The blind massage


……..UMA APPLICABILIDADE PRACTICA DA PHILOSOPHIA BUDDHISTA

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[1] Como todo poeta satyrico que se preza, costumo prophanar e phantasiar quaesquer themas, abbordados em quaesquer vehiculos, mas agora quero fallar a serio sobre um assumpto de interesse geral que, technicamente, interessa aos cegos em particular. Tracta-se da MASSOTHERAPIA PODIATRICA, que tambem pode ser chamada de REFLEXOLOGIA PLANTAR. O scientificismo das terminologias não é sufficiente para a comprehensão dos aspectos mais psychologicos, ou antes, espirituaes do nosso campo de estudo. Comtudo, cumpre destrinchar alguns conceitos. A noção “therapeutica” associada à massagem está commummente restricta aos effeitos physiologicos do tractamento. Nesse sentido, o etymologismo grego IATRO reforça a idéa physica da medicina, como em IATROPHOBIA (medo de ir ao medico) ou em PEDIATRIA (medicina infantil); quanto à PODIATRIA (onde o etymologismo é PODO e não PEDO), não se confunde com a idéa de pedicure ou de orthopedia do termo PODOLOGIA, dahi seu emprego mais appropriado numa visão abrangente. Mas será que PODIATRIA englobaria tambem as implicações holisticas do cuidado com os pés?

Alguns especialistas acham que, nesse caso, a designação mais especifica seria ACUPRESSURA PLANTAR, ja que a reflexologia pode ser extensiva às mãos e até ao rosto, emquanto que a acupunctura guarda parâmetros corporaes mais proximos da acupressura, isto é, o emprego massotherapeutico dos dedos para pressionar os ponctos energeticos da sola correspondentes a cada orgam do corpo, em suas diversas funcções e dysfuncções. Paresce-me egualmente adequado usar ACUPRESSURA e REFLEXOLOGIA como conceitos mais compativeis com o generico termo PODIATRIA.

[2] A comparação da planta podal a um “controle remoto” que mappeia todo o corpo, accionando e “syntonizando” cada area, é a que mais uso para exemplificar o character holistico da reflexologia. Entretanto, meu intuito neste preambulo é explicar por que e como a cegueira influe na capacitação do massotherapeuta e qual a relação entre tal “vocação” e a philosophia oriental. Comecemos, porem, com um habito bem occidental: quantificar e mensurar a informação. Trabalha-se, em paizes terceiromundistas, com a proporção de um a dois por cento de deficientes visuaes na população, mas não ha estatisticas precisas. Suppondo que um por cento seja uma estimativa conservadora, teriamos, só no Brazil, cerca de dois milhões de cegos. Si considerarmos que em paizes muito mais populosos, como a India ou a China, as condições são peores em termos de saude publica, calcula-se que dezenas de milhões não seria licença poetica, certo? Ora, exceptuados os quattro gattos pingados que, no Brazil ou na Asia, teem accesso à dicta “inclusão digital” ou a alguma profissão de “doutor”, os cegos que não estiverem relegados à mendicancia teem poucas opções de trabalho dignamente remunerado. Aqui é que entra a profissão de massagista.

