Renata Pallottini


Consciência do trabalho urgente e humilde

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Poeta, ficcionista, dramaturga, e professora de teatro, cinema e televisão, Renata Pallottini nasceu em 20 de janeiro de 1931 em São Paulo, formou-se em Direito pela Faculdade São Francisco da USP (SP-Brasil) entre 1949 e 1953, tendo publicado seus primeiros poemas, nas revistas da faculdade, ao mesmo tempo em que outro curso na PUC/SP: Filosofia Pura na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), concluído em 1951. Em 1952 publicou Acalanto, seu primeiro livro de poesia. Em 1959 foi para a Espanha (Madri) como bolsista do curso de Letras da universidade de Madri e do Instituto de Cultura Hispânica e desde então se apaixonou pela cidade e pelo teatro. Em 1960 teve montada a sua primeira peça: A Lâmpada, com direção de Teresa Aguiar, em Campinas (SP).

Ainda em 1960 fez cursos livres de teatro na Sorbonne Nouvelle e de volta ao Brasil em 1961 começou a fazer o Curso de Dramaturgia na Escola de Arte Dramática-EAD/USP, onde defenderia sua tese de doutorado. Em 1961 teve encenada sua peça O Crime da Cabra, sob direção de Carlos Murtinho, sua estréia no teatro profissional. Em 1964 começou a lecionar História do Teatro Brasileiro na ECA/USP onde ficaria muitos anos.

Entre 1969 e 1982 publicou oito peças de teatro, foi roteirista do programa infantil Vila Sésamo e diretora da Escola de Arte Dramática da USP entre 1974 e 1976. Nas décadas de 1970 e 1980 trabalhou como tradutora e roteirista de telenovelas e séries para a TV, entre as quais Malu Mulher (TV Globo), a série Cabaré Literário (TV Cultura); a segunda parte da telenovela Os Imigrantes, com Wilson Aguiar Filho (TV Bandeirantes); co-roteirista do seriado de TV, Joana (produção independente).

Em 1988 Renata inicia suas atividades como professora convidada de Dramaturgia na Escuela Internacional de Cine y TV em San Antonio de Los Baños (Cuba), e na seqüência leciona teatro, televisão e cinema na Espanha, Itália.  Fez parte da União Brasileira de Escritores da qual já foi vice-presidente e de outras entidades ligadas à poesia e literatura e programas de ordem sócio políticas: foi presidente da Comissão Estadual de Teatro no período de 1969 a 1970; em 1987 foi Assessora Cultural da Secretaria de Estado do Menor em São Paulo, criando programas de interação entre a criança e o teatro.
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Poesia, teatro e prosa

Tem publicada uma considerável obra de poesia, prosa e teatro entre eles: A Casa (1958-Clube de Poesia, SP); Livro de Sonetos (1961-Massao Ohno Editor-SP); Faca e a Pedra (1962); Antologia Poética (1968, Editora Leitura, Rio de Janeiro); Os Arcos da Memória (1971, Editora do Escritor, SP); Mate é a cor da Viuvez (contos, 1975); Coração Americano (1976, Editora Meta, SP); Chão de palavras (Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977; Noite afora ( São Paulo, 1978;Cantar Meu Povo Massao Ohno Editor, SP, 1980); Ao Inventor das Aves (1985, J.R. Scortecci, SP); Esse Vinho Vadio (1988, Massao Ohno Editor-SP) – poesia Editora do Escritor, SP); Introdução a Dramaturgia (ensaio, 1983, Editora Brasiliense, SP); Tita a Poeta (infantil, 1984, Editora Moderna, SP); O Mistério do Esqueleto (dramaturgia, 1985, Editora Moderna, SP);

A Menina que Queria Ser Anja (1987); Construção do Personagem (ensaio, 1989, SP) Colônia Cecília (teatro, 1987, Editora Tchê, RS) A Vida é Sonho-tradução do clássico de Calderón de la Barca, (1992 Scritta Editorial, SP).

Os ensaios Introdução à Dramaturgia e Dramaturgia: Construção do Personagem tiveram nova edição em 1988/1989 pela Editora Ática. Entre 1994/1998 a autora publicou dois romances: Nosotros (Brasiliense, SP) e Ofícios e Amargura (Scipione, SP) e entre 1993/2000 mais dois livros infanto-juvenis: Do Tamanho do Mundo, Sempre é Tempo e O Livro das Advinhações (Editora Moderna, SP).

Obra poética é editada pela Editora Hucitec (São Paulo, 1995). Em 1998 Renata coordena e participa da Anthologie de la poésie brésilienne, (Editions Chandeigne, Paris, 1998) que reuniu quatro séculos da nossa história literária. De 1994 a 2001 publica os romances Nosotros (Brasiliense, SP) e Ofícios e Amargura (Scipione, SP); os ensaios: Cacilda Becker (Editora Arte e Ciência, SP) Dramaturgia de Televisão (Moderna – SP); participa do Júri do Prêmio Casa de las Américas; preside o Júri para Roteiros Inéditos do Festival de Cinema de Havana (Cuba) em 2000 e traduz e adapta para o teatro As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, que estreou no Centro Cultural Banco do Brasil em 2001 em São Paulo.

No dia 26 junho de 2006, Renata estava particularmente feliz por estar lançando na Livraria Cultura (SP) seu Teatro Completo (Editora Perspectiva, SP) alentado volume de 888 páginas que reúne toda sua obra de teatro: 21 peças, desde sua estréia em 1965, com prefácio de Mariângela Alves de Lima que vai dar pistas maravilhosas sobre a teatróloga já que situa o teatro de Pallottini no cenário do século XX e em suas próprias especificidades.

Ao longo de sua carreira Renata Pallottini recebeu vários prêmios entre eles: Pen Clube de Poesia em 1961, (SP); Governador do Estado e Moliére para peça de teatro em 1965 (SP); Anchieta para original dramático em 1969, (SP), UCBEU de tradução para teatro em 1971 – Rio; Medalha de Mérito da Câmara Municipal em 1971 em SP; APCA de tradução para teatro em 1974 em São Paulo; APCA de Roteiro de TV em 1977 SP; Medalha do Mérito Literário-Pen Clube em 1987-SP; 1996 o Prêmio de Poesia Cecília Meireles, concedido pela UBE União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro RJ; Em 1997 recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

Para o crítico Wilson Martins, a poesia de Renata Pallotini vincula-se à terceira geração do Modernismo. “Poeta independente das escolas transitórias e modas efêmeras, Renata Pallottini restituiu à poesia brasileira o elemento de emoção pessoal e literária de que começou perigosamente a se despojar com João Cabral (…), assim como, e por isso mesmo, passou a evidenciar uma integração cada vez mais sensível na vida coletiva, na existência política do Brasil enquanto nação, pagando o tributo inevitável, oneroso e paradoxal de restringir o alcance de sua poesia no ato mesmo de parecer expandi-lo”.

 

Carlos Drummond de Andrade dedicou a ela um pequeno, mas significativo poema:

 

Poesia de Renata

sob a música exata

há um tremor humano.

 

O verbo conta mais

Do que os jogos verbais

O mundo refletido.

 

O tempo, o ser, a morte

O invisível suporte

Do amor, por sobre o caos

 

Poesia de Renata

um reflexo de prata

no deserto noturno

 

Para saber mais sobre a autora além de ler suas obras, evidente, há um livro lançado recentemente que pode dar luzes sobre sua considerável produção literária: sua biografia assinada pela escritora Rita Ribeiro Guimarães, com introdução de seu aluno e admirador Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP e pesquisador da Rede Globo: Renata Pallottini Cumprimenta e Pede Passagem – Coleção Aplauso Teatro Brasil (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, SP-2006).

Continuando em plena forma aos 81 anos e em atividade constante, em maio de 2008, Renata Pallottini esteve no Teatro de Bolso do Orfeão de Águeda em Lamego, Portugal para assistir e comentar sua peça O crime da Cabra, posteriormente apresentada para a Universidade de Santiago de Compostela em junho de 2008 e filmada pela Televisão da Galiza. Tem um blog onde mantém seus leitores atualizados sobre suas atividades. Leio ali que ganhou em 2011 o titulo de professora Emérita da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, onde desde o dia 8 de agosto de 2012 ministra um curso de Dramaturgia para Teatro e TV a partir das 16hs as quintas feiras de 14hs as 17hs e totalmente grátis que pode ser conferido neste link: http://renatapallottini.blogspot.com.br/

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Chez Mme. (Maigret (Global Editora), SP, 2011), seu último livro é um romance policial-feminista onde a autora tenta salvar do olvido total a mulher do Comissário Maigret, criação de Georges Simenon. Esta mulher segundo Renata existia e tinha importância na vida e nas pesquisas do célebre detetive.

