Uma temporada na biblioteca


…………………Bibliotecas e alguns de seus frequentadores

 

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Desenvolvi uma hipótese algo arriscada sobre o título Uma temporada no Inferno de Jean-Arthur Rimbaud. No original, Une Saison en Enfer que, conforme o tradutor, é uma temporada, uma estada, uma estadia, uma cerveja no inferno.

Como se sabe, ao final de 1870 Rimbaud tinha 16 anos e já escrevia belos poemas. Tentara fugir por duas vezes de Charleville, a cidade natal nas Ardenas, norte da França. Na primeira, chegou a Paris, foi preso e mandado de volta para casa. Na segunda, foi à Bélgica. Com a guerra franco-prussiana, tudo parou. A escola fechou, não havia aulas, nada para fazer. Conforme registrado em biografias e sinopses biográficas (é suficiente, para o que pretendo examinar, aquela preparada por Ivo Barroso para as edições completas de Rimbaud pela Topbooks), o adolescente enfiou-se na biblioteca local. Atravessou a biblioteca: leu-a de ponta a ponta. Chegou até os fundos, ao espaço onde guardavam obras não recomendadas, que não deveriam ser lidas: havia tratados de alquimia, de ocultismo. Debruçou-se sobre eles. Foram leituras decisivas. Inspiraram uma virada hermética em sua poesia, evidente em “Coração roubado”, “As vogais” e outros poemas que marcaram sua ruptura com o parnasianismo. A seguir, escreveria a “Carta do Vidente” para Paul Demeny. Para relembrar, cito um trecho:

Eu digo que é preciso ser vidente, se fazer vidente.

O poeta se faz vidente por um longo, imenso e pensado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, ele exaure em si mesmo todos os venenos, para então guardar apenas as quintessências. Inefável tortura na qual necessita de toda a fé, toda a força sobre-humana, onde ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, – e o supremo Sábio! –Pois ele chega ao desconhecido! Uma vez que ele cultivou sua alma, já rico, mais que todos! Ele chega ao desconhecido, e quando, enlouquecido, ele acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as viu! Que ele estoure em seu sobressalto pelas coisas inaudíveis e inomináveis: virão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes onde o outro se abateu!

Portanto, o poeta é realmente o ladrão do fogo. [...] – De resto, toda palavra sendo ideia, o tempo de uma linguagem universal virá!

Lendo os magos, desenvolveu a ideia de que o poeta seria capaz de ver além, de antever o futuro – desde que encontrasse a linguagem universal, ou seja, simbólica. Em seguida, viriam a poesia experimental do Álbum Zútico e as prosas poéticas. Uma temporada no Inferno, da qual um dos capítulos é “A alquimia do verbo. E Iluminações – ou Iluminuras, conforme o tradutor.

Já escrevi bastante sobre Rimbaud. Observei que percorreu cinquenta anos de história da literatura em cinco anos de produção, dos poemas parnasianos – porém já irreverentes, alguns contundentes – até as prosas poéticas. Essas passariam a ter maior circulação em 1912. Se houvessem sido publicadas na década de 1920, sem revelar o autor, passariam por mais uma série de criações surrealistas, ao lado daquelas de André Breton, Robert Desnos, Paul Éluard, Louis Aragon e outros que iam sendo lançados.

Pois bem – e aqui vem minha hipótese arriscada: “Inferno”, tradicionalmente, era o nome dado ao setor da Biblioteca Nacional francesa onde ficavam armazenadas obras proibidas, que ninguém deveria ler. Guillaume Apollinaire, poeta extraordinário, grande iniciador e pensador das vanguardas, conseguiu permissão para entrar no “Inferno” e assim teve a chance de ler o Marquês de Sade e outros libertinos: leituras decisivas para inspirar sua contribuição ao gênero, em As onze mil varas, A mulher sentada , entre outros títulos.