[3] Tem-se como poncto pacifico que o cego desenvolve compensatoriamente os demais sentidos e que, portanto, estaria apto a empregar o tacto numa actividade especializada como a massagem. Não é de hoje que os institutos educacionaes para deficientes treinam e habilitam profissionaes que não só trabalham em clinicas, hoteis ou saunas, como attendem a domicilio. Eu mesmo conhesci alguns desses massagistas, hoje casados, paes de familia e quasi apposentados, mas sempre notei que elles só practicavam os estylos convencionaes da physiotherapia occidental e pouco sabiam das technicas asiaticas. Em outras palavras, a podomassagem reflexologica é algo recente por aqui. Só por aqui? Paresce que não, pois na propria China, berço da medicina alternativa mais “espiritualizada”, a capacitação de cegos para uma “massagem em massa” tambem demorou para ser considerada como politica publica. Na internet as noticias que circulam dão compta de que em 2003 essa offerta ainda era novidade para uma demanda crescente de extrangeiros. Um jornal de lingua ingleza, CHINA DAILY, trazia nessa epocha manchettes do typo “Massagem dá esperança para cegos” e divulgava depoimentos de deficientes que se sentiam integrados à sociedade graças aos cursos de massotherapia que lhes proporcionavam um emprego digno, do qual podiam se orgulhar, e por ahi vae. Ora, sabe-se que, na China, frequentar todos os typos e niveis de casas de massagem é habito arraigado. A differença, no caso dos cegos, era que estes estavam se habilitando naquillo que os turistas hoje conhescem como “blind massage”, synonymo de “foot massage”. Desde 1997 as agencias governamentaes e entidades syndicaes para pessoas com deficiencia vinham desenvolvendo a proposta de treinar cegos nessa especialidade e, actualmente, a “massagem cega” é chartão de visita para quem viaja à China, tanto quanto para a população local que tenha accesso a taes hospitaes, hoteis e consultorios, cujos preços variam e geralmente são mais baratos que o dos “spas” e “resorts” luxuosos. Um observador occidental relata ter lido que “O projecto nacional tem por objectivo despertar um mercado saudavel para a massagem por cegos attravez da creação de um systema que envolve formação, exames de qualificação profissional, registro de clinicas e exempções fiscaes, de accordo com Wang Tiecheng, director do Centro de Instrucção de Peking para Massagem por Cegos.” Consta que, em 2013, ja existiam mais de 40.000 massagistas cegos profissionalmente qualificados em toda a China. Desde 2002, 217 clinicas de “massagem cega” foram registradas na capital chineza, empregando mais de mil massagistas. O curso é aberto a deficientes visuaes entre as edades de 16 e 59 annos, em centros de formação locaes. Ha quattro niveis profissionaes differentes para classificar massagistas cegos – junior, intermediario, senior e master. A mesma fonte attesta o que significa “ganhar a vida e o respeito da sociedade”: em seu depoimento, um dos massagistas declara que “é muito encorajador que nós possamos trazer a saude, o comforto e o relaxamento para as pessoas normovisuaes, apesar de não termos, nós mesmos, a possibilidade de desfructar dessas coisas”.

[4] Outro viajante extrangeiro transmittiu pela rede virtual suas impressões sobre a “massagem cega”:

{Quem conhesce a China sabe que a vida do deficiente aqui não é facil, seja qual for o typo de deficiencia. E essa profissão accabou se tornando referencia para os cegos e tornando-os especialistas numa actividade onde o tacto, a sensibilidade de perceber o corpo do paciente, é fundamental. [...] Logo que cheguei a Shanghai, meus vizinhos me levaram para conhescer uma clinica proxima ao Carrefour, em Gubei. Differente dos tantos “SPAs” que ja visitei na China, essa não tinha nada de “glamour”, ambiente zen ou coisa que o valha. Mas os preços são infinitamente mais baixos e, affinal, o que procuramos é a massagem. Os locaes são modestos, limpos e collectivos. Quando você chega, elles perguntam que typo de massagem quer: corpo inteiro ou “foot massage”, a minha preferida. Esse typo ainda inclue uma massagem no hombro e nos braços, que é feita no inicio do processo e adjuda você a relaxar. Depois são 90 minutos de “relax”. E elles, sem enxergar e muito menos fallar nossa lingua, conseguem saber exactamente onde temos algum ”problema”. Mais de uma vez, ja vi o massagista chamar a moça da recepção (que geralmente falla um inglez muito basico), quando o paciente é extrangeiro, para pedir a ella que diga o que está sentindo pelo toque. [...] Primeiro, hombros e costas, emquanto seus pés estão mergulhados numa tina de agua quente. Depois, o massagista se posiciona em frente à nossa poltrona e inicia a sessão. Por exemplo, toca-se um poncto dos rins e, si o paciente manifesta descomforto ou dor, o cego trabalha naquelle poncto para alliviar o symptoma. Os principios da massagem chineza são os mesmos da acupunctura e, durante o tractamento, o massagista pressiona os ponctos-chaves. Isso occorre em clinicas de massagistas cegos ou não. Só acho que os cegos, como ja disse accyma, teem uma sensibilidade maior para perceber as coisas. [...] Para quem conhesce um SPA, com meia luz, musica zen, silencio absoluto, pode parescer extranho o “clima de festa” dessas clinicas: janellas abertas, as poltronas lado a lado, os proprios massagistas conversando entre si. A experiencia é differente da expectativa, mas é compensadora. A clinica que conhesço é essa em Gubei. Mas existem muitas outras espalhadas por Shanghai, e pela China toda. Quem estiver por aqui não deixe de experimentar.}

