Sob os próprios pelos


 

 

 

Narrativa fantástica centralizada em torno das experiências inusitadas de um escritor frustrado, a partir da descoberta, em um sebo, do manual de um certo coletor de risos. Essa descoberta leva-o a retornar ao sebo e travar relacionamento com uma figura misteriosa, que lhe serve de guia, dando-lhe margens para buscar quem é numa jornada que oscila entre o onírico e o inexplicável no âmbito do real. Cria-se então uma atmosfera em que o leitor é levado a uma jornada que avança sobre essa coisa monstruosa e impura que tem muitos olhos e patas e desliza insuspeita sob as tramas da pele e do mundo. Resultado de premiação pelo ProAC, Sob os próprios pelos – Seres extraordinários sairá em coedição entre as editoras  Patuá e Dobra no mês de julho.
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Quem são esses seres extraordinários? Leia os dois primeiros capítulos e arrisque sua resposta nos comentários.

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Os autores das duas melhores respostas, além de receber em casa (via correio) um exemplar autografado de Sob os próprios pelos -seres extraordinários, receberão também um exemplar de O azul versus o cinza/O cinza versos o azul + um livro surpresa.

 

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Capítulo I

Ah, quantas palavras ao redor! E este silêncio. Com que palavras exprimir esta vertigem insuportável e quase impossível de ser partilhada? Nascem-me muralhas entre mim e um inimigo que ignoro completamente enquanto sonho. Acordo, e as muralhas ainda permanecem quando me deparo com a sombra desse guerreiro em meu encalço.

 

Encontrei o manual de certo coletor de risos entre os livros que comprei no sebo. Sou um colecionador daqueles livros em geral absolutamente indesejáveis. Sim, aqueles abandonados até mesmo pelo leitor impulsivo e indiscriminado, voraz de títulos de qualidade duvidosa, papel velho e amaldiçoado à mais rápida olhadela e que só faz a satisfação mesmo do velho sucateiro.

Frequentador de sebos e antiquários, não entendia que pudesse existir um sofisticado equipamento que detecta e absorve a energia calorífera irradiada de um sorriso [sic]. Menos ainda compreendi como esse manual pudesse acompanhar os títulos da Coleção sem mistérios que adquiri. Pouco depois de chegar a meu apartamento e quando já desfrutava de um pequeno cálice do Porto habitual de fim de tarde, comecei a notar uma cintilação intermitente saindo do interior da sacola que trazia as revistas. Uma pulsação luminosa, a princípio frouxa, crescia aos poucos escorrendo para fora da sacola. Essa bica visual encontrava ressonância no vinho que me subia a princípio leve e subitamente me colheu estupefato, como se tomado por um incêndio incontrolável não pudesse resistir à força das ondas e reentrâncias que me agarravam levando-me para o mar grande. Pouco sei de explicações que me levam ao conforto da imobilidade. Cacos do cálice na mão, acordei com a sensação forte da cabeça rachada contra a parede. O manual do coletor de risos não estava mais lá. Tampouco havia vestígio do ovo.

Cadê o ovo? A brisa do mar entrava no apartamento, e uma combinação perfeita de maresia, ondas e raízes de um incompleto movimento me tirava os sapatos e as meias. Sentia resvalarem aos pés águas, areia e sol. Como se me vencesse o esquecimento, percebi-me sem calças. Arrepiava-se a pele e os pelos dos braços à passagem de escamas e tentáculos. Agora nas minhas próprias mãos a cabeça oscilando divertida para fora da concha. Nasciam-me assim antigas lembranças e compreendi claramente que estava metido em uma concha ou ovo.

Será então o caso de fazer-me mais uma máscara? Quase sempre dissimulei minhas intenções. Mesmo nas sondagens honestamente mais comprometidas, tenho dúvidas se a busca é mera distração sobre a mesa de trabalho ou se é, na verdade, uma forma de traição para com esta inquietação que deixo escapar clara por entre os dedos.

