Papai Noel e a Iniludível


Tarefa cruel esta, ter que escrever, já dizia Céline; pode matar um homem, ainda mais um velho como eu. O que seria da vida sem os desejos irrealizáveis? Vida de Papai Noel não é tão fácil quanto aparenta; muito trabalho pra descolar presentes exigentes. Antes das viagens de entrega, viagens mil de busca pelos doze cantos do cosmos, florestas de cogumelos, cidades veladas, Diomira, Zaíra, Zora, Despina, Zirma, Maurília, Fedora, Zenóbia, Eufêmia, Zobeide, Ipásia, Armila, Valdrada, Sofrônia, Eutrópia, Aglaura, Bauci, ufa!, lugares onde já estando lá não percebemos que chegamos; ops…, litoral africano à vista e pimba, estacionar carruagem sem rodas; carruagem de renas não costuma pousar em terra, pois isto coloca duplo problema, sentimental e moral; mas indo ao que importa, uns escravozinhos aqui e um pouco de marfim ali, belo contraste, tudo preto no branco, trocadilho indecente e sem senso. O tempo sobrevoa, espaço curva. Pulo no porto de Málaca, entreposto da Indonésia cheirinho gostoso, quantas riquezas, será que o saco aguenta? Tenho que aguentar esses portugueses, o saco também, até o cais de Lisboa senão me pelam; eta cidade que cheira, devia se chamar especiaria; especiaria, belo nome pr’uma rena, mas simbora, pitadinha de pimenta cor de meu pijama e salto pra Índia bem em cima do algodão ah!, que tecido, sim sim só mais um pouquinho, tecedura de Canderi? Sim sim, cabe lá no fundo, bem… nem tão no fundo, no fundo do saco está a iniludível, mas sem medo o saco é grande, então passa pra cá estas rendas de Sourat; humm tá ficando bom, musselinas de Dacar, o que? Esses portugueses sabem o que é bom: broches de Béneres, calicós de Calicut, por Salomão!, na próxima vou trazer minha listinha de palavras sem sentido. Falando em Salomão, lembro de homem que esquecendo a magia por ela foi esquecido; não me deu pelota quando contei que vi minha rena preferida pedindo perdão ao caçador frustrado. Coisa estranha, retrucou. Sim, claro, toda palavra é estranha. As frases então…?, Palavras obscuras caindo do céu, com folgas semânticas feito corpo morto. Não me vele, disse. Não, por Júpiter!, ainda não. Se ao menos já fosse meia-noite, hora brasonada por dragões e diabos, com gnomos a embriagarem-se no óleo de minha lâmpada, mas ainda não, temos tempo; algum. Dizem que as formigas já comeram Roma; comerão a tudo que insiste em vicejar. Sua fome incorruptível a nos lembrar que sofremos todos de um grande mal, a desoriginalidade. Eu, em minha carruagem de rangíferes, vislumbro aqui do hemisfério boreal, o círculo vicioso da história. Sabemos que no centro desta prodigiosa cúpula cósmica está escondido um rubi de virtudes mágicas, e aqueles judiciosos, membros de famílias cujo traço mais característico é o recato, não o enxergam. Epa! Papo ficou filosófico demais, especial demais, especiaria, e preciso acabar meu relato; só mais uma pitadinha de vã filosofia, e prometo encerrar-me. Em meu saco, praticamente tudo está presente; se lhe for destinado relógios, recuse-os; relógios são infernos enfeitados de ouro, que você levará a passear e fará, de tempos em tempos, manutenção e no final perceberá que você é que foi dado ao relógio, e ele é que lhe faz manutenções, cobranças, repreensões. Presente de grego este, eu não daria ao meu melhor inimigo. Pra encurtar a estória vamos ao ponto dileto; deixando de lado a maneira correta de chorar e de amar, atenhamo-nos aos motivos verdadeiros. Todo amor é sagradamente profano e como é quase meia-noite e preenchi a página em branco a mim destinada, iludi a iniludível, não morrerei; ainda.

 

 

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[Conto presente no livro BLABLAblogue - Crônicas & Confissões, organizado por Nelson de Oliveira, Terracota Editora]

 

 

 

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Edson Cruz (Ilhéus, BA) é poeta e editor. Desgraduou-se em muitas coisas: Psicologia, Música e Letras. Foi fundador e editor do site de literatura Cronópios (até meados de 2009) e da revista literária Mnemozine. É professor no Curso de Criação Literária, da UnicSul/Terracota Editora, no módulo Poema. Lançou em 2007, Sortilégio (poesia), pelo selo Demônio Negro/Annablume e, como organizador, O que é poesia?, pela Confraria do Vento/Calibán. Lançou, também, uma adaptação do épico indiano, Mahâbhârata, pela Paulinas Editora. Em 2011, lançou Sambaqui, livro contemplado pela Bolsa de Criação da Petrobras Cultural. Em janeiro de 2012, colocou no ar seu novo projeto: o site MUSA RARA. Escreve com frequência no blog: http://sambaquis.blogspot.com E-mail: sonartes@gmail.com




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