Páginas latino-americanas


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O poeta, professor e ficcionista Wilson Alves-Bezerra lança um fascinante e necessário diálogo com grandes autores latino-americanos. Uma reunião de 64 artigos publicados no
Estado, Globo, Jornal do Brasil, O Estado de Minas e Zero Hora escritos, entre 2009 e 2015, em uma prosa sintética, informada e fluida. Uma delícia de ler.

Pensar a literatura latino-americana implica pensar diversas das questões capitais deste universo para nós ainda um pouco estranho, pois, para ele, não deixamos de eventualmente estar de costas. Do México ao Uruguai — passando pelo Brasil, a propósito —, Wilson Alves-Bezerra nos mostra que a literatura latino-americana não é apenas um mundo raro e fascinante, mas um lugar privilegiado de reflexões que vão da estética à ética, passando, é claro, pela política.

Confira dois textos do livro.

[da Redação]
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Em 1930, um “espião” argentino observava o Rio

Roberto Alrt. Águas-fortes portenhas seguidas de Águas-fortes cariocas. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: Iluminuras, 2013

 

O escritor argentino Roberto Arlt (1900-1942), embora tenha sido até hoje pouco editado no Brasil, dialoga de modo singular com nossa cultura. Os recém-completados setenta anos de sua morte talvez expliquem a abundância de edições recentes: sua obra acaba de cair em domínio público, pondo fim aos entreveros com os descendentes pelos direitos autorais. Há verdadeira enxurrada de Águas-fortes no mercado: além destas cariocas e portenhas da Iluminuras, existe a promessa de outra tradução pela Rocco; também na Argentina, as cariocas acabam de sair pela editora Adriana Hidalgo.

Esta ampla oferta, mais que salutar, é necessária, pois, no caso de Arlt, estamos diante de um autor que usou como matéria-prima a linguagem da Buenos Aires de seu tempo — palavras italianas, espanholas, brasileiras, gírias locais, enfim, uma variedade de fazer frente ao Alcântara Machado de Brás, Bexiga e Barra Funda. Assim, quem se interessa pela experiência da oralidade na literatura se deliciará ao cotejar as escolhas dos diferentes tradutores.

As águas-fortes são um gênero híbrido entre a crônica e o quadro de costumes. Publicadas sempre no espaço limitado do jornal, parecem seguir de fato o princípio da técnica de gravura, que o próprio Arlt evocou certa vez: “nada de cores, tinta e carvão”. A centena de textos da presente edição é uma pequena mostra dos mais de duas mil aguafuertes publicados por ele no tabloide El Mundo, de Buenos Aires, a partir de 1928. Esta série traz esboços de personagens portenhos, como o homem que procura emprego, o vagabundo profissional, os garotos com ar de velhos, um casal na leiteria, mas também reflexões apressadas sobre cinema, literatura, língua nacional, modernização da cidade, saudades do bairro antigo etc. Em alguns momentos, a escrita de Arlt vai além da circunstância imediata e se faz universal, como no texto “A inutilidade dos livros”. Nele, contrário aos preceitos da pedagogia oficial, afirma: “O que os livros fazem é desgraçar o homem, acredite. Não conheço um só homem feliz que leia. E tenho amigos de todas as idades. Todos os indivíduos de existência mais ou menos complicada que eu conheci tinham lido. Lido, desgraçadamente, muito”.

Há em Arlt um frenesi pela escrita que, além de ser marca do jornalismo da primeira metade do século XX, tem parentesco — em muitos sentidos — com as crônicas de jornal de Nelson Rodrigues (1912-1980). Arlt — como o brasileiro — advoga para si o direito à contradição: é capaz de escrever uma crônica defendendo o cinema como arte revolucionária e depois dizer num romance que o cinema é um tremendo engodo da indústria norte-americana para estimular o consumismo. Ele se compraz em provocar. Considerado em seu tempo autor intuitivo, era lugar-comum dizerem dele que escrevia mal, que era semianalfabeto. Alberto Hidalgo, seu contemporâneo, ao comentar o livro Os sete loucos, em 1929, diz: “Arlt é em nosso ambiente um caso único: não conhece a gramática elementar, mas tem uma imaginação e um léxico exuberantes”. Tal frase é exemplar da estreiteza de percepção de quem não se deu conta da escuta apurada do escritor e seu poder de recriar a fala na literatura.