[5] Em outros depoimentos postados na rede, os visitantes narram:

{Nos hospitaes occidentaes, si você entrou queixando-se de problemas orthopedicos, elles o liberam depois de algumas radiographias e de alguns analgesicos ou antiinflammatorios receitados às pressas. Nada de physiotherapia, de chiropraxia, de relaxamento, nada. Mas nos salões de massagem de Shanghai (chamados em inglez de “massage parlors”), o tractamento é totalmente differente. Em vez de exames, consultas e remedios, você passa por toques manuaes, caricias e allivio psychosomatico. Em sessões de 45 ou 90 minutos, um entre dezenas de massagistas cuida dos seus pés apenas com os dedos. A acupressura é practicada emquanto você fica sentado. Nada de nudez total, nem de oleo, nem de força physica, nem de prostituição. Elles apenas descalçam seus sapatos, manuseiam suas solas até localizar os ponctos onde você tenha um “problema”, e pressionam meticulosamente aquelle poncto. Você pode incluir na massagem um banho previo em agua com hervas, mergulhando os pés numa tina de madeira, mas isso é opcional. O que impressiona é que um poncto massageado no pé tem reflexo directo na area do corpo onde você tem queixa de dor. E, o mais interessante, quem detecta e tracta do seu problema é cego, não vê seu rosto nem falla a sua lingua. E nem precisa.}

{A massagem cega se populariza como opção para quem quer alliviar as tensões physicas ou psychologicas do estresse. “Massagem” é termo generico que designa o manuseio, artistico ou scientifico, das partes macias do corpo. A origem do termo é controversa. Uns o relacionam ao vocabulo hebraico “me-sakj” (uncção, acto de ungir ou unctar com oleo), outros evocam o termo arabico “massa” (acto de tocar, sentir ou tactear), ou ainda o francez “massage”, allusivo à fricção ou, mais especificamente, ao acto de sovar o pão. Os ponctos de pressão incluem os ligamentos do corpo, tendões, musculos, junctas, pelle e tecidos conjunctivos. Typos mais especificos de massagem visam os vasos lymphaticos, o tracto gastrointestinal e outros systemas corporaes, manualmente ou com auxilio de apparelhos mechanicos. O massagista pode inclusive usar, alem da palma das mãos e dos nós ou da poncta dos dedos, os joelhos, os cotovellos ou os pés, em variadas technicas, aplicáveis a domicilio ou em hospitaes, clinicas, spas e saunas. Independentemente do estylo ou local de applicação, o importante é a efficacia, que depende da habilidade e da experiencia do therapeuta, razão pela qual cada vez mais gente prefere actualmente o serviço dos cegos. Na China, por exemplo, onde a massagem é costume popular, os profissionaes cegos, que compensam a falta ou perda da visão com a acuidade tactil, são considerados até como superdotados, porque conseguem canalizar suas energias para os demais sentidos. Accredita-se que elles enxergam com as mãos, que são capazes de captar os fluxos energeticos só pelo toque e, extraordinariamente, podem transmittir energia a outras pessoas. Si, mais que quaesquer partes do corpo, é com as mãos que o massoterapeuta actua, consequentemente um cego está credenciado para actuar com efficiencia, ja que tem maior experiencia tactil. Na Asia elle tem preferencia quando se pensa em contractar um massagista. Os deficientes visuaes, naquelles paizes, fazem da massagem sua fonte de renda ou, no minimo, de sobrevivencia. Quanto à clientela, vem demonstrando crescente satisfacção com o desempenho dessa classe de trabalhadores.}

Commummente os textos internauticos são mal redigidos, mas este que accabo de traduzir meresce transcripção do original por estar grammaticalmente acceitavel:

