Tesouro de ausências


 

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Em um texto do final da década de 1960, o crítico Wilson Martins dizia que a crítica da poesia contemporânea no Brasil não se fazia pela análise dos grandes poetas e dos grandes livros. Para ele, naquele momento histórico, ela só seria possível pelo balanço periódico das tendências. Havia mais doutrinas sem poesia do que poesia sem versos, ou mesmo sem palavras. A percepção era que a década oscilava de forma contraditória entre a negação da poesia e a ânsia de uma superpoesia. Se isso, penso eu, não era de todo verdadeiro, revelava por outro lado o embate de forças que se realizava no campo da poesia.

Passados meio século, parece-nos que a coisa toda se acomodou. Com mais palavras, ou menos palavras; versificada ou não; com a implosão das formas fixas ou com sua recente revalorização; com os aspectos verbivocovisuais assimilados ou ignorados, o que permaneceu intacto foi a substância da poesia, aquilo que podemos afirmar estar além da palavra, mas que não se realiza sem ela.

Outra questão que se coloca é se a criação poética ainda teria algum papel a desempenhar e se ela ainda poderia responder a qualquer necessidade do espírito.

Considero todas essas questões legítimas. E creio ser possível partir de um grande poeta, ou até mesmo de um grande livro, para se reordenar ou se reconfigurar uma crítica relevante da poesia contemporânea brasileira, além do balanço periódico das tendências e fundamentada no encantamento da palavra poética.

O livro que possibilitou essa reflexão é uma antologia de 60 poemas do baiano Ruy Espinheira Filho, organizado pelo também poeta Leo Cunha, com o maravilhoso título extraído de um de seus poemas – para onde vamos é sempre ontem.

O encantamento da palavra poética é abundante na obra de Ruy Espinheira Filho, que arregimenta em sua poiésis um amplo repertório de formas e recursos: dísticos, sonetos, versos livres, versos brancos, rimas, métricas, poemas longos e curtos e recursos pós-modernistas.

Estamos diante de um poeta estudioso e conhecedor da artesania de seu ofício, atento às lições dos clássicos e do Modernismo, leitor de autores como Mario de Andrade, Jorge de Lima, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. A resultante, tingida pela sua sensibilidade, experiência atenta da vida, e sutil melancolia, só poderia ser uma poesia de alta fatura, bem acima do que encontramos na produção de grande parte da poesia contemporânea brasileira.

Com o lançamento de Estação infinita e outras estações (Bertrand Brasil, 2012), publicação que reúne toda a sua poesia até então, tem tudo para ser mais bem distribuído e circular além dos guetos regionais, dos leitores assíduos e atentos, visto que toda a literatura de qualidade ainda é refém das limitações de recepção e das barreiras ideomercadológicas para quem produz fora do circuito que chamo de sul-maravilha.

para onde vamos é sempre ontem é uma seleta estruturada com motes temáticos da obra de Ruy: os amores, a família, a memória, poemas sobre a escrita e a leitura. A fatura do livro evidencia um poeta essencialmente lírico e como o ‘ser’ do poeta – com seus juízos subjetivos, alegrias e dores da perda – toma consciência de si, dilacerado e enriquecido por sua rememoração.

Um trecho do poema aniversário, presente na quarta capa, dá a tonalidade ou o diapasão do livro:

Perdi colegas, namoradas, cães.
Perdi árvores, pássaros, perdi um rio
e eu mesmo nele me banhando.
Isto o que ganhei: essas perdas. Isto
o que ficou: esse tesouro
de ausências.

Vários poemas da seleção foram escritos em dísticos que nos remetem à estrutura tradicional da elegia, embora não se ajustem a métrica própria dos dísticos elegíacos.

No poema campo de Eros, nos deparamos com decassílabos que se misturam entre a elevação do decassílabo heroico, com suas tônicas na 6ª e 10ª sílabas poéticas e os afetos de elocução propriamente líricos do decassílabo sáfico com seus acentos na 4ª, 8ª e 10ª sílabas.

O poema se desenvolve em duplas de versos rimados (os dísticos) e termina ‘trucidado’, amputado pelo ‘amor’ em um só verso decassílabo sáfico. Notem que o campo de Eros, o amor na acepção grega (que é o amor romântico, sensual, mas também a força unificadora e harmonizadora, que se dirige para a beleza, para o bem, para vencer a morte, via pela qual o ser mortal procura salvar-se da mortalidade, deixando após si, em troca do que envelhece e morre, algo de novo que se lhe assemelha) acaba semeado e envolvido pela ‘dor’ e a ‘flor’.

O resultado poderia ser piegas (afinal, a mais manjada das rimas se impôs, ‘dor’/‘amor’), mas na elocução, dicção e ritmo que o poeta lhe impõe, se faz singelo e tocante.

Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.

E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.

[...]

e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor

por toda parte trucidado e em flor.

 

A lírica rasgada de melancolia é uma das constantes da poesia de Ruy Espinheira, uma dialética saturnal que sempre fez bem à poesia e, em especial, à reflexão da vida clivada pela passagem do tempo e a consciência pesarosa das perdas. Afinal, a jornada humana é marcada pela ruína, pela destruição, pela amputação dos afetos. O poeta mostra que o ganho no final das contas são as perdas. O que nos salva e redime são as imagens possíveis (tesouro de ausências; perdi um rio / e eu mesmo nele me banhando.).