A sagacidade de Arlt sobre a paisagem local era tão intensa que seu editor decidiu mandá-lo viajar e contar suas impressões de outras paragens para os leitores portenhos. Assim nasceram as águas-fortes galegas, madrilenhas, asturianas, africanas, uruguaias e… cariocas.  Funda-se aí uma nova etapa que a edição brasileira recolhe pela primeira vez: não mais o cronista senhor da situação, mas o viajante encantado, que olha em torno e descobre. Diz ele: “Eu sou o tripulante de terceira que viaja — sabe-se lá por que fenômeno sísmico — de primeira”. Os textos cariocas surpreendem, pois embora haja neles o mesmo vagabundeio pela cidade, a mesma observação errática de tudo, muitas vezes a mordacidade dá lugar ao lirismo e ao desamparo. Ao observar as casas de pedra do Rio, diz: “E o peso da pedra, dos blocos de pedra de que são construídas todas essas casas, acaba por esmagar-lhe a alma, e você caminha cabeceando, no centro da cidade, numa quase solidão de deserto às dez da noite”.

 

O Estado de S. Paulo, 8 de junho de 2013

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É preciso ver Bioy Casares com os olhos de Cortázar

sobre o centenário de Adolfo Bioy Casares

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Em “Diário para um conto” (1982), o último texto do último livro de Julio Cortázar (1914-1984), o narrador declara a si mesmo, já nas primeiras linhas do relato, suas dificuldades em começar a escrever: “às vezes, quando já não dá para fazer outra coisa além de começar um conto como queria começar este, é justamente nestas horas que eu queria ser Adolfo Bioy Casares. Gostaria de ser Bioy porque sempre o admirei como escritor e o estimei como pessoa, apesar de que nossas respectivas timidezes não nos ajudaram a ser amigos, além de outras razões de peso.”

Nas linhas seguintes, o narrador — que deliberadamente se confunde com o escritor Cortázar — elogia de Bioy Casares (1914-1999) sua capacidade de mostrar profundamente seus personagens, e ainda assim manter uma distância entre eles e o narrador. É justamente o contrário do que vemos na obra de Cortázar, cujos narradores se envolvem com os personagens até o limite da metamorfose e da transmigração. A incomum confissão do último conto de Cortázar é reveladora não apenas quanto a Bioy, mas quanto ao próprio Cortázar, nesta espécie de declaração final.

Nesse diálogo de tímidos, a resposta de Bioy só se fez conhecer postumamente, em 2001, quando foram publicados seus diários íntimos em Descanso de caminantes. No dia 12 de fevereiro de 1984, dia da morte de Cortázar, Bioy lamenta nunca ter escrito, ao longo dos dois últimos anos, para agradecer ao colega de ofício “a extraordinária generosidade de se referir a mim, tão elogiosa, tão amistosamente em seu admirável ‘Diário para um conto’ ”. Pensa que as diferenças políticas — ele liberal, Cortázar comunista — pesaram, além da timidez, e arremata: “Se estivéssemos em um mundo no qual a verdade fosse comunicada diretamente, sem necessidade das palavras, que exageram ou diminuem, eu teria dito que sempre o senti próximo de mim e que concordávamos no essencial.” Frase eloquente para quem sempre viveu das palavras.

A dimensão da incomunicabilidade de certa “verdade” — termo caro a Bioy —  termina por aproximar ambos os autores, cujos centenários são celebrados neste ano de 2014: Cortázar foi pródigo em mostrar pares incomunicáveis: seus contos “Axolotl”, “Pescoço de gatinho preto” e “Anel de Moebius”, em dimensões diversas, mostram relações que naufragam pela impossibilidade de aceder à alteridade. Já Bioy Casares, em seu clássico romance A invenção de Morel (1940) mostra um narrador siderado com a visão de uma mulher, Faustine, que repete diariamente o ritual de caminhar numa ilha ao lado do namorado, mas que o ignora completamente. A amada, descobre-se ao final, era a imagem projetada continuamente por uma engenhoca inventada por um certo Morel; trata-se da homenagem de Bioy ao cinema. Os personagens de ambos autores, nos casos acima, naufragam diante de espelhismos sedutores.