{A blind massage is becoming a popular choice for those who want to relieve tension as well as physical and psychological stress. Massage is a term used to refer to the art of handling soft tissues of the body. It is believed that the term got its name from several different origins. Some believe that it may have originated from the Hebrew term me-sakj or to anoint with oil or maybe from the Arabic term massa, which means to touch, feel or handle or from the French word massage meaning friction of kneading. Pressure points include the body’s ligaments, tendons, muscles, joints, skin and some connective tissues. More specialized types of massage target lymphatic vessels, the gastrointestinal as well as other body systems. It is often applied using mechanical devices or manually by a physical therapist, or a blind massage therapist using the hands, fingers, knees, forearms, and feet. There are several kinds of massages which have different techniques. This can be done at home, in the hospital, clinic or in spas or saunas. But no matter what type or where it is done, the most important is its efficacy. Its effectiveness is mainly dependent on the skills of the massage therapist. This is probably the reason why more and more people nowadays prefer the service of a blind massage therapist. In some countries, for example, in China, blind massage is very popular. Since blind massage therapists lack the sense of sight, these masseurs rely on their sense of touch. It is believed that due to their inability to see, a blind massage therapist channels his or her energy towards his other senses. These people see through their hands. It is also believed that people who lack their sense of sight are able to feel the flow of energy using their sense of touch. And amazingly, they are also able to transmit energy to other people. Massage therapy makes use of the feet, knees, arms and most especially the hands; it therefore follows that blind massage therapists are the authority when it comes to the efficient use of these senses. In Asia most especially, hiring a blind massage therapist has gradually become popular. Visually-impaired people in some parts of this region have made massage therapy their source of income. And indeed, most of their clients are more than satisfied with their service.}

[6] E no Brazil? Pedi para darem busca na internet e o resultado que me trouxeram dava compta de eventos muito recentes, si considerarmos que a educação de cegos ja funccionava no tempo do Imperio. Os primeiros anos deste seculo, por exemplo, marcaram uma novidade na capital paulista. Transcrevo a noticia que circulou na epocha:

{Cinco deficientes visuaes innovaram o campo dos profissionaes de massagem na cidade de São Paulo. Conhescidos como Quinctetto Maravilha, elles viraram massotherapeutas por desenvolverem a actividade de maneira efficaz, pois são mais sensitivos. “O deficiente tem mais facilidade com o toque”, diz Fabio Alessandro da Silva, integrante do Quinctetto. Hoje ja são 12 massagistas cegos que disseminam a proposta pela capital. O grupo ficou conhescido por levar a technica para o parque Burle Marx. Recentemente foi feita uma parceria com a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, a fim de ampliar a todos os parques. Os proximos serão: Ibirapuera, Villa Lobos, Trianon e Buenos Aires. Tudo começou com Sabrina Campos que, no anno de 2003, se dedicava a pesquisar de que forma o deficiente visual poderia se capacitar para gerir sua própria renda. Na epocha, chegou a conclusão de que as universidades não estavam preparadas para receber esse publico. Foi então que conhesceu sua massotherapeuta, uma cega. Em 2006, Sabrina creou a ONG Instituto Vera, com o objectivo de appoiar pessoas “portadoras de necessidades especiaes”, da qual surgiu o Quinctetto. “A idéa é fazer com que eles tenham sua propria clinica”, falla Sabrina. Ella conta que no inicio ganhavam em torno de R$ 40,00 por dia, mas actualmente a remuneração chega a R$ 180,00. “É um meio que a gente arrhumou para ganhar alguma coisinha”, declara Fabio. Neste mez [março de 2007] foi inaugurada a primeira clinica de attendimento do Quinctetto Maravilha, na Barra Funda, que funcciona dentro do Theatro Julia Bergmann (nome dedicado à filha do idealizador do theatro, Marcello Bergmann, uma garota também deficiente visual). A proposta está sendo levada para a Hespanha e outros estados brazileiros.}

A materia accyma dava o serviço como novidade, mas, si fosse para actualizar a recommendação, eu poderia indicar, a quem estivesse no meu bairro (Villa Mariana), trez ou quattro salões que offerescem reflexologia, que empregam cegos e até utilizam a monada chineza em seus logotypos, mas o serviço, alem de relativamente caro, tende a ser mais estheticista que therapeutico. Resalvo, porem, uma clinica de cegos especializada em massagem e que não cobra os olhos da cara, com perdão do trocadilho: fallo da Serenidade do Toque, na rua França Pinto, 231, phone 3253-5021.

Voltando à pauta anterior, apenas a perspectiva duma independência financeira, ou o serviço prestado em parques, comtudo, não são aquillo que characteriza a innovação mais importante. Tampouco o mero argumento da habilidade manual do cego, ou mesmo suas aptidões sensitivas. A ”massagem cega”, para ser bem comprehendida e explicada, depende de factores que só a philosophia oriental pode fundamentar.

