Cartas a um velho poeta


Sem dúvida [a situação] está abaixo do nível da história, abaixo de toda a crítica: não obstante, continua a ser um objeto da crítica (…). A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas. A teoria se apodera das massas quando demonstra ‘ad hominem’, e demonstra ‘ad hominem’ tão logo se torna radical. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem. (MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Boitempo, São Paulo, 2013, p. 153-157).

 

 

  1. A ARMA DA CRÍTICA E A CRÍTICA DA ARMA

Seria subestimar o interlocutor começar a réplica recordando o velho ditado, que ele aprendeu de cor e salteado desde a primeira vez que foi à lousa: “escreveu, não leu, o pau comeu”. Mas este também, infelizmente, seguindo a trágica sina paradoxal dos provérbios, de tão lembrado, acaba esquecido: parafraseando outra máxima, vão-se os sentidos, ficam os ditos. Como diria Barthes (que sofria “desta doença de ver a linguagem”), as ideias, de tão repetidas, adquirem estado de sólido, virando estereótipos: a circulação excessiva, a reiteração vulgar dos enunciados, é redundante dizer-lhe, cristaliza e esteriliza o significado, restando na boca tão somente o insignificante gosto residual do insosso significante (ah, Saussure!). Se não é demais a paráfrase da paráfrase, nesta era em que já era (minúsculas sobre minúsculas na fábula rasa do mesmo em dízima dizimada), eis a indigesta questão: vai-se a carne, fica o osso.

Meu instruído interlocutor, poeta e tradutor, editor e polemista, polígrafo e poliglota, intelectual tão versátil, versado nas “artes e artimanhas”, certamente conhece à exaustão o dito e redito – revisto e amplificado – na voz proverbial de Breton: “Un mot et tout est sauvé; un mot et tout est perdu”. Não seria preciso recordar-lhe, pois, a “estranha potência” das palavras, a cuja porta “todo o sentido da vida principia”, que são “sonho e audácia”, “calúnia, fúria, derrota”: um homem das letras, afinal, sabe muito bem que “a liberdade das almas com letras se elabora”, e que, “dos venenos humanos”, são “a mais fina retorta”, “frágil como o vidro e mais que o aço poderosa”. Fosse menos culto, conviria explicitar que a voz entre aspas é de Cecília Meireles; fosse menos inteligente, valeria explicar a relação entre os versos do Romanceiro da Inconfidência e os trechos da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel; não fosse hábil o leitor, seria necessário esclarecer, inclusive, a óbvia alusão do subtítulo à epígrafe.

Meu arguto interlocutor, fazendo jus ao adjetivo panóptico, lê com cem olhos: vê à direita e à esquerda, enxerga à frente e atrás, olha de cima para baixo e vice-versa. Homem da palavra, forjado na fonte primeva, sabe muito bem que Homero cantou Ulisses maior do que Aquiles não só porque o “polítropo” (para inveja de Ájax) herdou do “velocípede” a crítica das armas, mas porque o “Arrasa-Cidades” portava também as armas da crítica: não se faz uma Odisseia, afinal de contas, sem armas na boca e nas mãos. Se não me dirigisse a tão culto, inteligente e hábil leitor, esta digressão pareceria grego: ou alemão, se dissesse a outro que a alusão aqui é uma síntese dialética dos sentidos literal e figurado, traduzida estilisticamente na “troca de armas” do trocadilho do subtítulo. Aliás, lembraria a ele (como se pudesse ter esquecido o que jamais soube) que o velho Marx – que amava os “quiasmos”, não poupava “raios” aos adversários e era confundido pelos cegos com Zeus – não à toa tinha um busto do “Porta-Escudo” na escrivaninha. Incapaz de compreender a moral da história, enfim, seria necessário explicar-lhe que os “mortais” são alçados a “semideuses” – o “super-homem” de Nietzsche – quando parecem entender melhor os dois lados da lâmina: ou seja, que quando a palavra se mostra “frágil como o vidro”, não podendo mais ser “mais que o aço poderosa”, quem decide a luta não são as armas da crítica; à crítica das armas – paradoxo trágico – é que cabe a palavra final.

Felizmente, não sendo nada despreparado o interlocutor, posso arrematar no trocadilho, lembrando-lhe que Freud também explica: nem sempre uma palavra é uma arma; às vezes, uma arma é uma arma. Aliás, se o poeta leu o épico Cidade de Deus, de Paulo Lins, virá à sua memória – entre tantas trocas de tiros – este trocadilho “concreto” certeiro: “Falha a fala, fala a bala”. Quando Marx disse que o poder material só pode ser derrubado pelo poder material, enfim, o bardo prussiano se referia – a despeito das diferenças contextuais – à óbvia constatação de que a palavra é impotente diante do cano do fuzil. A propósito, a barbárie dos regimes totalitários do entreguerras – nunca é demais sublinhar – escreveu com rios de sangue essa verdade histórica: as armas do fascismo, do nazismo e do franquismo silenciaram toda crítica, calando à bala qualquer oposição. O discurso monológico não tolera a liberdade de expressão porque não aceita nenhuma réplica: a verdade narcísica é uma via de mão única; a primeira e a última palavra é sempre a do ditador.

Parece redundante dizer-lhe isso tudo, já que o prezado interlocutor conhece muito bem a tragédia histórica, sabe de trás para frente o “triste fim” das armas da crítica: desde a brutalidade que deu origem à série, em 1921, quando, para “comemorar” o Primeiro de Maio, os “camisas negras” da organização miliciana Fasci Italiani di Combattimento empastelaram jornais, destruíram gráficas, queimaram editoras, incendiaram bibliotecas, bombardearam teatros, demoliram centros culturais… Um homem de letras, ávido leitor e prolífico escritor, certamente não olvidaria jamais, é claro, aquele fatídico dia 10 de maio de 1933, quando cerca de 20.000 livros arderam na fogueira inquisitorial armada na Praça da Ópera de Berlim: na fatídica data, o fogo da intolerância miliciana dos “camisas marrons” do Partido Nacional-Socialista consumiu, entre milhares de páginas clássicas, obras de Thomas Mann, Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Sigmund Freud, Albert Einstein e – obviamente – de Karl Marx. É sintomático, aliás, lembrar também ao poeta o aforismático diagnóstico profético do poeta Heinrich Heine – que também foi incinerado na fanática fornalha do Füher – sobre a fúria assassina dos “zumbinazis” patriotários contra todos os mortos e vivos escritos críticos: “Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas”.

Quando Marx – que era amigo de Heine – disse que a situação alemã estava abaixo da crítica, não poderia supor que os seus livros – e os de Heinrich – seriam queimados juntos, junto com os seus leitores (e os de Mann, Benjamin, Brecht, Freud e Einstein). Quando Heine – que era amigo de Marx – disse que os que queimam livros também queimam pessoas, não poderia supor que os seus leitores – e os de Karl – seriam cremados juntos, junto com os seus livros. O poeta Blake – que não era alemão e morreu quando Marx tinha nove anos – sopra um “provérbio do inferno” para não esquecer que o que diziam delírio distópico é pesadelo real: “O que hoje é evidência, outrora foi imaginação”. Meu ilustrado interlocutor certamente sabe que isso tem tudo a ver, evidentemente, com a obra que Ray Bradbury escreveu em 1953, noventa e sete anos depois da morte de Heine e vinte anos após a fogueira da Inquisição Nacional-Socialista, como prova de que a realidade supera a ficção. Em Fahrenheit 451, temperatura em que o papel incendeia, a função dos bombeiros era incinerar livros, que jamais leram porque ler era proibido: “É um trabalho ótimo. Segunda-feira, Millay; quarta-feira, Whitman; sexta-feira, Faulkner. Reduza os livros a cinzas e, depois, queime as cinzas. Este é o nosso slogan oficial”. (BRADBURY, Ray, Fahrenheit 451. São Paulo: Globo, 2009, p. 21).

Os autômatos de Bradbury agiam exatamente como os bombeiros e os policiais nazistas na Praça da Ópera em 1933, que reduziram a cinzas A Montanha Mágica, carbonizaram O Narrador, condenaram à morte Galileu Galilei, fazendo A interpretação dos sonhos virar pesadelo e a Teoria da Relatividade ir para o espaço. Aliás, em Fahrenheit 451 (obra transposta para as telas por François Truffaut, em 1967), há uma cena que não me sai da cabeça, quando o chefe “nazi” dos bombeiros, Mildred, brindou com os subordinados um “grande dia” de trabalho: “Nós queimamos uma velha junto com os livros dela (…). Nós queimamos uns mil livros. Queimamos uma mulher (…). Queimamos livros de Dante, de Swift, de Marco Aurélio”. (BRADBURY, Ray, “Fahrenheit 451”. São Paulo: Globo, 2009, p. 77). Creio que o prezado poeta, homem da cultura, deva ter recordado uma polêmica performance de Fernanda Montenegro em 2019, incorporando uma “bruxa” amarrada em uma fogueira de livros, imagem de grande força simbólica neste quadro reacionário, em que o Index neofascista persegue livros sob a acusação de serem “veículos de doutrinação marxista”. A atriz foi violentamente atacada pelo então diretor da Funarte Roberto Alvim, que Bolsonazi nomeou secretário da Cultura: o mesmo canalha olavista que a xingou de “sórdida” e a acusou de “mentirosa” é o que fez um pronunciamento plagiando o ministro da Propaganda do III Reich, Joseph Goebbels.

