O soneto malogrado de Bentinho


……………………………………Pintura by Wandger

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A primeira vista, Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, é apenas um exercício de reconstituição literária do fracasso de um projeto de vida individual. Escrito num “estilo de memórias quase póstumas”, conforme observa o prof. Alfredo Bosi[1], o romance é, como se sabe, uma jornada retrospectiva, que procura “unir as duas pontas da vida”, numa tentativa de recuperar para o instante presente o sentido que se extraviou no passado.  No afã de determinar o momento de ruptura entre passado e presente, o narrador/ protagonista do romance se debruça sobre o espelho da sua memória. Mas esse somente lhe devolve imagens planas. Desvestidos dos seus significados originais os signos se recolhem à sua função significante. Na medida em que não é dado ao discurso literário o poder de descongelar as vivências cristalizadas num universo de papéis e valores fixos, o presente acaba se confirmando apenas como resíduo esvaziado do passado. A palavra torna-se então meio de evocação, mas não de elaboração. É certo que D. Casmurro já não é Bentinho. Mas o D. Casmurro que escreve a última linha das suas memórias é exatamente o mesmo que escreveu a primeira.

A cisão entre o antes e o depois se faz notar em diversos aspectos do romance. Se D. Casmurro é o mero invólucro de Bentinho, a casa do Engenho Novo é uma reprodução fiel, em todos os detalhes, da moradia de Matacavalos – destituída porém da alma e das memórias que povoavam o lar de infância do protagonista.

No capítulo LV do Dom Casmurro, intitulado “Um soneto”, a temática da ruptura entre passado e presente, que norteia toda obra, aparece diretamente associada ao processo de criação literária, mais precisamente ao de criação poética. Trata-se de um daqueles capítulos tipicamente machadianos, em que o curso da narrativa é interrompido por divagações do narrador que, aparentemente, nada tem a ver com o enredo em si.

No caso, trata-se de uma reminiscência da sua época de seminário em que o protagonista descreve uma tentativa malograda de produzir um soneto. O capítulo é, antes de tudo, uma deliciosa paródia do fazer poético. A obra de arte em questão ostenta todos os referenciais da boa poesia – com os sinais devidamente trocados: a temática elevada é substituída pela frase feita; o verso perfeito cede lugar à forma truncada; no lugar da síntese poética se instaura a lacuna; a chave de ouro do poema converte-se no chavão…

E, como se isto não bastasse, a descrição da laboriosa empreitada se completa com a cômica imagem do “poeta” Bentinho esperando, literalmente deitado, que os versos caiam do céu e o soneto se materialize diante dos seus olhos: jamais um poeta suou tanto, fazendo tão pouco esforço.

Um exame mais detido do soneto incompleto de Bentinho indicará, no entanto, que, para além de parodiar o próprio processo de criação poética, ele é também uma síntese admirável do próprio romance.

O poema tem apenas três versos:
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Oh! flor do céu!oh! flor cândida e pura!

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Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
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E o terceiro e último verso nasce da inversão do segundo:
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Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

 

O seu formato lacunar remete diretamente à questão central das próprias memórias: o já referido hiato entre passado e presente. Convertido em discurso poético o discurso literário fracassa, aqui como lá, ao tentar preencher o espaço vazio da experiência concreta deixando, mais uma vez, o agente criador às voltas com as duas extremidades de um projeto truncado – tão truncado como a sua própria vida. Verifica-se assim um paralelo entre o processo de criação do poema e do romance.

A mesma simetria pode ser constatada na comparação dos três versos com as três fases do romance.

O primeiro verso Oh! flor do céu! flor cândida e pura!/ simboliza a adolescência do fazedor de versos e a descoberta do primeiro amor com toda a sua carga de pureza e êxtase. Mais do que isto, ele nos apresenta o próprio protagonista num estado inicial de candura e ingenuidade.

O outro verso, Perde-se a vida, ganha-se a batalha!,, ilumina a fase do idealismo romântico. É o momento da exaltação amorosa, da luta vitoriosa contra a ordenação religiosa, da dedicação intensa ao casamento. Existe romantismo maior do que oferecer a própria vida em troca da experiência da plenitude? Significativamente é este o verso que Bentinho elege como chave de ouro para o seu soneto – e para a sua vida.

