O que significa ser escritor?


 

Juan Carlos Onetti foi o primeiro secretário de redação da Revista Marcha, semanário que surge em Montevidéu, no ano de 1939. Ali escreveu de tudo, inclusive crítica literária, que assinava com o pseudônimo de Periquito, el Aguador. Alguns textos são breves reflexões a respeito da criação literária — ou melhor, análises sobre o comportamento que a literatura exige de quem pretende ser escritor.

Em junho de 1939, Onetti recorda uma entrevista que André Maurois concedera, um ano antes, à época de sua entrada para a Academia Francesa. “Qual é o segredo do seu êxito?”, pergunta o jornalista. E Maurois: “Muito simples. Eu durei”. Onetti afirma que o chiste tem “pouca transcendência” e se presta a um mal-entendido, pois escrever não é apenas aquele exercício que alguns fazem, sem descanso, da infância à velhice. Na verdade, para Onetti, o verbo “durar” serve a grande variedade de sentidos, que ele assim explica: “Durar frente a um tema, frente ao fragmento de vida que escolhemos como matéria do nosso trabalho, até extrair, dele e de nós, a essência única e exata. Durar frente à vida, sustentando um estado de espírito que não tenha nada a ver com o vão e o inútil, o fácil, as panelinhas literárias, os elogios mútuos, as bobagens de mesa de café”.

Trata-se, para Onetti, de perdurar, de persistir — continuar a existir, apesar de todas as dificuldades. Ele completa seu raciocínio: “Permanecer numa cega, prazerosa e absurda fé na arte, como numa tarefa sem sentido explicável, mas que deve ser aceita virilmente, porque sim, como se aceita o destino”.

Onetti volta ao tema em setembro de 1939, afirmando que nem todo escritor está “conformado psiquicamente” para a tarefa de produzir literatura. As “coisas tangíveis” para um artista encontram-se numa escala de valores que não podem ser as de um médico ou de alguém que vive de rendas. E salientando o “reino de mediocridades” do Uruguai daquela época, insiste: “Que o criador de verdade tenha a força de viver solitário e olhe dentro de si mesmo. Que compreenda que não temos pegadas para seguir, que cada um haverá de fazer seu próprio caminho, de forma tenaz e alegre”.


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Ser mais que um diletante

No número 6 de Marcha (outubro do mesmo ano), reitera: “Quando um escritor é algo mais que um aficionado”, escreve não por algum motivo especial, mas “porque sim, porque é seu vício, sua paixão e sua desgraça”. E se alguém troca a literatura por qualquer outra coisa — como o jornalismo, por exemplo —, se deixa de escrever literatura, “é simplesmente porque acaba de encontrar seu verdadeiro caminho”. Mas quando “tem” de escrever, então estará sempre pronto a “roubar uma hora ao dono do jornal, ao sonho, ao amor”.

Fora dessa que é a verdadeira duração, dessa continuidade indefinida de tempo, marcada pela entrega sem reservas, “todo o resto”, conclui Onetti, é mera “duração física, um pouco fatigante” — não é uma resistência, mas apenas aquela “virtude comum às tartarugas, aos carvalhos e aos erros”.

 

 

 

 

[Matéria gentilmente cedida pelo autor de seu site: www.rodrigogurgel.com.br]

 

 

 

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Rodrigo Gurgel é crítico literário, escritor e professor de literatura e escrita criativa.

 




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