A poética dos viventes


A poética dos viventes na obra de Evando Nascimento

……………………….. Foto by Aline Massuca

 

 

 

_______era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz das plantas e, em terceiro, a matriz de todos os seres existentes.

Maria Gabriela Llansol

 

 

É sobretudo na ordem dos afetos que se inscreve a minha leitura dos escritos de Evando Nascimento, mesmo que eles possam estar (e estão) assentados numa sólida reflexão sobre a linguagem, o pensamento, a política, as hibridações de gênero (em todos os sentidos desta palavra), os paradoxos da subjetividade, entre várias outras questões que não apenas incidem no trabalho poético-ficcional do escritor, mas também dele mereceram, em ensaios e artigos teóricos, lúcidos e instigantes apontamentos.

Mesmo contaminada por muitas dessas reflexões teóricas que atravessam “a literatura pensante” de Evando Nascimento, permito-me aqui expressar-me como uma leitora que se deixa tocar pela força imaginativa e sensorial desse escritor sempre atento à hora do mundo e avesso às convenções – sejam estas literárias, culturais, sexuais ou político-sociais.

Desde seu primeiro livro de ficção, Retrato desnatural: (diários – 2004 a 2007), de 2008, Evando nunca deixou de se valer de ousadas estratégias literárias, construindo, aos poucos, uma obra densa, que revira nossas certezas por meio da imaginação e assume a desafiante tarefa de pôr em prática em seus escritos o que o poeta português Herberto Helder resumiu em um verso: “pensar com delicadeza e imaginar com ferocidade”.  Cantos do mundo, de 2011, Cantos profanos, de 2014 e A Desordem das inscrições – Contracantos, de 2019, atestam esse viés paradoxal, no qual uma imaginação feroz se deixa atravessar, o tempo todo, por uma certa delicadeza consistente do pensamento.

Pode-se dizer que sua obra literária multíplice possibilita inúmeros recortes e vias de abordagem, dada a complexidade que a define e os enlaces que mantém com os escritos críticos teóricos, nos campos da literatura, da filosofia e das artes visuais. Criação e reflexão se encontram aí intrinsecamente ligadas, uma dentro da outra, num processo de contaminação recíproca.

Dentre as várias linhas de força dessa obra, está a questão dos viventes, tratada de maneira ampla pelo autor em todos esses livros e potencializada sobretudo a partir de Cantos do mundo, ampliando-se, de forma prismática, em A desordem das inscrições. Daí podermos falar de uma bioficção evandiana, que se manifesta com diferentes nuanças no conjunto de textos ficcionais do escritor baiano.

A presença de animais e plantas, a ênfase dada às subjetividades interespecíficas, híbridas, o enfoque transversal dos problemas éticos que envolvem nossas relações com os seres não humanos, tudo isso me toca e me instiga nesse livro de 2019 e em outros textos anteriores, como por exemplo, a série “Políptico animal”, de Cantos do mundo. (p. 119-138) Esta, composto de 14 textos curtos sobre animais humanos e não humanos em diferentes situações, a maioria relacionada a confinamentos em zoológicos, cárceres privados, espaços miseráveis das favelas como pontos de turismo, jaulas domésticas para práticas de tortura, Evando Nascimento incursiona não apenas em algumas aberrações biopolíticas, como também em notícias insólitas sobre algumas relações entre as espécies animais. Mosquitos da dengue que desafiam o poder público no Rio de Janeiro; um cão que joga xadrez com seu “dono” na Gávea; uma vaca que que amamenta três porquinhos, enquanto o bezerro berra de ciúme; leões que copulam com tigresas, ou tigres que copulam leoas, gerando “ligres e tigrelas” (Nascimento, 2011, p. 137); minhocas “que se aninham solenes entre cobras” (p. 137); bestas humanas com ímpetos homicidas  e outros casos intrigantes são relatados de forma irônica, numa mistura entre ficção e fatos reportados pela imprensa.

Em consonância com os ensaios do livro Clarice Lispector – uma literatura pensante, publicado em 2012, essa seção de Cantos do mundo e vários textos de A desordem das inscrições trazem à tona um olhar que, abrindo-se para a reflexão crítica, flagram os limites e liames entre viventes humanos e de outras espécies animais e vegetais.