Tenho me dito diariamente, desde a juventude, que sou um mau conhecedor das paredes onde vivo. Às vezes sinto-me esburacado por crer na inexistência de uma possibilidade de saída. Outras, janelas abertas, alargando bem os ouvidos, fico olhando e folheando os caminhos de um corpo sobre o outro. Camada a camada. Nas aproximações, enlaces e choques. O outro, esse temível adversário desconhecido, é algo como uma frase líquida escapando por entre as paredes de um texto inapreensível. Absolutamente perdido.

Estaria assim eu, isolado, dentro de um pequeno ovo que não se confirma inteiro e tampouco me ensina a ser mortal e autêntico? Recolhido dentro desta escrita ovo: casca moldura e também profundezas. Nascendo-me nos segredos da sombra, sonhando-me íntimo ao sangue nas fissuras da carne, noite e forma incompleta: bestiário esfinge excreção. Ela provoca-me à passagem por onde e como me derem por manifesto. Suspeito que é indiferente aqui, ali ou lá. Eu como ela, quantas vezes em fome de chão, altura, labirinto e deserto em rotação. Corpo e forma, princípio e fim, sou para ela qualquer espaço em uma errância limite.  Giro travessia mergulho ou hiato, o que é feito além desta casca ao limite irrespirável?

Ou seria esta escrita uma casca por dentro de outras, mal sobrepostas dentre as infinitas nuanças de um sentido gema no interior das profundezas de um mundo só aparentemente determinado? Por uma dessas estranhas combinações resultantes do acaso e da invenção, se eu mais outros fôssemos tão só uma realidade criada; se perseguidos estivéssemos como objetos de outro; se enfiados numa cidade ovo,  todas as personagens se ignorassem completamente e o destino de cada uma delas fosse determinado pela escrita de um terceiro, que é um perseguidor implacável que nunca se dá a conhecer?  Onde está então esse ficcionista insuspeito que nos faz instrumento e resultado de seu experimento e habilidade? Estarei eu sendo controlado como um morto-vivo, seguindo por falsos caminhos, porque tanto os ruídos e as obscuridades do passado quanto os hábitos e as sensações deste presente são um mero maquinismo e entretenimento do Criador? E dizer que alguns catedráticos pretendem que a realidade escapou à ficção, que a cidade não me permite chegar a seu autor, e este não vai além do ovo…

 

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Capítulo II

Retornei ao dia de ontem, ou ainda agora estou naquela noite flutuante de futuro? Entre as ruas do sonho e o dia a dia em habitual desassossego, persigo a última narrativa de um romance esquecido, tateando um redemoinho de cabeças lentamente entre as mãos e os escaninhos pouco acessíveis da memória.

 

Metido num ovo negro enorme, com cabeça, pernas e braços de fora, balançando à beira de um penhasco. Envolvido pela névoa espessa, o mar não se enxerga, mas está lá. Começa a ganhar nitidez um farol cujos holofotes se confundem com inúmeros sóis dispersando a névoa. Águas turbulentas expelem uma grande ave branca cujas asas em fogo reluzem. De dentro do farol sai uma descomunal serpente alada que arranca aos ares uma furiosa tempestade.

Tornei a acordar e senti que me rachavam a cabeça mais uma vez. Mas agora de dentro pra fora como se uma cunha se enfiasse ao longo do cérebro separando um a um os nervos. Novamente o cheiro de enxofre e a sensação de que me observavam. Polvos metidos em colantes rochosos agarrando-se a mim. Abri os olhos com a sensação de que me extraviava de algo muito importante e lembrei-me então do manual desaparecido. Levantei-me e tropecei numa aba do tapete. Notei então que havia montículos de areia úmida espalhada pelo chão como se, ainda indissipada, pulsassem as sobras da vazante em todo o apartamento.

Retornei ao sebo com a esperança de encontrar alguma publicação que me desse informações sobre o improvável coletor de risos. Dei com o sebo transformado em antiquário. Um funcionário explicou-me que todos os livros e revistas foram transferidos para outras duas salas, no fundo da loja. Perguntei-lhe, assim mesmo, se essa mudança não tinha mais volta e se havia algum fundamento no boato mesquinho de que o riso é sempre uma energia que, impossível de ser armazenada ou controlada, se dissipa facilmente.

