Tango: Uma Desculpa para Abraçar


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Tango una Pasión Ilustrada
é mais um belo livro do filósofo argentino Gustavo Varela. Para situar esta obra se faz necessário lembrar que Gustavo Varela é o diretor acadêmico de um curso de pós-graduação chamado Tango: Genealogía Política y Historia. Outro ponto importante é salientar dois livros do autor, o primeiro é o Mal de Tango: Historia y genealogía moral de la música ciudadana e o segundo, La filosofia y su doble: Nietzsche y la música. Cito estes dois, porque o trabalho que Varela faz com relação ao tango a cada momento ganha mais contornos. O livro sobre Nietzsche e a música também merece ser mencionado, já que Friedrich Nietzsche e Michel Foucault influenciam na leitura que Varela faz da história do próprio tango, e neste momento temos todo o charme do autor que se junta a uma escrita leve e profunda.

Varela mesmo sendo um acadêmico produz um texto agradável de ser lido, pois a linguagem não se perde no castelo barroco do academicismo, ela é poética, contém uma beleza e um erotismo que é próprio do tango. A linguagem vai do barroco acadêmico à sensual palavra dionisíaca, assim não se perde nem o rigor nem a beleza caótica de se adjetivar o tango em suas diversas mudanças na história. A leitura torna-se filosófica quando encontramos a influência de Nietzsche e de Foucault, na forma com que é lida a história do tango, que passa a ser também uma história política com suas descontinuidades, contudo ela não se mantém somente filosófica, a obra transborda para a arte de suas ilustrações.

A obra de Varela é constituída de um prólogo de Javier Barreiro, sobre o tango e suas partituras, e outros oito capítulos, que podem ser lidos sem uma sequência. Nos dois primeiros capítulos se tem uma ideia bem clara com relação à história do tango – uma camada de leitura do livro. O prólogo (el tango en sus partituras) de Javier Barreiro aponta a origem prostibular da dança em Buenos Aires até a morte de Gardel. A história do tango feita por Javier Barreiro é com relação à história das partituras. Varela, por sua vez, no segundo capítulo, chamado El Tango nos dá uma chave filosófica para a leitura da história do tango. A divisão do autor se dá em três partes, uma erótica (um baile sensual), uma ética (um forte sentido moral) e uma estética (o tango se torna abstrato).
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O tango em sua primeira fase, a que Varela chama de erótica, data de 1880 até o tango canção de 1916. As características principais são o seu caráter erótico e sensual. Período que está em consonância com a questão social, a respeito da prostituição, na Argentina. Trata-se de um tempo também dionisíaco, no qual os passos do tango ainda não estão definidos, não se tem o controle do corpo, a métrica da dança, mas depois o tango se moraliza para sobreviver e perde a sua felicidade. Torna-se aquele tango mais conhecido, uma lírica triste da qual se baila. Então temos o momento ético de 1916 ao tango de vanguarda de 1955. A poética agora tem um forte sentido moral. As letras seguem a valoração, dos momentos políticos, sociais, a integração dos imigrantes, a emancipação jurídica e social da mulher. O último ponto da análise, na terceira fase é chamado de estética. Esta por sua vez é a mais atraente. Alguns a chamam de a Morte do Tango ou de um momento Apolíneo. Todas as duas questões têm seus pontos de verdade. O primeiro é porque com Piazzolla o tango se transforma tanto que existe uma dúvida se ainda é mesmo tango, ou outro tipo de música. O tango deixa de ser popular e fica abstrato, complexo, agora diz respeito à outra sensibilidade. Ele se mescla com o jazz, o rock, com Bela Bartok e com Vinícius de Moraes. O que se torna inteligível para tantos é visto como morte. Esta morte é de fato ressurreição, o que estava definhando era o momento ético do tango – para o autor de Una Pasión Ilustradaé a história que se faz presente em Piazzolla, como se nele estivesse toda a crise e dele emergisse a vanguarda. Piazzolla se transforma em destino no sentido heideggariano. Contudo, este mesmo Piazzolla que é abstrato também ganhará os aplausos populares com músicas como Balada para un Loco.

Um tango sensual, uma desculpa para abraçar, um amor cortês e solar, o caminhar junto, a mão que segura com força e solta com suavidade. Uma época moral em que os passos são ensinados, tudo parece se transformar em métrica, a dança ganha mais estilo e agora é ela que conforma o corpo, ao contrário de seu início, prostibular, alegre. A arte que se transforma em abstração, vanguarda, não mais se baila, mas é também música instrumental, se escuta no silêncio, no devaneio da solidão. O tango também volta em sua forma eletrônica, samplers, montagem e colagem, o tango transforma-se em tango queer, e questiona o gênero. Estes últimos aspectos não são tratado pelo o autor, mas com o livro já temos uma boa possibilidade de leitura da história do tango, na obra de Varela. Chamo de tango queer um outro período do tango (ver Tango: El Baile de los Cuerpos Dóciles ou Tango: El Baile del Cuerpo Esquizo), no qual há a junção do tango com a teoria queer, e ainda teríamos um esquizotango se pensarmos de forma extrema a esquizofrenização do sujeito na própria dança. Todavia em relação aos primeiros períodos do tango, Varela nos dá uma leitura histórica, filosófica e político-social do tango, junto a belas imagens, a belas partituras.

A cada artigo do livro temos diversas ilustrações que perpassam a interpretação dos momentos do tango. Artigos que isoladamente tem a sua coesão, assim gerando algo bom, a repetição e o acréscimo – variações sobre o mesmo compasso. Algumas vezes um mesmo tema é abordado em uma perspectiva diferente, ou mesmo somente aparecem acréscimos importantes, o que torna cada artigo singular e ao mesmo tempo conectado uns com os outros. Desta forma, com a linguagem musicada, o tango não é somente uma desculpa para abraçar, mas também para um pensar profundo. E é este pensamento profundo que é o grande mérito de Gustavo Varela.

 

 

 

 

 

 

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Rafael Leopoldo é formado em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pós-graduado na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e mestrando na UFJF. Autor do livro Temporadas de Abandono (2012). Como tradutor destaca-se o livro Pelo Cu. Políticas Anais (Editora Caligrafia) de Javier Sáes e Sejo Carrascosa. Contribuiu para a coletânea de textos sobre o cinema brasileiro no livro Directory of World Cinema: Brazil. Suas pesquisas perpassam a literatura, a dança, o cinema e a Teoria Queer.  E-mail: ralasfer@gmail.com

 




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