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Conheci Renata Pallottini na década de 1970 quando fazia teatro em São Paulo além de jornalismo e ela era presidente da Comissão Estadual de Teatro e íamos-eu e outros componentes do Teatro Rotunda, que ajudei a criar em Campinas, à sua casa para simpáticas reuniões. Quando escrevia para o Suplemento Cultura de O Estado de São Paulo fiz um perfil dela que saiu publicado em 26 de agosto de 1979 com o titulo Entre a poesia e o teatro que ela adorou segundo me disse. Mais tarde em 1993 quando fiz mestrado na Unicamp ela foi uma das entrevistadas para a minha tese intitulada Diálogos com a Educação. Então aqui vai o perfil e depois a entrevista que a enfoca mais como educadora e que diga-se, também adorei fazer porque a Renata é uma pessoa especialíssima-de uma calma, uma sobriedade, e uma consciência da humildade que os poetas tem que ter perante sua obra  raramente encontráveis.

ALV

 

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Entre a poesia e o teatro

A busca das raízes, a paixão pela Espanha e Itália, especialmente Roma terra dos antepassados, a forte ligação com a Faculdade do Largo de São Francisco, “os arcos” constantemente na “memória”, a consciência da necessidade do trabalho urgente e humilde, a disciplina e o equilíbrio, as emoções nunca exacerbadas, a calma densa, o intimismo e a participação social na poesia, o amor pelo teatro, por longas conversas ao pé do fogo, pelos amigos, pelo vinho, tudo isso compõe a poeta, dramaturga e ficcionista Renata Pallottini.

Em vinte e cinco anos de poesia (até esta data-seu primeiro livro Acalanto foi publicado em 1952 e o ultimo até aquela data: Noite Afora publicado em 1978), Renata não tinha de fato do que se queixar: vendera 25 mil exemplares dos seus treze livros publicados até então. Apenas um: Chão de Palavras, uma seleção de grande parte de sua obra poética teve uma tiragem inusitada para o Brasil: 15 mil exemplares. E seu Livro de Sonetos, de 1961, laureado com o Pen Clube de Poesia, estava, na época, indo para a terceira edição.

O que isso significa?Um milagre, num país onde corre a lenda segundo a qual poesia não tem público? Para ela não há mistério algum. “O que ocorre em geral no Brasil é que os editores editam e o livreiro esconde no fundo do balcão. Na verdade aconteceu com Chão de Palavras foi um fato muito simples-o Circulo do Livro que possui um esquema muito bem montado, se dispôs a vender o livro. E quem quiser vender poesia no Brasil vende. Basta que tenha qualidade.”

E qualidade é coisa que não falta á poesia de Renata Pallottini, considerada uma das mais altas vozes poéticas do país, que começou a escrever muito cedo, como todas as crianças que querem se comunicar com o mundo.

“Há um momento na infância em que a criança se sente muito só, sente dificuldade em se comunicar. Cada criança que tiver sentido esta reação vai tentar compor seu mundo, cantando, desenhando, escrevendo, enfim, criando em qualquer área e aí vai descobrir suas fundações. Começa escrevendo coisas sem forma, numa tentativa inicial de objetivar sentimentos, fazer contatos. Leva tempo até se adquirir um tipo de linguagem em que sinta que pode fazer contato. Até que os textos tenham alguma qualidade estética.”

Acalanto publicado aos 18 anos foi a primeira tentativa de “contato” mais concreto de Renata Pallottini. Depois vieram: O Cais da Serenidade (1953), O Monólogo Vivo (1956), Antologia Poética em 1958. E neste mesmo ano A Casa, livro onde, segundo o critico Adalmir da Cunha Miranda, que assina o prefácio, “a poeta abandonava o exercício e ingressava no oficio poético.” Passava do intimismo, que caracterizava seus poemas anteriores, “para uma área em que as disposições de espirito já não se consumiam consigo mesma, mas projetavam-se na paisagem, nos seres e nos acontecimentos envolvendo-os e valorizando-os em instantes de poesia.” Em outras palavras o critico marcava uma maturação na poesia de Renata Pallottini. De uma fase de “exposição de forças” ela passava para outra já com certeza do que estava fazendo.

“Meu primeiro livro era muito imaturo. Já A Casa apresentava uma outra vivencia. Um livro novo que tem que corresponder a um novo período, novas experiências. Às vezes é um pulo grande de um período em que o poeta está armazenando material que mais tarde expressará. A poesia é como uma fruta: se você não comer na hora vai comer tarde.”

Renata confessa ter fases intensas de criação e outras de amadurecimento: “Esse moinho-o poeta/que em solidão tritura/e amargo grão esmaga/esse operário/ que em fino pó transforma/o que lhe dão de carga//…// “eu que amontôo o grão porque não sei/sepulta-lo na terra.” (1)

Mas não precisa de ambientes especiais para escrever. Por isso tem sempre na gaveta do criado mudo uma caneta e um caderno. No meio da noite, às vezes, anota poemas que já vem prontos. “Já escrevi à maquina.Não preciso de climas especiais.”

Seria possível dizer que a poesia de Renata evolui de um vocabulário preciosista, muito voltada para relações atávicas, de antepassados, de mãe e pai morto, para outra, onde se vê nítido, a introdução do social, como sente o dramaturgo Lauro César Muniz?

“Tenho deleite em ficar escrevendo sobre as raízes. Eu me pergunto sempre de onde vim o que contribuiu para cada pessoa ser aquilo que é. Sem dúvida, grande parte do que somos vem de nossos antepassados.” E no caso de Renata Pallottini a poeta se pergunta o que teria levado aquelas pessoas a enfrentar uma viagem por mar-afinal um ato de coragem – em fins do século XIX, desligar-se de sua terra, seus costumes, e vir para uma terra estranha. “Que motivos tão fortes ocasionaram este transplante de gente?”

Quando esteve pela primeira vez em Roma, terra de seus avós, Renata teve a sensação de já ter estado la. Aquilo era o seu chão. Por isso essa pesquisa de raízes a interessa tanto, já que não é saudosismo, mas a aceitação da vida, mesmo quando se sofre. Não é culto aos mortos. É procura, busca. “Afinal quem fez isso que é você? Como essas coisas se juntaram para formar esta pessoa, com estas idéias, esses sentimentos, e emoções, essas sensações? Que mistério é este?”

Por isso quando Renata Pallottini fala de seus antepassados, da Europa, de Roma, na verdade tem a sensação de estar fazendo esta viagem ao contrário. Toda esta ligação com este mundo, é na verdade uma tentativa de compreendê-los, numa viagem as avessas.

“Vossos nomes, se não o sabeis, antepassados, /estão gravados entre linho e seda/nos velhos livros deste município. / Ali vos encontrei jovens, donzelas, camponesas e quase aristocratas. //Nestes fragmentos vos revejo, mas/quem me compõe? Quem sou? /Meus olhos, minha boca,/ em que momento haveis construído a boca//E as mãos, e o coração e o meu tormento,/minha mágoa, onde estão nestes guardados/”(2)

Sua paixão por Roma, no entanto não é menor da que sente pela Espanha onde esteve pela primeira vez em 1969 para um curso de Literatura, Estética e Estilística, na Universidade de Madri. Apaixonou-se por Madri, pelo povo. É o lugar para onde, sempre que pode volta, onde tem amigos e livros editados.

Os poemas sobre a Espanha são sempre apaixonados: “Cidade do meu alvedrio da minha escolha, da minha liberdade. /Reconstruída sempre dentro de mim, como um filho, /depois ressuscitada em longas horas de lembrança. /Cidade minha, companheira minha/ de frio e de aflição, de maravilha e espanto, /corre nas minhas veias o vinho de teu sangue, /vinho de obreiro, perfume de árvore na primavera, /visão da vida reverdecendo… Cidade alta e clara/de morenas insônias musicais, /taverna da minha embriagues e de um dia, /de que guardo o ressaibo e a loucura/jamais perdida, jamais reencontrada,/ai de mim, nunca mais, nunca mais repetida…./Guarda de mim, cidade, a visão de tua praça:Praça Maior de toda a  minha vida.”(3)

Ou então este quase êxtase estupendo: “Ah. Salamanca. /O sal/com que amo Espanha.”.

Foi inclusive na Espanha que Renata Pallottini começou a escrever teatro. Ja havia feito ainda no Brasil algumas adaptações de contos brasileiros por volta de 1958/1959 que enviou para um concurso promovido pelo Teatro de Arena em São Paulo. Sua adaptação de Sarapalha de Guimarães Rosa deu a Renata o segundo premio. Mas Monólogo Interior, escrito em Madri, foi de fato sua primeira peça até e que ela considera seu primeiro exercício. Em seguida vem O Crime da Cabra montada pela Cia. Nidia Licia e que obteve o Prêmio Moliére de 1965 e o Prêmio Governador de Estado.

Inspirada no Cerco de Numância de Cervantes escreve O Escorpião de Numância-a história de um povo cercado que prefere perecer a ser dominado por outro, estrangeiro. É sua primeira tentativa de juntar poesia e teatro que lhe vale o Prêmio Anchieta de 1968.