O jovem, perplexo, não sabia o que dizer. Seu embaraço deixou-me impaciente e constrangido. Por sorte, esta cena que não durou mais que um minuto foi interrompida por uma voz em cascata, contínua e monocórdia. Aquele que ri sabe como as coisas maiores e mais difíceis são passageiras. Aquele que conhece o valor real das coisas sabe qual o valor do riso. O riso é ouro se não vale mais que cinzas. Só o amor e o riso conhecem o que é a verdade. É fato que o riso que vem do fogo das paixões, do mesmo modo que a ambição e a vaidade, é absoluta e refratariamente egoísta. Não procede da verdade. Esse riso que pode provocar um efeito desagregador de consequências previsíveis não vale mais que cinzas. Por outro lado, o riso é de matéria humana e nutre-se dela. O riso ressoa de uma voz que a repercute a outro. Ganha passos aéreos e, se alcança a um e se multiplica em muitos, rompe os limites estreitos e se faz praça. Gargalhada aberta e abrindo uma charla abundante. Essas ondas sonoras de fim de tarde, gargalhada aos galopes que se ouvem na praça, correm a carreira dos ventos. É certo que um riso desse calibre é como qualquer outra uma manifestação sensível de energia. É por tudo isso, com toda a verdade, um potente gerador de energia transformadora. Mas o que é que o senhor está mesmo procurando? Por acaso é mesmo esse extrator de riso que o trouxe aqui?

Assim mesmo se insinuou, diligente e exortativo, aquele que me pareceu inicialmente um misto de monge budista e personagem saído das telas de Magritte. Em pé diante de mim um homem com seu chapéu coco e sobretudo. De sua fala que parecia sair de uma caixinha de música chinesa tive por momentos a impressão de ouvir pinceladas de marinha com leve brisa maresia e gaivotas, invocando meus olhos a se esquecerem de que ouvidos não aparelham apenas com palavras. Algo me desconcertava profundamente nessa personagem que se materializava diante de mim. Sua imagem e modo de falar, por excesso de loucura ou lucidez, desfolhavam estranhezas distantes e ao mesmo tempo tão familiares. Com os olhos desmedidamente abertos de espanto, sabia bem que nunca antes o havia visto. Definitivamente não o conhecia. Mas com um desassossego que não podia ser traído, sentia a cumplicidade daquele homem como se ele e eu tivéssemos tido a oportunidade de partilhar um grande mistério ou talvez um pequenino segredo. Não sei como nem por quê, com um pasmo sem refúgio, intuía que não haveria em meu íntimo lugar secreto ante seu olhar e logo compreendi que ele me resumia a existência em apenas dois quadros.

No primeiro, um jovem que, junto com seus companheiros, serpenteava pedras com folhagem de águas, julgando possível dar porosidade às pedras e caminhos às águas: com fé inabalável no poder de seu gládio de luz, as águas amoleceriam uma a uma as pedras, tornando aquele sonho à beira-mar uma extensão de águas e terras fecundas em peixes e pães, tantos quantos os necessários para alimentar toda a humanidade.

No segundo, o jovem do primeiro quadro encontra-se bem envelhecido: os cotovelos e as pestanas amolecidos sob a satisfação cotidiana que dá cor ao mundo. Uma traça desliza pelas páginas dos livros que ele folheia e escreve. Sempre a mesma traça, reflexo e cor do mesmo traço mutilado, mas astuciosamente aceito. As águas parecem ter lhe indicado o caminho contrário, conduzindo-o a uma secura comunicante com os bens da terra. As pedras que ocupam diariamente o tijolo, o asfalto, casas e prédios, praças e presídios, ostentam a vitória definitiva sobre meu braço que, empunhando antes alguma coragem, cede sob o peso do gládio de luz.