Não seria preciso refrescar a boa memória de meu “memorioso” interlocutor com a lembrança de que foi o teatral tirano (cuja tese de doutorado, sintomaticamente, foi sobre um obscuro dramaturgo romântico alemão do século XIX) o organizador da aterrorizante marcha de 60 mil bárbaros da SS e da SA empunhando tochas em Berlim, naquela fatídica noite de 30 de janeiro de 1933 em que celebraram a nomeação de Hitler como chanceler. Quem estudou história sabe que o ardiloso propagandista foi – veja só que coincidência! – mestre maior na arte ilusionista das fake news, usando como sórdida “arma da crítica” a calúnia, a difamação e a injúria contra judeus e comunistas (o fúnebre Füher, aliás, repetia com fúria higienista que o comunismo era uma “doença” dos judeus). Devo supor que o sábio polemista, pois, saiba como morreu o “herói nazista” Horst Wessel, líder da horda paramilitar SA, e qual foi a versão “oficial” forjada por Goebbels. Não é novidade que os milicianos costumavam se reunir no submundo berlinense, mantendo relações promíscuas com bandos criminosos: Wessel foi morto a tiros numa briga com bandidos no baixo meretrício. O maquiavélico ministro aproveitando cinicamente a situação, fabricou a narrativa mais conveniente ao teatro político nazista, distorcendo despudoradamente os fatos: no papel de “vítima” da suposta guerra patriótica, convertido em “mártir”, o lúmpen fardado Wessel; no papel de frio assassino, demonizado como “vilão” antipatriótico, o “comunista sub-humano” (na novilíngua do perverso “diretor” do grotesco teatro nazista).

O polemista polígrafo e poliglota há de ponderar (não poderia pedir perdão pela língua do “pê” de “protesto”, nem pelo anagrama verde/verdade das palavras “podres poderes”) que a situação aqui “sem dúvida está [bem] abaixo do nível da história, abaixo de toda a crítica”. Não é preciso o menor esforço intelectual para enxergar que as semelhanças entre lá e cá não são meras coincidências, como evidenciou a bizarra marcha do grupo de extrema direita 300 do Brasil em direção ao STF, em 30 de maio de 2020. Em afronta flagrante aos princípios democráticos do Estado de Direito, a horda protestava contra o inquérito das fake news (que “coincidência”, né?), exigindo o fechamento da Corte Suprema e do Congresso Nacional, carregando as mesmas ameaçadoras tochas nazistas e usando máscaras brancas como a Ku Klux Klan (organização paramilitar supremacista surgida em 1866 no sul do EUA, responsável por perseguições, torturas e assassinatos de negros e ativistas dos direitos civis). O poeta sabe que a líder dos milicianos e “soldado” de Bolsonaro (como ela mesma se definiu em rede nacional), Sara Giromini, adotou o sobrenome de guerra “Winter” em homenagem à espiã nazista que integrava a União Britânica de Fascistas (a original morreu em 1944). A versão tropical farsesca – que se exibe nas redes sociais com armas nas duas patas prepotentes – ostentava até uma tatuagem no peito (sem coração) com a pesada Cruz de Ferro, indecorosa condecoração militar que decorava as fardas dos despeitados criminosos alemães.

A propósito, por falar nessas sinistras semelhanças, que não se confundem com meras coincidências, não é demais recordar também ao ilustrado crítico a genealogia nazista do slogan bolsonarista “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”: uma das frases repetidas como mantra pelos hipnotizados fiéis do delirante “mito” Adolf Hitler era Deutschland über alles, que significa – veja só que coincidência – “Alemanha acima de tudo” (o bordão fazia parte do hino nacional alemão, eliminado após a queda do III Reich). Aliás, há que se registrar que o outro “mito” do “mito” – “mito” do “mito” germânico também – é o maldito Mussolini (a aliteração é só para marcar a memória do mórbido “m” de “morte” que atravessa essa/esta história). Dos “camisas marrons” aos “camisas negras”, enfim, lembremos a máxima do Duce citada no vídeo do medíocre ex-milico aos fanáticos “camisas verde-amarelas” (os tais “suicidadãos patriotários”, no Metaléxico de José Paulo Paes): “Melhor viver um ano como leão que cem anos como cordeiro”. Para não esquecer que “escreveu, não leu, o pau comeu”, retifique-se que, na versão original da fábula fascista, o papel de presa indefesa era representado pela “ovelha”: ato falho sintomático da barbárie acrítica destes contratempos indigestos, trocando palavras e tropeçando em fábulas, o perverso “lobolsonaro” nem se disfarça em pele de cordeiro…

O “humano, demasiado humano” poeta evidentemente conhece bem a reedição farsesca da tragédia medieval, o remake inquisitorial da “idade das trevas” do entreguerras, quando a situação já estava bem “abaixo do nível da história, abaixo de toda a crítica”: a memória das cruzadas contra os “impuros” e o pesadelo pandêmico da devastadora “peste negra”, condensada na perversa iconografia da fábula rasa nazista que transformou os judeus em ratos. Estamos falando, obviamente, das armas da crítica, do discurso bombardeado pelo aparato ideológico para legitimar o recurso do aparato repressivo à crítica das armas: a “zoomorfização” é um expediente retórico que atende à lógica da caçada e extermínio dos inimigos. Para que a analogia não soe despropositada, convém lembrar que a primeira medida do xerife Jair foi o corte de quase 4000 servidores públicos, assim justificada pelo então ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, escancarando o caráter de perseguição política e ideológica das “saneadoras” demissões sumárias: “Sobre o episódio da exoneração, a gente brincou em ‘despetização’, o presidente gostou do exemplo, e todos os ministros estão autorizados a, dentro das suas pastas, proceder de maneira semelhante e ajustada a cada uma das pastas (…). Esse conceito que temos de rever está perpassando todo o governo, até para desaparelhar e permitir que o governo possa executar suas políticas”.

Não é preciso dizer-lhe que “o presidente gostou do exemplo” porque faz parte do seu projeto neofascista de “faxina”, em que a “sujeira” a ser varrida e jogada “no lixo” da história são as organizações de esquerda (as aspas são do discurso higienista dele). Apesar de não saber que “despetização” é um neologismo “saneador”, nem que é um trocadilho “zoomórfico”, o déspota não esclarecido entendeu bem a imoral da história contada por Onyx: a “dedetização” é uma medida necessária para o extermínio dos “ratos vermelhos”. É evidente que não só os comunistas são alvos do tiroteio verborrágico preconceituoso do ex-capitão miliciano, mas também os povos indígenas (termo que o beócio Weintraub disse odiar), a comunidade LGBT, as mulheres e os negros. Quanto aos índios, por exemplo, lembremos que o néscio presidente – numa audiência na Câmara, quando ainda era deputado – os chamou de “fedorentos” e “não educados”, declarando que “deviam comer capim para voltar às origens”. Depois que a cavalgadura subiu a rampa do Planalto, intensificou a investida contra os direitos dos povos originários: “Qual poder eles têm para demarcar uma terra deste tamanho?”. Os escusos interesses do capital em roubar as riquezas dessas terras, destruindo o ecossistema, orientam sua predatória “necropolítica”: “Esses territórios que estão nas mãos dos índios, mais de 90% nem sabem o que tem lá (…), a terra é riquíssima. Por que não legalizaram indígena em cima de terra pobre?”. Destilando preconceito, espalhando calúnias e injúrias, acusou as ONGs de defenderem a demarcação para manter os índios “presos num zoológico ANIMAL” (grifo nosso).

Para recordar ao interlocutor as “arminhas” da intolerância bolsonazista apontadas para os alvos negros (trocadilho paradoxalmente sintomático), começo pela indigesta entrevista que o tosco ex-milico deu ao programa CQC, em 2011. Ao ser questionado por Preta Gil sobre como reagiria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra, o “capitão do mato” vociferou com a habitual truculência que não estava ali para discutir “promiscuidade”, acrescentando a abjeta ressalva de que não corria “esse risco porque seus filhos foram muito bem-educados”. Em 2017, em palestra no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, o deplorável racista fez, às gargalhadas, este criminoso comentário sarcástico à plateia cúmplice (silêncio imperdoável dos judeus presentes): “Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gastado com eles”. Representando a caricatura anacrônica de um coronel escravocrata do século XIX, enfim, o arrogante tirano canastrão que se julga acima de tudo e de todos vem ofendendo reiteradamente a dignidade dos negros, humilhando-os – com a conivência da Justiça, de olhos sempre vendados e balança descalibrada – como “seres inferiores”, “animais”, “peças” descartáveis no mercado. Sublinhe-se o agravante do quadro regressivo, sintoma da barbárie “civilizatória” verde-amarela: esse tiroteio verbal saiu da “arminha” de chumbo grosso do presidente do último país a abolir a escravidão, onde cerca de 70% dos presos e 75% dos mortos pelo aparato repressivo do Estado são negros.

