Pequena oficina do Poema



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O poema é uma construção artística, um sistema harmônico de palavras por meio do qual um poeta se expressa com o ritmo que lhe é próprio e, ao mesmo tempo, faz ressoar todos os seres. O poeta e prêmio Nobel mexicano, Octavio Paz, dizia que o poema é “um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal”. Bingo!

Se considerarmos verdadeiro o que diz o poeta, seria pertinente perguntar: qual é então a relação existente entre poema e poesia?

A poesia pode estar em todas as coisas. Pessoas, paisagens, cachorros e acontecimentos do dia podem ser poéticos. O sorriso do irmãozinho, aquela(e) gata(o) da escola, um drible do Neymar, podem ser poesias sem ser poemas. Distinguir uma coisa da outra é importante, pois o poema só acontece com a escrita, no texto, na criação literária enquanto Arte.

Isso nos leva a um paradoxo (palavrinha esquisita, mas adorada pelos poetas): pode-se aprender a escrever um poema, mas nada garante que a poesia esteja presente nele. E aí está toda a graça de se tentar fazer um poema.

O poema pode ser construído em vários formatos – desde as tradicionais “formas fixas” (baladas, sonetos, quadrinhas) que obedecem a esquemas métricos rígidos, com padrões de versos simples ou mais complexos, até as formas mais livres e modernas. Há poemas que não apresentam rimas, nem métrica, podendo os versos ser “brancos” ou “livres”. Há, inclusive, poemas que parecem prosa. A tal da “prosa poética” (lembra-se do Guimarães Rosa?).

Podemos começar a escrever nossos poemas seguindo os passos e a forma de escrever de nosso poeta preferido. Se você ainda não tem um, apresse-se em encontrá-lo. Aquele poeta que diz coisas que mexem com você. Que, quando você o lê, fica por instantes sem chão (às vezes, semanas), como se estivesse apaixonado(a). Não desgrude dele. Deixe-o sempre à vista.

Em seu poema “Procura da Poesia”, o poeta Carlos Drummond de Andrade diz coisas que, talvez, possam servir para todo aspirante à escrita poética: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia” (essa levei anos pra assimilar); “não percas tempo em mentir”; “Convive com teus poemas, antes de escrevê-los”; “Não colhas no chão o poema que se perdeu”; e, talvez, a mais importante: “Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”; “Estão paralisados,… /…em estado de dicionário”.

Parece simples, não? Um poema é feito com palavras. Mas não basta copiar o dicionário. As palavras serão sempre as mais adequadas ao que você quer exprimir. Há muitas formas de se dizer uma coisa em prosa. Na poesia, só existe uma. O jeito exato. Quando você consegue, o poema faz um clique como uma caixinha se fechando. Essa busca é a dor e a delícia de todo poeta. Seja bem-vindo.

 

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DICAS:

  • Não se preocupe se o seu tema ou motivo é original. Todos os temas já foram escritos. Quase tudo já foi tematizado na poesia. Duvida? Pense em um tema bem esquisito. Pensou? Pode ter certeza, ele já foi escrito ou intuído por um poeta. Ainda não acredita? Lembre-se, então, do que disse o carinha que, no Ocidente, mapeou a alma humana como ninguém até então. O tal do Sigmund Freud. Ele desabafou, puxa…: “Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim.” Ah, você achou um tema inédito? Então, guarde-o. É um verdadeiro tesouro. Você vai construir palácios com ele.
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  • Pense em coisas que foram substantivas pra você. Nada de adjetivos. Só substantivos que venham de sua própria história e experiência. Por exemplo, os meus são: MAR; DOMINGO; AUSÊNCIA, VENTO… Vá anotando sempre que lembrar de algo que foi importante, de alguma experiência marcante. Não tenha pressa. “Não percas tempo em mentir” ou fazer de conta. Anote em um caderninho. Eles serão os temas que você desenvolverá com maior propriedade e, se os deuses forem favoráveis, de algum ponto de vista inovador.
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  • Tenha sempre um dicionário à mão. Dê uma olhada nas várias acepções de uma palavra significativa pra você. Isso é uma das coisas que um poeta faz: revelar novos sentidos para as palavras que são usadas de forma mecânica. Construir frases (ou versos) que reforcem a ‘ambiguidade’ dos termos. Por exemplo: “dentro do novo existe um ovo”. Gera um estranhamento na frase e ao mesmo tempo brinca com a sonoridade de ‘novo’ e ‘ovo’. Todo estranhamento carrega uma centelha poética. O poeta não é um cientista. Como diria o poeta Manoel de Barros, o poeta desexplica o mundo para percebê-lo melhor.
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  • Arranje as frases, os versos, buscando sempre uma sonoridade expressiva. Lembre-se que a poesia veio da música e para ela sempre voltará. O seu poema tem que cantar, mesmo não tendo melodia ou acompanhamento musical.
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  • Escrever poesia é um jeito peculiar de dizer as coisas. De arranjar as palavras de um modo único. Solte-se. Deixe a imaginação, o ouvido e o sonho conduzirem você.
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  • Quando você achar que algo ficou bom, reescreva mais 10 vezes.
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  • Mostre sempre o que escreve para quem gosta de ler e, de preferência, para quem também escreve.
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  • Não dê muito ouvidos a elogios de amigos e parentes. Eles costumam ADORAR tudo o que escrevemos.
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  • Em última instância a poesia não serve pra nada. É um inestimável inutensílio, mas pode tocar profundamente uma pessoa. Ou seja, a poesia serve para o que mais interessa: o essencial.

 

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DICA POÉTICA PARA INICIANTES: Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Augusto de Campos, Manoel de Barros, Ferreira Gullar e Paulo Leminski. Persiga tudo o que eles escreveram. São excelentes companhias para se iniciar a trilha da poesia.

 

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[Texto publicado no jornal Contraponto da Paraíba]

 

 

 

 

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Edson Cruz é poeta, editor do site Musa Rara (www.musarara.com.br) e coordenador de Oficinas de Criação Literária. Seu livro de poemas mais recente, Ilhéu (Editora Patuá) foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom de 2014. Escreve sobre poesia para o Jornal Rascunho. E-mail: sonartes@gmail.com




Comentários (4 comentários)

  1. Maria Lindgren, Edson amigo Seu texto é ótimo. Gostei de tudo, mas sobretudo das dicas. Um abração maria
    22 julho, 2013 as 17:38
  2. Fernando Rocha, Não sei, há tantos textos no mundo, tanta política cultural, tanta panelinha. Será que ainda existem poemas. Poesia eu sei que sim, pois a percebo em meu cotidiano. Não acredito em tratados, oficinas e afins.Acho que o poema é escrito por quem tem condições técnicas e necessidade existencial.
    22 julho, 2013 as 20:01
  3. edson cruz, opa, Fernando. concordo com vc em muitos pontos. a necessidade existencial, creio, q não dá pra compartilhar. mas a técnica e, principalmente, os inúmeros erros q já cometemos dá pra passar. no final das contas, todo escritor em formação precisa de um interlocutor. pode ser um amigo leitor. um professor. outro escritor mais experiente. na oficina, às vezes, encontramos tudo isso junto e ainda a possibilidade de fazermos amizades literárias únicas.
    22 julho, 2013 as 21:27
  4. Ana Lucia Vasconcelos, Beleza de texto Edson: adorei as dicas…abraços
    22 julho, 2013 as 23:30

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