Rumo à Cicatriz Perfeita


 

 

Purusha é a consciência que observa os fenômenos

sem se identificar com o que testemunha.

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O eu se identifica com os fenômenos

e o sofrimento é fruto de seu engano e ignorância.

VEDAS

 

 

Quantas feridas emocionais você carrega consigo pela vida afora desde que nasceu? Faça um inventário, só, consigo mesmo. Conte nos dedos, se preferir. E estará se aproximando passo a passo, ou dedo a dedo, da pergunta decisiva: - É possível não ser ferido nesta vida? Esta pergunta pede que você se faça, antes, uma outra: - O que, em mim, é ferido? Atingido pelos estilhaços objetivos & subjetivos do mundo? Seu eu? Então, há um eu que recebe as feridas da vida. E, uma vez ferido, esse eu se torna reativo e passa a se relacionar agressivamente com os outros eus – e também consigo mesmo – ou defensivamente se retrai e constrói um muro de indiferença ao seu redor. E pronto: eis mais uma pessoa pronta para ser infeliz – alguém que apenas reage, vivendo em estado permanente de defesa ou ataque, não mais livre para agir. Mas que eu é esse? Ele existe? Segundo Krishnamurti, o eu é uma imagem que construímos sobre nós mesmos e é essa imagem quem se machuca. Essa imagem pode ser desfeita? Você pode libertar seu eu real? Voltar a viver por ações – espontaneamente – e não mais através de reações – condicionadamente? – Sim. Mas como atingir essa Libertação? Onde você e o mundo, agindo juntos, esconderam o seu Eu Real? Quando o primeiro livro de Krishnaji caiu em minhas mãos ainda muito jovens ele me disse para fazer assim: – Não lute contra esse eu ferido. Isso só criará mais conflito e novas feridas. Se observe, apenas se observe, sem se julgar – e você perceberá quando quem está agindo é o seu eu real e quando é a imagem do eu que fez de si quem está reagindo. É simples assim: se você age, é o seu eu real, se reage, é a imagem, o falso eu quem está predominando. Passei a praticar a recomendação de K através do que chamei: - O Eu em mim vendo o eu na vida vivendo. Entendido isso, podemos voltar à pergunta decisiva: - É possível não ser ferido nesta vida? Você só descobrirá desfazendo a imagem de eu em que passou a viver a Vida também como uma imagem. Imagem que, através dele, fez dela. Pois é justamente essa vida-imagem que fere esse eu-imagem. – Livre-se dessa existência de miragens que se alimentam reciprocamente. Quem poderá fazer isso por você? – Ninguém. Só você, em si e por si, pode libertar esse Eu Autêntico e passar a viver nele a Vida Autêntica. Não há guias? Sim, sempre houve apontadores de caminhos em todas as Culturas: os Vedas arianos, o Tao e o Chan chineses, o Zen japonês, o Budismo indiano, o Sermão da Montanha cristão, o filósofo grego Plotino, os Sufis e os místicos Rumi e Suhrawardi, no Oriente Médio & Eckhart, no Ocidente, os mestres Hui Neng & Dogen na Ásia – mas nada podem fazer por você a partir deste ponto. Nem o próprio Krishnamurti. E menos ainda os analistas em seus consultórios logo ali na esquina. Tudo dependerá, agora, unicamente de você. Porque um homem só pode transmitir a outro homem as informações que coletou e codificou a sua maneira e, no máximo, levam a um Conhecimento que cada um construiu – e assim há tantos conhecimentos quantos homens, e tudo o que está no limite do Conhecimento por sua própria natureza está destinado a se fragmentar em vários conhecimentos, em colisão e discordância, e é nesse território de variantes – também feito de imagens variantes – que nós estamos. Território de armadilhas. De que se nutre o eu-miragem e nutre a vida-miragem. Lugar incerto. Limitado & limitante. E onde estamos presentes como – Entes Humanos. E é só até essa nossa dimensão – de entes humanos, corpos sensíveis ao tempoespaço – que os conhecimentos reunidos por outro homem podem nos levar. Mas o Caminho da libertação – em que você vai precisar ser o sábio de si mesmo – para atingir o que você realmente é, em si, o seu EuReal, vai além. Leva ao não território ilimitado do Ser que também somos. Caminho solitário, até a fronteira do qual Alguém que já o fez o acompanhará, mas diante da qual para e lhe diz: - A partir daqui, vá sozinho.

