Riverão e as veredas de Glauber


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Riverão Sussuarana (1977), de Glauber Rocha, relançado neste ano pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC), é, acima de tudo, uma homenagem explícita ao escritor mineiro Guimarães Rosa.

No romance, entre fatos reais e imaginários, Glauber conta como conheceu Guimarães Rosa, no ano de 1965, num congresso em Los Angeles, e como foi a viagem – essa imaginária — que fez com o escritor mineiro pelo sertão, onde “Seu Rosa soprou estorias fogueiras” e “montado no pampa tirou fotografias Polaroide Russa, Super 8 Video Nipônico”,  acompanhado de Linda, a amada de Riverão, herói jagunço da ficção de Glauber, a qual, “montada no Papagayo, voou sobre a boiada que se mexia na primeira manhã da viagem[...]”

O imaginário do sertão nordestino que Guimarães Rosa expõe em Grande Sertão Veredas é o mesmo que encontramos em Riverão Sussuarana. Além disso, assim como os personagens de Rosa, os de Glauber também falam “português Bugre misturando às contribuições milionarias de todos os erros como queria Oswald de Andrade”, e como se lê em Riverão Sussuarana.

Se Guimarães Rosa é referência explícita nesta obra, já o escritor irlandês James Joyce aparece de forma mais sutil, nas entrelinhas. Contudo, sua presença no romance não é menos relevante que a de Rosa. Sabemos que Rosa foi leitor de Joyce e absorveu-lhe as importantes conquistas técnicas, introduzidas no romance Ulysses, de 1922.

Apesar de não perdoar o escritor mineiro “por causa daquela vaidade que o levou à tomada de poder Akhadhemya Brazyleyra de Letraz”, Glauber considerava Guimarães Rosa superior a Joyce. Lemos, em Riverão Sussuarana, que “Rosupera James Joyce/ Grande Sertão: Veredas is melhor than Ulysses. Porque enquanto Joyce sublima a decadência/ Rosa trepa no sertão [...]”

Embora relegue o escritor irlandês James Joyce a segundo plano, em passagens críticas como essa, poderia afirmar que Riverão Sussuarana e Finnegans Wake (1939) possuem muitos pontos em comum, certamente buscados conscientemente por Glauber, que parece à vontade ao falar do legado do mestre de Dublin.

O último romance de Joyce, assim como o romance de Glauber, é uma espécie de compendio da história, misturando fatos reais com imaginários, o diário e a biografia com a ficção.

Sabe-se que, em Finnegans Wake, o escritor irlandês recontou ou questionou a história do seu país numa forma narrativa que rompeu a fronteira entre história e ficção.

Em Riverão Sussuarana, Glauber também reconta e questiona, quase em tom de desabafo, a história do Brasil: “Que Revolução? A de 1930 foi liderada em nome do desenvolvimento da industrialização, do Estado intervindo em benefício da burguêzya industrial, uma classe proprietaria moderna em relação ao aristocratismo latifundista destes gerais … é a velha guerra entre Barões da Terra e Empresários Portuários, boiadeiros e fabricantes de foguetes … o Brazyl é arcaico, filho de um Portugal atrazado, pobre, inculto … Ninguém na Semana de Arte Moderna falou na Revolução. A Coluna não tinha pensamento, rodou soprada pelo Humanysmo e se perdeu nas caoticas guerras expressas no suícidio de Getulyo.”

Quanto a Joyce, na sua ficção, o escritor tentou, por assim dizer, subverter a história, que ele via tanto como uma crônica de violência e opressão, quanto como um passado fixo que exclui outros possíveis passados e assim delimita o presente.

Há em Riverão o seguinte questionamento: “—A Hystória ou o Homem? Não é para o nada mas para a mudança da Natureza pelo homem”

Tanto em Finnegans Wake quanto em Riverão Sussuarana, temos uma versão bastante livre da história, cujo centro, para Joyce, é a Irlanda e, para Glauber, é o Brasil.

Serviria talvez para descrever Riverão Sussuarana as mesmas palavras que Joseph Campbell e Henry Morton usaram para descrever Finnegans Wake: “é um estranho livro, um misto de fábula, sinfonia e pesadelo – um monstruoso enigma [...]”. Mas um enigma que encerra também a história, ou questiona sua possibilidade de falar a verdade.

Enquanto “a mecânica” de Wake se assemelha à mecânica do sonho que “libertou o seu autor da lógica comum”, a insônia, que leva à fadiga e ao cansaço, como diria o escritor francês Maurice Blanchot, teria sido, a meu ver, o processo criador de Glauber em Riverão.

No início do romance de Joyce, o protagonista cai e morre, ou sonha que morre, a sua queda é anunciada com destaque nas páginas iniciais de Finnegans Wake.

No final de Riverão, o protagonista também morre – “[...] morri seu Rosa traido mas de frente no berro do ataque [...]”– mas ressurge lúcido, na página seguinte, tangendo uma boiada.  É como se apenas tivesse piscado os olhos, tirado uma soneca. A propósito, esse tipo de experiência que rompe as fronteiras entre a vida e a morte, a lucidez e o sonho, é tipicamente joyciana.

O fato é que, no romance de Glauber, o herói não pode dormir. Diz o protagonista que “se dormisse pra sonhar a Onça me comeria”. Curiosamente, o herói do sertão, num sentido metafórico e psicológico, é também a própria onça. Assim, o livro de Glauber se insere numa importante vertente da literatura brasileira que retoma os mitos indígenas e tem a onça como protagonista e modelo heróico.

Essa onça também encerraria um produtivo diálogo com o conto “Meu tio Iauaretê”, de Guimarães Rosa, que narra a transformação de um caçador caboclo em onça. Ou não seria essa onça o próprio escritor Guimarães Rosa? Nesse sentido, Sussurana, o alter ego de Glauber, teria medo de ser devorado por Guimarães, seu mestre maior. Nos mitos indígenas, convém lembrar, os xamãs se transformam em onça. E, conforme sabemos, os xamãs equivalem, grosso modo, aos nossos poetas e escritores.

De fato, o narrador de romance de Glauber luta para não dormir, para não sonhar, e nesses momentos sobrevêm relatos lúcidos e dolorosos, como o que descreve os momentos anteriores à morte de sua irmã Anecy Rocha.

Cabe lembrar ainda que em Ulisses e Finnegans Wake, de Joyce, e em Riverão Sussuarana, de Glauber, os gêneros se misturam e se sobrepõem: estamos diante de um romance, de um poema, de um monólogo, de uma peça de teatro, de uma descrição jornalística. Tudo se confunde, ganha importância e destaque.

 

 

 

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante é professora do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina.




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