A poesia em fuga de Louise Glück


por Flávia Rocha

.

Todas as poetas norte-americanas são sempre lidas à sombra de Sylvia Plath? Desde que Louise Glück venceu o Nobel de Literatura este mês, muitos artigos e críticas internacionais foram escritas sobre o conjunto de sua obra, que conta com cerca de 14 livros de poemas, além de dois chapbooks, dois livros em prosa, entre outros trabalhos, bem como uma lista ainda mais impressionante de prêmios: Pulitzer Prize, National Book Award, a cadeira de Poet Laureate e mais de 30 honras, culminando com a coroação do Nobel. Mesmo com uma trajetória consolidada, dedicada à alvenaria única de sua voz, uma boa parte da conversa em torno da poesia de Glück não escapa às comparações com Sylvia Plath, tamanha é a influência da voz de Plath sobre a psique da poesia feminina americana. Como se o furacão melancólico-poético de Plath pairasse sobre as cabeças de todas as mulheres que se prezem a escrever poemas nos Estados Unidos (e, por afinidade, em outras partes do mundo).

Talvez possamos tomar os próprios versos de Glück como testemunho de sua rebeldia. Um de seus poemas mais famosos, The Wild Iris (que dá título a uma coletânea de mesmo nome publicada em 1992), começa com duas linhas que apontam para uma ruptura definitiva com o inexorável:

At the end of my suffering
there was a door.

Ao final do meu sofrimento
havia uma porta.

.

.

A poesia de Glück é uma poesia em fuga. Não se dobra em si mesma. É como se estivesse sempre em expansão, para áreas de expressão em que a realidade não passa de uma mera moldura. Ao escapar os espaços constritos do mundo real, a voz poética toma uma postura omnisciente, mas não no sentido simbolista ou religioso. Trata-se de um alter ego maleável, que flerta com a noção de divino não como Deus, mas como a própria consciência. Livre dos contornos da realidade, a poesia atravessa esses portais da linguagem, experimentando situações inimagináveis, como a que Glück propõe nessa mesma coletânea, que se passa toda num jardim. Ela divide o livro em três partes narradas da seguinte forma: a voz das flores, a voz do jardineiro-poeta e a voz omnisciente/abstrata.

Nesse sentido, a poesia de Glück nos convida a uma exploração filosófica através das imagens e dos sentidos. Aborda temas profundos com uma dicção direta, com associações que conseguimos compreender, sem ginásticas linguísticas. Há simplicidade na transmissão dos temas mais complexos, e ritmo. Não dá para ser mais metaforicamente direta do que em “havia uma porta.” Mas onde a poeta enxerga conscientemente essa porta em sua vida (“ao final do meu sofrimento”) tem o peso de uma revelação. Atomiza o verso e nos lança a um estado de espírito muito mais profundo. É essa acessibilidade que aproxima poeta e leitor, e transforma a poesia em alimento para a alma, para além de uma cultura e de uma experiência específica. O leitor se reconhece naquela voz e a segue.

Esses espaços da consciência mapeiam de forma fluida a poesia de Glück, criando uma espécie de chão movediço sob os pés, como neste trecho do poema Aboriginal Landscape (em Faithful and Virtuous Night, 2014):

[…]
I had no memory of   being driven here,
to what now seemed a cemetery, though it could have been
a cemetery in my mind only; perhaps it was a park, or if not a park,
a garden or bower, perfumed, I now realized, with the scent of roses — 
douceur de vivre filling the air, the sweetness of  living,
as the saying goes. At some point,
it occurred to me I was alone.

[…]

[…]Não me lembrava de ter sido trazida aqui,
para o que parece agora ser um cemitério, embora pudesse ter sido
um cemitério na minha mente apenas; talvez fosse um parque, ou se não um parque,
um jardim ou quiosque, perfumado, agora percebo, com cheiro de rosas –
douceur de vivre enchendo o ar, o doce lado da vida
como se diz. Em algum momento,
eu me dei conta de que estava sozinha.