O tema da justiça que já aparecera em O Crime da Cabra reaparece sempre no teatro de Renata Pallottini. As quatro peças curtas: Uaite Cristimas, O Vencedor, O Exercício de Justiça, e A Lâmpada que compõem o livro Pequeno Teatro ainda que não tenha, como diz a própria autora “um fio que as unisse, tem toda uma preocupação com o destino do homem, sua sobrevivência, seu caráter, e talvez subjacente uma grande dúvida com relação ao que se chama justiça”.

Essa duvida é anterior à escolha do Direito, ou é fruto dos tempos duros em que vivemos-lembrar que estávamos em ditadura militar-em que a justiça parece ter sido definitivamente banida do coração do homem?

Renata admite ter tido sempre “uma visão um pouco romântica da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.” Para ela a Faculdade das Arcadas era um ninho de poetas, escritores e “até mesmo” advogados. Fez o curso com muito empenho e a partir daí veio esta dúvida em relação à justiça: humana, falível, limitada, dependente de critérios humanos.

“Nem sempre a gente é capaz de administrar bem essa justiça. Há nuances, coisas difíceis de resolver.” Por exemplo, de quem é a cabra da sua peça?Do antigo dono, ou do futuro proprietário cujo dinheiro a própria cabra comera?E ainda; porque alguns já nascem proprietários e outros não?Se você herda e o outro não, onde está a justiça disso?

O largo de São Francisco para Renata Pallottini era: “o beijo da liberdade, os cafés da madrugada, a aventura, a loucura inicial, o som da fala ao ouvido de alguns mestres basilares, o duro ensino tortuoso, a lei imposta e entendida, os novos sons da política”.

Por ser tudo isso, por ter no largo de São Francisco “seus amigos, seus amores, por ter tudo começado no largo de São Francisco”, a poeta diz: “Ano após ano caminho/mas sempre estou rodeando o largo de São Francisco/sonho voltar e me entendo/no largo de São Francisco”.

Reconhece: “Sempre estive renascendo/sempre estive me fazendo, amando no espaço livre do largo de São Francisco…”. Que afinal, “está cada vez mais cercado/agora está cada vez mais exíguo.” E perplexa a poeta pergunta: “Até onde o possuiremos/até onde é largo aquilo? Até onde nada é largo? Até onde vai tudo isso? (4)

Mas o problema da justiça não se limita para Renata Pallottini apenas à questão da propriedade privada. Essa é apenas uma das formas com que abordou o tema, tratado sob ângulo diverso em Exercício da Justiça onde um criminoso acaba sendo metralhado pela policia no fim de várias tentativas infrutíferas de sair “do circulo vicioso” do crime. É a corrupção empurrando a pessoa para a criminalidade, na qual esta permanece induzida pela própria policia, que deveria protegê-la.

Apaixonada pela Escola de Direito, Renata Pallottini descobriu, no entanto que se interessava mais por seus fantasmas que pela própria Escola. Daí passou a dizer que “escritor é aquele que sabe descrever seus fantasmas”. Daí que sua peça Enquanto se Vai Morrer é a história da Faculdade de Direito em várias épocas: a Revolução de 1932, a Segunda Guerra, a época dos poetas românticos, a figura de Júlio Franck, líder maçon, fundador de uma célula maçônica que por impedimento da Igreja acabou sendo enterrado na Faculdade. Renata discute na peça problemas da sua geração, que conseguiram realizar que não conseguiram, e que afinal acabou resultando em abril de 1964. Ações concomitantes contam a história das Arcadas, de suas origens até hoje.

Enquanto se Vai Morrer foi vetada pela Censura e Renata Pallottini reconhece que este fato causou um “vazio enorme” “uma grande defasagem”. A censura “provoca um vácuo no autor, fica uma coisa atravessada na garganta”.

 

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Trabalho humilde disciplinado

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O mergulho nessa realidade, que era a realidade do país nesta ocasião, a reflexão sobre toda esta problemática, levaram Renata Pallottini a ser uma pessoa consciente da urgência do trabalho humilde, disciplinado. Seu dia a dia reflete esta disposição de espirito. Pouco notívaga: “vivo durante o dia a à noite gosto de dormir mesmo ”- nunca acorda antes das nove por achar absurdo.Dispensa boates e reuniões com muita gente onde as pessoas se comunicam aos berros e de longe.Prefere o aconchego de pequenas reuniões  com amigos.Poucos e bons.”

Pela manhã fica “ciscando” um pouco reunindo material, organizando coisas para o período de trabalho firme que vai geralmente das 14hs às 19hs. Depois do almoço- “gosto de almoçar em casa- não me sinto bem emendando tudo, de manhã até a tarde”. Lê dois jornais e recebe os telefonemas dos amigos que sabem que nesta hora está perto do telefone, enfim conhecem seus hábitos.

Adora café, mas como não pode tomar muitos, a hora do dia que mais  “curte” e para o qual se prepara é a hora do cafezinho das 16hs.Renata diz que  “pára tudo” e o café é recebido com todas as honras.Jantar sim, Renata gosta de jantar fora, com os amigos que juntamente com o cinema e o teatro são as grandes paixões da poeta.Os fins de semana, Renata Pallottini passa em seu sitio de Atibaia: “uma casa com lareira e piscina e um cachorro,” um Dobermann que adora e que tem paixão por ela. “É absolutamente impossível ter outro, porque ele morreria de ciúme.”

Às vezes Renata vai na sexta feira e fica até segunda, num fim de semana esticado.Mas mesmo no sitio, onde pretende se instalar quando parar as aulas na ECA onde lecionava na época Dramaturgia e na Escola de Arte Dramática onde ensinava Teatro Brasileiro, Renata trabalha.e muito. O silencio, “as solicitações menor-poucos sabem o numero do telefone” fazem o trabalho render.

Mas eventualmente Renata Pallottini rompe com essa rotina fértil de trabalho para ocupar cargos públicos onde se exercita no serviço à comunidade, embora saiba que este tipo de encargo sacrifique muito a carreira do artista. Não se arrepende, por exemplo, de ter sido presidente da Comissão Estadual de Teatro no período de 1969 a 1970 para onde à convite do (atualmente falecido) Décio de Almeida Prado, na época critico de teatro do jornal O Estado de São Paulo, além de integrante da Comissão juntamente com Sábato Magaldi e Anatol Rosenfeld.

Renata Pallottini entrava para o cargo quando Cacilda Becker o deixava “esgotada e talvez doente.” Comparando o temperamento das duas, Décio de Almeida Prado conta que Cacilda sofreu muito com o cargo, já que seu gênio não admitia eventuais perdas.Ja Renata, mais calma e comedida, não se perturbava com uma ou outra batalha perdida. “A comissão”, conta Décio “se reunia, a havia a votação e ganhasse quem ganhasse não havia qualquer espécie de competição ou rancores”.

Décio atribui isso à ausência a de vaidade de Renata Pallottini, o que fez com que na sua gestão não houvesse qualquer espécie de choque. Mas sem duvida, tanto a Cacilda quanto a Renata eram pessoas extremamente dedicadas à causa pública. Cacilda sofria mais, por causa do seu temperamento.”

Foram anos duros para Renata Pallottini, mas que valeram a pena. Ela parou seu trabalho de escritora e a poesia para se dedicar integralmente a CET. Disse adeus ao trabalho literário e divertimentos. Queria dar um tratamento especial a todo mundo. Tratar as pessoas como gente, seres humanos que procuravam a comissão não apenas para pedir verbas, mas para informações, trocar idéias.

Renata Pallottini chegou ao final de sua gestão com um trunfo conseguido por poucos: sem inimizades. “Isso porque”, segundo “ela,“ a Comissão era extremamente competente. Nunca tivemos uma “Comissão como esta, para julgar e deliberar.” Conta que ela, Décio, Anatol e Sábato faziam longas reuniões onde debatiam assuntos difíceis, espinhosas como  por exemplo a questão do teatro popular. O teatro feito para o povo ou pelo povo?E as tentativas que se diziam teatro popular e não atingiam o povo?E se o povo vai fazer seu próprio teatro, como ajuda-lo em suas carências e dificuldades?Como fazer se mal tem tempo para as coisas mais essenciais, se o trabalho pela sobrevivência esgota, para motivá-lo a estudar teatro?Como criar cultura para o povo, eis as perguntas que se faziam continuamente.

Por isso durante a sua gestão decidiu-se que todos os segmentos receberiam auxilio da CET. Não haveria grupos privilegiados: as subvenções seriam distribuídas de maneira eqüitativa para o teatro universitário, teatro amador, teatro popular, sem esquecer os profissionais de teatro.

Renata Pallottini teve àquela altura mais dois convites para voltar a integrar a Comissão Estadual de Teatro e chegou a participar de vários encontros dos quais também participou o Décio de Almeida Prado quando o José Mindlin foi secretário de Cultura do Estado de São Paulo. Mas acontecimentos imprevistos, inclusive a morte do jornalista Wladimir Herzog fizeram com que a equipe se dissolvesse. Renata só ocuparia novamente o cargo, só com o apoio integral Secretaria. Sem isso acreditava que não haveria condições desta Comissão de Teatro funcionar e daí não ter aceitado os convites.

