Sobre literatura de Fantasia


Um convite à imaginação: sobre literatura de Fantasia

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“De repente, alguns dos corpos alados que infestavam o céu se destacaram do enxame e desceram às ruas de Gar’nash-Bur. Eram insetos enormes, que mediam cerca de três metros de altura desde o final do abdome até a ponta dos grandes chifres curvos, fixos na horrenda e monstruosa cabeça. A espessa carapaça era coberta de espinhos e as seis patas grossas pareciam tão pesadas quanto árvores de tronco largo”. Esses são uns dos muitos seres estranhos que habitam Saga de um mundo despedaçado: o continente perdido, que sai agora em segunda edição pela Edições SM (a primeira havia sido publicada pela Scipione), de Ricardo Maciel dos Anjos.

Provavelmente, J. R. R. Tolkien, autor do consagrado O Senhor dos Anéis e de um estudo sobre histórias de fadas (Sobre história de fadas), chamaria a saga de Ricardo de Faërie, que incorporaria as histórias de fantasia e em certo sentido os contos de magia, segundo a denominação de Vladímir Propp.

A Faërie, segundo Tolkien, “contém muitas coisas além de elfos, fadas, anões, bruxas, trolls, gigantes ou dragões. Contém os oceanos, o Sol, a Lua, o firmamento e a terra, e todas as coisas que há nela: árvore e pássaro, água e pedra, vinho e pão, e nós, os homens mortais, quando estamos encantados”.

Saga de um mundo despedaçado incorpora todos esses elementos na fictícia Amak’Tok, centro do continente Umfer’Gul e capital de uma nação de homens-lagarto. Lê-se já na abertura do livro que em volta da mesa de uma taverna escura chamada “Salamandra Caolha”, aglomeravam-se “um homem-lagarto de escamas amareladas e focinho quadrado com um tapa-olho, fumando seu cachimbo; um orc velho de pele esverdeada, barba branca caindo abaixo do queixo e apenas um braço; e um humano encapuzado, fazendo-se de misterioso”.

São seres e lugares estranhos que instigam o leitor e satisfazem seu desejo de “inspecionar as profundezas do espaço e do tempo” e de “entrar em comunhão com outros seres vivos”, desejos dos seres humanos de um modo geral, como afirma Tolkien.

A saga de Ricardo segue o esquema básico de enredo das narrativas de Fantasia, ou seja, segue a sequência: casa – estrada – floresta –reino alheio [outro reino]. O que a difere de tantas outras é o fato de que grande parte dos seres que a povoam partem da imaginação fértil do autor. Ricardo une, nessa jornada, um homem-lagarto, que como todos os de sua espécie falam de forma sibilantes – “Sssorte ssua, Vissar, que meusss anosss de juventude já se passaram. Sssenão eu ssseria visssta como vergonha”–; um orc, uma espécie de humanoide, sem um dos braços; e uma elfa, que lança cristais de gelo. Há ainda outros seres desconhecidos, entre eles os Nok, os Áspis, …

Para que os leitores não se percam nessa civilização estranha e em terras nunca antes exploradas, Ricardo oferece a eles não só um glossário que define cada um desses seres, como também um mapa. Glossários e mapas, aliás, são duas características comuns a esse gênero narrativo.

As histórias de fantasia têm ganhado um público cada vez maior entre jovens, que seguem a saga de Harry Potter, de Percy Jackson, etc.. Os jovens parecem se identificar com o gênero, muito mais do que os adultos, talvez porque, diferentemente destes, não tenham pudor em entrar num mundo irreal, em se deixar levar pelo encantamento do desconhecido.

A respeito da Fantasia, Tolkien afirma que ela foi (à época do escritor e, diria, de alguma forma ainda é) vista como uma “arte subcriativa que prega estranhas peças ao mundo [...] e parece suspeita, se não ilegítima”.  Para muitos, prossegue Tolkien, parece “no mínimo uma tolice infantil, algo que serve apenas para povos ou pessoas em sua juventude”. Contudo o escritor faz um grande elogio a ela, já que, na sua opinião, “fazer um Mundo Secundário dentro do qual o sol verde seja verossímil, impondo Crença Secundária, provavelmente exigirá trabalho e reflexão, e certamente demandará uma habilidade especial, uma espécie de destreza élfica. Poucos se arriscam a uma tarefa tão difícil”.

Ricardo se arriscou, lançou-se num Mundo Secundário em sua Saga e, com “destreza élfica”, leva o leitor a embarcar em sua aventura pelos confins de Umfer’Gul.

 

 

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante é professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC, autora, entre outros, de James Joyce e seus tradutores (Iluminuras, 2015). E-mail: dwa@matrix.com.br




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