[7] Farei uma breve explanação, cujos presuppostos serão detalhados e approfundados em capitulos especificos que estou escrevendo para um livro intitulado CURSO DE MASSOTHERAPIA PODIATRICA. Em linhas geraes, meu faro intuitivo e meu senso empirico levaram-me aos seguintes ponctos de partida: (1) Si o mappeamento da sola, em cada manual de reflexologia, appresenta divergencias “topographicas”, é signal de que as theorias e correntes existentes não são rigidas e estão subjeitas, para ser pleonastico, a advaliações subjectivas, que excappam ao pretenso scientificismo ou ao inflexivel dogmatismo de certos “professores” e “mestres”. (2) Si o proprio buddhismo, em suas diversas tendencias, pode libertar-se da orthodoxia escriptural para assumir um character, digamos, contraculturalmente meditativo, podemos presumir que um eclectico approveitamento de noções velhas e novas seja capaz de resultar em productivas experiencias. (3) As affinidades entre buddhismo e taoismo me interessam particularmente quanto aos dualistas e paradoxaes conceitos (yin/yang) do kosmogramma chinez, tambem presentes na bandeira koreana, cujas implicações practicas pretendo demonstrar no decorrer do programma que ministrarei, seja por escripto, seja “pondo a mão na massa”. (4) Emfim, presupponho que a efficacia da “massagem cega” esteja baseada num completo e complexo intercambio de energias entre massagista e massageado, de tal sorte que se attinja um perfeito equilibrio de forças e fraquezas que se complementam e compensam, aliaz uma imperfeitissima perfeição, ja que a monada do yin/yang implica simultaneamente em ser e não ser, em ver e não ver, em tudo e nada, em pathologia saudavel e hygidez doentia, para usar dois hybridismos grecolatinos. Mas taes noções devem ser apprendidas, ou antes, apprehendidas, paulatinamente. Primeiro veem as noções mais elementares da anatomia e da physiologia humanas reflectidas na planta do pé.

