Transgressões literárias


Transgressões literárias: as filhas de Lilith, os marginais e a revolução (do corpo)

 

Seguindo uma coerência de dessacralização e libertação, o pós-modernismo segue, especialmente das décadas de 60 do século vinte para cá, uma trajetória que quebra paradigmas, expõe nossa hipocrisia social, mas expõe contradições como qualquer revolução de costumes.

Falamos especificamente de As filhas de Lilith (Cida Pedrosa, 2009). Com cerca de 50 anos de diferença, foram escritos em contextos diferentes pós-revolução de costumes (sexual) de 1960, mas ainda apresenta à nossa sociedade realidades ainda não totalmente aceitas num mundo que se diz pós-humano (Lúcia Santaella), mas ainda repleto de preconceitos, inclusive literários.

Cida Pedrosa, escritora pernambucana, participou dos Escritores Independentes na década de 80 do século passado. Colaborou com a poesia marginal do recife dos anos 90 para cá. Tem uma forte atuação política como advogada de Direitos Humanos e é uma espécie de líder dos escritores marginais da capital pernambucana. Produtora cultural, dirigiu por muitos anos o site Interpoética, que colaborou para a divulgação de novos escritores da cena contemporânea, além de expor também outros artistas já consagrados.

Subversivo já no nome por evocar a história paralela do mito de Adão e Eva – Lilith seria a personagem banida da História oficial judaico-cristã, criada por Deus à noite. Bela e insinuosa, simboliza o antagonismo masculino-feminino, “toda sangue, vísceras, osso, sangue, pó de arroz e batom”, como afirma o prefaciador do livro As filhas de Lilith. É o protótipo das mulheres insubmissas, revolucionárias, que puxam para si as rédeas de seu destino guiadas pelo desejo de serem mais e melhores. Tendo diferentes nomes – Angélica, Berenice, Melissa, Xênia, representando diversos tipos ou condições femininas – casadas, solteiras, emancipadas, magoadas; ou de gênero, masculino ou feminino: lésbicas, gays, transexuais etc.

Assim, as mulheres não se furtam à oportunidade de darem e sentirem mais prazer:

De costas/ Berenice se põe para o desejo/e espera o adentrar do pássaro/ e os auspícios da lua (PEDROSA, 2009, p. 19);

Gosta de fazer sexo de manhã/ antes de encarar a ordem do dia/ e o ônibus rio doce-piedade/ entre um ofício e outro/ faz a pesquisa na internet/ e lê aquele e-mailzinho sacana/ sobre os efeitos milagrosos dos florais (IDEM, P. 31)

Mas as vozes-personagens de Pedrosa não demonstram somente liberalidades, mas também preocupações e questionamentos sobre a mulher e suas condições sociais: Desde criança/ uma pergunta lhe ronda a língua/ por que deus se preocupa tanto/ com o que as mulheres carregam entre as pernas (PEDROSA, 2009, p. 39)

Mas essa mesma mulher, ao se enxergar capaz de enfrentar os desafios que a sociedade lhe impõe, conquista a cidadania que lhe é devida. Assim, Cida também registra, numa personagem de sua poesia narrativa, a condição das mulheres emancipadas, que se põem à frente dos homens no mundo profissional ou social-sexual:

[Ofélia] exemplo de mulher resolvida/ conseguiu tudo que quis/ tem sob o seu comando uma porrada de homens/ e trata sobre a compra e venda de gesso com empresários da Argentina (PEDROSA. 2009, p. 53)

Aos quarenta anos/ Wilma descobriu dias vermelhos/as noites molhadas/ a máquina de lavar para p lençol branco/ e que pela manhã o desejo não tem cor (PEDROSA, 2009, p. 71)

Cida, porém, é crítica e também reflete sobre o mal que o capitalismo trouxe às mulheres, especialmente em relação a seus hábitos de consumo e de culto ao corpo, numa busca intermitente do que é supérfluo e enche a alma cada vez mais de vazios existenciais:

Em junho de 1964/ Zenaide fez 20 anos/ olhou-se no espelho e viu-se pronta para casar/ [...] decidida/ subiu o elevador do hospital são tomé/ e dividiu em 12 suaves prestações/ o levantamento do bumbum o monolifting de pescoço/ e marcou para o dia seguinte a aplicação de botox (PEDROSA, 2009, p. 79)

Uma atriz Úrsula andress/ em um filme de suspense/ caras e bocas e tecido/ desfilavam na película/ daí seu nome/ p gosto pelas roupas coladas/ e a vida pautada no corpo/ sapato só arezzo bolsa victor hugo/ relógio rolex calcinha mourisco perfume Chanel/ jeans m officer caneta mont blanc/ creme lancôme camisinha/ infelizmente/ a que tiver no motel (Idem, p. 76)

Na questão de gênero/queer, dialoga com a contemporaneidade, dando visibilidade a personagens imperceptíveis socialmente – os travestis, quanto esboçando sobre questões de sexualidade e aceitação social por parte desses grupos marginalizados. Porém, sua imagem dos transexuais é sempre positiva; alguém que, mesmo enfrentando dificuldades, se sobrepôs a elas:

[melissa] quando completou 14 anos, fez sexo com joão atrás da igreja e não gostou/ tudo nele era lindo/ aqueles rapazes p desejavam/ de verdade e não sabiam/ [...] o corpo dele/ era feito para a saia para o justo/ e para homens que gostam de mulher/ [...] em setembro do ano passado/ polaca consegui fazer uma cirurgia/ de mudança de sexo não precisou de acompanhamento psicológico/ tampouco de terapia intensiva/ sabia-se mulher desde a infância/ polaca registrou-se melissa/ e teve múltiplos orgasmos/ ao abrir as pernas em flor/ no pau do namorado goiano (PEDROSA, 2009, p. 45)

Difícil imaginar que hoje, em pleno século XXI, ainda vivamos resquícios desses tempos repressores, heranças do século passado. Mas Pedrosa e Santareno, em poesia como em teatro, nos apontam o caminho da luta e da emancipação como baluartes das mudanças sociais que tantos grupos, ainda marginalizados, como as mulheres e os gays, especialmente os travestis/transexuais, almejam.

 

 

 

 

 

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André Cervinskis é jornalista, ensaísta, mestre em Linguística pela UFPB. Produtor cultural, com vários projetos aprovados pelo FUNCULTURA-PE na área de Literatura. Com várias premiações nacionais e internacionais, tem 13 livros publicados em autoria própria e coautoria. Colabora com o site Interpoética e o jornal U-carboreto, ambos de Pernambuco, e o periódico Correio das Artes na Paraíba. Mora em Olinda-PE e teve avós lituanos. E-mail: acervinskis@gmail.com




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