Pergunto: e se essa denominação fosse geral? E se esse termo, “inferno” valesse para o setor de obras proibidas de todas as bibliotecas francesas? Nesse caso, “Uma temporada no Inferno” também poderia significar uma temporada na biblioteca. Ou, mais especificamente, no setor de obras proibidas ou não recomendadas da biblioteca.

Rimbaud é ambivalente e polissêmico. São frequentes em sua obra as expressões com duplo ou múltiplo sentido. O título Illuminations: seriam iluminações no sentido de revelação ou epifania? Ou iluminuras, coleções de gravuras campestres em inglês, conforme teria declarado a seu amigo, o poeta Germain Nouveau, ao pedir-lhe que encaminhasse os originais a Verlaine? Os assassinos do “Eis o tempo dos assassinos” e outras passagens: são criminosos? Ou, de modo fiel à etimologia, “haxixim”, fumadores de haxixe, como observa Ivo Barroso? Ambos. Em Rimbaud não é um ou outro – é um e outro.

Por isso, entender seu Inferno como aquele da teologia cristã, de outras teologias e mitologias, ou como uma versão daquele de Dante – portanto, como fonte da sabedoria – não elimina esta interpretação. Vale, ao menos, como metáfora, ou pelo conteúdo simbólico, adicionando-se a tantas outras já apresentadas por críticos: de que Uma temporada no Inferno é alegoria da situação na França durante a guerra franco-prussiana; ou de que trata da relação de Rimbaud com Verlaine, por exemplo. Todas, em alguma medida, plausíveis, pois, insisto, a escrita de Rimbaud é polivalente.

Por levar vida de marginal, especialmente durante o período em que viveu em Paris, e por ser um autor à margem em seu tempo, reconhecido tardiamente, Rimbaud tornou-se protótipo do poeta marginal, além de maldito. Outros dessa família também tiveram experiências de revelação em bibliotecas e atravessaram infernos.

Especialmente significativo é o que ocorreu com Gregory Corso, poeta da Geração Beat nascido em 1930. Estava no inferno quando descobriu bibliotecas. Recém-nascido, a mãe o deixou – fugiu, por não agüentar o marido, um brutamontes. Corso passou a infância entre lares de adoção, fugas e reformatórios. Menino de rua, delinqüente, foi preso três vezes antes de completar 20 anos. Aos 13, por um furto, acabou entre adultos, criminosos violentos, na prisão de Tombs. Aos 16, foi pego pela terceira vez, por participar de um golpe elaborado – com mais três comparsas, conseguiu roubar 25.000 dólares, bastante dinheiro na época. Cumpriu pena no presídio de segurança máxima de Clinton. Lá havia biblioteca. Em suas palavras: “Um velho me passou Karamazov, Os Miseráveis, O Vermelho e o Negro, e assim aprendi, e me tornei livre para pensar e sentir e escrever”. Saiu da cadeia “enamorado por Chatterton, Marlowe e Shelley”.

Corso já tinha o hábito da leitura desde garoto, conforme relatou em depoimentos:

Eu ia para as bibliotecas o tempo todo e lia todos os livros que podia – livros sobre retórica, por exemplo. Como você fica esperto, Gregory? Veja, eu só fiz o ensino básico, foi o máximo que consegui. Como ficar esperto? Precisa ler livros.

E assim foi lendo manuais de gramática e retórica, e até dicionários. Mas uma coisa é ampliar o domínio da linguagem como meio para relacionar-se com a realidade; para controlá-la. Outra, a revelação através da criação literária, motivando-o a escrever.