Creio que o prezado polemista não há de discordar de que tudo isso pareceria anacronismo histórico ou delírio distópico, fruto insano de um cérebro esclerosado ou de uma mente fantasiosa, se a realidade não insistisse tanto que superasse a lenda (invertendo a irônica sacada aforismática da arma cinematográfica de John Ford, o remake farsesco a que a impávida plateia assiste, de olhos bem fechados, é O facínora que matou o homem). Quando a situação “sem dúvida está [bem] abaixo do nível da história, abaixo de toda crítica”, não é novidade que os críticos críticos (porque também há – aliás, dominantemente – os “acríticos”) são obrigados a voltar as armas para os espectros fantasmáticos do passado presente, alvejando de novo velhos mortos-vivos jamais enterrados. Não sei se o prezado interlocutor é devoto de Millôr, enfim, rezando entre risos sarcásticos da “divina comédia” burlesca revista e plagiada, desde a “primeira missa” no inferno tropical, nas páginas autocríticas da Bíblia do Caos tupiniquim; mas o fato é que não precisaria lhe confessar – a esta altura (ou baixeza) do jogo (sujo) – que não haveria de não comungar das sábias palavras do humorista (sem vocação para santo do pau oco): “No momento em que aumentam as nossas descobertas arqueológicas fica evidente que o Brasil tem um enorme passado pela frente. Ou um enorme futuro por detrás, se preferem.” (FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos‎. Porto Alegre: L&PM Editores, 1994, p. 30).

O arguto leitor, obviamente, sabendo bem as diferenças entre os eixos das ordenadas e abscissas conservadoras, conhecendo à exaustão as distâncias entre os paralelos e os meridianos reacionários, não poderia não saber se localizar criticamente no mapa político autoritário – de cima para baixo, de frente para trás – mesmo sem as coordenadas certeiras das (contra)mãos duplas de Marx e Millôr. Se fosse preciso explicar-lhe a dinâmica regressiva, seria melhor desenhar: se fosse uma paródia de um filme B em reprise nesta “recessão da tarde”, o título seria De volta para o passado. Começando de frente para trás, mas um pouco atrás deste presente atrasado (que sempre vale a pena ver de novo para que a tragédia não se repita como farsa), teria de lhe mostrar o amarelado “retrato do Brasil” pintado de verde na “câmara escura” do vice-presidente Mourão: na perspectiva invertida do general, que tem os olhos na nuca, o problema estrutural da “República dos Bananas” é – veja só que coincidência – a “indolência dos indígenas” e a “malandragem dos negros”. Na campanha eleitoral, em 6 de outubro de 2018, o milico fez outro repugnante comentário preconceituoso (como se não fosse possível rebaixar o nível da crítica), vangloriando-se de seu neto ser um “cara bonito” graças (!) à ação política de “branqueamento da raça”.

Não seria necessário explicar ao tão culto poeta que essa concepção eugenista remonta às teorias em voga no longo bonapartismo de Vargas, cuja base de apoio – veja só que coincidência – eram as milícias integralistas de Plínio Salgado. Para ilustrar, fornecendo mais alguns elementos “objetivos” para armar bem a crítica, destaco também estes trechos do ensaio Intelectuais e militares brasileiros: a construção do Estado autoritário e do pensamento nacionalista (1930-1945), do historiador Fernando Silva Rodrigues (a propósito, ressalte-se que o pesquisador da Escola Superior de Guerra não haveria de ser, obviamente, um agente infiltrado a serviço da “doutrinação ideológica” do “marxismo cultural”):

A forte miscigenação da população brasileira era considerada pela elite um obstáculo ao processo civilizador, ou mesmo uma vergonha frente às nações europeias, pois, de acordo com as teorias evolucionistas do século XIX, a ideia de civilização está vinculada à raça branca ou, pelo menos, à sua hegemonia sobre outras raças (…). O pensamento autoritário no Brasil teve na questão racial papel importante para sua consolidação. A influência das teorias racistas importadas via Gobineau, Lapouge e outros exerceram influência importante em vários intelectuais brasileiros, mas não podiam determinar apenas a separação de raças e a superioridade do homem branco. Para a realidade do Brasil, era necessário sustentar outro caminho para reorganizar a sociedade brasileira: o do embranquecimento da raça feito por meio da entrada de imigrantes brancos europeus e a proibição da entrada de novos contingentes de negros e asiáticos. Tanto Oliveira Viana quanto Azevedo Amaral deram ao fator racial papel relevante nas explicações sobre o Brasil. Oliveira Viana, desde os seus primeiros trabalhos, defendeu a necessidade do branqueamento do povo para torná-lo capaz de construir a nação. (In Militares e política no Brasil. Jefferson Rodrigues Barbosa et al. São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 320-321).

O arguto velho poeta há de convir que são tantas as semelhanças, que seria muita falta de visão vê-las (com o perdão do trocadilho no gatilho) como meras coincidências: diria Blake que seríamos tolos, se outros já não o fossem o bastante. O fato é que não faltam cegos ainda crendo que o governo Bolsonazi não seja racista, apesar de tantas provas incriminadoras. Fosse um dos néscios meu interlocutor, teria de lhe recordar que o primeiro ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que é professor emérito (em minúsculo) da Escola de Comando e Estado-maior do Exército, defendeu tese de doutorado exatamente sobre o sórdido pensador eugenista, intitulada Oliveira Viana e o Papel Modernizador do Estado Brasileiro. Não falasse com um sábio homem das letras, o “princípio da cooperação” da linguagem (como ensina a pragmática linguística de Grice) me obrigaria a dar mais informações (como diz a “máxima [conversacional] de quantidade”): o desnível de conhecimento, como bem sabemos, provoca ruídos de comunicação que inviabilizam o diálogo. Fosse endereçada a um ignaro esta carta, enfim, deveria esclarecer o que a um leitor esclarecido – com o perdão da redundância – seria redundante: o tal Oliveira Viana, enaltecido pelo ministro colombiano bolsonazista, era devoto do Conde Arthur Joseph de Gobineau (o “pai das teorias racistas modernas”), que era idolatrado por Stewart Chamberlain (o “antropófago do Kaiser”), que era exaltado por Joseph Goebbels (o propagandista do Füher), que foi plagiado por Roberto Alvim (o primeiro patético “ex-secrotário” da Cultura da “quadrilha” bolsonazista), que já tinha entrado nesta história trágica – que se repete como farsa grotesca abaixo da linha do Equador e da crítica.

Evidentemente, seria necessário esclarecer – tanto a um incipiente quanto a um insipiente leitor (entre o “c” e o “s” há mais mistérios do que supõe a vã ignorância homonímica) – que Gobineau pesquisou a árvore genealógica da sua família para tentar dar estatuto “científico” à suposta superioridade da própria “raça”. Concluindo que o homem branco “é a expressão da razão e da honestidade” (nos termos do psicólogo social Otto Klineberg, da Universidade de Columbia), o execrável racista-mor, patriarca da abjeta teoria eugenista, foi quem primeiro “pregou a superioridade da raça branca sobre as demais e a dos arianos sobre todos os brancos”, fazendo “Escola Sem Partido” – e (de)formando obscuros epígonos – desde o século XIX. Aliás, depois dele, De Lapouge – o pensador que pensou poder definir o “ser pensante” pelo formato da cabeça (método da “ciência ariana” nazista) – tentou provar que os “dolicocéfalos” (com crânios mais alongados) seriam superiores aos “braquicéfalos” (com crânios mais arredondados). Imagine só ter que explicar por que a sua obra “A seleção social” – apropriação indébita da teoria darwinista – já estava bem abaixo da crítica no longínquo ano de 1896, quando o cego seguidor do ciclópico “mito” Gobineau apresentou como uma das improváveis provas da sua tese delirante da superioridade dos “cabeças alongadas” a absurda constatação (!) de haver supostamente muito mais crânios dolicocéfalos nos cemitérios das classes dominantes, em contraste com a esmagadora (ops!) maioria de braquicéfalos nas valas comuns das classes inferiores.

Examinando o clássico ensaio de Klineberg sobre a genealogia das teorias racistas, encontrei uma análise fundamental sobre o pensamento que orientou a propaganda pró-nórdica ou pró-ariana, em que o autor formulou, com muita propriedade, uma sistemática e dura crítica aos critérios “impressionistas” dos teóricos. Gostaria de compartilhar com o grande poeta especificamente estas sintomáticas caracterizações dos negros, reprovadas com veemência pelo psicólogo americano:

Os negros são descritos como imprevidentes, não dados a trabalho árduo no presente para prover o futuro, influenciados pelas impressões imediatas dos sentidos, vacilando entre uma risonha indiferença e uma depressão irremediável, pobres de imaginação e desprovidos de poder criador. Seus traços infantis são manifestos, particularmente sua crueldade e sua incapacidade de sentir com os outros. Sua notória falta de controle sexual se deve tanto à força excepcional do impulso, como à falta geral de poder de repressão, característica de sua infantilidade (…). Não raro se justificou a escravidão negra nos Estados Unidos pelas mesmas razões: os negros eram considerados uma espécie inferior e completamente diferente dos homens, e o tratamento humano ou humanitário se tornava mais ou menos dispensável no seu caso (…). A pigmentação apresenta um problema especial. Comumente se considera que a pigmentação escura do negro é um índice de seu maior primitivismo. O gorila é, como se sabe, preto (…). (KLINEBERG, Otto. As diferenças raciais. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966, p. 9-30-32).

