Alguma poesia


por Milton Célio de Oliveira Filho

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OBSERVAÇÕES VESPERTINAS

À tarde
as casas todas se parecem
fiéis sobretudo às suas fachadas.
As casas escondem o cavo
em secas cascas
erisipelas ou escamas
soma que são de seus ângulos internos
e um eventual pardal dobre o teto.
À tarde
na casa em frente à minha
mora a vizinha invisível
caroço, produto de casa.

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CRÉDITO SOCIAL

A visita aceita o café
certa de que não há cicuta.
Sabe, sem dúvida, que é benquista.
O amargo – pondera –
vem da falta do açúcar.

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O NU INDESVENDADO

Chamem os repórteres!
A polícia! As Ligas!
Uma mulher dorme
despudoradamente nua
em logradouro público.
Dorme há horas, há dias,
meses, sem fadiga,
vítima na certa
de malévolo encanto.
Mas onde achar um príncipe
nesta República?
Alguém, por favor, faça algo!
Deem-lhe um antissoporífero,
sais, éter, um susto.
Arranquem-na dos sonhos ímprobos
Que acalenta.
Golpe publicitário
se nada exibe além do corpo
nacarado?
Tsé-tsé?
Em vão tentam demovê-la
do pétreo empenho,
removê-la.
Resiste sem abalo
aos braços mais fortes
aos súplices pedidos
faz-se surda porta.
Por que assim ferrada
em sonho profundo
impõe a insensata nudez?
Os pombos, senhores absolutos
das estátuas,
também se perguntam
entre arrulhos.

*

ENGRAVATAR-SE

Dar o nó à gravata
é uma questão de arte.
Mas ele o dá sem sorte
como quem vai à forca.
Como quem do pescoço
o pomo-de-adão odeia.
O laço forte estrangula, não enfeita.

*

ENSAIOS URBANOS

O olho rubro do semáforo
te observa, severo.
Atravessa na faixa.
O silvo do guarda é breve.
Dráculas urbanos
sem títulos nobiliários
e sem caninos
desejam com igual cobiça
as jugulares alheias.
Evita passar por perto
andar no mesmo caminho
bares, esquinas, becos sem saídas.
Aqui tudo dá em abundância
fabricação e transporte de explosivos
laboratório de análises
estações de tratamento de água
e esgoto
correios e telégrafos
cervejarias
oficinas de solda, agentes patogênicos
hotéis, auto-serviços, centro telefônico
pronto socorro, oficinas de douração, prateação
e niquelagem
indústrias de sabão
indústrias de reparação de relógio e cronômetros
e equipamentos de precisão
mictórios públicos, casas de massagem
praças, pombos, monumentos
transporte urbano e rodoviário.
O escoamento dos taludes de escavação
deverão ser depositados a uma distância superior à metade da
profundidade da mesma.
Estás desarmado, as pernas trêmulas,
os bolsos vazios. Sequer a alma é plena.
Furta-te às estatísticas, bem mereces !
Sempre foram difíceis tuas mulheres,
e o dinheiro, ganho com suor e arte.
Coletivos levam a toda parte
usuários sumarentos
balconistas de meias esgarçadas
punguistas, operários.
O notário vai de chofer,
mercê de bens que possui:  debêntures.
É proibido amar
nos corredores do hotel 
sem o consentimento da gerência.
Sublunares mulheres
algumas tão meninas
(na iminência dos pelos ainda)
perambulam pelas calçadas.
Projétil, estampido, sobressalto!
Avante: teu coração é o que dispara!

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Milton Célio de Oliveira Filho, advogado (PUC-SP), integrou a antologia “Cem Poemas Brasileiros” (reunindo os vencedores do Concurso Nacional de Poesia instituído pela revista Escrita). É inventor de jogos de tabuleiro (board games), entre eles, “War Júnior” (Grow). Recentemente lançou a coleção “Cantando & Contando” (Eloeditora) ao lado do compositor Lula Barbosa, com histórias infantis para contar e cantar. E-mail: miltoncof@gmail.com




Comentários (2 comentários)

  1. Odair de Almeida Costa, Doutor Milton Celio de Oliveira Filho e de invejavel habilidade com as letras e navega, suavemente, tanto para o direito, como para a poesia e literatura infantil Além, de possuir um caráter incomum exemplo para os tempos atuai.
    16 outubro, 2020 as 15:12
  2. Maria Luiza Gil de Oliveira da Motta, Parabéns Milton Célio, te admiro como escritor e como pessoa! Foi muito bom te conhecer pessoalmente quando esteve na Escola Profa.Marina Salete abrilhantando a 11* Semana Literária do nosso Projeto! Um grande abraço!!!
    16 outubro, 2020 as 22:53

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