A imagem kafkiana do homem tímido — que não consegue expressar o amor, a verdade, e que se recolhe a seu silêncio — pode ser reavaliada a partir das centenas de páginas íntimas de Bioy Casares que têm sido publicadas a partir de sua morte. A dimensão privada do escritor ficou cada vez mais exposta a partir de seu projeto de publicar postumamente seus diários. Há ao menos três livros capitais: além do já citado Descanso de caminantes, que recolhe anotações oníricas, literárias e linguísticas, os temáticos Borges (2006) e Unos dias en el Brasil (2010), que devem ser importados pelo leitor brasileiro, já que todos estão infelizmente inéditos entre nós.

A publicação desses diários lança luz à excelente produção narrativa de Bioy, em geral eclipsada pela presença de seu contemporâneo Borges (1899-1986), a quem se poderia atribuir o que o próprio Borges falou de Quevedo: “mais que um homem, uma vasta e complexa literatura”. Por um lado reafirmam sua postura tímida e reverencial em relação a Borges, com quem se encontrava cotidianamente, e a quem dedicou um alentado volume de mais de 1600 páginas, com transcrição de diálogos e conversas literárias de ambos. Segundo o editor, Daniel Martino, o objetivo de Bioy foi “contar como o vi, como ele foi comigo. Corrigir alguns erros que se cometeram sobre ele, defender Borges e, sobretudo, defender a verdade”. Defender Borges é defender a si mesmo, pode-se pensar. Parte importante da obra de Bioy deu-se em colaboração com o amigo: desde um inaugural e já mítico folheto de propaganda de leite, passando pela construção do heterônimo Honorio Bustos Domeq, até a organização conjunta, com Silvina Ocampo, da Antologia da literatura fantástica (1940).

O curioso é que, ao lado da dimensão reclusa e da devoção a Borges, à literatura e à “verdade”, o projeto deixa sugerido o afã de construção de uma figura outra de si mesmo. E aí surge uma figura ácida, vaidosa, que se compraz em atacar escritores rivais e lembrar-se dos tempos de juventude. O que deve compor-se ainda com a revolta contra a decrepitude física, as dores lombares, de quem na juventude foi esportista e sedutor.

Interessante contrapor este Bioy privado a seu romance Diário da guerra do porco, o qual colocava em cena, já em 1972 — quando o autor recém ingressava na velhice —, uma ficção sobre uma revolta que consistia em exterminar velhos; narrada sob os preceitos da literatura fantástica, deixava o leitor na incômoda posição de assombrar-se tanto com a finitude do próprio corpo quanto com o desejo de exterminar a velhice no mundo.

No momento em que se completam os cem anos de Bioy Casares, uma cifra quase obscena para quem sonhava manter-se jovem, conhecer ou revisitar sua obra narrativa é uma oportunidade de leitura para conhecê-lo para além do “amigo de Borges”. É reconhecê-lo na dimensão trazida por Julio Cortázar: a de um narrador contido, que delega ao leitor o assombro e a adjetivação. Ou, ainda, a oportunidade para ver de perto suas obsessões e vaidades, registradas em seus diários pessoais, dimensão na qual foi também grande.

 

O Estado de S. Paulo, 13 de setembro de 2014

 

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O lançamento do livro acontece dia 2 de março, às 19h, na livraria Cultura do Conjunto Nacional.
O link do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/252783258481421/

 

 

 

 

 

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Wilson Alves-Bezerra é escritor, tradutor, crítico literário e professor de literatura. É autor dos ensaios Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008) e Da clínica do desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP, 2012) e das obras literárias Histórias zoófilas e outras atrocidades (contos, EDUFSCar/Oitava Rima, 2012), Vertigens (poemas em prosa, Iluminuras, 2015), vencedor do Jabuti (Escolha do Leitor) em 2016 e O pau do Brasil (poemas em prosa, Urutau, 2016). E-mail: wilson.alves.bezerra@gmail.com

 




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