Mas não só de poesia, teatro e cargos públicos vivia Renata Pallottini. Como a maioria do povo brasileiro ela adora futebol e é uma corintiana convicta “desde que nasceu”. No dia da vitória do Corinthians só não foi para a rua de medo do desvario do povo. Mas ficou seguindo o jogo pela televisão e desta paixão, surgiram dois poemas e uma peça: O dia em que o Corinthians foi campeão, editado em pôster de mil exemplares, coisa pelo menos inusitada na área de poesia e que ia ser editada pela amiga-Terezinha Pereira, na cadeira de Literatura Brasileira, na Faculdade de Bouldar no Colorado, Estados Unidos.

“São onze contra onze/e o povo em frente/É o jogo da bola/e o povo enfrenta. /É a pura compra e venda/e o povo, crente. /Sem nenhum pão no dente/de bandeira na mão/os guardas pela frente/o pau quebrando/(e a Fiel comparece) o povo paga sempre/o povo esquece!//…Coringão, Coringão, vais cobrir o buraco/ que ficou no bolso/na cabeça/no saco?//Vais me dar a mulher, o filho, o emprego?/Coringão, é melhor Tver do quer ser cego:

“…”

“Oh. Jogo polivalente; /Por que não vales para comprar leite? /Por que não serves para eleição? /Por que a alegria do meu povão/não permanece?

“…”

“E a massa marcha pelo Morumbi/acima e abaixo/brandindo os paus de gol e sua fúria//Há um minuto de espanto no olho do guarda/ um minuto de espanto no pano da farda/um minuto de espanto no governador://E se/de/ repente?//E se…?//Mas/passou.”

O poema Corintiano está no livro Noite Afora e a peça Melodrama ainda inédita conta a história de uma atriz em decadência pelo alcoolismo e sua falta de saídas para este impasse. A ação se passa num bar, com as portas cerradas, para impedir a entrada da multidão, que la fora, comemora a vitória do Corinthians.

É lógico que Renata Pallottini sabe, entende o caráter ambíguo do esporte de “massa” brasileiro. Apesar disso, ela tem pelo futebol a mesma fascinação que experimenta pelas corridas de touro que aprender a amar na Espanha. Quando viu pela primeira vez em Sevilha em dias de grande festa, Renata confessa ter ficado apavorada com a crueldade dó espetáculo. Dai em diante tentou entender aquilo que fascinava tanto aquela imensa comunidade de velhos, mulheres e homens que aprendiam a ver touradas muito cedo, no colo de suas mães.

Já na segunda vez Renata não torcia pelo touro. Começou a analisar a coragem do toureiro, o fio de linha que separava o seu peito do chifre do animal. E passou a entender a beleza de tudo aquilo. O sacrifício do touro, o ritual de tempos imemoriais, não assumia mais ares terrificantes. Havia alguma coisa inexplicável que conseguia eletrizar multidões e isso era fascinante. A mesma coisa se passa com o futebol. Há o elemento de engodo e alienação, mas ainda é o grande consolo do povo brasileiro. “O fato de o Corinthians ser campeão não impede de fazerem a revolução. Talvez impeça a pessoa de enlouquecer.”

E por falar em massa, o que significa para a poeta e dramaturga escrever para um veiculo de comunicação de massa como a televisão? O mais interessante para Renata neste tipo de trabalho é a repercussão, a linguagem gostosa, movimentada. “É agradável a ressonância em grande numero de pessoas. O espectador responde na hora. A TV é um veiculo poderoso que pega milhões. Para o escritor é a possibilidade de ser visto em Goiás, em Porto Alegre e na Amazônia ao mesmo tempo.”

Renata reconhece que é preciso se submeter ao veiculo. É preciso facilitar, baixar o nível da exigência, coisa que não estava acostumada a fazer. Simplesmente fazia tudo o que tinha vontade, sempre buscando a comunicação. Na televisão é preciso diluir a informação, torna-la leve e fácil.

Além disso, é um trabalho de equipe. É preciso se habituar a ver o trabalho reformulado, às vezes na totalidade. Mas Renata, quando se dispôs a trabalhar em televisão, preparou-se para isso, esta proposta de trabalho. Discute tudo com certa humildade porque não se considera uma expert em televisão. Evidente que tudo isso não acontece absolutamente sem dores. Há certo conflito. Mas está consciente que não adianta colocar na televisão arte pura, que não será vista, e muito menos entendida. “Coisas abstratas talvez possam ser levadas em estágios mais avançados.”

Aliás, este conflito está registrado no poema O Escravitor que tem como sub titulo esta frase sugestiva: Depois de escrever um capitulo de telenovela. “Se das palavras não tirar mérito/farei o que me ordenam/recolherei o dinheiro que me pagam/e com este dinheiro hei de plantar flores e uma casa de cachorro. //Mas se das palavras não tirar mérito/terei perdido a vida e tudo o que amava. /E nunca poderia fazer o poema desejado, /o poema livre e igual a minha vontade/bonito como um navio.” (5)

Renata Pallottini já escrevera aquela altura para a TV Globo, Vila Sésamo para a TV Cultura, alguns teleteatro para a Globo e Bandeirantes e uma novela: O Julgamento para a TV Tupi , adaptação de Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.

Mas sem duvida, é na poesia que Renata Pallottini se sente melhor. Ela mesma se diz: “uma poeta que eventualmente escreve teatro.” É aqui que ele sente em casa, com seus fantasmas, mas com sua lucidez, com sua percepção acurada especialmente da problemática feminina. Referindo-se ao poema Lumbra (Monologo Vivo) o critico Omar Pimentel diz que a poeta “transforma a flor de sempre num símbolo consciente da condição e do destino da mulher”.

E como Renata Pallottini vê o movimento feminista no mundo e no Brasil particularmente?Está engajada em algum tipo de movimento?  Ainda que não esteja engajada em qualquer tipo de movimento organizado Renata Pallottini está sempre ligada na luta feminina. Acredita mesmo que seja difícil encontrar soluções equilibradas de luta, por que na medida em que a mulher foi tanto tempo subjugada, ela tende a exagerar nas suas posturas e reinvindicações. Mas está convicta da necessidade da luta para que a mulher possa ter uma posição digna na sociedade.

O grande equívoco que vê no movimento feminino, e para o qual acredita, as mulheres devam ficar atentas é a mulher sendo inimiga de outra mulher em razão de uma rivalidade fomentada pelos próprios homens e que tem um fundo sexual. “Há uma jogada feita pelos homens que é a jogada da beleza, que coloca as mulheres umas contra as outras. É preciso que elas revejam isso.”

E por falar em mulheres, são duas as personagens principais de um dos primeiros contos de Renata Pallottini, exatamente aquele que dá nome ao seu único livro de ficção até aquela data:  Mate é a cor da viuvez: “um belo e corajoso livro na opinião de Lygia Fagundes Telles, que  “lembra a atmosfera sutil de um Ingmar Bergmann, afeito ao trato das personagens femininas.”

“As personagens principais são duas mulheres”, escreve Lygia no prefácio. “E o morto em torno do qual elas tecem toda uma teia de perplexidade e ironia, medo e ciúme-enfim a intriga de amor que os separa e une ambíguo e sumoroso como aquele fruto que elas provam da arvorezinha nascida num tumulo, as mulheres, esquecia-me de dizer estão num cemitério. O sol. A sede. Às vezes esse amor transparece na confusão de ambas, amor que é uma espécie de flor múltipla, escapa por todos os lados e se reproduz de si mesmo.”

Depois deste livro Renata escreveu mais quatro ou cinco contos que foram publicados em revistas femininas. Não acreditava, à altura que deixasse de escrever ficção, mas no momento não se sentia inclinada para este tipo de literatura.

Ainda que já fosse aquela altura uma poeta bem sucedida Renata Pallottini não considerava a poesia devesse estar necessariamente em livros, em geral pouco vendidos e pouco lidos. Há uma série de outras opções (e os internautas que o digam hoje), e ela própria já participara aquela altura de um espetáculo de poesia: Poetas na Praça, juntamente com Eunice Arruda, Ilka Laurito e Neide Arcanjo sob direção de Elói Araújo.

Poetas na Praça programado inicialmente para ficar dois dias acabou ficando um mês no Teatro da Praça em São Paulo, além de ter viajado por cerca de oito cidades do Vale do Paraíba. As próprias autoras diziam seus poemas com absoluto sucesso o que vem provar que poesia não é tão maldita quanto se diz. A partir deste espetáculo surgiram outros movimentos de poesia falada, continuando a tradição iniciada pelo poeta Lindolfo Bell na década de 1950.

E por falar em poesia falada, ou com outro suporte fora o livro naquele ano de 1979 – data deste perfil, Renata Pallottini era uma das poetas enfocadas no espetáculo em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia em São Paulo: Fala Poesia, com direção de Tereza Aguiar.