A esta altura de tanta baixeza, cotejando a matriz do pensamento autoritário eugenista com as declarações de Bolsonazi sobre a “promiscuidade” dos negros e seu peso em “arrobas”, as de Mourão sobre as “virtudes” do “branqueamento racial” e as de Vélez celebrando o eugenista, bem como a marcha com tochas e máscaras da Ku Klux Klan dos 300 do Brasil, creio que o arguto interlocutor há de concordar que Marx só não estava completamente certo porque a nossa situação está ainda muitíssimo abaixo de qualquer possibilidade crítica. Sem querer abusar da presteza do supremo poeta em me conceder parte de seu precioso tempo para ler com atenção minha longa carta, gostaria de me aconselhar com o sábio homem das letras: diante da impotência das armas da crítica, resta algo a fazer senão lutar com todas as forças para derrubar este governo neofascista? A propósito, chega-me à memória um trecho do diário da atriz Ítala Nandi, relembrando a época em que o Teatro Oficina estava montando a peça Andorra (1961), de Max Frisch, na qual a personagem “Andri” – um não judeu – é classificado como judeu pelo Inspetor de Judeus e assassinado (a impassibilidade dos moradores judeus do vilarejo, que fingem não ter acontecido nada, é uma crítica impiedosa à neutralidade da Suíça na luta contra o nazismo na Segunda Guerra). Com a palavra, enfim, a memorialista da trágica “roda viva” dos anos de chumbo (a que os saudosistas bolzonazis querem voltar): “O ensaio de Sartre, ‘Reflexões sobre o racismo’, nos acompanhava para todo o lado. Uma frase de Frisch nos ajudava a compreender a situação daquele momento: ‘Quando se tem mais medo da mudança do que do fascismo, como é que se faz para evitar o fascismo?’ (…)”. (NANDI, Ítala. Teatro Oficina: onde a arte não dormia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p. 42).

Meu prezado polemista, depois desta breve odisseia histórica no inferno da estupidez, navegando em mares de intolerância dantes e depois navegados, a lapidar interrogação retórica de Ítala, com o sabor das grandes sínteses aforismáticas (“suprassúmulas” de saber, par etimológico de “sabor” – como nos sopra no surdo “olvido” Barthes), pontua o encerramento desta primeira “carta de achamento” dos graves problemas que continuam – desgraçadamente errantes – a ser “objeto da crítica” entre nós. Enquanto aguardo ansiosamente a iluminada e esclarecedora resposta do “oráculo das letras”, enfim, cuidarei de redigir uma cartinha (menos extensa, mais direta) para saber sua opinião sobre o polêmico post de um certo poeta – que, fosse tão sábio quanto supõe, não abriria a guarda para as porradas verbais dos adversários. Antes do ponto final, enfim, seria deselegância não lhe pedir desculpa, à boa maneira “moralista” de Pascal, por escrever “uma carta tão longa”: tivesse mais tempo, certamente seria mais breve – sobretudo interpelando a quem, sem tempo a perder/sem perder tempo, é tão curto e grosso no recado.

 

Cordiais saudações revolucionárias,

 

Paulo César de Carvalho
(Um leitor bem atento às entrelinhas, sempre armado da crítica contra os inimigos antidemocráticos, nas trincheiras do debate ideológico e político.)

 

 

2ª CARTA A UM VELHO POETA

A democracia atingiu o cúmulo do absurdo. Na época do desenvolvimento orgânico e metódico do capitalismo (…), a democracia desempenhou um grande papel histórico, inclusive o de educar o proletariado. (TROTSKY, Leon. Revolução e Contra-Revolução na Alemanha. Lisboa: CLB, s.d., p. 96).

A burguesia conduziu a sociedade à bancarrota. Não é capaz de assegurar ao povo nem o pão nem a paz. É precisamente por isso que não pode suportar a ordem democrática por muito mais tempo. É compelida a esmagar os operários com a ajuda da violência física (…). A função histórica do fascismo é esmagar a classe operária, destruir as suas organizações, sufocar a liberdade política, quando os capitalistas se sentem incapazes de dirigir e dominar com a ajuda da maquinaria democrática. (TROTSKI, Leon. Aonde vai a França? Brasília: Editora Kiron, 2012, p. 76).

 

  1. BREVE RETROSPECTIVA DA INTOLERÂNCIA PANDÊMICA TUPINIQUIM

Não há de ter sido em vão a pequena odisseia do emérito poeta e homérico leitor (o paradoxo é reflexo sintomático da tragicomédia intelectual destes contratempos pós-modernos, refratários à reflexão) por tantos mares de sangue, suor e lágrimas já dantes e depois bem navegados. Na longa “carta de achamento” dos pressupostos do debate, o roteiro foi cuidadosamente planejado, para que os olhos do sábio interlocutor viajassem mais uma vez pelas tenebrosas ondas históricas do pensamento autoritário, passando pelo obscuro “Estreito de Gobineau”, dobrando o tortuoso “Cabo das Tormentas de Goebbels”, atravessando os turbulentos ventos varguistas do “Triângulo de Azevedo Amaral, Francisco Campos e Oliveira Viana”, até atracar no extemporâneo porto inseguro espúrio da estúpida intolerância da “República dos Bananas” bolsonazistas. Não é preciso muito mais do que não ser beócio – que não consegue enxergar o óbvio – nem mal-intencionado – que finge não ver o evidente – para não negar que a situação no Brasil está – a olhos vistos bem abertos – bem “abaixo do nível da história, abaixo de toda a crítica”. No quadro de agravamento da crise econômica mundial, abaixo da linha de pobreza do Equador, a endêmica febre verde-amarela patriotária se tornou epidêmica: nas condições anormais de temperatura e pressão social, o delírio ufanista e a alucinação anticomunista se materializaram na hiperbólica imagem de “mito de circo” do ex-milico do baixo-clero, do falso “Messias” evanjegue dos jumentos, do ex-capitão escalado como salvador da “pátria de chuteiras” furadas.

Nas eleições presidenciais de 2018, três anos depois das marchas patriotárias dos hunos uniformizados de CBF e fantasiados com máscaras de Moro, a ignorância crédula escreveu na cédula – e não leu – o número 17 do tosco “Bolsomito” afastado do Exército pela autoria de um plano terrorista fracassado, do desprezível canastrão apelidado jocosamente de “bunda-suja” pelo alto oficialato. O “impávido colosso” da estupidez pôs no altar profano da “pátria armada” o caricato cara da “arminha” que defendeu, na tribuna da Câmara, o fuzilamento do então presidente FHC, em 1999, e conclamou a horda ao extermínio dos “malditos petralhas”, nas carreatas do ódio de 2018. A colossal ignorância dos indignados proletarizados elevou à rampa do Planalto o medíocre facínora que sempre fez descarada apologia da abjeta ditadura, reivindicando obscenamente a hedionda tortura como método investigativo, sob a insustentável gravidade do “arjumento” quadrúpede de que “o cara tem que ser arrebentado para abrir o bico”. A fé cega dos beócios bolsominions acreditou nas obscuras promessas do subalterno recalcado que sempre enalteceu os mais terríveis generais genocidas latino-americanos, como Médici, Pinochet e Stroessner. A obtusa inocência da “claque média” e miserável entregou a sorte ao azar nas mãos sujas do criminoso confesso que sempre defendeu, despudoradamente, o inconstitucional poder paralelo dos morros, fotografado em comprometedores abraços cúmplices com velhos compadres milicianos. O fanatismo dos néscios empobrecidos desesperados conduziu à Presidência da República o sórdido aprendiz de déspota que despertou a infame memória do famigerado AI-5, ameaçando de “arminha na mão” – reiterada e impunemente – as instituições (pseudo)democráticas da “República das Bananas” nanicas (com bananas de dinamite na outra mão e a ideia fixa de destruição na cabeça feita para segurar capacete – esse “cinema” não é novo).