No poema retrato, Ruy cria um espelhamento hipnótico de imagens. O rapaz que ele foi aos dezessete anos (ainda vivo em sua memória) a olhar/guardar o pai com trinta e nove (e ser olhado/guardado por ele) e constatar que tudo passou, o próprio ‘passamento/morte’ do pai já passou. O que resta é a memória, o que ela guardou em seu recolho (kairós) e a constatação de que hoje ele poderia ser (e talvez seja) o pai de seu pai, o avô de si mesmo, a emanação de um filho que se reencontra na eternidade da passagem do tempo.

Eu te vejo neste retrato
como te via aos dezessete anos.
Tinhas trinta e nove, luminosamente.
Como passaste, pai! Como passamos!

Há tanto tempo já que tu partiste.
Todo um mundo se foi – e vai, e vai…
Olho o teu rosto na moldura e penso
que tenho hoje idade de ser teu pai.

 

No poema mãe, também em dísticos, a perda matriz-geradora da vida é tematizada e chama-nos à atenção o uso das redondilhas, métrica por excelência da língua portuguesa, das cantigas da infância, da ‘batatinha quando nasce’, ritmo hipnótico por onde a saudade baila entre as palavras.

Era resoluto e forte
o rosto da tua morte.

E uma impaciência havia,
clara, nos traços: ardia

[...]

em teu rosto, que doía
em tudo que em mim sentia;

teu rosto que eu mais lembrava
em vezes que cintilava

no riso; ou sereno, terno
de longo ofício materno.

[...]

Ruy Espinheira Filho é um exímio artífice do soneto e um dos responsáveis pela sua sobrevivência entre nós. A produção sonetista de Ruy fez uma clara opção pelo molde italiano (14 versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, geralmente em verso decassílabo e rima abraçada nos quartetos [ABBA/ABBA] e cruzada nos tercetos [CDC/DCD]), alterando o abraço e o cruzamento das rimas.

O soneto é uma forma de excelência para um grande poeta. Sua estrutura rígida parece cercear a liberdade criativa do poeta e, por outro lado, estimular sua habilidade em tratar o ritmo e os vocábulos adequados. Embora a produção de Ruy não seja extensa, é notável.

Talvez, a única ressalva que faço a antologia, é que ela não faz jus aos melhores sonetos de Ruy. Sinto falta de vários. Mas, sabemos, uma antologia é sempre pessoal e limitada, e quem quiser que faça outra. Nomeio os que não poderiam faltar em qualquer antologia de sonetos em língua portuguesa e que não estão nesta: soneto de julho, soneto noturno, soneto da triste fera.

Presente na antologia, o soneto da tempestade no molde italiano, em decassílabo heroico, mas com entrelaçamento diverso a partir do segundo quarteto, liberando o posicionamento das rimas nos tercetos (ABBA/BAAB/CCA/BBA) e revelando certa limitação vocabular ao repetir durante o poema várias palavras para arredondar as rimas.

Sem nenhuma saudade de você,
disse há pouco o seu nome. Mas que estranho:
depois de amor tão vasto, sem tamanho,
seu nome relembrando sem que dê

um salto o coração. Sim, eis que estranho
esta distância em que mal se ouve ou vê
o que era a tempestade de você
que sonhei transformar em doce amanho

de almas. Inutilmente, que do inverno
veio apenas inverno, inverno, inverno
que vi matar-me e que já não se vê

nem mesmo ao longe, em mínimo tamanho.
E então, pensando bem, agora estranho
já ter tido saudade de você…

Enfim, apesar da ressalva, a antologia e a edição merecem aplauso. Ruy Espinheira Filho é um dos nossos grandes poetas. Não é todo mês que uma editora decide publicar poesia com este cuidado e apuro, e quase nunca encontramos antologias temáticas com poetas ainda vivos. Ponto para a editora.

 

 

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para onde vamos é sempre ontem

Ruy Espinheira Filho

Positivo

176 págs.

 

 

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TRECHO:

destino e fuga

 

Para onde vamos é sempre ontem.

(que é vário) ponderamos os nossos gestos

buscando

modular outros tão belos. E inúmeras

são as vezes em que nos inclinamos

sobre a fonte

que não reflete:

mostra

o límpido rosto do nosso

rosto

que já não nos fita dos espelhos.

 

Para onde vamos é sempre ontem. Como

de onde fugimos é sempre

amanhã.

 

 

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[Resenha publicada na edição de agosto do Jornal Rascunho]

 

 

 

 

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Edson Cruz é escritor e editor do portal MUSA RARA (www.musarara.com.br). Graduado em Letras pela USP, publicou três livros de poesia, uma adaptação em prosa do clássico indianoMahâbhârata e um livro de depoimentos sobre o que seria a Poesia. Seu poemário mais recente, Ilhéu (Editora Patuá), foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. E-mail: sonartes@gmail.com

 




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