Podemos pensar, também, que o fundo africano da história vem de um autor muito lido e comentado por Aira, Raymond Roussel, e suas Nouvelles impressions d’Afrique, no entanto num tom mais melancólico. Todos esses relatos (incluindo as impressões de Roussel) se aproximam daquilo que podemos pensar como uma das matrizes aireanas: o método ou o desejo de sobrevivência. É a sobrevivência o começo ou o fundamento de todas essas novelinhas. E é a sobrevivência, aliás, o motor da outra das traduções brasileiras recentes de César Aira, Dante e Reina.

Datada de 1996, com duas edições bem diferentes na Argentina (a primeira em pequeno formato e capa de Miró, a segunda com ilustrações de Max Cachimba em diálogo com o texto), Dante e Reina é uma fábula pós-apocalíptica e surreal da união impossível e impensável entre uma mosca e um cachorro em algum lugar da periferia da Capital Federal argentina. Como em O Santo, a sobrevivência é o começo do jogo infinito das transfigurações, transformações e / ou mutações: dos corpos, da arte, da política… Como em O Santo, o erotismo perpassa todo o relato e ainda mais: a sobrevivência começa na salvação de um estupro, o qual é narrado de forma violentamente cubista e cuja confusão esconde uma virada fundamental para o relato. Essa salvação dará origem ao casal Reina, a mosca-cadeirante, e Dante Latido, o cachorro-artista, e a confusão se mistura, ao mesmo tempo, com a militância no peronismo e no anti-peronismo, alternativamente e sem distinções, e na enunciação de vários princípios artísticos, dispara(ta)dos através de revistas literárias e palavras de ordem. Tudo isso tem como cenário, e não podia ser de outra forma, aterros sanitários, espaços podres e pós-atômicos, alheios à romantização da ruína. É nessa novelinha que os procedimentos experimentais de Aira alcançaram seu ápice, com palavras-valises várias e lindíssimas associações impossíveis, num ritmo próprio do free-jazz. Na brevidade, se condensou o seu delírio imaginativo como parte de uma poética vanguardista, por vezes enunciada pela boca do artista cachorro. É um relato extremo, poucas vezes praticado desse modo por Aira. Nada fica em pé: nem gênero, espécie ou sexo, nem relato, estrutura ou linearidade, não há nenhuma moral e os cimentos da fábula são destruídos. O final é um grande final, apoteótico, onde as diferentes pontas do relato parecem se fechar e até a Argentina se encaminhar para a recuperação de seu destino perdido, a partir do sucesso de um estranho empreendimento financeiro, a distribuição de folhetos de fax na rua, que logo viraria uma atração turística darwiniana… Por fim, o verdadeiro amor se realizaria na estória de Dante e Reina, o amor das reencarnações.

Isto posto, digamos que o ano infernal de 2019 e este pandêmico de 2020 tiveram algumas frestas abertas para a imaginação e a risada solta através das aparições salvadoras-violadoras e das transfigurações vertiginosas dos ensaios e novelinhas aireanas. Pouco a pouco, sua obra vai ganhando novos leitores no Brasil e vencendo uma ignorância que nunca foi desdenhosa com ele.

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Foto by Juan Manuel Prats

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Publicações de César Aira citadas no texto:

O ensaio e seu tema (revista Serrote, 2019), trad. Paulina Wacht e Ari Roitman.
O ensaio e seu tema (revista Landa, 2018, on-line), trad. Joca Wolff.
O santo (Rocco, 2019), trad. JW.
Dalí (revista Landa-UFSC, 2019, on-line), trad. JW.
Picasso (Cultura & Barbárie, 2018), trad. JW.
Sobre a Arte Contemporânea (Zazie Edições, 2018), trad. Victor da Rosa.
Dante e Reina (Micronotas, 2020), trad. JW.
Dante e Reina (Mate Ediciones, 1997).
Dante e Reina (Mansalva, 2009), ilustrações de Max Cachimba.
“Desdenhosa ignorância da literatura do Brasil” (Suplemento Pernambuco, 2020, on-line), trad. e nota final JW.
“Raymond Roussel: a chave unificada” (revista Landa, 2020), trad. Byron Vélez Escallón e JW.
Pinceladas musicais (Cultura e Barbárie, 2020), trad. JW.
El bautismo (Grupo Editor Latinoamericano, 1991).
“A Igreja” em Três Lendas Pringlenses (Cultura e Barbárie, 2016), trad. Fernando Scheibe, Joaquín Correa, Byron Vélez Escallón e JW.

Publicações sobre César Aira citadas no texto:

César Aira, um catálogo, Ricardo Strafacce (Mansalva, 2018).
O Congresso de Literatura. Ensaios sobre César Aira (Zazie Edições, 2019), e-book organizado por Laura Erber e Victor da Rosa, com ensaios de Sandra Contreras, Raul Antelo, Karl Erik Schollhammer e Victor da Rosa.

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Joaquín Correa é poeta e tradutor. Traduziu para o espanhol Vida de Paulo Leminski e Post-Scriptum sobre la sociedad de control de Gilles Deleuze, e co-traduziu para o português Três histórias pringlensesEm Havana de César Aira, Fotografias imaginárias com neve de verdade de Arturo Carrera, e $uporte. O uso do dinheiro como material nas artes visuais de Hernán Borisonik.


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