Extremamente fiel as suas origens, seus amigos, sua gente Renata Pallottini vivia àquela altura, há trinta anos no mesmo prédio, um dos primeiros a ser construídos naquela região fronteiriça entre a Aclimação e a Liberdade, dois dos mais antigos bairros de São Paulo.

“A cidade nasceu no Pátio do Colégio para cá”, diz Renata, olhando da janela do seu escritório, de onde se vê a Glória, a Rua da Pólvora, os sobrados de sacadas de madeira que compõem as feições da velha São Paulo. Eu me entendo neste bairro. Gosto de descer a rua e andar por aquelas pequenas lojas. Gosto daquele povo que vive na Liberdade.”

Por isso, ainda que a poeta alerte para a dureza do “oficio de testemunhar o amargo, ser portador de tristes novas, ser o pulso onde bate todo o sangue derramado,”, mesmo quando sente o desconforto de “ ver o mundo terrivelmente aberto em duas metades, ela que tinha a límpida esperança/ de que a terra era a Terra, e que o homem, à mesa podia entre dois copos, dizer sua palavra”, às vezes desespera e pensa que  “há um instante em que o certo é vazar os dois olhos/e recusar-se a visão do infortúnio.”(6)

No entanto Renata Pallottini não recua não se recusa a esta visão. Resiste.

 

 

Notas

  1. Isso, em Arcos da Memória, pág.58.
  2. Município, em Arcos da Memória, pág18.
  3. Plaza Maior (Madrid), em Arcos da Memória, pág. 22
  4. No Largo de São Francisco, em Noite Afora, pág. 72
  5. O Escravitor (Depois de escrever um capitulo de telenovela) em Noite Afora, pág. 17
  6. Citação livre de Simposium 5 e Simposium 6 em Coração Americano

 

 

Entrevista com Renata Pallottini

[Realizada no dia 4 de maio de 1993 para a minha tese de mestrado intitulada Diálogos com a educação]

ALV

 

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P.-Renata há quanto tempo você dá aulas?

Renata Pallottini - Relativamente pouco tempo porque eu fiz outras coisas antes, por exemplo, advoguei durante dez anos. Dar aula eu comecei meio esporadicamente em 1964 na EAD de forma não regular e sem nenhum vinculo. Eu estava substituindo o Sábato Magaldi que tivera problemas e eu assumi dando as aulas dele na disciplina de História do Teatro Brasileiro. A EAD era ainda uma escola particular do Alfredo Mesquita. Ou seja, não tinha nenhum vinculo, não tinha carteira assinada, não tinha salário, como, aliás, a maioria dos professores de lá.

P. Você havia estudado lá não é?

R.P. – A EAD era uma coisa muito séria. Eu entrei para a EAD quando o Alfredo Mesquita inaugurou um curso de Dramaturgia e Critica anexo ao curso de Interpretação. Eram dois anos: então fiz 1961,1962 e em 1963 continuei ligada a Escola, porque eu gostava muito de lá – fiquei assistindo umas aulas como o Anatol Rosenfeld que era uma pessoa extraordinária. E como eu estivesse ligada, em 1964 o Sábato que dava Teatro Brasileiro não pôde continuar e eu assumi o lugar dele. Eu nunca tinha tido planos de dar aulas, nunca tinha pensado nisso-eu era uma advogada e estava trabalhando num escritório, já escrevia, já tinha livros publicados.

P.- Já tinha peças publicadas ou  montadas?

R.P.-Tinha coisas escritas, mas não tinha estreado ainda profissionalmente. Eu estreei profissionalmente no teatro em 1965. Na poesia eu já tinha coisas publicadas, mas no teatro estava justamente começando a escrever na Escola. Foi lá que escrevi meu primeiro texto que foi O Crime da Cabra. Antes eu tinha feito tentativas, mas nada organizado. O Crime da Cabra eu comecei a escrever na Escola como exercício de criação. A primeira versão foi para a televisão-foi encenada no Canal 9, TV Excelsior e só depois eu fiz uma outra versão para teatro. Então em 1964 eu tinha coisa escritas e estava fazendo alguma coisa para a televisão. No teatro não tinha feito quase nada.

P- E na EAD você ficou até quando dando aulas de história do Teatro Brasileiro?

R.P.- Até 1963 quando a EAD passou para a USP. O Alfredo Mesquita conseguiu um encontro de interesses porque ele sentia que a Escola estava ficando grande demais e ele estava sem recursos para mantê-la. E havia essa oportunidade de passá-la para a USP que era uma coisa que ia modificar e de certa maneira garantir a existência da Escola.

P.- Até então era ele que a mantinha?

R.P.- Era ele. Ele pagava os professores como podia. Na USP eu continuei dando aulas na EAD, mas então fui convidada a dar aulas na ECA (Escola de Comunicações e Arte) no Departamento de Teatro. Aí já ia ser outro teor porque a EAD era de nível médio. Na ECA eu passei a dar aulas de Dramaturgia em 1968 e também fui para substituir um professor que estava se afastando que era o Jorge de Andrade. Ele não tinha se adaptado ao trabalho da ECA. E acabei me interessando muito mais por Dramaturgia do que meramente dar aulas de História do Teatro. Eu me interessava mais pelo texto tanto que depois de um tempo na própria EAD passei a dar aulas de Literatura Dramática como hoje em dia eu trabalho com Dramaturgia na própria EAD.

P.- Eu gostaria que você falasse um pouco mais da Escola de Arte Dramática ainda no tempo do Alfredo Mesquita, a famosa sopa, etc.

R. P.- Bom a EAD era um encanto porque ela tinha um esquema todo especial. As aulas começavam as 19.30h, mas a gente chegava do trabalho-era raro quem não trabalhasse em outras coisas-entre alunos e professores. Então a gente chegava ai por 19 h e descia la para o porãozinho e era servido um jantar,uma sopa.A principio o Alfredo mandava buscar da casa dele, a sopa era feita na cozinha da casa dele e a principio iam os panelões de sopa da casa dele, todo santo dia para a EAD. Mas aí começou a ficar muito complicado e se começou a fazer essa sopa na cozinha da Escola. Então era servida uma sopa, um pãozinho, uma sobremesa e um cafezinho. E aquilo quebrava um imenso galho para todos nós porque não havia tempo para ninguém ir para casa e muitos ali nem poderiam pagar um lanche ou coisa parecida. Aquilo era gratuito para os alunos e eu acho até hoje uma compreensão do problema humano da parte do Alfredo Mesquita que era uma coisa sensacional. Ele era realmente uma pessoa finíssima, maravilhosa.

P. -Eu me lembro , quando fazia teatro ainda em Campinas de irmos- o grupo todo, o TEC (Teatro do Estudante de Campinas) junto com a Tereza Aguiar ver os exames públicos da EAD e sempre achava tudo aquilo tão mágico, tão lindo, e me lembro do Alfredo Mesquita nos recebendo. Olha você contando isso agora, com detalhes, porque essa coisa da sopa é famosa, acho mais incrível ainda. Mas mudando de assunto ou voltando a ele: atualmente você leciona que matérias?

R.P.-Literatura Dramática na ECA e Dramaturgia-Teoria e Prática na EAD.

P.-Como você vê o diálogo da tua disciplina com a Educação? Como você acredita que se dê a relação teatro e educação, entendendo educação aqui como processo de crescimento humano, enfim em termos de aprender a ser humano como a fenomenologia define?

R. P.-Como eu te disse outro dia, eu entendo pouco de educação propriamente dita, digamos a teoria, porque eu entrei na coisa muito lateralmente. O teatro é milenar então me parece que a familiaridade com o texto, o aprendizado, o estar perto de uma visão estética da vida em termos de espetáculo faz crescer o ser humano, amadurecer, progredir. É uma especialidade da arte difícil de ser abordada, mas eu não consigo pensar na arte como uma atividade que toque muito as pessoas, porque elas têm problemas que cortam o caminho da aproximação a arte como subsistência. Ha pessoas que não sabem ler, há outras que mesmo que leiam não conseguem se aproximar do fenômeno teatral e mesmo que o fenômeno teatral vá a elas, isso não ocorre. Para não dizer que isso empobrece o teatro – ou seja, sempre que você leva espetáculos de teatro a outros lugares que não o teatro, você perde em termos de espetáculo, em termos de cenário, em termos de dicção. E fora isso a pessoa em geral está mal acomodada, mal sentada, quer dizer tem tanta coisa contra ela que quando a gente vê uma pessoa despreparada que gosta de teatro é um milagre. Enfim eu acho que se aproximar de um texto dramático, que faz você conhecer o mais profundo do ser humano, de seus conflitos, suas buscas, das suas duvidas, enriquece qualquer pessoa.

P.-Você acredita que haja hoje na universidade um relacionamento das disciplinas de forma que se poderia dizer boa, excelente ou apenas razoável na USP? Como seria o ideal para você?

