Poesia brasileira contemporânea


Pequena cartografia da poesia brasileira contemporânea
.

Roberta Tostes Daniel

.

Uma poética que projeta o corpo na paisagem e depois o sustenta por um fio panteísta e um fio erótico com uma sutileza que se aprofunda para muito além da psicologia, como afirmou Proust em ‘ A fugitiva’ : O sofrimento vai mais longe do que a psicologia e a poesia ultrapassa os dois, esta é uma das “lições” nítidas dentro da poética de Roberta Tostes Daniel. Abaixo uma seleção de poemas feita pela autora:

 

 

(no precipício
era o verbo)

no fundo de tudo
essa vontade de morrer nas coisas,
essa urgência de afogada;
viver nelas:

palavras, pessoas, coisas.

melhor ouvir
o que a boca não consegue dizer,
melhor, abismada,
viver em voz alta;

- cantar, à boca,
o silêncio de um uivo.

longos os espaços
entre os acontecimentos,
a batalha alpinista
do entendimento.

- dizer

os braços
nos ensinam
a morrer

contando
as feridas.

 

**

 

Sobrepele
Escrever. Ou vestir
O som da folhagem.
Cantar o corpo. O tempo
A lentos pássaros, dançado.
Reter o mágico instrumento.
Grifo de fogo:
Tecido cru. Linguagem.
Sobre pele de deusa.
Ervas, as palavras.
Chamas
Sobre eras dilatadas.

 

**
Onde a vegetação se rasga
Para o sol, o sangue
O rastro da fuga

Verde,
Vermelha
Selva – me suga

Como a mais pura seiva:
Mãos na palavra
Nua.

 

**

 

Fluido trabalho

Chegou a chuva, chegou aos olhos.
Cristalina lástima que empenha
o suor da face.
Não houve jeito: ser tão irrigado,
descomedido canal,
fluido trabalho por dentro de cavas.
Lacrimais soerguem os seixos
de produzir paisagem.
Esta pedra de perfídia
insemina o mundo das aves;
sobrevoa o tempo
vaginado.
No ventre de olhos,
embocadura de nuvem;
lambe sempre a derramar
impossíveis caldos
fatigados.

 

**

Tempo, teu nome
Anos me bebendo
na fluidez da sede;
um gesto de rio
a me engolir às margens

(nomes que contornam
a infância).

Suspeito da tua vinda,
a tempo de vir antes,
defender-te no ventre
da primavera

(rio que draga o homem;
pétala, que traz a espera).

 

**

 


“O tempo está vivendo-me” (Borges)

O tempo vive, impronunciável.
Tu também não o dizes,
Em silêncio, lábio,
Contracanto da destruição.

Vive o silêncio. Escutas?
Não o há. Teus nervos, o tempo
Em mim, som do quanto ressoa
O peito, mesmo calmo, galopa na tarde.

Ruído branco; recebe
Ondas, contingências tonais
Da carne; um silvo;
Arrepia ao teu chamado.

A casa: transparente,
Um hiato intocado.
Respira no tempo,
Intervalo de espelhos.

O poeta me diz. Cego,
O instante me abre
A imagem da tempestade;
Canais de água

E rumor da tua aparição.

**

 
Medusa
Mito:
Dias da espera.
Medusas
Em fronhas
Desgrenhadas
Acordam tarde. Sagas
Por mechas de teus cabelos;
Serpentes e pedras
Na carne que é o tempo,
O tempo.
Perigo
Decapitar horas,
Teu exército
Esplêndido
Do talvez.

 

**

 

Combatente
Tu, que agora te dilatas
(E os verbos)

Como um mouro
Montado nos caminhos
Engendrando o alfange:

Menino, com que te ergues?
Que mãe rasgas?

Como penetras
Trespassando o pensamento
E os vincos conjuntivos?

Tecido em que dobras?
Bebido em que taças?

Chamar-te-ei
Todas as coisas
Para o sumo delas.

Mas coisa alguma escorre
Deste sorvedouro

(em que)

És:

Aparição de uma lembrança;
O último murmúrio;
O sêmen ancestral.

Fosses, ainda,
Decodificar de astros,
A luz do irreal
Não seria tão pungente.

Nem teu nome
(Sanguíneo e quente),
Derrubar destas muralhas

(As palavras, mortas).

 

**


Quando, nas praias

Quando, nas praias, o alvo
é o imenso deserto.
Branco da espumareia:
insonoro oásis, sem fetiches,
sons desvanecidos.
Pálidos, os corpos submergem
na inaudível paisagem
desabitada dos sonhos.
Áridos, os sonares emitem
surdos encontros.
**
Do tempo, espero
A nudez de um corpo;
Transformado em espaço,
Um rosto.

Imagens que deponham dias,
A estudada geografia
De um torso
Exausto,

Sonhando tocar
A simultânea ausência,
Região do mais etéreo encontro:
Eu, o tempo; tu, o espaço.

Povoaríamos a casa
Com a nudez das paisagens
Sem paisagens,
Coexistindo no absoluto

Silêncio destas memórias:
As palavras, sem palavras.
As mãos de colher mentiras
No dorso da história.

Puro movimento:
Percorrer o desejo;
Somos, teríamos sido
A casa, farol de doenças.

E o riso que déssemos,
Rasgaria o tempo, recuperando
O que talvez tenhamos sido:
Simples, como a morte.

Teu corpo ou tua casa
Mediriam os caminhos.
Morrer, à sombra da origem,
No teu lugar, todas as horas.

 

 

Roberta Tostes Daniel, carioca, nascida em 1981. Escreve no blog Sede em frente ao mar: http://sedemfrenteaomar.wordpress.com

 

****

 

Livros imaginários
.


.

Twitteatro Cena um: o tempo não se fragmenta em tempos, nós é que nos fragmentamos…


.
Umberto Eco : Ou a morte ou o tempo, um dos dois não existe, sussurram as Harpias na passarela. E a Praça do Paradiso, onde fica?

Jean Luc Godard: O essencial físico da matéria do tempo é o amor ? Se for, estamos muito longe

Umberto Eco : A eliminação da distância é a prova dos nove

Vicente Ferreira da Silva :espaço interior e tempo exterior e espaço exterior e tempo interior são camadas do ser

Henri Bergson: o ‘dentro’ e o ‘fora’ possuem por sua vez seus espaços e tempos simultâneos

Matsuo Bashô: o tempo parado do agora se multiplica em ‘n’ tempos parados do agora

 

 

 

 

 

 

.

Marcelo Ariel nasceu em Santos, 1968. Poeta, performer e dramaturgo. Autor dos livros Tratado dos anjos afogados (Letraselvagem 2008), Conversas com Emily Dickinson e outros poemas (Multifoco,2010), O Céu no fundo do mart ( Dulcinéia Catadora,2009), A segunda morte de Herberto Helder (21 GRAMAS, 2011) entre outros… E-mail: marcelo.ariel91@gmail.com




Comentários (3 comentários)

  1. Ivan Antunes, blz Ariel! Rá!
    5 maio, 2012 as 1:23
  2. Fábio Gullo, Belíssima poesia atlântica. “Quando, na praia” é especialmente profundo. Bravo!
    8 maio, 2012 as 15:52

Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook