Poesia e design invisível


 

Tomando-se como referência de análise os títulos de seus livros anteriores, Mínima Ideia (2004) e Cada (2007), podemos concluir que Bruno Brum é autor que prima pelo minimalismo na linguagem. O autor retira o máximo efeito poético por meio de soluções mínimas. Cada coisa em seu lugar. O conteúdo dos livros citados comprova tal assertiva. Esta opção estética requer do leitor uma leitura mais exigente. Isto porque o livro Mastodontes na sala de espera (2011), ganhador do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, é obra de um poeta-designer.

Em seu portfólio on-line o autor nos diz: “Atuo como designer gráfico desde 2004, sobretudo no campo do design editorial. Tenho experiência de produção de diversos livros e revistas, além de editar publicações voltadas para a edição de literatura e artes visuais.” O artista gráfico americano Richard Hendel assim definiu o design do livro: “Se a impressão é a arte negra, o design do livro pode ser a arte invisível”. Daí, a leitura atenta que a obra de Bruno Brum nos exige. Caso contrário, algo nos escapa como nos escapa a própria vida e sua arquitetura cotidiana.

Entre a sombra projetada sobre os desvãos da calçada e quem vem do outro lado da rua, um ônibus./ Um ônibus trazendo setenta e cinco passageiros./ E o pior: isso ainda não nos leva a nada. (Interferências)

“Sombra”, “desvãos da calçada”, “setenta e cinco passageiros”. Imperceptíveis. Quase invisíveis. Elementos visuais de nossas viagens urbanas sem sentido. Para Brum matéria de poesia. Contudo, há uma recusa do poeta em realizar uma leitura metaforizada da  vida. Interessa-lhe a objetividade das coisas vistas. Em Mastodontes na sala de espera há um observador atento e atônito às coisas do mundo. Ele busca simplicidade,  neutralidade e despojamento. Silencioso feito o caçador em busca da presa. Enquanto a própria presa aguarda, numa hipotética sala de espera, algum desfecho. O título da obra é a síntese desse mundo no qual há tantos sujeitos perdidos. Onde nossos mapas são provisórios e a vida (sem sentido?) desertificada:

Rabiscar, ao telefone, / traços, setas, números, / glifos, siglas, mas/ provisórios. / Talvez um rostinho feliz./ Talvez uma nuvem. / Uma nuvenzinha feliz. (Mapas provisórios)

O poema “Desertos de sal” sintetiza o clima ontológico presente na obra: “A ideia era dizer algo/sobre os desertos de sal.” O poeta-designer, ao “desistir” de dizer algo, deixa transparecer no corpo do verso o próprio deserto: Deserto de estimação. Ele mesmo autor do tema/poema e seu desertor. Talvez, porque no fundo, este observador anseie a neutralidade. Ver apenas sem a obrigatoriedade de ir além do fato/objeto da observação. Não se confundir com ele. Sair ileso. Isento. Deslocado da cena. Feito o convidado do poema “Perguntas em torno de uma festa”:

Imagine-se em uma festa, dançando. / A música é do tipo A, e você dança de um jeito do tipo B. / Você estará no ritmo? Você estará na realidade da festa?/ Os outros irão querer dançar com você? / Você acha que será respeitado? / Não seria melhor ir para outra festa? (…) Precisa de um tempo para pensar?

Uma comunidade é caracterizada por sua homogeneidade e mesmidade. Estes dois itens aparentemente nos unem, mas sacrificam a singularidade do pensamento e outros modos de ser. Temática recorrente nos poemas de Mastodontes na sala de espera é esse sujeito de pensamento singular que observa e não se sabe (não se quer?) “um deles”. Alguém que não se identifica com as conversas, com as festas, com os desejos da urbe. E identidade é “o mesmo”, “o idêntico”: idem.

Os que acreditam fazem perguntas aos que parecem acreditar. / Os que parecem, parecem não ouvir. / Os que ouvem permanecem calados./ Os que respondem parecem não acreditar no que dizem/ os que perguntam./ Todo se parecem em silêncio. (Um deles)

O poema “Um deles” é a descrição de um diálogo (sic). Nossas discussões cotidianas existem, sobretudo, para demarcarmos nosso espaço identitário, nossa singularidade. Posto que as relações sociais se caracterizam pela centralização no eu. No entanto, em silêncio somos parecidos. Os mesmos. Aparentemente incapazes de exercitar a escuta. A mesmice presente em nossas interações com o mundo estabelece uma total relatividade em relação ao que julgamos, por exemplo, Interessante:

(…) Você colocou lá para que todos vissem/ porque decerto supôs/ que seria bonito,/ que seria interessante/ que todos vissem.

Tanta produção, tanto discurso, tantos “Ritmos variados” não eliminam o vazio:

“Todos os boleros do mundo/ soando juntos deveriam fazer/ algum sentido, / mas não fazem.”

A tagarelice humana não engendra sentido. Construímo-nos recortando a todo momento o silêncio. Mas há paradoxos entre o discurso e a realidade objetiva. Entre quem somos e quem dizemos que somos. O poeta-observador propõem uma solução: “Cortar a boca fora. Engoli-la com os olhos.” Todavia, um bebê egocêntrico e narcisista persiste em nós: “Ninguém precisa de poemas. Todo mundo precisa de chupeta.”

O mundo deve caminhar. Isto só ocorre por meio de um processo de não identificação com as antigas formas comportamentais e sociais. Há na obra de Brum este processo de desidentificação. Ao poeta, com seu olhar educado de artista visual, interessa mais a cena que o texto. Assim, somos “Muitos” cercados por um discurso vazio:

Muitos falando ao mesmo tempo./ Muitos tentando dizer alguma coisa ao mesmo tempo. / Muitos, ao que parece. / Muitos ao mesmo tempo.

Na leitura do livro percebemos outros versos que nos transmitem essa ideia de desidentificação.

“E eu não me pareço mais com ninguém”
“Essa pessoa provavelmente/ não sou eu, nem você,/ nem ninguém.”

O clímax deste processo encontramos em “Bruno Brum em ritmo de aventura (Cronologia de vida e obra)”. Neste texto o autor brinca com o universo das celebridades e nos remete aos perfis falsos nas redes sociais. Mas, sobretudo, faz chacota com o objeto de desejo dos escritores: ser parte do cânone literário. Há um link ao blog do autor no qual uma nota Da Redação (?!) explica seu suposto desaparecimento.

No poema Triagem o autor pergunta: “Qual, dentre todos, o pária?”. A palavra pária, provavelmente de origem indiana, indica esta pessoa excluída do convívio social, rejeitada. Se persona rejeitada, resta ao poeta ver/antever o real até atear fogo aos próprios olhos. Na dúvida entre ser pessoa física ou pessoa jurídica, o autor crava fundo no poema “Discurso por ocasião de um congresso nacional de pessoas jurídicas”: “Nunca conversei com uma empresa./ Nunca conversei com uma pessoa.” O poeta se apresenta perplexo numa época em que o caixa eletrônico nos deseja “feliz aniversário” (Noventa e nove blefes). O carinho automatizado.

A homogeneidade retira do ser humano sua riqueza. Num dos recortes de elementos visuais urbanos realizados pelo autor, a arte da tatuagem também se rende à prática, cada vez mais comum, de produção de signos, aparentemente, sem sentido. “Decalcomania”:

Tatuou um código / de barras no rabo. / Temendo complicações,/ tatuou o rabo/ um pouco acima do código/ de barras.

Pessoa e produto se confundem no mercado da desilusão humana. Nossa singularidade vem da mente: única e insubstituível. A mente é mais nobre que os intestinos. Todavia, o poeta-designer brinca com nossa anatomia. A obra em questão fala por si.
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……………………………………Braintestine

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O lugar nos dá segurança, assegura-nos algo: solo firme e a noção de pertencimento. Mas se não sei onde estou? Hoje viajamos sem sair do lugar. As experiências sensoriais são antecipadas por meio das novas tecnologias. Sempre temos alguma ideia acerca de determinado lugar. Contudo, não vamos a lugar algum. Nômades numa sala de espera. O autor nasceu em 1981, na chamada década perdida. Portanto, não frequentou as aulas de Educação Moral & Cívica e a oposição tão demarcada entre direita e esquerda. Tampouco viveu a censura institucionalizada. Antes dos 80′s, as relações sociais se davam com menos mobilidade e tínhamos a impressão de uma menor degradação dos laços sociais e identitários. Brum escreve a partir de um horizonte desideologizado, desengajado. Em sua adolescência a Internet ser firmou no Brasil. O autor convive hoje com algo que vai além do consumismo: o producismo. Com seus aparatos portáteis, mídias sociais, blogs, microblogs, o cidadão é sua própria mídia. Ainda assim, a tessitura das relações entre as pessoas está em crise. Entre tantas mídias/meios de dizer, paradoxalmente, persiste o vazio:

As pessoas saem para se divertir./ Depois resolvem ir embora (…)/ As pessoas sabem o que querem/ depois não se lembram mais (…)/ As pessoas sabem onde pisam / depois vão ficando pra trás. / As pessoas constroem suas casas. / Depois arranjam outro lugar. (Outro lugar)

A série “Postais” ilustra esse processo de desterritorialização. Há inúmeras possibilidades de escolha que se apresentam diante de nós em forma de mercadorias, de relações afetivas. Muitas alternativas é igual a alternativa alguma:

Os passantes ainda não/ se decidiram se vão, se ficam,/ se atravessam a rua, se fazem/ uma pausa para o café, / se atendem o celular.

Mastodontes na sala de espera nos apresenta esses sujeitos sem território, lar, casa. Entediados. Anestesiados. Zumbis. O poeta cameraman só pensa em voltar para casa. Mas “endereços são adereços” e nem “os aviões tem lar”. A casa se tornou apenas um lugar distante. Por não haver solo firme, “não se cruza duas vezes a mesma porta”. Ninguém entra ou sai porque “A morte não vai a lugar algum”. Felizmente, sobra o improviso, o blefe, a blague de poeta.

Brum faz referências a Roberto Carlos, filmes de faroeste, Os Trapalhões, Mara Maravilha. Brinca com o universo kitsch (sua pop art). Desta maneira, diverte, provoca o riso. O intento aqui foi desvelar algo desta poesia despojada, brincalhona, mas que revela um olhar arguto sobre as coisas em movimento. Poesia que oculta, feito um bom design de livro faz, a beleza de sua arquitetura. A arte de olhar é o que talvez melhor defina o poeta Bruno Brum:

Sido visto

Nenhum registro
do que vi.

Nenhum vestígio
de onde estive.

O meu indício
é, insisto,

somente o fato
de ter sido

visto vivo.

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Anizio Vianna é poeta, professor e contrabaixista. Edita o blog  escrevoaovivo.com no qual edita seus poemas-reportagem. Publicou Dublê de Anjo (1996), Itinerário do Amor Urbano (1998) e Desalarmes (2006). Lançou o cd Óvni-Estrela (2002) com a banda Chicória. Dentre suas participações em antologias destaca-se Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica (editora UFMG), organizado pelo professor Eduardo Assis Duarte. Defendeu a dissertação de mestrado Rappers: poesia, oralidade e performance (UFMG), estudo sobre a poesia destes trovadores urbanos. E-mail: quartosetor@gmail.com Facebook: www.facebook.com/anizio.vianna




Comentários (1 comentário)

  1. Mastodontes no Musa « sabor graxa, [...] o meu mais recente livro, “Mastodontes na sala de espera”. Confira o texto completo no Musa Rara.  Gostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso post. Deixe um comentário Deixe um [...]
    21 janeiro, 2012 as 11:28

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