R. P.-Eu conheço a minha universidade, eu conheço a USP e poderia dizer que se dá uma complementaridade, uma inter-relação, não sei se seria ideal, mas é boa. Eu vejo que há experiências interessantes como essa dos cursos para a Terceira Idade. Na minha escola apareceram pessoas maduras que estão a fim de ter contato, de voltar a conhecer coisas. Vejo, além disso, gente da filosofia e do teatro trocando informações, idéias, vejo gente de teatro se relacionando com o pessoal de Letras. Vejo muito a aproximação entre a FAU e a ECA, quer dizer a arquitetura e a cenografia. Claro que não temos muito a ver com a Medicina e a Veterinária. Então eu acho que há uma troca muito boa, pode não ser ideal, mas nada é ideal.

P – Hoje, sabemos mais que nunca, na sociedade contemporânea, o saber está fragmentado pelas próprias circunstancias do desenvolvimento humano, social, tecnológico. Como isso fica na cabeça das pessoas?O que fazer para se ter uma visão de conjunto do saber ou dos saberes da atualidade em sua opinião?

R. P.-Hoje em dia a coisa está tão complicada, ampliou-se tanto o saber que acho que só se pode fazer a síntese através da filosofia, ou então dessa coisa maravilhosa que é a poesia.

P.- O teatro também é uma arte que reúne várias outras…

R. P.-É de certa forma o teatro também, porque o teatro seria a fusão da filosofia com a poesia. Acho que através da arte e da filosofia, através da própria sofia que é a busca mesmo da sabedoria.Eu acho que se fossemos pelo caminho da informática a coisa já enlouqueceu tanto que mal dá para a  gente desconfiar.É impressionante hoje em dia a capacidade da informação, o que a informação está dinamizando as relações.É assustador.

P.-O que também é contraditório porque afinal se chegou se está chegando a uma sofisticação tecnológica impressionante numa determinada área, mas em contrapartida não resolvemos problemas humanos básicos. Ou seja, há cada vez mais miséria, mais desrespeito, mais carências de todas as ordens, menos educação, menos cultura.

R. P.-Em certo momento você aperta um botão e passa um documento para a China não é, via por fax, email, e no outro você não consegue falar com uma pessoa do seu país, do seu bairro, da sua cidade, porque esta pessoa está num mundo diferente, porque as condições de vida dessa pessoa são tão diferentes que não há diálogo.

P.-Você teve contato com universidades no exterior, sei que estudou na Espanha, França. Como vê esta questão da interdisciplinaridade la fora? Você diria que há uma maior integração das áreas em relação às universidades brasileiras ou não? Gostaria que falasse sobre isso.

R. P.-As universidades que conheci e que foi há muito tempo foi a Universidade de Madrid na década de 60 e nem teria sentido eu comparar agora o que acontecia la naquela época com o que acontece aqui na década de 90 numa universidade brasileira.Eu posso dizer que  a convivência na cidade universitária de Madrid era uma coisa admirável.Eu saía  de uma aula de  Letras e ia para um curso na Cidade Universitária para estrangeiros que havia logo depois.Então a s informações que corriam e que a gente podia assistir um concerto de repente, ou assistir uma aula especial sobre Literatura Espanhola.Dentro da Cidade Universitária existiam as casas de residências de estrangeiros.Na Casa do Brasil era uma  casa muito interessante, havia os Colégios que eram habitações.Agora a gente tem que levar em conta que a cidade era muito pequena em termos brasileiros.A Cidade de Madrid era muito menor do que São Paulo , havia menos gente, e  eu estive como aluna pouco tempo- em Madrid passei um ano, na Sorbonne eu passei dois meses-eu ia assistir aulas de teatro e foi na década de 70 e Paris é um mundo.Mas não posso dizer que tenha tido  muito conhecimento da universidade porque eram coisas muito laterais.Como em 1968 estivesse muito próximo eu vi la um participação muito grande de estudantes em plena ditadura nossa- era uma efervescência.O que mais me impressionou foi aquela vivacidade maravilhosa dos estudantes.Aqui havia um movimento mas estava sendo muito reprimido.

P.- Que diferença não, entre aqueles tempos, que, aliás, eu vivi os famosos anos rebeldes? E a sua juventude como foi?

R. P.- A minha juventude foi na década de 1950, mas naquele tempo a luta era contra a ditadura de Getulio Vargas, quer dizer era uma ditadura sui generis- era a luta pelo petróleo é nosso. Mas na década de 60 eu já estava como professora dentro da USP e enfrentei os problemas, a luta, o nível de conscientização era muito grande. Houve uma mobilização muito grande da juventude. Embora a gente tenha tido um movimento bastante ponderado agora com o impeachment (do Collor) houve uma onda muito boa, mas a gente não vê uma continuidade, não vemos a estudantada trabalhando sempre. Eu acho que a juventude está cheia de solicitações, até de sobrevivência, não sei exatamente porque, mas, o que há é que hoje estamos muito desmoralizados. Outra universidade que eu conheci foi Universidade de Havana, ainda que nunca tenha lecionado la, eu leciono numa escola livre, mas me aproximei muito da universidade. Mas ai já é um outro mundo porque é um mundo latino americano, e, além disso, um mundo cheio de problemas. Cuba está cheia de problemas é um outro esquema.

P.-Sei que você leciona dramaturgia aplicada ao cinema e a televisão. Gostaria que falasse sobre esta experiência.

R.P. Sim é isso, porque é uma Escola de Cinema-é a Escola Internacional de Cinema em Havana.

P.- E você fala em que idioma?Português ou espanhol?

R.P.- No começo era portunhol apesar de eu ter vivido na Espanha, mas eu  estava distanciada do idioma,mas em pouco tempo já estava falando com facilidade.Hoje em dia escrevo também em espanhol.Mas tem aluno brasileiro.

P.-E você trabalha que tipo de textos? Apenas os dos alunos ou faz coisas profissionalmente?

R.P. Olha, eu colaborei em roteiros de uma moça mexicana – Maria Novaro e inclusive depois vi o filme e tinha até um crédito para mim.E fiz também um documentário para a televisão peruana.Ja colaborei com gente do  Peru, Bolívia, Venezuela.A escola é internacional , tem gente do mundo todo mas especialmente da América Latina.

P.- E como você foi parar lá? Pela USP?

R. P.- Não, fui através do Lauro César Muniz que foi para la convidado como autor de telenovela e eles queriam conhecer a técnica da telenovela brasileira e o Lauro falou do meu livro de dramaturgia e levou mesmo e falou sobre mim.Eles se interessaram pelo livro e me convidaram oficialmente através da USP e eu fui pela primeiro em 1988 e fiquei la dois meses.E então voltei todos os anos. Este ano não vou, quero colocar algumas coisas em ordem, mas provavelmente no próximo ano eu volte a Cuba.

P.-Era este livro: Introdução a Dramaturgia editado pela Brasiliense?

R.P.- O livro que o Lauro levou era este mas como esta primeira edição esgotou, ele foi reeditado pela Ática.E o outro também Dramaturgia-Construção do Personagem que saiu em 1989 pela mesma editora.E agora estou indo hoje aliás, levar os originais para a Ática de um novo livro: Dramaturgia para a Televisão, e que é produto dessa vivencia la na Escola de Cinema de Cuba.

P.- Você poderia falar um pouco desses dois livros?Sei que o primeiro é sua tese de doutorado.

R. P.- O primeiro foi uma síntese da minha tese de doutorado. Eu dava aulas na Escola (EAD) nunca tinha pensado em dar aulas numa universidade, enfim fazer carreira universitária, mas afinal eu estava na USP e tinha que fazer doutorado, para progredir. E tive a sorte e fazer doutorado direto, sem o mestrado, sem cursos e tudo o mais, quer dizer um caso excepcional. E fui juntando tudo o que tinha, livros publicados, peças de teatro-isso foi em 1982, prêmios, aquela minha vida até então e requeri para fazer doutoramento direto e consegui.Então fiz  e a minha tese  foi uma peça de teatro que se chama O País do Sol e junto com a peça havia um trabalho que era uma espécie de introdução do ponto de vista da dramaturgia.Foi essa introdução que eu reescrevi fiz um cortes e tal e foi isso que virou o livro.O segundo não, foi escrito para ser um livro mesmo só sobre o personagem.Isso saiu alguns anos depois.

P.-E esses livros vendem bem?

R. P.-Vendem sim, não são best-sellers, mas tendo em vista o teor da coisa, pode-se dizer que sim. Interessa muito a estudantes de teatro, televisão e cinema e as pessoas que querem conhecer mais as fontes. Mas dentro desse esquema vai bem.

P.- E poesia- vejo que publicou também depois da nossa primeira entrevista que foi publicada em 26 /8 / 1979 no Suplemento de Cultura do Estado de São Paulo: Cantar meu Povo que saiu em 1980 pela Massao Ohno; Ao inventor das Aves, em 1985, pela J. R. Scortecci e Esse Vinho Vadio, de 1988, também pela Massao Ohno. Gostaria que falasse sobre isso.

R. P. Continuo escrevendo poesia e continuo publicando continuo escrevendo livros para crianças-tem um que deve sair agora em julho. Estou com um romance uma espécie de romance que estou preparando que se chama Nosotros.

P.-E que é sobre?