O sujeito que fala a você, leitor, é, portanto, o mutilado do segundo quadro. É aquele que renunciou aos próprios sonhos e intenções, às mais secretas esperanças e meditações mais profundas. Aquele que, contraído à cova rasa dos dias cinzentos, não reconhecendo mais os próprios sonhos e ideais, desistiu há muito de si mesmo e, em razão disso, da própria literatura para pôr suas palavras a serviço da imaginação, sonhos e propósitos alheios. Tornei-me o cenário e a mobília de outros sonhadores. Sonhadores casuais, sem fome e febre na mão. Sonhadores pragmáticos que não respiram a volúpia dos grandes ideais e alegrias compartilháveis. Sonhadores de débeis paisagens, amesquinhadas no relevo da própria imagem narcisicamente refletida no espelho. Sonhadores sem a mínima originalidade, mas que me têm dado os bens da terra e o sol necessários para proteger-me contra as vicissitudes e transes da vida.

 

 

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O AUTOR: 

Marco Aqueiva é autor dos livros de poesia O AZUL VERSUS O CINZA & O CINZA VERSOS O AZUL (Patuá, 2012) – premiado pela Secretaria Municipal de Cultura de Atibaia – e NESTE  EMBRULHO DE NÓS (Scortecci, 2005) –  que obteve o 1º lugar no III Prêmio Literário Livraria Asabeça. Publicou ainda a novela SÓIS, OUTONO, SOU? (Dulcineia Catadora, 2009). Tem poemas e contos incluídos em antologias e revistas impressas; resenhas e críticas publicadas, dentre outros, na revista O Escritor, da União Brasileira de Escritores. Email: marco.aqueiva@gmail.com.





Comentários (6 comentários)

  1. Tere Tavares, Talvez eu já conheça os seres extraordinários. E não os posso nomear, porque indefiníveis e meus, porque não se mostra o que se promulga num sigilo. O sigilo ardente de um ser que se reconhece noutros, como se a si mesmo visse.
    17 julho, 2014 as 12:51
  2. carmen silvia presotto, Deixo também aqui meu comentário,Aqueiva! Bom, bom! E lembrei-me de um escrito meu: ” Se sou o que penso, onde está o que sinto?/ Ah…silêncio! / Ajude esta mão a caminhar pela vida. ” e depois de ler a resenha, digo: Se sou o que penso/ sou o eu que sonho. Sucesso. beijos. Carmen Silvia Presotto – Vidráguas!
    18 julho, 2014 as 18:52
  3. Tim Marvim, Meu caro Aqueiva, esse sujeito não seria meio parente do tal Olavo, que enricou em Serra Pelada???
    22 julho, 2014 as 19:13
  4. Marco Aqueiva, Tim, caro, você se refere a Olavo, dono de um dos mais afortunados barrancos de Serra Pelada, primo de Salomon Leroy, que se embrenhou mata adentro em busca de Dom Cresta, único sobrevivente da expedição do general Rodríguez. Sim, talvez seja essa uma boa aposta: um desafortunado escritor que se torna garimpeiro não poderia mesmo encontrar numa pepita outra coisa que não veios de palavras…
    23 julho, 2014 as 1:14
  5. Antenor Luiz Sanchez, Professor, não seriam as próprias palavras esses seres extraordinários, os livros, enfim toda linguagem? Pensando bem, só sei que nela me vi e em mim não me achei. parabéns, essa canja de dois capítulos deixou um gosto de quero mais.
    24 julho, 2014 as 14:20
  6. Marco Aqueiva, Tere Tavares e Antenor Luiz Sanches são os contemplados na promoção “QueM São eSSeS SeReS eXTRaoRDiNáRioS”. Cada um deles receberá o kit de livros anunciado: um exemplar autografado de Sob os próprios pelos: Seres extraordinários + um exemplar de O azul versus o cinza (de Marco Aqueiva) + um livro surpresa. Uma observação a ser registrada sobre esta iniciativa promocional: tendo recebido em algumas mensagens enviadas por email e em comentários de postagens no facebook algumas boas respostas, não compreendo por que não foram, aqui, registradas. Alguém habilita-se a dar uma explicação?
    28 julho, 2014 as 1:14

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