[…]

A realidade é a que percebemos, e ela pode variar de um momento para o outro. A poeta descreve o processo mental daquele momento preciso contrastando suas impressões anteriores com as impressões atuais, sem emitir um veredito. Porque não há absolutos na poesia de Glück. Não só o jogo de palavras é pensado para criar esse efeito desestabilizador, como a pontuação e os respiros também oferecem significado à leitura. Observemos o salto entre as duas estrofes, e como – depois do respiro – o verso “eu me dei conta de que estava sozinha.” ganha ênfase. Transpassa os limites do momento do poema e ganha um significado mais amplo. O estado de solidão passa a ser entendido como condição humana – sentimento reconhecível não apenas pela poeta no ato do poema, mas de forma universal e atemporal. Nós, leitores, é que somos surpreendidos, nós é que nos damos conta de que estamos sozinhos.

Trata-se de uma ruptura com os universos cognitivos tracionais, com o mundano e o imediato, com a materialidade e utilidade do que nos cerca, com os rótulos que colocamos nas pessoas e em nós mesmos, com o nosso destino inevitável, com a trivialidade do cotidiano, e por extensão – uma ruptura com o nosso estado de espírito. Esse tipo de poesia não deve ser analisada sob a ótica constrita que rotula a poesia feminina americana, que busca comparativos numa tradição intimista e cotidiana, que – diante da multiplicidade da literatura contemporânea – se prova cada vez menos eficaz. Numa de suas resenhas para a revista The New Republic, a crítica Helen Vendler aponta justamente para esse ponto: “A linguagem de Glück revive possibilidades de alta assertividade, assertividade que vem da tríade délfica. As palavras de asserção, no entanto, são humildes, simples, usuais; é o seu tom hierárquico e sobrenatural que os distingue. Não é uma voz de profecia social, mas de profecia espiritual – um tom que poucas mulheres têm a coragem de afirmar”.

Muito dos livros de Glück, em especial os primeiros, são narrados na coloração das muitas vozes de seus personagens, enquanto livros mais recentes assumem um eu-lírico mais pessoal, tão multifacetado e talvez ainda mais expandido, ao atar os fios soltos de relacionamentos pessoais e das histórias de família. Essa maleabilidade existencial, característica de uma poesia sem contornos fixos, coloca-nos em contato com verdades brutais que se moldam a partir de incertezas. Em seu livro mais recente, Faithful and Virtuous Night, publicado em 2014, a poeta estabelece diálogos e revê situações vividas com seus pais, irmãos, parentes, evocando suas presenças fugazes e significâncias que eles assumem hoje em sua vida. Neste fragmento do poema Visitors from Abroad, os pais falecidos esperam pela morte da poeta como um dia esperaram por seu nascimento; em seus pensamentos, ela conversa com eles:  

I lay in the dark, waiting for the night to end.
It seemed the longest night I had ever known,
longer than the night I was born.

I write about you all the time, I said aloud.
Every time I say “I,” it refers to you.

Deito no escuro, esperando a noite acabar.
Parece ser a noite mais longa que já tive,
mais longa do que a noite em que nasci.

Escrevo o tempo todo sobre vocês, digo em voz alta.
Cada vez que digo “eu”, refere-se a vocês.

As palavras “I” e “you”, trasmutadas, explodem uma verdade maior em nossas mãos. Só há “eu” para onde quer que viremos, um “eu” que se forma a partir do outro. A consciência no centro de fuga. Como miasma, o eu-lírico viaja pelos ambientes, situações e pessoas visitadas pela poeta e se encosta nas coisas ao redor. Livre e clarividente. Assim é a poesia de Louise Glück. 

.

.

.

.

Flávia Rocha é poeta, editora da Revista americana Rattapallax e fundadora da Academia Internacional de Cinema. E-mail: flaviarochalit@gmail.com




Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook