A luta por crescer



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Não é nenhum exagero, nem apenas uma jogada de marketing, a menção à obra-prima, na capa de Cidade mágica, de Drew Lerman, O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. A lembrança deste legítimo evento literário do romance de formação do século XX (publicado em 1951) vem bem a calhar a propósito deste outro feliz acerto de um retrato dos desafios devastadores da adolescência, fixados febrilmente da primeira à última página no romance de Lerman.

Primeiro acerto: o livro foi escrito por um jovem acerca de jovens para jovens. O que o leva a superar a barreira etária e, pela expressão da linguagem, tão viva e, por isso, convincente, trata-se então da condição humana, independente de que altura do campeonato da vida estejamos – assim Cidade mágica é um livro que cresce como arte ficcional e interessa também ao leitor adulto.

Os inumeráveis ritos de passagem – o primeiro beijo, a primeira transa, a primeira traição, a grande amizade, a incursão no proibido, a confissão do que prometia ser velado ­– marcam um crescimento que em diversas circunstâncias parece, bem ao contrário, ser uma perda da consciência até ali conquistada, um recuo quando já nos encaminhávamos rumo ao mundo adulto.

 

Precoce

Drew Lerman, morador de Miami (a “cidade mágica” cuja magia precisa ser produzida sob pena de perder-se em definitivo e nunca mais ser localizada), começou a escrever o livro no Ensino Médio, com 16 anos. O projeto foi tamanho que ganhou o prêmio Push Novel Contest. O autor levou mais dois anos e estava, finalmente, com o romance pronto. Escrito em primeira pessoa, para dar o tom confessional, de quem pede socorro a todo instante (nada mais adequado ao protagonista, Harry Fuller, apático, inseguro, sofrendo de stress pós-traumático depois de um furacão ter assolado sua casa), de quem se pergunta, a cada capítulo, o que é crescer, essa perturbadora metamorfose.

O protagonista acaba perdendo a namorada ao mesmo tempo em que faz amizade com Charlie Brikell, seu oposto: desafiar professores é com ele mesmo, depredar casas, sua especialidade. A convivência com Charlie intensifica ainda mais a desorientação emocional que assola Harry. Este depende de medicação para manter um mínimo equilíbrio emocional.

Além da trama, complexa, trepidante, afeita à época inquieta que os (des) educa, contribui para o impacto da literatura de Lerman a linguagem, sob medida, como convém ressaltar, uma vez que arte, mesmo visando a juventude, alimenta-se da forma e esta essencialmente da linguagem (ponto a mais para a tradução), que a estrutura.

As emoções crepitavam, e os espíritos pegam fogo, quando não se enregelam, como o de Harry. Paralisado frente a revelações que sua história traz, não só para ele mesmo, mas, também, para o afortunado leitor.

 

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Serviço

Título: Cidade mágica

Autor: Drew Lerman

Tradutor: Fal Azevedo

Editora: Bertrand Brasil

Páginas: 336

 

 

 

 

 

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Paulo Bentancur (Santana do Livramento, RS, 1957; mora em Porto Alegre há 45 anos) é escritor de diversos gêneros. Instruções para iludir relógios (prosopoemas, 1994), Bodas de osso (poemas, 2005), A solidão do Diabo (contos, 2006), Três pais (infanto-juvenil, 2009), além da coleção Brincando de pensar (2001), sobre gênios do conhecimento humano tanto na filosofia quanto na arte, recontados para pré-adolescentes. Crítico literário, colabora na imprensa cultural do País desde o início da década de 1980. Teve textos publicados na Argentina, México e Itália. Ganhou cinco vezes o prêmio Açorianos de literatura, nas categorias infantojuvenil, poesia e especial (livros de gênero inclassificável). Ministra oficinas de criação literária on line e individual em seis gêneros (conto, romance, crônica, poesia, infantojuvenil e ensaio). Foi jurado de diversos concursos entre os quais o Prêmio Jabuti na categoria romance. Site: www.artistasgauchos.com.br/paulob. E-mail: bentancur@uol.com.br




Comentários (1 comentário)

  1. Carlos Trigueiro, Indicação do Paulo Bentancur merece crédito.Vou ler Cidade Mágica. Carlos Trigueiro
    15 abril, 2013 as 13:20

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