Até aqui o soneto, como, aliás, três quartos do próprio romance, sugere uma trajetória romântica. Nesse momento ocorre a inversão do segundo verso para: Ganha-se a vida, perde-se a batalha! O que era perda converte-se em ganho e vice-versa.

Essa mudança abre espaço para uma segunda leitura, contrária à anterior, que indica a mudança radical que se opera na perspectiva do narrador. Instaura-se assim a fase cínica, cujo tom determina a atmosfera definitiva do romance, colocando sob suspeita a inocência da primeira fase e as veleidades românticas da segunda De acordo com ela, a vida perdida equivaleria à vida desperdiçada, pois uma única batalha ganha, pouco representa no decorrer de toda uma existência. Como no caso do Othelo de Shakespeare, com o qual o romance de Machado dialoga, o idealismo amoroso mostra a sua fragilidade na rapidez com que sucumbe à desconfiança e ao ciúme. Ao se autoenvenenar, Dom Casmurro incorpora, ao mesmo tempo, o ciumento Othelo e o diabólico Iago da tragédia shakespeariana. E aqui não cabe especular causas externas do desmoronamento do universo idealizado por Bentinho. Conforme sustenta a boa crítica machadiana, a tragédia doméstica do narrador se instala a partir do seu modo particular de interpretar a realidade.

O próprio “poeta” fornece uma interpretação bastante curiosa para esse último verso: ”…não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu”. A ironia suprema dessa avaliação é que ela parece vaticinar o destino do próprio Bentinho: pois é graças à sua impiedosa obstinação que a batalha do “céu” (leia-se felicidade doméstica) está irremediavelmente perdida, espalhando os seus cadáveres pelo caminho.

Num outro sentido, a estrutura do soneto de Bentinho também remete ao percurso literário do próprio Machado de Assis: do parnasianismo de seus poemas de juventude, passando pelo romantismo de Helena, A mão e a luva e Iaiá Garcia para desabrochar no realismo da sua fase madura.

Resta lembrar que o romance, que se passa na segunda metade do século XIX, é ainda reflexo e produto de um momento histórico marcado por profundas mudanças institucionais, que, naquele momento, ainda não puderam ser devidamente absorvidas pela sociedade brasileira. Com a abolição da escravatura seguida tão de perto pela proclamação da República o país vê-se de súbito privado dos dois extremos de uma ordem social que data da origem do país – o escravo e o monarca. Ele focaliza, portanto, um momento de transição entre as famílias tradicionais do Império e o arrivismo feroz da nova sociedade republicana. Retratado do ponto de vista de um personagem da velha ordem, cujos interesses foram traídos pela instauração da República, o presente aparece como o resquício esvaziado do passado.

Na reconstituição ostensiva de uma experiência individual, Dom Casmurro recorre, portanto, a dois artifícios metaliterários que ilustram a impossibilidade de uma literatura oriunda de um contexto realista elaborar a cisão criada por um cenário histórico particular. Um deles é reativando, por meio do próprio enredo do romance, o projeto romântico em toda sua intensidade apenas para poder destruí-lo de maneira mais eficaz. O outro é o jogo irônico com o poema inacabado do protagonista. O soneto mutilado de Bentinho é, em última análise, um produto da própria realidade cindida que se propõe a representar, o riso oco que zomba descaradamente do propósito de “unir as duas pontas da vida” – e, por extensão, da literatura.

 

 

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[1] Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira - S. Paulo. Cultrix,1987, 3a. ed., p. 201.

 

 

 

 

 

 

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Daniela Mercedes Kahn é doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP. É autora de A via crucis do outro: identidade e alteridade em Clarice Lispector, tradutora, redatora e revisora de textos. Atualmente faz o pós-doutorado sobre a representação das mudanças sociais no teatro alemão da época de Goethe na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. E-mail: danielak@outlook.com.br

 




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