O Rei de um Reino mais Augusto


 

Na história da literatura brasileira, há uma poesia antes do Concretismo e outra depois do Concretismo, e poderia ter as iniciais AC como emblema. Com o desaparecimento de seus companheiros, o poeta, tradutor, crítico literário e musical Augusto de Campos se tornou o sobrevivente desse movimento literário paulista surgido nos anos 1950. É a voz derradeira, porém com o vigor juvenil da reinvenção contínua, aspecto que comparece outra vez neste livro.

O autor não publicava há mais de uma década. O que vemos aqui é uma autêntica panóplia poética de um jovem de 80 anos que não recua perante as transformações da contemporaneidade. Pelo contrário, mergulha explorando múltiplas formas, direcionamentos, conteúdos, expressões, mensagens que a sua poesia sempre esquadrinhou. AC projetou, viveu e vive o seu futuro.

A sua ousadia começa logo no título da obra – “Outro” –, cuja disposição espacial adquire uma operacionalidade lúdica, uma organicidade típica dos experimentos de AC. O mecanismo de leitura em profundidade fragmenta a palavra num movimento em espiral, e o vocábulo transpõe o seu limite: o título torna-se então quase um logotipo. Isso nos demonstra como AC mantém a sua alta fidelidade poética, seguindo seus princípios de maneira radical.

Se quisermos estabelecer uma pedra fundamental para a arquitetura concretista erigida por AC, o ano de 1955 é simbólico, pois é quando publica “Poetamenos”, no nº 2 da “Noigandres”, revista que se tornou o órgão de divulgação dos poetas concretos. Portanto, há 60 anos AC começou a abalar as estruturas da poesia brasileira com uma obra arrojadíssima.

Desde a sua estreia, em 1949, na Revista Brasileira de Poesia”, e com a edição de “O rei menos o reino” (1951), AC se norteou em criar uma obra revolucionária, sem transigir com as facilidades, mas aprofundando a pesquisa e a exploração das novas mídias que se avizinhavam e davam os primeiros passos. AC, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e os poetas concretos em geral, souberam captar a revolução que estava em curso. Por essa razão, era inevitável que a poesia de AC viesse a transpor os perímetros da página em branco para a tela do computador, o que se anunciava desde os primórdios da sua obra, já que o aspecto lúdico é um dos pilares que escoram o seu território experimental.

Os seus experimentos esquadrinham todos os sentidos: tátil, sonoro, visual, instalando a sua expressividade vocabular em circuitos inexplorados. A sua atitude antecipatória foi perceber que o poema pode conviver em múltiplos suportes, sem perder sua vitalidade, pelo contrário, expandindo ainda mais o seu sentido e a sua ressonância. Daí a utilização da holografia, do vídeo, do laser, do neon, da computação digital. Todas as variações possíveis se adaptam. Não se trata de poesia como experiência, mas poesia como experimentação. AC já era digital antes mesmo de o termo se vulgarizar.

O poeta conquista um espaço novo, rompendo com as fronteiras da sua expressividade, mas intensamente conectado com o mundo real. Neste sentido, observe-se o clip-poema “tvgrama 3”, que registra a mundividência da juventude e a hegemonia das imagens num microcosmo urbano e atual, e que parece dialogar com o macrocosmo caótico de “cidadecitycité” (1963). Ou seja, a palavra transforma-se em poema, o poema torna-se objeto e o objeto ostenta a sua essência virtual.

['cidadecitycité' - Transcriação computadorizada de Erthos A. de Souza, 1975]

 

Apesar de ter permanecido em silêncio por mais de uma década, vemos, neste livro, que AC se mantém vigilante, investigando, traduzindo e observando os deslocamentos dos paradigmas atuais. E, em “Outro”, podemos ver como sua antena está alerta. Ele se equilibra com astúcia num arame que vai do experimentalismo de vanguarda ao discurso linear clássico, exposto nas traduções de determinados autores que nos revelou. Em certos momentos, AC inquire a si mesmo e à própria obra, como vemos em “isto” (“est/e/quis/to/es/qui/si/to/é/po/es/ia/ou sou eu que/ex/isto?”), num exercício cummingsiano (E.E. Cummings, aliás, é um autor que o influenciou e continua a influenciar) estendendo a percepção e assumindo assim um tom que trafega entre o tecnológico e o ontológico.

No que se refere ao trabalho tradutório, o seu GPS poético é insuperável e nos brindou, nos últimos anos, com traduções de Borges, Emily Dickinson, Rilke, Byron, Keats e August Stramm, entre outros, mas sempre com a sua impressão digital.

AC faz parte daquele clube de poetas órfãos, cujas obras geram uma linguagem genuína; seus limites são delimitados por eles mesmos, mas serão sempre imitados da forma mais tosca. Ele é hoje, no Brasil, o nosso principal mentor poético, o condutor da experimentação ininterrupta num reino que é só seu, mas que ainda engendra diluidores. Assistimos em sua poesia às tensões de um mundo complexo e à perplexidade contemporânea expostas em nossa cara, que é como quem diz na página em branco, na tela do computador, dos celulares ou tablets. O Big Bang que a sua poesia produziu na poesia brasileira ainda causa reações e abalos. E continuará a causar por muito tempo.

 

 

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[Publicado originalmente no extinto Guia de Livros e cds da Folha de São Paulo, em julho de 2015]

 

 

 

 

 

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Jorge Henrique Bastos é jornalista, tradutor e editor, organizou “Poesia brasileira contemporânea, – dos modernistas à actualidade”. (Antígona, 2002). E-mail: jorgehenriquesbastos@gmail.com

 




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