Não faltam infaustos fatos, infelizmente, para provar e comprovar que a situação abaixo da linha do Equador está realmente bem abaixo de toda a crítica. O prezado poeta – sendo tão sábio, não teria o álibi dos tolos – não haveria de não concordar que as armas da crítica são impotentes contra o facínora psicopata que rogou praga para que a então “presidenta” Dilma Rousseff terminasse o segundo mandato “infartada ou com câncer, de qualquer maneira”, proclamando como “herói nacional” o primeiro torturador condenado pela justiça brasileira, o mesmo coronel Ustra do famigerado matadouro do DOI-Codi, exaltado com o monstruoso epíteto de “o pavor de Dilma”. Não há qualquer possibilidade de interlocução com o medíocre misógino que repetiu na Câmara dos Deputados, em 2014, a mesma ofensa imperdoável dirigida a uma adversária parlamentar onze anos antes: “Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir”. Não há conversa com o “macho de boteco” de cuja boca imunda saiu este outro grave, anacrônico e inadmissível vitupério falocêntrico: “Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade. Bonito pra c*, pra c*! Quem que vai pagar a conta? O empregador. No final, ele abate no INSS, mas quebrou o ritmo de trabalho. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano. Por isso que o cara paga menos para a mulher!”. Não há como suportar a criatura abjeta que fez esta grotesca propaganda de turismo sexual: “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. Não há como tolerar o fútil “falo” fardado que falou que “falhou” na quinta e última “cria”, “fracassando” ao fazer a única “filha”.

Acrescente-se à enorme ficha corrida do bronco neofascista que, além dos recorrentes e impunes ataques às mulheres (e aos povos indígenas e à comunidade negra, como revimos indignados na carta anterior), sob a perniciosa influência da sua “necropolítica”, vêm se multiplicando as perseguições, os espancamentos, os assassinatos de trans, travestis, drags, gays, lésbicas e bissexuais. Não é por infeliz coincidência, evidentemente, que a medieval cruzada evangélica contra a “heresia” da “ideologia de gênero” seja conduzida exatamente pela intrépida tropa de hunos do “Messias”: de bandeira homofóbica hasteada, com o “anti-kit gay” em uma mão e a “arminha” na outra, destilando inconcebíveis preconceitos e intolerâncias intoleráveis contra não heterossexuais. Não é novidade que o parvo patriarca da “familícia” vem alimentando sistemática e impunemente o ódio mortal à comunidade LGBT: “Nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay … Nós, brasileiros, não gostamos dos homossexuais”; “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”; “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”; “A maioria dos homossexuais é assassinada por seus respectivos cafetões, em áreas de prostituição e de consumo de drogas, inclusive em horários em que o cidadão de bem já está dormindo”. Nessa sucessão de disparates, não daria para esquecer que o ex-capitão terrorista teve ainda o descaramento de fazer a criminosa associação entre homossexualidade e pedofilia, bradando levianos impropérios caluniosos contra o reconhecimento da união estável de casais do mesmo sexo: “o próximo passo vai ser a adoção de crianças e a legalização da pedofilia”.

Nesta marcha para trás, certamente o prezado poeta poliglota não poderia fechar os olhos, é claro, para o que vem se repetindo impune e desastrosamente desde o início da devastadora pandemia do coronavírus: a começar pelo insólito dia 15 de março, quando o bronco participou, em Brasília, da escandalosa manifestação de extrema direita exigindo o fechamento do Congresso e do STF. Afrontando não só as instituições democráticas do Estado de Direito, mas também a expressa orientação da OMS, o ex-capitão terrorista praticou acintosamente duplo crime de “irresponsabilidade”: além de convocar a fanática horda verde-amarela às ruas para atacar o Legislativo e o Judiciário, atitude inadmissível sob quaisquer pretextos, o criminoso aspirante a Bonaparte ainda tocou a mão de apoiadores e posou para fotos abraçado com eles, mesmo sob suspeita de estar infectado. Em seu delírio febril de onipotência, com absoluto desprezo pela saúde “democrática” e pela vida alheia, o facínora cuspiu “bolsonavírus” nos microfones dos repórteres como se fosse imune a todas as críticas: “Se eu me contaminei, isso é responsabilidade minha, ninguém tem nada a ver com isso”.

Como se não bastasse, no dia 24 de março, em pronunciamento oficial nas rádios e tevês, o histriônico canastrão voltou a convocar a “nação” para descumprir as medidas preventivas de isolamento social não só recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, mas determinadas pelo próprio Ministério da Saúde. Minimizando em rede nacional a gravidade da Covid-19, o déspota beócio referiu-se eufemística e sarcasticamente à doença como “gripezinha” e “resfriadinho”, pressionando os prefeitos e governadores para descumprir as prescrições institucionais de “confinamento em massa”, autorizando a abertura imediata dos estabelecimentos comerciais. Lendo com dificuldade a mensagem no teleprompter (ou “teleponto”), entre espasmos verbais típicos de sua gagueira mental, o mau aluno quis ensinar a lição que jamais estudou (como o próprio “repetente” cansou de repetir, ele não entende nada de Economia): “Os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade”. Na lógica perversa do “Trump dos Trópicos”, os lucros dos patrões são muito mais importantes do que a vida dos trabalhadores.

Como diria o radiográfico Nelson Rodrigues, os canalhas não ruborizam porque não têm vergonha: as contrarreformas do Trabalho e da Previdência, evidentemente, serviram de pretexto para preservar os lucros exorbitantes da corja rentista no quadro da grave crise econômica mundial, à custa – como de praxe – do aumento da exploração dos trabalhadores. O agente da agiotagem internacional Paulo Guedes, que se formou na tradição usurpadora da Escola de Chicago (cujos economistas prestaram serviços sujos, entre tantos assassinos, ao ditador chileno genocida Pinochet) poderia ajudá-lo a explicar como seria possível “manter os empregos” de milhares de desempregados (como manter o que não têm?). Evidentemente, o cínico ministro dos banqueiros diria para o boneco de ventríloquo não dizer de modo tão explícito o que está tão na cara e os tolos não percebem: abstraindo-se os desempregados para o caixa fechar, os empregos que “devem ser mantidos” são os dos terceirizados, dos subempregados, dos “uberizados”. Bolsonazi também não poderia explicar, sozinho ou acompanhado, com que mágica “o sustento das famílias” de milhares de pobres e miseráveis poderia “ser preservado”. Na matemática larápia de Guedes & Cia, obviamente, abstraindo-se os dados do relatório internacional O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO): ou seja, omitindo-se que já no primeiro ano do seu desgoverno havia 5,2 milhões de pessoas passando fome no país (o equivalente – veja bem – a um Uruguai e meio de famélicos).

Na “novilíngua” do neofascista, à maneira distópica do romance 1984 de Orwell, a realidade é virada do avesso: “desemprego é emprego”, “fome é sustento”, “anormalidade é normalidade”. Nessa desordem semântica autoritária, em que “opressão é liberdade”, em que “ditadura é democracia”, em que insanidade é razão”, enfim, “coronavírus é resfriadinho”. Como seria de se esperar, portanto, na coletiva de imprensa da manhã seguinte – prova de que sempre dá para piorar o pior – o caricato capacho do Pato Donald Trump reafirmou enfaticamente a criminosa declaração, vociferando indignado aos jornalistas, com a arrogância dos estúpidos que se julgam intocáveis, acima de tudo e de todos: “O que estão fazendo no Brasil, alguns poucos governadores e alguns poucos prefeitos, é um crime. Eles tão arrebentando com o Brasil, estão destruindo empregos. Aqueles caras que falam: ‘A economia é menos importante que a vida’, cara pálida, não dissocie uma coisa de outra (…). Ontem, ouvi o relato do presidente dos Estados Unidos, está numa linha semelhante à minha e, pelo que tudo indica, ele vai abrir a partir de hoje, reabrir os postos de trabalho. Se nós colocarmos no nosso colo o problema do vírus (…), mas outros vírus mataram muito mais do que esse e não teve essa comoção toda, se ele não fizer isso lá e nós não fizermos isso aqui, será o caos”.

Um breve parêntese, caro poeta, para ver melhor os desvios hiperbólicos de sentido no espelho de circo do palhaço ególatra do Planalto: “alguns poucos”, na verdade, é muito mais do que “muitos outros”, porque “quase todos” os prefeitos e governadores discordam dele – não são “todos”, sejamos justos, já que “um ou outro” fiel evanjegue ainda insiste em ruminar com a besta. O delírio de grandeza do recalcado ex-capitão – que jamais será general, como sempre sonhou – salta aos olhos, atestando a sua patológica falta de noção das grandezas geopolíticas, de senso do seu ridículo provincianismo terceiro-mundista, de dimensão do seu vexatório grau de vassalagem ao Tio Sam. Na perspectiva invertida na “câmara obscura” do tresloucado jegue Jair, conforme suas próprias palavras balbuciantes entregam, é como se o despótico presidente norte-americano estivesse “correto” por adotar “uma linha semelhante” à sua, quando de fato foi o subdesenvolvido jumento que seguiu trotando submisso na trilha errada do tirano ianque que acabou conduzindo a “América” ao túmulo. Sob a lógica de viseira do asinino adestrado pelos EUA, continua valendo o aforismo do golpista Juracy Magalhães, chanceler de Castelo Branco em 1964: “o que é bom para os Estados Unidos é melhor para o Brasil” – ainda que o “bom” seja “ruim” e “melhor” seja o “pior”. Para o pior aluno do fundão, acostumado com o chapéu de burro e a fuça na parede, obviamente silogismo e sofisma são a mesma coisa: minto, logo “mito”. Abolindo a razão, pensando com a bolsa colostômica, para o ignaro groupie do “Tio Patinhas”, enfim, eis a bizarra conclusão: “se ele fez isso lá” e foi o caos, se “não fizermos isso aqui, será o caos”.