No que se refere a esse último livro, pode-se dizer que o escritor potencializa esse viés bioficcional. Os  vinte “contos” ou “contracantos” que o integram, acrescidos de uma espécie de anexo, híbrido de ensaio, conto e crônica, intitulado “A copa do mundo não é nossa”, além de treze desenhos de autoria do próprio autor, instauram o que chamei –  na apresentação que tive o prazer de escrever para o volume – uma poética da desordem – desordem, aqui entendida não apenas como desarranjo e perturbação de uma ordem legitimada, mas também como o que sai do alinhamento esperado, embaralha referências, desestabiliza certezas. Diferentes gêneros textuais e sexuais, diversas vozes narrativas, vários registros linguísticos e estéticos formam, aí, uma constelação de palavras e imagens, grafos e grafitos, naturezas mortas e quadros vivos.

A vida, convertida em bioficção, é a principal matéria-prima dos “contos” e desenhos, mas não se circunscreve aos limites do humano. Animais (humanos e não humanos), plantas, seres artificiais e híbridos compõem o repertório de personagens, narradores, imagens e temas do livro.

Chamou-me especial atenção, no conjunto, o cachorro vira-lata que narra suas experiências e percalços antes e depois da morte de seu amigo humano, no conto “Fidelidade”. Ao escrever em primeira pessoa sob a persona canina, o autor imagina o que o cachorro diria se tivesse acesso à linguagem verbal e “traduz” – por um movimento de empatia e esforço imaginativo – as vivências do animal em um momento atormentado de sua existência, quando após assistir à morte do homem com quem compartilhava os seus dias e afetos, não consegue se desvencilhar dele, permanecendo no lugar onde seu amigo descansa.  Cito um trecho:

Desde aquele dia, nunca me afastei do local onde ele descansa. O moço que cuida daqui já tentou me entregar a desconhecidos sem sucesso. Sempre encontro o caminho de volta. Os de minha gente aparecem por esses lados são logo expulsos. Só eu posso reinar, viro latas, tenho uma única imagem no espírito, não consigo me separar. Juntos éramos osso e carne, como retirar um sem destruir o outro?  (Nascimento, 2019, p.146-147)

Donna Haraway, em seus instigantes estudos sobre essas interseções entre caninos e humanos, afirma que “cães dizem respeito a uma história inescapável e contraditória de relacionamentos – relacionamentos co-construtivos, nos quais nenhuma das partes pré-existe ao relacionar-se, e nos quais o relacionar-se nunca se realiza de uma vez por todas.” (Haraway, 2005, p. 12). Eles estão aqui para viverem com. O ato de viver junto também foi abordado por Roland Barthes, que o considerou um fato essencialmente espacial (viver com o outro num mesmo lugar) que não deixa de ser também temporal: viver ao mesmo tempo em que o outro vive. (Barthes, 2003, p. 11). É um ato de compartilhamento que implica, ainda, diferentes sujeitos, haja vista as muitas formas de convivência entre os humanos e as demais espécies animais. Seja pela via das relações de poder e dominação, seja pela troca de experiências e afetos, pelos conflitos ou por meios simbólicos, os seres humanos e não humanos se relacionam desde sempre, em diferentes contextos e culturas.[1]

Ao alçar o protagonista/narrador canino à condição de um sujeito não humano, dotado de um saber sobre a humanidade e capaz de ter consciência sobre o que vê e sente, Evando Nascimento evidencia que os cães anônimos e solitários também são dignos de ter suas histórias de vida contadas, ainda que sua subjetividade se misture à condição humana de quem escreve.