[8] Para esboçar uma descripção basicamente verbal do campo reflexologico, de forma que o normovisual leigo faça uma idéa panoramica, dispenso os technicismos e suggiro que o leitor imagine duas solas deante de si, como si elle fosse um practicante de meditação que estivesse sentado no chão e, de frente para elle, alguem sentado numa poltrona com as pernas parallelamente appoiadas num escabello. Os dois pés, encostados, formam as metades espelhadas do corpo humano. Differentemente das metades inversas do yin/yang (que formam um “69″), a figura representada por tal symmetria seria a dos parentheses que se abrem e fecham, respectivamente correspondentes ao pé direito e ao esquerdo, que do poncto de vista do massagista apparescem como esquerdo e direito. Mas deixo para o proximo topico os desdobramentos dessa reversiva dualidade. Por emquanto, basta a comprehensão de que cada sola pode ser massageada separadamente, como si cada lado do corpo fosse tractado à parte. Si verticalmente a planta corresponde a um lado do corpo, horizontalmente ella é attravessada por duas linhas imaginarias que a dividem em trez segmentos, fora a linha concreta que separa a sola dos artelhos. As duas linhas coincidem com os limites do arco plantar, a de cyma representando o diaphragma e a de baixo o colon transverso. Consequentemente, os pulmões estariam no segmento superior, que se encontra com a linha dos dedos, e o intestino no segmento inferior, que termina no calcanhar. No segmento intermediario ficariam o estomago e os organs adjacentes, como figado, vesicula, baço e pancreas. Obviamente o coração só pode ser “achado” no pé esquerdo do paciente, que corresponde ao direito do poncto de “vista” do massagista cego. Num pé cavo (bem arqueado), taes delimitações são mais palpaveis, mas o pé chato pode ser mais interessante em termos de subtileza entre as proporções do thorax e do abdomen. Quanto aos artelhos, as differenças entre os trez typos anatomicos de pés (grego, romano e quadrado ou “quadratus”) teem pouca influencia quanto aos effeitos reflexologicos, ou seja, um “pollegar” podal mais curto ou mais longo que o “indicador” pode, quando muito, exigir maior ou menor attenção do therapeuta para a area cervical da columna ou para as partes molles do pescoço, como no caso dum torcicollo. Si o grande artelho ou “dedão” é importante quando se tracta duma dor de cabeça, os vãos entre os demais dedos reflectem ponctos mais especificos: a commissura do intersticio que separa o “indicador” e o “medio” corresponde aos olhos, cada um num pé; o vão entre o “medio” e o “seu vizinho” (na mão seria o anular) corresponde aos ouvidos; entre o “seu vizinho” e o “mindinho” ou minimo, às narinas. Os artelhos, portanto, fazem o papel dos detalhes da face, emquanto o dedão representa o craneo como um todo dividido em duas metades. Completando a figuração, o espaço entre as solas que se tocam equivale a uma linha vertical imaginaria entre as partes pares do corpo, como entre as duas metades do cerebro: olhos, ouvidos, amygdalas, pulmões, rins, nadegas, sempre guardando as proporções, posições e distancias entre os organs. Detalhes mais subtis são a curvatura da columna equivalendo ao contorno interno das plantas, ou os braços e pernas accompanhando o contorno externo. Mais difficil, para um principiante, é localizar com a poncta dos dedos uma pequena glandula ou um canal, como a thyreoide ou o ureter, mas um profissional experiente chega la. Quanto à gradação na pressão dos dedos em cada caso de nevralgia, inflammação, syndrome metabolica, symptomas agudos ou chronicos, physicos ou psychicos, e demais casos de desequilibrio ou dysfuncção, não cabe aqui entrar em pormenores, até porque muitas pathologias e therapias envolvem divergencias entre orientalistas e scientificistas, entre inghamistas orthodoxos e revisionistas, como occorre na psychanalyse, na phytotherapia, na homeopathia, na parapsychologia e em outros departamentos inexactos da sciencia. Ao leigo as questões a serem esclarescidas são: Em que consiste a acupressura? Consiste na arte, ou na technica, de applicar os dedos da mão ao pé do massageado. De que maneira? Todos os dedos servem para “qualificar” e “quantificar” o pé tractado, appalpando-o por inteiro ou por partes, mas são os polegares os principaes “instrumentos de trabalho” do podiatra. Si a finalidade for basicamente relaxante, o cliente pode ser accommodado numa maca, em logar da poltrona, e seu pé hygienizado com alcohol em vez de agua aquecida, alem de lubrificado com creme inodoro, ja que o trabalho dos dedos será essencialmente deslizante. No caso da finalidade therapeutica o ropteiro se diversifica. Numa primeira etapa, dorso e sola são suavemente accariciados por egual e todos os dedos participam. Aos poucos, os toques vão se intensificando e concentrando nos ponctos em que o paciente manifesta descomforto ou dor, não incluidas as cocegas, que são facilmente neutralizadas à medida que o massagista ganha a confiança do paciente. Localizado na planta um poncto a ser “tractado”, o massagista usa seus pollegares para comprimir e friccionar, em movimentos gyratorios, aquelle local e seu entorno, de modo a dispersar e diluir a tensão alli (ou acolá) accumulada, até que a circulação e os estimulos nervosos se encarreguem de levar a sensação de allivio ao respectivo orgam e sua area cerebral. Algumas respostas aos toques, pressões e fricções são immediatas; outras dependem de tratamento prolongado e frequente, conforme o character agudo ou chronico do “incommodo”. O importante é que, mais que “curar” um mal ponctual, a reflexologia propicia um bem estar geral e uma sensação repousante ou cenesthesica em si mesma.