Pateticamente, o atento polemista não haveria de se esquecer, o fã incondicional foi desautorizado pelo ídolo norte-americano, que se viu obrigado a mudar de “linha” quando deu com os burros n’água: subestimando o poder devastador do coronavírus, a soberba do egocêntrico milionário alçou os Estados Unidos ao primeiro lugar nas estatísticas da pandemia. Ainda assim, inacreditavelmente, o “atleta” canastrão que faz flexão de braço com o pescoço continua insistindo em conduzir o Brasil na contramão do mundo, cavalgando obcecado e desgovernado rumo ao abismo. Como no grave caso clínico do ex-milico maníaco qualquer delírio pouco é bobagem, ainda restaria um único exemplo (a não ser seguido por ninguém) para que o desequilibrado pudesse reafirmar convicto que todos os demais líderes é que estão errados: “Ontem, ouvi o relato do presidente da Bielorrússia, está numa linha semelhante à minha”. Com o perdão da paródia, o absurdo seria mais cômico se não fosse tragicamente tão real: o fato é que depois de o presidente americano ter sido obrigado a recuar, diante dos ataques fulminantes do “inimigo invisível”, só restaria mesmo ao Bolsoasno a obscura e microscópica companhia da extrema direita bielorrussa – para juntos desafinarem o coro da OMS contra a pandemia.

Aliás, o respeitável homem das letras certamente há de concordar que a peça publicitária governamental O Brasil não pode parar, divulgada nas redes sociais em 26 de março, é prova inequívoca de que a realidade supera a mais improvável ficção. O slogan da campanha genocida patriotária tupiniquim tentou reproduzir, como farsa grotesca, a tragédia da versão original milanesa: não é por mera coincidência, é claro, que o vídeo da dantesca desgraça carcamana, exibido em 27 de fevereiro, tinha por mote Milão não para. O argumento do roteiro – não é novidade – é o mesmo: um vírus, tão minúsculo e insignificante, jamais teria força suficiente para frear as gigantescas e poderosas engrenagens econômicas. No “filme” italiano, entretanto, trinta dias depois de exortar o povo ao trabalho com o arrogante anúncio desdenhoso “não temos medo”, o prefeito da capital da Lombardia teve de vir a público para se desculpar pelo imperdoável erro fatal de subestimar o “inimigo invisível”: a região entraria para as estatísticas, em trágica ironia, como o principal foco de contágio e óbitos provocados pelo “inofensivo” coronavírus na Itália. Já no caso brasileiro, não restam dúvidas de que, se depender da irresponsável negligência do desgoverno Bolsonazi, o “efeito Orloff” das altas doses de estupidez provocará uma ressaca mortal no país. A surdez egocêntrica, desgraçadamente, não haveria mesmo de ouvir a profecia apocalíptica – dublada em duo com Trump – de Giuseppe Sala: “Eu sou você amanhã”.

Enfim, meu clarividente polemista, não bastasse a peça publicitária ter contrariado as recomendações categóricas da OMS e as necessárias medidas do Ministério da Saúde, ela foi realizada sem licitação e ao custo de 4,8 milhões aos cofres públicos (soma que deveria ter sido aplicada, obviamente, em campanhas preventivas da União). Vale deixar registrado que no dia seguinte à exibição, preocupado com os desdobramentos catastróficos da circulação da mensagem, o Ministério Público Federal se pronunciou, exigindo que a contrapropaganda fosse proibida: no dia 28, a Justiça Federal do Rio de Janeiro atendeu o pedido, sentenciando a interdição do vídeo. Inacreditavelmente, prezado poeta, menos de 24 horas depois, indiferente a tudo e a todos, o neofascista reincidente desdenhou provocativamente das autoridades, fazendo uma peregrinação profana por diversas localidades do Distrito Federal. No bairro do Sudoeste, por exemplo, provocou de cara a aglomeração que todos os órgãos de saúde consideram de alto risco; em seguida, sem manter a distância recomendada, foi ao lado dos fiéis a uma farmácia e entrou numa padaria, repetindo o sermão messiânico contra o isolamento social. No centro da Ceilândia, como se estivesse em aberta campanha eleitoral, conversou ao pé do ouvido com ambulantes, pregou a vendedores de churrasquinho, apertou mãos de tietes, tirou fotos com crianças e abraçou idosos (principal grupo de risco, vale sublinhar, agravando a já gravíssima irresponsabilidade delituosa do mafioso minúsculo “chefão” do Executivo).

Nesta altura – ou baixeza – dos acontecimentos, pois, seria muita ingenuidade, prezado polígrafo poliglota, acreditar que pudesse haver mesmo uma mínima preocupação deste desumano chefe da “familícia” com a vida humana. Afinal, como ele mesmo declarou na coletiva de imprensa do dia 25 de março, absolutamente insensível às trágicas mortes, “outros vírus mataram muito mais do que esse e não teve essa comoção toda”. A propósito, não é preciso dizer que o inculto tirano não usou à toa pronomes indefinidos (“outros”, “toda”), demonstrativos (“esse”, “essa”) e advérbios de intensidade (“muito”, “mais”): o pior aluno da classe – que ignora o que é ter classe e o que são “classes gramaticais” – não sabendo sequer o que é um vírus, não poderia mesmo saber o que sejam “outros”. Para o “cretino fundamental” (na classificação rodrigueana dos “desclassificados”), “um” ou “outros” significa a mesma coisa, e a quantificação não importa: afinal, no singular ou no plural, vírus é vírus; muito ou pouco, mais ou menos, todo mundo morre mesmo algum dia. O bronco beócio – certamente não seria preciso dizer ao ilustrado interlocutor o óbvio – desconsidera que a desordem dos fatores altera quantitativa e qualitativamente o produto: seria estupidez esperar que um estúpido escroque pudesse mesmo compreender a moral desta “crônica de um desastre anunciado”. Do contrário, meu caro, se no mundo todo milhares de infectados morrem todo dia (sobretudo idosos, negros e pobres – sintoma mórbido da exploração e opressão combinadas na “necropolítica” imperialista), a pandemia genocida seria prioritariamente encarada como um problema “vital” de todo mundo: inclusive – bem sabe o bem sábio – do Brasil e da Bielorrússia.

Inocente, prezado poeta, seria esperar fruto de árvore morta: como diria o sarcástico Macário na peça de Álvares de Azevedo, não peça “som a uma harpa sem corda”, não espere “luz de uma lâmpada queimada”. Quem haveria mesmo de esperar, afinal, não sendo mais estúpido, que um estúpido pudesse não ser estúpido? A pandemia é sintoma da degeneração do estúpido modo de produção autodestrutivo capitalista: Trump e Bolsonazi são apenas reflexos mórbidos da decadência deste modelo genocida de exploração.

 

Cordiais saudações revolucionárias,

 

Paulo César de Carvalho
(Com a arma da crítica sempre engatilhada, ávida por acertar os tolos intolerantes de plantão: na luta democrática para que não “falhe a fala” e “fale a arma”…).

 

 

3ª CARTA A UM VELHO POETA

O período do entreguerras do nascimento do nazifascismo clássico é muito diferente dos tempos atuais (…). O parentesco ideológico do neofascismo global continua, entretanto, com suas afinidades supremacistas brancas, de machismo militarista, de pregação do extermínio de adversários e de grupos sociais estigmatizados e de defesa do privatismo contra qualquer tipo de reforma social distributivista ou compensatória. (TROTSKY, Leon. Como esmagar o fascismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2018, p. 14-15. Trecho do prefácio de Henrique Carneiro.)

 

  1. PRETO NO BRANCO

Prezado velho poeta, considerando a extensão da primeira carta, tive o cuidado de iniciar a segunda com uma breve síntese, retomando e encadeando as bases teóricas e as referências históricas, a fim de facilitar a progressão do raciocínio e dar continuidade ao debate. Não é necessário repetir pela terceira vez, tomando mais tempo de ambos, por que o ponto de partida foi o pensamento racista do Conde de Gobineau, aristocrática matriz conceitual que fundamentou a fabricação ideológica da superioridade ariana pelo Ministério da Propaganda do III Reich, “legitimando” a bárbara perseguição e o criminoso extermínio de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e doentes mentais (além, é claro, de inimigos políticos de todos os matizes – dos liberais aos comunistas, dos reformistas aos anarquistas). O erudito interlocutor não haveria de ignorar, obviamente, que a teoria da “desigualdade das raças” também fez escola (“sem partido”) no Brasil, influenciando a tríade intelectual do Estado Novo – cujos traços fascistas se evidenciam, aliás, tanto no apoio paramilitar dos bárbaros “camisas verdes” da horda integralista (sob o comando ufanista do líder “anta” Plínio Salgado), quanto na orientação jurídica repressiva da famigerada Polaca (inspirada no autoritário texto constitucional polonês) e da demagógica legislação trabalhista (baseada no centralizador modelo de controle corporativista estatal das organizações sindicais da Carta del Lavoro de Mussolini).