Embora, num primeiro momento, à narrativa possa ser atribuído um caráter antropomórfico, os princípios que norteiam o conto são distintos dos que regem, por exemplo, as fábulas. Isso porque o vira-lata não está ali como mera representação do universo humano, a serviço do humano. Se as fábulas, como observou Derrida, “são sempre um discurso do homem sobre o homem e para o homem”, pressupondo “um amansamento antropomórfico, um assujeitamento moralizador” (Derrida, 2002, p. 70), o cachorro do conto evandiano está longe de apenas significar, enquanto protagonista, algo que ultrapassa os limites da condição animal que o define. O que o autor faz é interpretar o que somente o comportamento animal é capaz de expressar. Como os cães são incapazes de assumir uma primeira pessoa para relatarem sua própria história como autônomos, essa função de capturar o que não é dito em palavras por eles é atribuída a um intérprete que lhes é próximo, o qual exerce também o papel de “tradutor”. E esse tradutor tenta trazer à tona não apenas o que os cães pensam, mas também o que eles pensam sobre nós. [2]

Daí que o “eu” que emerge, através dessa voz e desse ponto de vista, não deixe de se inscrever no que o filósofo e etólogo francês Dominique Lestel chamou de “subjetividade heterônoma”[3], pela inevitável interferência humana em todo esse processo de moldagem do “eu” canino. Como o próprio Evando pontuou a respeito dos animais claricianos, “o não humano não é o oposto do humano, mas faz parte estrutural do que ainda chamamos de Homem, sem com ele se identificar plenamente.” (Nascimento, 2012, p. 67)

Em outros contos de seu livro, Evando constrói outros sujeitos híbridos, que passam não necessariamente pelas fronteiras das espécies animais, mas pelas de gêneros. O “quem” que narra as histórias de A desordem das inscrições é variável: humano, não humano, masculino, feminino, neutro ou tudo ao mesmo tempo, mostrando-se ora como um “eu” ou um “nós”, ora como uma voz impessoal. São sujeitos fluidos, em estado de mobilidade e, por vezes, de metamorfose.

Por fim, o que os contos/contracantos de Evando trazem é o que eu chamei, num dos capítulos do meu livro As ironias da ordem, de uma “escrita transgênica”, considerando que “transgênico”, segundo os dicionários, é uma palavra que designa “o animal ou o vegetal híbrido, que contém material genético tirado de outras espécies”. (Maciel, 2009, p. 110).  E que, transposta para o campo literário, poderia designar um tipo de texto poético formado por mesclas, enxertos, cruzamentos oblíquos, justaposições de diferentes gêneros, linguagens, imagens, referências e reinos (ou elementos) da natureza.

Sob esse prisma, talvez seja pertinente lembrar que a palavra gênero é um compósito de sentidos, com usos conceituais que se modificam de acordo com o campo disciplinar em que o termo se insere.  Como já observou Arlindo Machado, é um vocábulo que deriva do latim genus/generis (família, espécie), mas “não se vincula etimologicamente, malgrado a aparente homofonia, com as palavras gene e genética (do grego génesis: geração, criação)”. No entanto, como ele acrescenta, “há uma inequívoca relação entre o que faz o gênero no meio semiótico (ou seja, no interior de uma linguagem) e o que faz o gene no meio biológico” (Machado,1999, p. 5)

Por um lado, uma das acepções da palavra remete ao inglês genre, inerente ao campo da taxonomia literária, que aponta para uma determinada categoria de composição textual. É uma designação moderna, surgida no século XVIII. Por outro lado, gênero adquire o sentido de gender, uma subclasse dentro de uma classe gramatical (nome, pronome, adjetivo, verbo) e que demanda uma flexão. Trata-se de uma acepção comumente usada no campo dos estudos culturais contemporâneos para designar as diferenças de ordem comportamental, psíquica e cultural associadas ao sexo (masculino/feminino/híbrido/neutro). Soma-se ainda a esse leque a noção de gênero enquanto genus, classificação biológica, própria da nomenclatura criada pelo naturalista Lineu no século XVIII, que designa uma categoria intermediária entre a família e a espécie.