R.P.- É sobre a América Latina,enfim, continuo escrevendo para teatro embora ache que a montagem teatral esteja cada dia mais difícil.

P.- Por falar nisso sei que sua peça Colônia Cecília você criou livremente, sem preocupações com montagem, etc. Conte isso.

R. P.- Como era uma tese, e não havia justamente preocupação em fazer uma peça para montagem, eu pensei em fazer um trabalho á minha vontade para exatamente por em pratica algumas coisas de dramaturgia. Então eu deixei correr. É uma estória de uma viagem de emigração, de italianos, uma viagem entre a Itália e Brasil.

P.- É uma viagem dos seus antepassados?

R. P.- Um pouco de antepassados, uma coisa meio épico-lirico com toda a liberdade, se passa no mar, se passa no Brasil, se passa na Itália, ela tem uma duração de trinta, quarenta anos- o tempo também é longuíssimo, é bem Peer Gyint é bem uma viagem de um lugar para outro. É um delírio, tem muita gente tem muitos personagens, gosto muito dela.

P.- E houve algum diretor interessado em montá-la?

R.P. -Alguns sim, mas voltando aos livros: os de poesia são em geral livros pequenos, editados na maioria pelo Massao Ohno Editor que é ótimo, é um artista gráfico maravilhoso, mas ele não distribui muito.Então não sei realmente se são encontráveis.mas escrevi bastante poesia, teatro, tenho dez, doze peças algumas estreadas.Tenho também textos de televisão que não estão publicados.E tenho três livros para crianças e agora  um deles vai sair em julho que é Do Tamanho do Mundo.

P.-Você disse há pouco que vai publicar mais um Coração Americano? Fale sobre isso. Você já tem dois. Vai ser o terceiro Coração Americano?

R.P. É eu estou com um Coração Americano dilatado (risos). O Coração Americano III está acrescido de uma parte toda sobre Cuba. Como já estou com uma vivência de cinco anos em Cuba e eu acompanhei muito a problemática que eles vivem… Por que nesses anos minha visão foi modificada e ampliada. Quando eu cheguei lá em Cuba ainda se estava vivendo um período calmo, eles estavam fazendo ainda sua experiência tranquilamente e seu socialismo, eles estavam tocando. A União Soviética estava de pé ainda, a coisa estava progredindo. Em cinco anos foi uma catástrofe, caiu a União Soviética, caiu o mundo socialista e Cuba ainda é um dos últimos paises do mundo socialista e eles estão meio que sozinhos. Estão muito na mira, muito boicotados. Então essa minha visão de cinco anos está nesses poemas. Á parte isso, tenho todo outro volume de poesias inéditas que também que eu quero publicar. E, além disso, tenho o dever a esta altura da minha vida, de publicar minha obra completa de poesia, pelo menos. A minha poesia não é fácil de se encontrar em lugar algum porque.são edições pequenas e mal distribuídas.Você encontra livros meus em sebos, e quando algum amigo meu encontra vem me contar, é uma novidade.

P.- E a sua poesia atual, você diria que tem alguma novidade em relação à de dez anos, por exemplo?

R. P.-Novidade não sei… Eu estava lendo ai o Pedro Lira (refere-se ao livro Ideologia e Literatura) e tem um ensaio em que ele fala- ele é um marxista – de como o irrita a preocupação com a linguagem, com a experiência formal como ele acha que a poesia tem que ter um conteúdo humano que seja importante, para a mudança do destino do homem. Eu não estou totalmente de acordo com ele, porque ele é muito especifico no marxismo dele, mas na verdade o que eu quero na minha poesia é falar coisas para as pessoas. Porque na poesia a gente não pode distinguir conteúdo e forma-acho que nunca vou ser um experimentador de formas, inda mais nesta altura da vida. A minha vida vai mudando, as minhas preocupações vão mudando, os meus assuntos, minha visão de mundo vai mudando. Há seis anos eu não pensava em Cuba e de repente de cinco anos para cá eu escrevi um livro sobre Cuba. Então isso é a vida da gente que vai apresentando novidades. Acho que a forma e o conteúdo devem vir juntos, mesmo porque se as coisas que a pessoa diz não me interessam ela pode dizer uma coisa belíssima, mas não me interessa.

P.- E para a televisão, você tem escrito alguma coisa?Sei que tem um livro sobre o veiculo. Gostaria que falasse sobre isso.

R. P.-Estou mais interessada em escrever sobre televisão que é este livro Dramaturgia de Televisão que estou levando para a Ática e isso leva pelo menos um ano, mas espero que já entre na programação. Mas trabalhar para a televisão hoje em dia só se fosse para determinadas coisas e que fosse um trabalho que eu pudesse fazer entre outros. Porque a televisão, quando você pega um trabalho grande como uma telenovela ela exige tempo integral. Isso não daria. Mas se pintar um convite para uma coisa que eu goste de fazer, ai sim eu aceitaria. Nesse momento estou pensando mais em discutir a televisão, principalmente a ficção de televisão, porque tudo isso se ligou com o meu trabalho na Escola Internacional de Cinema de Cuba.

P.-E você ido à Europa? Sei que gosta muito da Espanha?

R. P. – Não, não tenho infelizmente. Para a Espanha gostaria muito de voltar. Mas quando aparece um convite bom eu tenho outra coisa. Então em dezembro do ano passado passei no Peru em tempo integral em Cusco dando um curso de dramaturgia para gente que faz vídeo, foi muito bom. Quinze dias em tempo integral, uma coisa gostosa onde você fica o tempo todo com pessoas, profissionais, gente de cinema e tv. Eu aproveitei muito e eles também. Este ano não tenho planos de sair do Brasil, justamente para dar acabamento no livro, procurar editor, coisas assim. Mas pintando um convite interessante eu vou. Tenho muita vontade de voltar para a Europa, só que la você precisa de muita grana.

P.- Voltando a universidade eu gostaria de saber sua opinião. Às vezes olhando universidade- e estou pensando na Unicamp especificamente, que é onde eu estou no momento- meio alheio, meio fora do mundo. Você sente isso ou não?Como você vê a universidade, no teu caso a USP, como instituição em relação à sociedade global?Afinal qual a função da universidade em sua opinião?

R. P.- Eu conheço melhor a USP e então o que possa dizer sobre a Unicamp é o que ouço dizer, o que as pessoas dizem. Não é a tua visão, e nem a minha: pelo que ouço dizer a Unicamp se afastou mesmo do mundo onde ela está. Talvez ela considerasse um mundo um pouco provinciano não sei, talvez ela quisesse criar uma universidade mais universal, menos ligada ao local onde está, mas não tem a ver com o local onde está.Ela se distanciou, é uma posição elitista.Ja a USP  acontece diferente-não é que a USP seja melhor  e a Unicamp pior, inclusive a Unicamp tem cursos melhores em algumas áreas.Acontece que a USP cresceu junto com a cidade e me parece que a Unicamp se envergonha um pouco de Campinas porque nasceu dentro de uma província.Enquanto a USP nasceu pequena dentro de uma cidade pequena e foi crescendo junto com a cidade.E a USP, claro é elitista? É, na medida em que toda universidade brasileira é elitista – a nossa quantidade de analfabetos é imensa. E a gente fala dos analfabetos, mas deveríamos falar dos semi-analfabetos que é uma enorme quantidade de pessoas que sabem apenas decifrar umas tantas letras. Então a universidade é elitista. Agora quanto a USP ela teve esta vantagem, ela nasceu junto com a cidade. Eu acho que ela é mais ligada ao mundo intelectual da cidade, com o mundo estudantil, ela costura mais, ela está mais dentro da cidade, você vê-ela propõe coisas. As pessoas entram na Cidade universitária sem pedir licença, vão corre la, vão levar seus cachorros para passear, vão jogar futebol, isso não estava previsto, mas já fomos invadidos pela cidade, a gente faz concertos, espetáculos de teatro, um pouco de tudo. Quer dizer que a Universidade de São Paulo é uma cidade mais invadida, tem a raia universitária, tem pessoas que vão la remar, você não consegue fechar.

P.- Acho que na Unicamp existe isso, de a maioria dos professores morarem em São Paulo e mesmo quando moram la não participam da vida cultural da cidade que é precária, mas digamos eles não incrementam a vida cultural da cidade senão isso seria diferente hoje.Houve é verdade uma mudança em Campinas mas muito lenta em relação ao que poderia ter sido feito.

R. P.-Acho que a Unicamp deveria conquistar Campinas porque afinal Campinas é uma força, é uma cidade importante. Há poucas cidades no Brasil importantes como ela.

P.-Você não acha que se a universidade, aqui falo em geral, a instituição universitária fosse mais participante, enfim, fizesse realmente parte, as coisas no Brasil poderiam estar melhor paradas?Enfim, minha pergunta é: por que sendo as universidades brasileiras de tão alto nível, os governos são esta catástrofe? Onde estão as pessoas que saíram das universidades com grande ou algum grau de conhecimento? Escondidas? Fora do país?