Por que volto nesta página Sim de hoje aos assuntos interligados de que falamos nas últimas páginas passadas? – A Ciranda da Vida - Vida Criativa I: O caminho das pedrasVida Criativa II: A lição das águas – Porque algo ainda pode ser dito, sobre o Caminho, antes da fronteira final. Façamos isso?

 

Vida Criativa I: O caminho das pedras

Começou perguntando: – Você é uma pessoa criativa? Se você fosse Água, seria água corrente ou água estagnada? E nela vimos que oscilamos entre uma coisa e outra. Para escapar dessa agitação, criamos e nos transportamos para a margem de um Lago Sereno. Depois, a palavra Trânsito nos levou ao nosso dia a dia, e falamos na margem do nosso Lago da nossa vida, assim: – Trânsito é uma boa imagem, ajuda a entender, porque nos transporta para uma realidade que já conhecemos, não apenas mentalmente, mas vivencialmente. A vida, em nós e para nós, é mesmo esse trânsito, por dentro e por fora, objetivo e subjetivo. Vivemos nossas vidas como nas ruas: nos aceleramos nos sinais verdes, nos detemos nos sinais vermelhos. Mas nas ruas, no meio do trânsito, também podemos encontrar o nosso Lago Sereno, ou o Caminho do Meio de que fala Nagarjuna: o sinal amarelo. Um tempo de decisão. Diante dele, estou em disponibilidade: vou ou fico. – Faço a minha escolha. Mas posso ser empurrado para diante. É o trânsito objetivo. Trânsito da multidão humana sobre a Terra. No fundo, é bem diferente do trânsito subjetivo, individual. E tendo entendido isso, voltamos ao Lago e prosseguimos: – Digamos que aqui, à margem disso tudo, somos o que naturalmente somos. Aproveitemos para nos conhecer não apenas por fora, também por dentro – profundamente. Depois voltaremos ao que chamamos Civilização. Onde convivemos com uma coisa que conhecemos todos muito bem. – O que? O Medo. Vivemos em um mundo que tememos e que nos teme. Por isso nos controla, nos assegura para si, maneja as rédeas. Diante do Lago, então, eis o que entendemos: - Somos rebeldes porque não somos Livres. – Livres para sermos o que naturalmente somos: seres sem Medo.  – Seres sem Medo para sermos Criativos. Mas alguma coisa ficou ainda faltando. E nós a achamos, e chamamos de – O Centro, aquilo que realmente somos. Mas paramos por aí – sem chegarmos a esse O que somos.
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Vida Criativa II: A lição das águas

