O namorado do papai ronca


 

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Um olhar por Nanete Neves

 

Um thriller em linguagem de roteiro que acompanha seis meses bastante especiais na vida de um adolescente também muito especial no período em que ele sai da grande metrópole para morar uns tempos com o pai numa pequena cidade do interior, enquanto a mãe vai para a Itália com projetos de estudos e trabalho.

O namorado do papai ronca é o romance de estréia de Plinio Camillo que traz o seu olhar de dramaturgo para a narrativa ficcional voltada para um público bastante exigente: os jovens adultos. E é na linguagem deles que o autor faz um recorte na vida desse garoto inteligente, articulado e louco por futebol, o que torna essa narrativa absolutamente contemporânea.

Recortes de diálogos via Messenger revelam o modo como Dante se relaciona com os amigos no jogo de aparências tão comuns na adolescência. Já os contatos diários via Skype com a mãe demonstram o quanto ele ainda tem de criança, sentindo falta de seu colo e sua proteção. Na descrição dos personagens o autor lança mão de outra ferramenta bastante moderna: os perfis nas redes sociais.

Ou seja, de forma hábil e sensível, Plinio Camillo trata desse personagem de forma amorosa e com a intimidade de quem conhece a fundo essa fase da vida por si só repleta de sentimentos contraditórios, e nos fala das angústias e descobertas desse garoto numa fase em que ele precisa se adaptar a uma nova cidade, nova casa e novos costumes, tendo ainda que lidar com as saudades que sente da mãe e dos amigos que deixou na metrópole. E tudo numa linguagem quase cinematográfica.

Selecionado pelo CONCURSO DE APOIO A PROJETO DE PRIMEIRA PUBLICAÇÃO DE LIVRO NO ESTADO DE SÃO PAULO de 2011 (ProAC Edital nº 32/2011), com uma narrativa ágil, certeira, sensível, atual e bem-humorada, Plinio Camillo nos brinda com Dante, esse protagonista que nos cativa da primeira à última linha simplesmente por ser um garoto cheio de facetas e contradições, e por isso mesmo, tão parecido como os jovens de 12 anos que conhecemos .

O título, provocativo, nos faz refletir indiretamente sobre a questão homoerótica uma vez que o fato do pai relacionar-se amorosamente com outro homem é o menor dos problemas desse menino que vive tão intensamente cada momento e cada gol.

Sinal que a literatura está viva, e ainda pode nos surpreender com um texto como este, capaz de encantar jovens e adultos com a mesma potência.

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Trecho do livro:

 

CAPÍTULO I

 

Terça-feira – 3 de agosto

Noite


— O namorado do papai ronca!

— Não está meio exagerando, filho?

— Mãe! O Ademar ronca muito! É sinistro, mãe!

— Dante!?

— Mãe… calma aí… todo mundo aqui do prédio reclama…

— E aí?

— Aí nada! Papai encheu as paredes de cortiça…

— Funcionou?

— Que nada… o ronco vaza…

— Sei…

— Sabe nada… parece a caverna do dragão!

— Num tá meio demais?
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Dante acha engraçado conversar com a mãe pelo Skype.

Faz um mês que ela está em Milão! Foi fazer um mestrado em moda, ou dar uma consultoria, ele nunca sabe bem.

Dante teve que trocar São Paulo, capital, por Procópio, interior.

Em uma noite dessas bateu uma saudade da mãe e de São Paulo. Até chorou baixinho, com a cabeça coberta. Não queria que o pai ficasse chateado.

Sempre quis morar com Heitor. O querido e velho pai! Sonho de filho quando a mãe dá bronca. Mas São Paulo era muito melhor!

Sabia que era por pouco tempo, seis meses! Mas…
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No aeroporto, mês passado, ele se fez de forte, porém morria de medo.

Medo da cidade.

Medo do avião da mãe cair.

Medo da mãe nunca mais voltar.

Medo da vida com o pai.

Medo da vida longe da mãe.

Medo do homem alto que tinha um olhar estranho.

Medo.

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Lembra-se do dia da grande mudança. Com a mãe embarcada, foram de táxi até a rodoviária. Heitor, como sempre fazia antes de entrar no ônibus, comprou revistas para os dois.

 

 

 

 

 

 

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Plínio Camillo nasceu em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobriu que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistou a exclamação. Aos 17 viu os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 se viu como um advérbio. Aos 25 desenredou a lingüística. Aos 27 redescobriu as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebeu o maior presente: a filha que lhe trouxe a felicidade. Aos 40 desvendou uma ligeira maturidade. Aos 41 volta ao verbo. Aos 45 recebeu o prazer de viver em adjunto adverbial de companhia. Aos 50 anos, usa óculos até para atender telefone. Hoje se diverte escrevendo. Participa dos seguintes blogs: Coração Peludo – http://cervejaerua.wordpress.com. Coletivo Claraboia – http://coletivoclaraboia.wordpress.com/ e O namorado do papai ronca – http://pliniocamillo.wordpress.com/ E-mail: pcamillo60@uol.com.br




Comentários (3 comentários)

  1. O namorado do papai ronca – Pelo mundo!! « O Namorado do papai ronca, [...] http://www.musarara.com.br/o-namorado-do-papai-ronca [...]
    2 julho, 2012 as 9:23
  2. Daniel Lopes, Estive lá no lançamento e conheço o livro desde a construção. Parabéns mais uma vez Plínio. Vale a pena conferir pessoal.
    6 julho, 2012 as 12:19
  3. Marcia Barbieri, Grande livro, um prazer ter presenciado as etapas de sua construção!!!!!!
    6 julho, 2012 as 12:29

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