O arguto hermeneuta não careceria mesmo que lhe esclarecesse – com o perdão da redundância – o que não haveria jamais de desconhecer, bem antes das minhas prescindíveis longas linhas introdutórias: um dos vértices do triângulo ideológico do bonapartismo varguista, Oliveira Viana, foi acintosamente enaltecido na tese de doutorado de Ricardo Vélez Rodríguez, ex-ministro da Educação do governo reacionário do ex-capitão terrorista. Não por mera coincidência, não é demais recordar, o sórdido canastrão colombiano – que é professor (adestrador) emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, defende o indefensável Golpe de 64 e honra a desonrosa memória do eugenista do Estado Novo – usou inescrupulosamente o aparato do MEC para solicitar às escolas que obrigassem os alunos a hastear a bandeira, cantar o hino nacional e repetir o slogan patriotário bolsonazista “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Como bem sabe o ilustre ilustrado, o mantra cívico do cínico “mito” de circo miliciano é a descarada tradução tropical caricata de Deutschland über alles, sintomático plágio do bordão “Alemanha acima de tudo”, trecho do hino prussiano – suprimido após a derrota nazista – que era vociferado obsessivamente pela turba enfurecida de fanáticos supremacistas do selvagem culto genocida nacional-socialista do Füher.

Aliás, como semelhança pouca é mera coincidência, não por acaso esses mesmos zumbis – que marcharam de tochas acesas em Berlim – foram imitados pelos “300 do Brasil” que trotaram – em ígnea ignorância – em Brasília, sob a liderança desgovernada da histriônica fiel farsante do falso “Messias”: aquela mesma insana Sara “sem nenhum caráter” que se apropriou – patética e indebitamente, abaixo da linha do Equador e do nível da crítica – do invernal sobrenome fúnebre “Winter” daquela fria espiã nazista inglesa (os pleonasmos enfáticos, trocadilhos e aliterações reiteram a compulsiva pulsão tanática das pérfidas figuras “metomímicas” da extrema direita). Não é preciso refrescar a memória do “memorioso” polemista: a intrépida trupe retrógrada que incendiou o Planalto, exigindo o fechamento do STF e a intervenção militar, vestia descaradamente a carapuça branca da tenebrosa milícia racista norte-americana Ku Klux Klan. Apesar de provocar enorme repugnância e extrema indignação, a pérfida performance antidemocrática não haveria de causar surpresa a quem não ignora que os “300” ignaros se apresentam como “soldados” – segundo declarou a indecorosa devota idiota Sara – do ex-capitão “bunda-suja” (apelido jocoso dado pelos oficiais aos subalternos “bolsoasnos” reprovados na escola de adestramento da caserna).

Como bem sabe o velho poeta, o que certamente surpreendeu, sobretudo aos judeus que jamais olvidariam o inominável holocausto dos campos de concentração, foi o Clube Hebraica do Rio de Janeiro não só ter recebido o notório neofascista que é “mito” de fake Winter, mas também endossado – com agravantes imorais sorrisos cúmplices – aquela imperdoável “piada” racista em que o beócio bestial ridicularizou um quilombola, dizendo criminosamente que “pesava sete arrobas” e “nem para procriador serve mais” (expressões típicas do anacrônico léxico escravocrata colonial), para encerrar o sórdido sofisma – com prepotente desprezo supremacista – sentenciando à insólita audiência solícita que os negros “não fazem nada!”. Fossem mesmo dignos herdeiros dos seis milhões de vítimas da maior intolerância genocida do século XX – hão de convir todos os que de fato sentem sobre os ombros o peso pesado histórico das trágicas palavras “cativeiro”, “inquisição”, “pogrom”, “gueto” e “holocausto” – jamais abririam as portas do Hebraica a um indecente descendente dos mais cruéis carrascos, abjeto admirador dos mais diabólicos ditadores e sádico apologista da mais execrável prática desumana da tortura.

Não fossem tão indignos os anfitriões bolsonazistas judeus, enfim, não teriam esquecido que o termo “holocausto” – como não deixaria de lembrar o sábio polígrafo – transporta a incendiária memória etimológica grega: não haveria de ser por mero acaso, é claro, que o significado originário de “holókaustos” – denominação dos arcaicos sacrifícios rituais – tenha atravessado a milenar história humana da supremacia e opressão desumana – ardendo nas fogueiras medievais católicas e nas modernas câmaras de gás nazistas da intolerância – preservando intacto o sintomático traço tanático de “todo queimado”. A propósito de tantos despropósitos ao longo desta hedionda odisseia de ódios, singrando milhares de mares de lágrimas de sangue já dantes – durante e depois – navegados, vem-me à memória o “canto primeiro” do supremo homem branco, na voz superior do aedo Homero (convencido vencedor vendo de cima a ficção histórica hiperbolicamente contada – aos quatro cantos – em 24 cantos): “Posidon partira para visitar os etíopes, gente remotíssima, de cara queimada. Uns vivem no Ocidente, onde Hipérion, passando sobre nós, desaparece; outros, no Oriente, onde ele nasce”. (HOMERO. Odisseia, v.1: Telemaquia. Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 13).

Sem pedir perdão pela providencial digressão, prezado poeta, o infausto fato é que, já desde a remota época da epopeia fundadora da literatura ocidental, o “cara queimada” traz na tez a mácula dos amaldiçoados: seja na mitologia grega, por castigo do impiedoso deus Hipérion, que lhe teria pintado de preto a pele com seus arbitrários raios raivosos; seja na mitologia judaico-cristã, por punição do perverso velho deus dos hebreus, que teria gravado na tez escura da “escória” de Cam a dura pena de proscrição imputada ao espúrio filho que flagrou nu o ébrio Noé. Reza a lenda que Cam – também grafado, não à toa, como Cão – foi para a África, dando origem aos povos de “cara queimada” (na expressão de Homero). Aliás, o erudito hermeneuta não carece que lhe esclareça a “coincidência” etimológica: o nome do último filho do almirante da “arca bêbada” (ah, Rimbaud!) significa “queimado” – como “holocausto”. Ainda que não seja um assíduo leitor da Bíblia, enfim, devo confessar-lhe, recordei uma passagem que me parece uma luz no meio do descaminho, ajudando a enxergar um pouco melhor a gênese do sentimento de superioridade dos tais judeus “eleitos” que aplaudiram o prepotente “Messias” (ops!) racista no Clube Hebraica: “Maldito seja Canaã; servo dos servos será de seus irmãos. E acrescentou: Bendito seja Jeová, o Deus de Sem; e seja-lhes Canaã por servo. Dilate Deus a Jafé, e habite Jafé nas tendas de Sem; e seja-lhes Canaã por servo” (Gênesis, 9:20-27).

É dispensável dizer a tão culto interlocutor, obviamente, que a narrativa da queda em desgraça do progenitor de Canaã serviu de ardil para subjugar os “inferiores” de pele escura, fazendo parecer “natural” a escravidão: estava na “cara queimada” o sinal do “servo” (na Antiguidade romana, “servus” era a designação corrente), predestinado – por despótico juízo divino – a servir aos servos dos descendentes de Sem. Na absurda lógica desigual e combinada da exploração e opressão, o negro teria vindo ao mundo – nascido para não ser – para ser escravo (aliás, prezado poeta, os negros encarcerados nas senzalas se autodenominavam – como os hebreus presos pelos egípcios – de “cativos”). O colonizador português – não haveria, é claro, de passar “em branco” – também usou “religiosamente” essa retórica do preconceito para “naturalizar” a barbárie civilizatória ultramarina (a insaciável sede de sangue negro da bocarra escravocrata do sádico senhor engenhoso). O néscio neofascista que disse no Hebraica que os negros “não fazem nada”, evidentemente ignora o argumento “brancocêntrico” de Gilberto Freyre – o intelectual orgânico (ah, Gramsci!) que pariu a farsa mítica da “democracia racial” brasileira – de que os europeus seriam incapazes de suportar, “por determinações naturais”, o árduo trabalho físico sob o sol dos trópicos: “esses brancos, puros, dólico-louros habitantes do clima frio, ao primeiro contato com a América equatorial sucumbiriam ou perderiam a energia colonizadora” (FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. São Paulo: Global, 2003, p. 74).

Enfim, suponho que o trecho bíblico deva ter trazido à memória do “memorioso” leitor o título homônimo do único livro citado (quantos que o citam de fato o leram?) do patrono passadista do primeiro modernismo: em “Canaã”, bem sabe o velho poeta, o velho Graça Aranha (irônico oxímoro onomástico, não é mesmo?) narra a saga dos imigrantes europeus que chegaram ao Brasil, após a abolição da escravatura, sonhando com a “Terra Prometida”. Sem abusar de sua colossal paciência, peço que examine com seus argutos olhos esta falaciosa fala do personagem alemão protofascista Lentz, que encarna metonimicamente – não só naquelas rotas páginas (verde) amarelas – o olhar superior dos que se julgam “predestinados” a subjugar os descendentes amaldiçoados do clã do caçula Cam: “Até agora não vejo probabilidade da raça negra atingir a civilização dos brancos. Jamais a África (…). Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é produto de tal fusão, a civilização será sempre um misterioso artifício, todos os minutos rotos pelo sensualismo, pela bestialidade e pelo servilismo inato do negro. O problema social para o progresso de uma região como o Brasil está na substituição de uma raça híbrida, como a dos mulatos, por europeus”. (ARANHA, Graça. Canaã.  São Paulo: Ática, 2002, p. 35-36).