Trouxe a nós Chuang-Tsé, para nos ajudar a completar a travessia das pedras. E penetramos no Tao/Caminho que é ao mesmo tempo Onipresente – porque atua em tudo e nada é sem ele – e ao mesmo tempo deixa tudo livre para ser o que é conforme sua natureza – sendo também Oniausente. E chegamos à lição das águas para os homens. A Via das Metamorfoses, a Vida MóvelNão mais fixos podemos ser criativos. Jogarmos o jogo que nos joga –  e, livres do Medo, sabermos O Que Somos, e então nos permitir sermos o que for preciso que sejamos – já ser temer nos perdermos do Ser queimóvel em si, como ensinou Parmênides – é o Centro inalterável que verdadeiramente somos. Lembramos outro mestre do Tao, Lié-Tsé, nos dizendo: O puro e leve ascende e se torna o Céu. O inquieto e pesado desce e se torna a Terra. Os sopros intermediários, ao se misturarem humanamente, gerariam o Homem. E passamos a limpo a lição das águas, enquanto o Sol nascia sobre o lago: – Veja,  evaporando, a água do lago está se metamorfoseando em vapor de água. E aceita essa transformação – sem nenhum temor – usufrui desse Dom que tem de se converter de água, em estado líquido, em vapor. Como o Dom das metamorfoses é ilimitado, depois irá se adensar e se transformará em nuvem.  Virão os ventos e a levarão, já como nuvens, através dos céus, a sobrevoar talvez a Terra inteira. Nada a temer: para a Água suas metamorfoses são aventuras & uma ventura – desfruta dessa liberdade, do fluir através de suas mutações. Como uma das características do Dom das Metamorfoses é, também, jamais se fixar em uma das formas que momentaneamente assume, a ex-água em estado líquido, que se tornou vapor, depois nuvem – irá agora se transformar em chuva.  E choverá, retornando dos Céus a Terra – e a água verá que as metamorfoses por que passa são boas, benéficas. E até curativas. Se chover sobre o Sahara, vai fecundar a Terra ressecada. E se chover sobre um dos Polos vai repor lá a água que tiramos aquecendo o planeta. E a água, em mais uma metamorfose, se transformará em gelo. Mas em todas as suas mutações a água nunca deixou de ser o que, essencialmente, é – e sabe que é: – Água. Então, evoluímos rapidamente para uma compreensão que tudo resumiu: – Sabendo o que somos, achando o nosso Centro – a nossa autêntica Identidade – poderemos fluir de metamorfose em metamorfose, através das alegrias & das tristezas, livres de apegos e temores. E por fim aprendemos com as metamorfoses da água a superação das pedras do caminho, assim: Sermos Mutantes para sermos livres. Livres para sermos Sem Medo. E Sem Medo para sermos criativos. Essa compreensão nos levou bem perto da fronteira do que representa ser um ente humano e nos tornarmos mais capazes de superar nossas limitações humanas. O que ficou faltando?

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A Ciranda da Vida

Sendo uma página anterior a essas duas, voltar a nós. E nos lançar para outras metamorfoses, além das nossas, que envolvem e determinam as nossas. A Ciranda nos havia dito: a vida é um vai e vem constante. E nela se esclareceu uma coerência em sermos mutantes, quando falamos do que, segundo os Vedas, é a Lei que rege o nascimento & a dissolução de tudo o que, surgindo com suas formas, no Visível, se destina a regressar à não forma originária de que provém do Invisível. Falamos então do Prakirite & das Gunas, um dos mais antigos saberes védicos, que nos diz que tudo se deve ao sortilégio delas: Raja, Tatva e Satva, agindo sobre uma matéria prima, originalmente informe, o Prakirite. A primeira guna dá o Impulso inicial – que cria a forma das coisas, moldando uma porção do Prakirite/a segunda acolhe na Inércia as coisas já formatadas – como homem, peixe, pedra, estrela – para que permaneçam nas suas formas, por algum tempo/e a terceira as Dilui novamente no Prakirite.  O que vem após o retorno à não-forma? Recomeça o vai-e-vem, do qual não vemos o fim.
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Purusha

A partir daqui, se inicia a viagem necessariamente solitária de cada um, como Ser, para descobrir seu eu real. Atingida essa última fronteira que os conhecimentos humanos podem transmitir de um homem a outro, saltamos dos Entes humanos que somos – percorrendo o Ciclo menor, terrestre, segundo a Lição das Águas: do Sermos Livres para sermos Sem medo ao Sermos Sem medo para Sermos Mutantes – para as Mutações que o Universo nos destina, percorrendo o Ciclo maior, celeste – do Prakirite sermos formados e em nossa forma de homens por algum tempo sermos mantidos para sermos depois devolvidos ao Prakirite. Havendo entendido isso, segundo o Vedanda, desperta em nós um sereno Clarão: Purusha – o Homem como o Observador de toda essa Ciranda de fenômenos sem com eles se identificar. Ilimitado, no Saber do Ser, Purusha é aquele que vive no que chamo de A Cicatriz Perfeita. Onde a ferida nem chega a existir porque, nEla, sim, somos o antes das ilusões vulneráveis que para nós mesmos nos tornamos.

 

 

 

 

 

 

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Vicente Franz Cecim é escritor, cineasta e jornalista. Autor de Viagem a Andara oO livro invisível, nasceu e vive na Amazônia. E-mail: vfcecim@oi.com.br

 




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