R. P.-Na verdade se formos olhar o quadro dos nossos governantes dificilmente alguns deles não tem um curso universitário. Geralmente um curso de Direito nem sempre dos melhores, um curso de administração, economia, um curso universitário nossos governantes tem, seja qual for a localização geográfica deles, alguns saíram de universidades do Nordeste, outros de Minas. E alguns saíram de universidades de São Paulo. Você vê o Fernando Henrique Cardoso é um homem de universidade, Montoro, o próprio Quércia fez sua universidade também. Todos eles são pessoas saídas de cursos superiores. O que eu acho é que uma coisa é o saber, outra coisa é uma visão pública, da coisa publica, a consciência pública que é o que eu acho que mais falta hoje no Brasil. É a consciência da res publica, já que estamos numa Republica, que foi confirmada, não estamos numa Monarquia. O homem publico brasileiro não tem consciência da coisa publica, ele tem consciência da coisa privada. Ele quer aumentar os dólares dele, ele quer ter uma conta maior nas Bahamas, ou na Suíça, ele quer ter mais propriedades, mais poder, ele quer grana. E o poder, que poder significa grana, e mais também porque o poder é gostoso. Então o que falta ao homem publico brasileiro é que ele tenha uma noção mínima do que seja a coisa pública, do que é o governo, do que é uma população, um país.Ele está considerando o país como quintal da casa deles onde eles mandam consertar aqui, arrancam uma coisa la e paga com o dinheiro do povo, dos impostos. O saber deles, até tem um certo saber.O advogado sabe algumas leis, o administrador etc. agora falta caráter, consciência, um mínimo de honestidade, de vergonha na cara, de moral.

P.- Por que lá fora isso não ocorre com tanta intensidade?

R. P.- La fora… Bem precisamos pensar primeiro na América Latina. Você sabe a Suíça é um mundo, a Bolívia é outro. Nós temos sido historicamente desmoralizados, espoliados, se arranca de nós o que se pode arrancar. Nós sofremos a pressão pessoal da América do Norte, dos Estados Unidos, o interesse deles é tirar o que eles puderem como no passado fizeram Portugal e Espanha. Eles não têm o menor interesse em melhorar a nossa consciência, a nossa vida. Nós deveríamos reagir a isso e dizer a eles que nós somos uma Nação. Mas na realidade falta vergonha na cara, eles fazem média: se eu tirar as calças eu ganho quanto, quanto eu ganho para tirar as calças?E eles tiram as calças. E então nós somos o resultado correspondente. Falta um mínimo de moral, um mínimo de vergonha, um mínimo de decência que os outros países têm. Agora você vê-voce pega uma pessoa e você desmoraliza essa pessoa, você não dá condições mínimas de sobrevivência, ela perde a moral, ela fica sem personalidade humana. Agora você pega um país e o desmoraliza então depois você não tem condições de falar para os governantes, agora quero que eles tenham moral. Quer dizer nós estamos em guerra – no Rio o morro desce e se estabelece uma guerra… Esses saques em super mercados… (Na época era isso que acontecia, hoje vemos que tudo piorou bem).

P.- Em sua opinião qual deveria ser o grande, o maior objetivo ou a missão mesmo da universidade?

R. P.-Eu acho que a principio a universidade deveria se dirigir a todos, evidentemente cada um no seu nível, porque você não vai oferecer os cursos universitários a toda a população. Mas eu acho que a universidade em vários níveis deveria se dirigir a todos- evidentemente se ela vai dar aulas para quem tem pré-requisitos isso são aulas, mas acho que ela deveria dar seus ensinamentos, suas vivencias, seu espaço, suas atividades artísticas para toda a população. Por exemplo, se a universidade tem uma orquestra como a USP ela tem obrigação de no domingo se apresentar e chamar o povo para assistir. Se ela tem um grupo de teatro, e a EAD tem a ECA também, ela tem obrigação de apresentar seus espetáculos. Se ela pode atender as pessoas desta forma que eu citei essa coisa da Terceira Idade ela deve fazer. Eu acho que a universidade tem a obrigação de se dirigir a toda a população. Ela existe para atender a população, ter atividade para a comunidade toda. A USP está encravada em duas ou três favelas acho que ela tem obrigação de pensar nisso. É difícil, mas tem que fazer. Eu acho que a USP faz um pouco de tudo e sempre tem alguma coisa. A universidade é mais velha, mais conhecida, ela foi incorporada à cidade, a população conhece. A Unicamp é mais nova, acho que a tendência é progredir. Então acho que a universidade deve atender toda uma população, melhorar o nível sócio-cultural de toda uma população, tentar dar a ela condições de ficar melhor. Claro que às vezes seria simplesmente dar de comer. Isso a USP não dá. Mas de qualquer maneira a universidade deve cuidar de melhorar o nível da população de sua cidade pelo menos.

 

 

Livros Publicados

Poesia

  • ACALANTO – 1952
  • 0 CAIS DA SERENIDADE – 1953
  • 0 MONÓLOGO VIVO – 1956
  • A CASA – 1958
  • NÓS, PORTUGAL – 1958
  • ANTOLOGIA POÉTICA (tradução) – Venezuela – 1958 (trad. Hugo Emilio Pedemonte)
  • LIVRO DE SONETOS – 1961
  • A FACA E A PEDRA – 1965
  • ANTOLOGIA POÉTICA – 1968
  • LIVRO DE SONETOS (Segunda edição) – 1970
  • OS ARCOS DA MEMÓRIA – 1971
  • CORAÇÃO AMERICANO – 1976
  • CHÃO DE PALAVRAS (Antologia) – 1977
  • NOITE AFORA – 1978
  • CORAÇÃO AMERICANO (segunda edição) – 1979
  • CANTAR MEU POVO – 1980
  • CEREJAS, MEU AMOR – 1982
  • AO INVENTOR DAS AVES – 1985
  • ESSE VINHO VADIO – 1985
  • PRAÇA MAIOR – 1988
  • OBRA POÉTICA – 1995 (São Paulo, Editora Hucitec)

Prosa

  • MATE É A COR DA VIUVEZ (contos) – 1975
  • NOSOTROS (romance) – 1991 (São Paulo, Editora Brasiliense)
  • NOSOTROS (tradução) – 1997 (Paris, Ed. L’Harmattan)
  • OFICIOS & AMARGURA (romance) – 1998 (São Paulo, Editora Scipione)

Ensaios

  • INTRODUÇÃO À DRAMATURGIA – 1983
  • INTRODUÇÃO À DRAMATURGIA (segunda edição) – 1988 (São Paulo, Editora Ática)
  • A CONSTRUCÃO DO PERSONAGEM – 1989 (São Paulo, Editora Ática)
  • DRAMATURGIA DE TELEVISÃO – 1998 (São Paulo, Editora Moderna)

Literatura Infantil

  • TITA, A POETA – 1984
  • MISTERIO DO ESQUELETO – 1985
  • CAFÉ COM LEITE (poemas) – 1988
  • DO TAMANHO DO MUNDO – 1993 (São Paulo, Editora Moderna)
  • ANJA (poemas) – 1997 (São Paulo, Editora Quinteto)
  • SEMPRE É TEMPO – 1998 (São Paulo, Editora Moderna)

Paradidáticos

  • O GUARANI – (adaptação do romance de José de Alencar) – 1999 (São Paulo, Editora Scipione)
  • ROMEU E JULIETA – (adaptação da peça de W. Shakespeare) – 2000 (São Paulo, Editora Scipione)

Teatro

  • SARAPALHA (adaptação de conto de Guimarães Rosa) – 1957
  • A LÂMPADA – 1959
  • GEMINIS – 1963
  • CRIME DA CABRA – 1965
  • ESCORPIÃO DE NUMÂNCIA – 1969
  • PEQUENO TEATRO – 1970
  • ENQUANTO SE VAI MORRER… – 1973
  • A HISTORIA DO JUIZ – 1975
  • PEDRO PEDREIRO – 1986
  • COLONIA CECILIA – 1987
  • A VIDA É SONHO (tradução) – 1992
  • O PAÍS DO SOL – 1997
  • SARAPALHA (segunda versão) – 1999

 

Leia mais sobre ela em:

http://www.revista.agulha.nom.br/rp.html#inicio

 

Homenagem aos seus 80 anos

http://jornaltelescopio.blogspot.com.br/2011/10/homenagem-renata-pallottini.html

 

Veja o vídeo: in Provocações com o Antonio Abujamra na TV Cultura

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ana Lúcia Vasconcelos é atriz, jornalista, escritora e tradutora, licenciada em Ciências Políticas e Sociais pela PUC de Campinas, Mestre em Filosofia da Educação, pela Unicamp, e acaba de preparar um livro ainda inédito sobre Hilda Hilst que o MUSA RARA publica em partes. E-mail: analuvasconcelos@globo.com




Comentários (1 comentário)

  1. Yara Monachesi, Abrangente, detalhado na medida, dá uma idéia perfeita de quem é Renata, como vive, o que pensa. Sensacional! Yara
    28 setembro, 2012 as 15:09

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