Esse fragmento do romance, a propósito, se reflete – traduzido em outro gênero discursivo – naquele ensaio de Fernando Silva Rodrigues citado na primeira carta. Para poupar-lhe o trabalho de localizar a referência, convém retomar só os mais sintomáticos trechos da análise do pesquisador da Escola Superior de Guerra: “A forte miscigenação da população brasileira era considerada pela elite um obstáculo ao processo civilizador, ou mesmo uma vergonha frente às nações europeias, pois, de acordo com as teorias evolucionistas do século XIX, a ideia de civilização está vinculada à raça branca ou, pelo menos, à sua hegemonia sobre outras raças (…). O pensamento autoritário no Brasil teve na questão racial papel importante para sua consolidação (…). Para a realidade do Brasil, era necessário sustentar outro caminho para reorganizar a sociedade brasileira: o do embranquecimento da raça feito por meio da entrada de imigrantes brancos europeus e a proibição da entrada de novos contingentes de negros (…). Oliveira Viana, desde os seus primeiros trabalhos, defendeu a necessidade do branqueamento do povo para torná-lo capaz de construir a nação”. (In Militares e política no Brasil. Jefferson Rodrigues Barbosa et al. São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 320-321).

O sábio velho poeta, hábil guia de si mesmo, conhecendo já de cor e salteado o mapa ideológico traçado pelas vozes intertextuais das três epístolas, não haveria de carecer, é claro, de esclarecimento: os trechos especulares do escritor pré-modernista e do historiador do exército refletem – e refratam – o mesmo ideário eugenista do teórico da Era Vargas idolatrado pelo ex-ministro Vélez, replicado por sua vez no depoimento em que o vice-presidente Mourão – sem pudor em dar prova pública de racismo – apontou a “indolência dos índios” e a “malandragem dos negros” como causas que justificariam a inferioridade do Brasil no concerto das nações, louvando o projeto de “embranquecimento racial” como responsável por seu neto ser – supostamente, claro – “um cara bonito”. Se não contasse com a inteligência do interlocutor, o dever didático me obrigaria a ser repetitivamente bem explícito, para que o incipiente/insipiente leitor (homônimas siamesas) visse o óbvio e enxergasse o “ululante”. Com o perdão do trocadilho pleonástico, seria preciso mostrar a ele que isso tudo tem tudo a ver, evidentemente, com o visível olhar intolerante do presidente neofascista, ligando aquela injuriosa “piada” no Hebraica à resposta racista a Preta Gil no CQC, quando o ex-capitão terrorista acusou de “promíscua” a sua questão sobre o eventual relacionamento de um dos “zero-filhos” com uma negra, recusando rispidamente a “impossível” hipótese com o argumento supremacista de que suas crias, que teriam sido muito bem criadas (são tantas redundâncias recorrentes, tantas recorrências redundantes racistas nesta história opressiva, não é mesmo, prezado velho poeta?), jamais correriam o risco de se misturar.

Imagino que ao instruído homem das letras esses comentários criminosos soem como os do arrogante alemão Lentz, avesso à “fusão com espécies radicalmente incapazes”, para quem os negros e mulatos eram representantes de uma “cultura inferior”, raça de “degenerados”: “Quanto a mim, penso que devemos voltar atrás, apagar até os últimos traços as manchas desta civilização de humildes, de sofredores, de doentes, purificar-nos do seu veneno” (obra citada, p. 37). Creio que o ilustrado interlocutor saiba que o Conde de Gobineau, autor da bíblia eugenista “Sobre a origem da desigualdade das raças humanas”, esteve no Brasil entre 1869 e 1870, enviado em missão diplomática pelo golpista Napoleão III (personagem de O 18 de brumário de Luís Bonaparte, que ilustra o conceito marxista de “bonapartismo”). O papa da eugenia, que tinha aversão do país, disse a Dom Pedro II que o Brasil não teria futuro, condenado fatalmente ao desaparecimento em razão da “promíscua mistura de raças degeneradas”, do amálgama de “espécies inferiores”. Para dar mais um exemplo de como se encaixam as peças desta deplorável história do racismo, destaquei este trecho de uma das cartas do ídolo de Oliveira Viana (o ídolo do bolsonazista Vélez Rodríguez) ao último imperador tupiniquim: “Mas se, em vez de se reproduzir entre si, a população brasileira estivesse em condições de subdividir ainda mais os elementos daninhos de sua atual constituição étnica, fortalecendo-se através de alianças de mais valor com as raças europeias, o movimento de destruição observado em suas fileiras se encerraria, dando lugar a uma ação contrária”.

Antes de encerrar esta carta, lembrando que “holocausto” significa “todo queimado” e o nome “Cam” quer dizer “queimado”, não poderia esquecer esta curiosa correspondência literária: nas primeiras linhas de Canaã, a história começa quando o imigrante alemão “Milkau cavalgava molemente o cansado cavalo que alugara para ir do Queimado à cidade do Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo” (obra citada, p. 11). Nessa espectral “espiral de vozes” (ah, Barthes), vem-me à memória outra despudorada piada racista do ex-capitão terrorista, naquela live de 20 de fevereiro de 2020 em que ridicularizou o “capitão do mato” Hélio Lopes, o vassalo deputado federal (PSL-RJ) mais conhecido como “Hélio Negão”. Depois de ordenar ao servo de “cara queimada” que ficasse atrás dele, o Messias neofascista disparou às gargalhadas a humilhação diante das câmeras: “Negão é o Hélio (…), que demorou para nascer. Demorou 10 meses para nascer. O Hélio deu uma queimadinha. Deu uma queimadinha no Hélio aí, senão seria minha cara”.

Enfim, prezado velho poeta, não poderia concluir este trágico périplo por mares de sangue negro já bem dantes navegados sem citar um dos impublicáveis posts do tal velho poeta, que vem bem a calhar para provar que a situação está realmente muito abaixo da crítica (ah, Marx, a tragédia se repete como farsa da farsa!). Ainda que não seja este aquele post que me obrigou a lhe escrever, conferindo com seus próprios olhos – sempre tão argutos – este absurdo, o hábil hermeneuta certamente aguardará a conclusão desta inglória história de intolerância racial na próxima epístola. Quem não tem pudor de publicar no facebook este despautério, convenhamos, tem o mesmo sórdido senso de “humor negro” (ah, Bakhtin, o signo é mesmo a “arena da luta de classes”!) que o miliciano neofascista: “É engraçado como racismo e antirracismo podem servir ao mesmo propósito: tomar o poder”. Não fosse tão evidentemente velhaco o tal velho poeta, haveria de achar graça de tanta desgraça?

 

PS: Se não lhe peço muito, será que o velho poeta poderia me dedicar ao menos algumas linhas antes de receber a minha quarta carta??? Aguardo ansiosamente sua resposta!!! Saudações antirracistas e antifascistas.

 

Paulo César de Carvalho
(Afinal, como diz o dito, quem procura Ascher!)

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo César de Carvalho nasceu em São Paulo em 22 de abril de 1970. É bacharel em Direito e mestre em Lingüística pela USP, professor de Gramática, Interpretação de Texto e Redação do curso Anglo Vestibulares, co-autor do material de Língua Portuguesa do Sistema Anglo de Ensino, autor dos livros Tópicos de Gramática e Tópicos de Interpretação de Texto e Redação (Editora CPC – www.cpc.adv.br ou livraria@cpc.adv.br). Escreveu em co-autoria o material paradidático Arte e Cultura nos Anos 60 (Editora Anglo). Foi editor do boletim Texto & Cultura, colaborador das revistas Discutindo Língua Portuguesa, Discutindo LiteraturaArte & InformaçãoLivro Aberto e Libertárias e consultor da TV FUTURA no programa Tá Ligado? Foi curador da exposição Linguaviagem (organizada pelo Museu da Língua Portuguesa e Ministério das Relações Exteriores), que abriu em 2010, em Brasília, o Congresso dos Países Lusófonos. Sua dissertação de mestrado intitula-se Fragmentos epistolares de um discurso amoroso: elementos para uma análise semiótica do estatuto do gênero “carta de amor”. Tem poemas publicados no livro Na virada do século – poesia de invenção no Brasil (Landy Editora) e na antologia portuguesa Poezz (Almedina). Em 2010, lançou o livro Toque de Letra (editora nhambiquara). É vocalista e letrista da banda Os Babilaques. Tem parcerias com Tatá Aeroplano, Gustavo Galo e Cabelo (Trupe Chá de Boldo), Pélico, Juliano Gauche, Carlos Zimbher, Reynaldo Bessa e Wella Borges Costa. E-mail: carvalho70@gmail.com


Comente tambm via Facebook