[9] Retomando uma passagem do topico 5 deste preambulo, quero encaminhar o leitor para uma conclusão provisoria a ser esmiuçada ao cabo do curso propriamente dicto: alem dos resultados concretos, sejam immediatos ou subsequentes, o objectivo é verificar até onde a dualidade unificada (ou unidade repartida) da monada taoista tem consequencias na postura do cego que se conscientiza de seu papel de massotherapeuta. Analysemos o alcance desta phrase: “Accredita-se que elles enxergam com as mãos, que são capazes de captar os fluxos energeticos só pelo toque e, extraordinariamente, podem transmittir energia a outras pessoas.” (No original, “These people see through their hands. It is also believed that people who lack their sense of sight are able to feel the flow of energy using their sense of touch. And amazingly, they are also able to transmit energy to other people.”) Quero emphatizar que o verbo mais appropriado não seria TRANSMITTIR e sim RETRANSMITTIR. Creio que o tacto, em pessoas bem treinadas, constitue uma forma de percepção extrasensorial. Até em pessoas não treinadas essa capacidade pode ser intuitiva. Não se tracta propriamente de paranormalidade ou de esoterismo, mas de canalização de energias psychicas attravez das connexões nervosas e circulatorias, a partir do intercambio entre duas zonas hypersensiveis, a da sola e a dos dedos da mão. Logicamente, o massagista cego vae absorver as energias negativas do paciente e, em troca, emittir energias positivas por meio dos toques dactylotherapicos. Pergunta-se: como é que elle só repassa boas vibrações ao cliente em vez das más? Simplesmente devido à sua condição de “perdedor” (no caso de ter ficado cego) ou de “privado” (no caso do cego de nascença): o individuo neutraliza symptomas alheios que, comparativamente à sua propria cegueira, tornam-se “males menores” e perdem effeito durante a manipulação do pé symptomatico, accabando por dissiparem-se. Ja as energias positivas, por outro lado, tendem a se propagar em escala crescente nesse fluxo de “duas mãos” entre o pé e a mão, uma vez que, para o cego, seu cliente normovisual approveita melhor as boas coisas da vida, por mais queixoso que ponctualmente esteja de algum “problema” transitorio. Essa “inveja” do cego em relação ao normovisual resulta benefica para ambos, uma vez que, absorvida pelo massotherapeuta, a “vantagem” do normovisual é “devolvida” ao invejado, cabendo ao invejoso, por sua vez, a reciproca vantagem de sentir-se gratificado por bem exercer sua actividade e por ganhar a approvação do paciente, sendo ou não remunerado o seu serviço. Tracta-se de um exercicio de altruísmo do qual os buddhistas, e não apenas elles, são capazes, justamente porque sabem conciliar o “eu” e o “outro” dentro da bipolaridade do yin/yang. A proposito, um dos aspectos mais typicos do kosmogramma circular é justamente a direcção indicada pelo encaixe das duas metades no formato do “69″, ou seja, o sentido antihorario. Ora, fallava eu, no topico 8, dos movimentos gyratorios do dedo que massageia. Si o impulso for de “empurrar” o fluxo de dentro para fora da mão direita, por exemplo, a tendencia do pollegar é gyrar justamente nesse sentido, mas, como o cego emprega ambos os pollegares e a reflexologia pressupõe reciprocidade energetica, ambos os movimentos, horario e antihorario, são dosados e, centrifugamente espiralados, traçam-se “percursos” de dentro para fora e vice-versa, até que as energias negativas se dissipem e as positivas se agglutinem. O raciocinio é analogo ao de outro symbolo mystico, a cruz gammada ou swastika, que pode ser nazista ou não, conforme descreva um “S” ou um “Z”. Si isso paresce confuso a quem só pretenda usufruir de uma pausa para relaxamento, esqueça-se a philosophia e tenha-se em mente o comforto physico de quem descansa emquanto o cego trabalha. Para um normovisual preoccupado apenas com seu bem estar temporariamente perturbado por algum “problema”, basta a sensação de que, perto delle, um cego tem problemas maiores e, mesmo assim, ou por isso mesmo, sabe como dar ao outro um allivio que ele proprio não tem para o seu definitivo “incommodo”. Dicto isto, encerro nosso pappo introductorio com um motte glosado que thematiza a impermutavel reciprocidade, taoisticamente fallando, da massagem cega. Como diz meu confrade Edson Cruz, “Paz e Vida Plena”!

MOTTE:

Massagem fazer pode tanto bem
àquelle que a faz quanto a quem a ganha.

GLOSA:

Principio japonez, chinez ou zen,
o facto é que, si holistico o conceito,
tal como a acupunctura e o cha bem feito,
massagem fazer pode tanto bem.
Melhor fará si aquelle que está sem
visão massagear quem de tamanha
desgraça não padesce: o pé se banha
em agua quente e appalpa-se na sola.
Trocada, a vibração aos dois consola:
àquelle que a faz quanto a quem a ganha.

 

 

 

 

 

 

 

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Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias “VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS” e “POESIA DIGESTA: 1974-2004″, além dos romances “MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS” e “A PLANTA DA DONZELA”. E-mail: mattosog@gmail.com

 




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