Em 1950, depois de sair de Clinton, Corso despertou a curiosidade de Allen Ginsberg, que o viu escrevendo à mesa em um bar do Greenwich Village: quis ver o que o rapaz fazia, e imediatamente reconheceu seu talento. Em 1955, estrearia em livro com Lady Vestal, através de uma edição patrocinada por colegas de Harvard, onde fez cursos de literatura. A seguir, mais um livro, Gasoline, publicado pela editora City Lights do também beat Lawrence Ferlinghetti. No prefácio, Ginsberg o qualificou como “grande arremessador de palavras e provavelmente o melhor poeta da América”. Outros títulos viriam, entremeados por escândalos, como aquele da leitura do sarcástico poema “Bomb”. Levou uma vida itinerante. Chegou a morar na Grécia, onde deu aulas de criação poética. Está sepultado em Roma, ao lado do túmulo de seu idolatrado Shelley. Episódios burlescos e exibições de má conduta não faltaram em sua biografia. Mas nunca parou de ler: sua pesquisa sobre hieróglifos e cultura do Egito, por exemplo, resultou no “Geometric Poem”, poesia visual, manuscrito ilustrado publicado em Long Live Man. E, décadas depois, retornaria a Clinton, não para cumprir pena, mas para dar palestras com a finalidade de estimular o gosto pela leitura entre jovens prisioneiros.

Corso não foi o único integrante da Geração Beat com essa relação com infernos e bibliotecas. Neal Cassady celebrizou-se com inspirador e personagem de Jack Kerouac, através de On the Road, onde é Dean Moriarty, seu parceiro de viagens e aventuras. Deixou uma obra pequena: a narrativa autobiográfica O primeiro terço (publicada no Brasil pela L&PM) e cartas que impressionaram vivamente Kerouac, como a “Joan Anderson Letter”, dada como perdida e recentemente redescoberta.

O pai de Cassady era alcoólatra e a mãe os abandonou. Foi menino de rua – e um consumado delinquente, com passagens por reformatórios. Teria roubado dezenas de automóveis na adolescência. Mas frequentava a biblioteca local, em Denver, Colorado. Entre outras descobertas, entusiasmou-se com Proust e Nietzsche. Chamou a atenção de Justin Brierly, próspero advogado, benfeitor de rapazes, que o apoiou – assim como, entre outros jovens, a Hal Chase, futuro antropólogo. Esse o apresentaria a Ginsberg e Kerouac em Nova York: o que se seguiu àquele encontro é histórico e lendário.

O termo ‘Geração Beat’ foi criado por Kerouac, em 1948. Tornou-se a encarnação desse movimento, através de On the Road e outros volumes de sua obra extensa. Da sua relação com bibliotecas, há um episódio significativo e tocante. Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, foi convocado para a Marinha, em 1942. Não suportava a disciplina; rebelava-se contra toda autoridade. Por isso, no grupo de recrutas, após ouvir o “Sentido…!” do sargentão, em vez de enfileirar-se com os demais, abandonou a formação. Saiu andando. Foi achado na biblioteca do quartel, lendo, normalmente, como se não tivesse acontecido nada. Teve sorte: em vez de o levarem a uma corte marcial por indisciplina, diagnosticaram-no como louco. Ficou algumas semanas internado, fez amizade com outros loucos ou supostos loucos antes de ser liberado, como relatou no autobiográfico Vanity of Duluoz. Podia ter escolhido qualquer lugar para ficar sossegado. Ir para a biblioteca define o contraste entre dois espaços ou duas situações: a opressão através da mais rígida disciplina no pelotão militar, e a liberdade na biblioteca, onde poderia escolher o que quisesse ler.

Um autor frequentemente associado à Geração Beat, e de grande prestígio, é Charles Bukowski. A meu ver, tal associação é incorreta, e o próprio Bukowski a rejeitou categoricamente. Seu individualismo e ceticismo o impediriam de ligar-se a qualquer movimento ou plataforma literária. São possíveis, no entanto, paralelos biográficos. Tiranizado por um pai sádico, que o chicoteava, um dos refúgios do futuro autor de Cartas na Rua e Memórias de um velho safado era uma biblioteca pública em sua cidade, Los Angeles. Na coletânea de textos póstumos Miscelânea septuagenária há um poema, “O incêndio de um sonho”, elegíaco, lamentando que “a velha biblioteca pública de L. A. pegou fogo”. Relembra os autores que descobriu lá; as leituras que o impulsionaram a, por sua vez, tornar-se escritor. John Fante, em primeira instância (atuaria mais tarde em favor de seu reconhecimento), Robinson Jeffers, Albert Camus, e muitos outros de uma lista extensa. Um trecho de “O incêndio de um sonho”:

Aldous Huxley, D. H. Lawrence

e.e. cummings, Conrad Aiken, Fiódor

Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górki,

H. D., Freddie Nietzsche, Art

Schopenhauer,

Steinbeck,

Hemingway,

e assim por

diante…

Bukowski levou vida de marginal, viveu de subempregos até alcançar uma situação mais confortável, foi um alcoólatra, armava toda sorte de confusão nos bares que frequentava. No entanto, ao contrário do que supõem ocasionais imitadores, a marginalidade, apenas, não forma escritores. A leitura é indispensável.

Na Divina Comédia, o inferno é cinematograficamente pavoroso. No entanto, aqueles condenados eram videntes. Tinham, segundo Dante, um terceiro olho ou terceira visão que lhes permitia enxergar o futuro. Profetizaram o exílio do poeta florentino, entre outras antecipações. É claro esse foi um expediente literário: já estava exilado quando escreveu seu monumento literário. Mas essas descidas ao inferno de poetas são atualizações, na moldura cristã, de um mito mais antigo: aquele de Orfeu – patrono ou arquétipo dos poetas – que desce ao Hades, reino dos mortos. E o mito de Orfeu, por sua vez, é adaptação ou atualização grega de algo ainda mais arcaico: a própria iniciação dos xamãs, sacerdotes ou feiticeiros tribais, que devem descer ao mundo subterrâneo dos mortos para adquirir poderes. Dos xamãs tribais aos maçons e demais esoteristas contemporâneos, adeptos de doutrinas iniciáticas descem ao reino dos mortos. E seu retorno sempre corresponde a um ganho em conhecimento e poder; à aquisição de algum grau de iniciação.

Na década de 1990, a rede de bibliotecas públicas de São Paulo tinha elevados índices de frequência de público. Majoritariamente escolares, para fazer “pesquisa”. Bibliotecas públicas cobriam, portanto, a insuficiência ou falta das bibliotecas escolares. Hoje, essa demanda de fontes de informação para pesquisas escolares é suprida pelo meio digital, com suas ferramentas de busca. Que as bibliotecas recuperem sua função histórica, como lugar simbolicamente infernal e celestial, estimulando aventuras intelectuais.

 

 

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NOTAS:

De Rimbaud, Poesia Completa e Prosa Poética, ambas com organização e tradução de Ivo Barroso, publicados pela Topbooks em 1996 e 1998. Dos meus artigos sobre Rimbaud, estão disponíveis on line, da revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/04/o-rebelde/; e no jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/21/rimbaud-revolucao-rebeliao-417310.asp .

As declarações de Gregory Corso estão em The Beat Book, Poems and Fiction of the Beat Generation, Boston: Shambala, 1996, organizado por Ann Waldman. São citadas em meu Geração Beat (L&PM, 2009). E  em Encontros: Geração Beat, Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2010, coletânea de entrevistas organizada por Sergio Cohn.

Sobre Kerouac e Cassady: MILES, Barry, Jack Kerouac – king of the beats, tradução de Roberto Mugiatti, Cláudio Figueiredo, Beatriz Horta, Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. Ou NICOSIA, Gerald, Memory Babe, a critical biography of Jack Kerouac, Middleessex: Penguin Books, 1983.

Miscelânea septuagenária de Charles Bukowski foi publicado pela L&PM (Porto Alegre, 2014), assim como outros títulos de sua prolífica produção.

 

 

 

 

 

 

 

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Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. Traduziu parcialmente Ginsberg e Artaud, e a obra completa de Lautréamont. Publicou também, entre outros, Geração Beat, L&PM Pocket, 2009 e a tradução do Livro de Haicais, de Jack Kerouac (L&PM, 2013). E-mail: cjwiller@uol.com.br




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