Jacques Derrida discorreu sobre alguns aspectos do gênero no sentido mais textual no ensaio “A lei do gênero”, no qual afirma que todo gênero, mesmo ao se sustentar nas ideias de limite e pureza, ultrapassa, potencialmente, as fronteiras que o organizam. (Derrida, 1992, p. 221-252). Segundo ele, tão logo a palavra gênero é pronunciada, instaura-se o respeito a uma norma: “não se pode ultrapassar a linha de demarcação, não se pode correr o risco da contaminação, da anomalia e da monstruosidade”. (p. 225) No entanto, essa ultrapassagem dos limites e as contaminações são sempre inevitáveis, seja por força do acaso, seja por atos deliberados de ruptura, seja por lapsos e equívocos, o que faz com que o “princípio da impureza” e a condição de estar dentro e fora dos limites constituam, paradoxalmente, uma outra lei: “a lei da lei do gênero”. (p. 227) Em seguida, o filósofo lança a hipótese de que “um texto não pertence a nenhum gênero. Todo texto participa de um ou vários gêneros, não há texto sem gênero, há sempre um gênero e vários gêneros, porém, essa participação não implica pertencimento.” (p. 230)

Pode-se dizer que Evando Nascimento radicaliza essa transgressão da lei do gênero e a amplia para além da literatura e das identidades sexuais, ao abrir o trans também para o campo da biologia, ou seja, dos genes e da genética. Com isso, ele nos oferece uma obra de extrema vitalidade, que se desvia dos lugares-comuns da literatura instituída, embaralha os gêneros (em todos os sentidos) e se realiza, sobretudo, como provocação.  O universo de suas narrativas é o da surpresa, e a originalidade que nelas se inscreve é a recusa em serem encontradas onde se espera que estejam.

 

 

 

 

 

[1]  Sobre isso, ver Maciel, 2017, p. 38-55.

[2] Desenvolvi essa questão da subjetividade canina no ensaio “Literatura e subjetividade animal”, publicado na revista portuguesa Dobra, em jan. 2021. Ver Maciel, 2021.

[3] Segundo Lestel, os animais são sujeitos e possuem individualidade, embora vários permaneçam na heteronomia, por algum tipo de dependência aos humanos, visto que se sujeitam a uma lei exterior ou à vontade de outrem. O que não impede, contudo, que estabeleçam conosco uma rede complexa de relações, através da qual adquirem uma dimensão subjetiva crucial. Cf. Lestel, 2014, p.121.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland.  Como viver junto. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 11.
DERRIDA, Jacques. “The Law of Genre.” In: ATTRIDGE, Derek. Acts of Literature. New York: Routledge, 1992, p. 221-52 (citações com tradução minha)
DERRIDA, Jacques. O Animal que Logo Sou (Sigo). Trad. Fábio Landa, São Paulo: UNESP, 2002.
HARAWAY, Donna. The Companion Species Manifesto – Dogs, People, And Significant Otherness. Chicago: Prickly Paradigm Press, 2005. (citações com tradução minha)
LESTEL, Dominique. The Question of the Animal Subject. Angelaki: Journal of the Theoretical Humanities, 19:3, London, Routledge, Sep. 2014, pp. 113-125.
MACHADO, Arlindo. Os gêneros televisuais e o diálogo. Razón y Palabra, México, v. 4, n. 16, 1999 Disponível em: <http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n16/osgeneros16.html>. Acesso em: 29 ago. 2011.
MACIEL, Maria Esther. Ficções caninas em Clarice Lispector e Machado de Assis. Journal of Lusophone Studies (USA) – Special Dossier on Brazilian Eco-Criticism, v. 2, n.2, p.38-55, dec. 2017.
MACIEL, Maria Esther. Literatura e subjetividade animal. Revista Dobra. Universidade Nova de Lisboa, n. 7, jan. 2021, p. 2-11.  Acesso online: <http://www.revistadobra.pt/uploads/1/1/1/8/111802469/1_maria_esther_maciel.pdf>
MACIEL, Maria Esther. Poéticas do inclassificável. As ironias da ordem, 2009, p. 108-127.
NASCIMENTO, Evando. A desordem das inscrições (Contracantos). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2019.
NASCIMENTO, Evando. Cantos do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2011.
NASCIMENTO, Evando. Cantos profanos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
NASCIMENTO, Evando. Clarice Lispector: uma literatura pensante. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

 

 

 

 

 

 

Maria Esther Maciel  é professora titular de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da UFMG, atualmente é professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literárias na UNICAMP. Publicou, entre outros, os livros Longe, aqui (2020), Literatura e animalidade (2016), O livro dos nomes (2008)  e O livro de Zenóbia (2004). É diretora editorial da revista Olympio – literatura e arte. E-mail: memaciel@gmail.com




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