O livro como objeto de prazer



………………………………………………Livro objeto

 

A leitura é um prazer que muitos de nós não abrimos mão de realizar diariamente. Ler, descobrir um mundo novo e, através deste, o nosso próprio mundo, conviver com personagens excêntricos, surreais, e tão iguais a nós, em romances, novelas, contos fantásticos e tradicionais, sentir a delicadeza, perceber a musicalidade dos versos de um poema, espelho do nosso eu, feliz ou angustiado, é algo inerente aos nossos dias; porém, isso também pode nos levar a outros prazeres intimamente ligados ao objeto em si, o livro.

Mas esses outros prazeres, hoje em dia, podem estar tornando-se limitados ou simplesmente mostrando-se finitos. Outras formas de leitura têm surgido com o tempo e tentado substituir a tradicional em papel. Em especial, leituras pelo computador, por tablets e, mais recentemente, por e-Readers, com seus e-books. Formatos que vêm causando controvérsias sobre sua perenidade, praticidade e funcionalidade. Vantagens ou desvantagens sobre as quais muitos discutem, dentre eles um dos mais conhecidos bibliófilos do mundo atual, o escritor Umberto Eco. Diz ele que o suporte do livro não pode ser apenas o computador. Passe duas horas lendo um romance em seu computador, e seus olhos viram bolas de tênis. Tenho em casa óculos polaroides que protegem meus olhos contra danos de uma leitura contínua na tela. A propósito, o computador depende da eletricidade e não pode ser lido numa banheira, tampouco deitado na cama. Logo o livro se apresenta como uma ferramenta mais flexível (CARRIÈRE; ECO, 2010, p. 16).

E Eco continua, não descartando as vantagens do mais recente suporte para a leitura, o e-Reader, como comentamos acima, que eliminaria alguns dos problemas de mobilidade (contudo, lembro que ainda teremos o problema da dependência da eletricidade, dessa vez por intermédio de uma bateria, ou pilha, como prefiram chamar):

É óbvio que um magistrado levará mais confortavelmente para sua casa as 25 mil páginas de um processo em curso se elas estiverem na memória de um e-book. Em diversos domínios, o livro eletrônico proporcionará um conforto extraordinário. Continuo simplesmente a me perguntar se, mesmo com a tecnologia mais bem adaptada às exigências da leitura, será viável ler Guerra e paz num e-book. Veremos (CARRIÈRE; ECO, 2010, p. 17).

Essas são algumas das características dos novos suportes e seus possíveis problemas. Mas partamos agora para o prazer do objeto livro, em papel, ao qual fiz referência no começo. Esqueçamos por enquanto outros suportes e mesmo seu conteúdo. Vamos nos ater ao objeto livro como encanto, como fetiche, e ao prazer de receber, manusear e degustar tátil e visualmente o livro tradicional.

O escritor italiano Italo Calvino, em seu romance Se um viajante numa noite de inverno (1999), descreve o caminho do prazer pelo livro percorrido por um leitor imaginário – mas muito real, já que somos nós –, desde o sair de sua casa até uma livraria, com a compra do volume, o levar deste para casa, o desejo, a ânsia de o ler, a expectativa do leitor saciada apenas pelo inicio da leitura propriamente dita. Nesse momento, diz o narrador de Calvino, dirigindo-se ao leitor:

Um livro recém-publicado lhe dá um prazer especial, não é apenas o livro que você está carregando, é também a novidade contida nele, que poderia ser apenas a do objeto saído há pouco da fábrica, é a beleza diabólica com a qual os livros se adornam, que dura até que a capa amarelece, até que um véu de poeira se deposita nas bordas das folhas e os cantos das lombadas se rasgam, no breve outono das bibliotecas (1999, p. 14-15).

E continua, descrevendo um pouco a experiência tátil e fetichista de ter, de tocar um livro entre as mãos:

Revire o livro entre as mãos, percorra o texto da contracapa, das orelhas, são frases genéricas que não dizem muito. [...]. É certo que esse passeio ao redor do livro – ler o que está fora antes de ler o que está dentro – também faz parte do prazer da novidade, mas como todo prazer preliminar, este também deve durar um tempo conveniente e pretender apenas conduzir ao prazer mais consistente, à consumação do ato, isto é, à leitura do livro propriamente dito (1999, p. 16-17).

Nesse momento, encontramos um prazer no livro que vai além da leitura, que une esta ao toque, ao prazer olfativo, ao deleite de possuir o objeto, o formato ideal e consagrado que comporta o texto.

Dentre esses prazeres, citei o olfativo, e este é um dos mais comentados e acalentados pelos leitores de livros. Muitos de nós não o dispensamos. Quando tomamos um livro em nossas mãos, sentimos seu peso, sua textura, sua presença… Então o abrimos e o cheiramos… Somos tomados pelo inigualável aroma de um livro novo. Aquela sensação de respirar o livro, enquanto ele se abre sobre nossas mãos, no momento em que duas de suas páginas, sob nossos polegares, quase deslizam, acomodam-se…, ao passo que sentimos o toque, no instante em que a capa, sobre os dedos restantes e a palma da mão, apoia-se, descansa em nós. Agimos como se o protegêssemos e nos deleitássemos com sua presença porque sabemos que, além de um objeto prazeroso, ele é rico, e traz consigo uma beleza etérea, conhecimento e surpresas que desvendaremos com a continuidade do ritual, com o iniciar e desenrolar da leitura.

Depois do cheiro, fechamos o livro outra vez, damos uma olhada nas primeiras páginas, na dedicatória, no índice, no prefácio – se houverem –, algumas vezes pulamos para o final, olhamos o posfácio – se este também houver –, e o que tem no final do final… Então, voltamos ao início.

A sua capa, provavelmente, já a olhamos várias vezes, passamos as mãos sobre ela, sentimos sua textura, analisamos seus detalhes, sua beleza, a gravura, suas cores… Assim, após todo esse prazer tátil e olfativo que nos acomoda e conforta, que nos abre as portas e nos ambienta no mundo daquele livro, para onde vamos seguir sentido, constantemente, seu cheiro, que se tornará, a partir de então, o cheiro de nossa leitura, damos início a esta propriamente dita: lemos.

Enquanto lemos, folheamos as páginas com cuidado – se somos respeitosos –, e a cada página nova que desvelamos o cheiro exala-se com nova força; e seguimos com ele a leitura daquele instante. Vamos assim até o final do livro, quando o fechamos e o olhamos com um leve sorriso disfarçado no rosto e uma cara de interrogação; muitas vezes por estarmos assimilando os últimos detalhes da leitura, como se vislumbrássemos o que ocorre após o encerramento da história ou o que nos disseram aqueles versos.

Olhamos para o livro mais uma vez e o colocamos sobre a mesa, o birô, enfim, no que for de nossa prática, a espera de encontrarmos um lugar para acomodá-lo na estante. Para alguns, como eu, ainda haverá o momento da catalogação, da escritura de uma pequena resenha crítica que será colocada no catalogador; e somente a partir daí, o livro ganhará seu lugar numa estante e conhecerá seus novos amigos do Brasil e de várias outras nações.

Depois da leitura e de seu ritual final, saímos da nossa biblioteca, do nosso recanto de leitura ou de acomodação dos livros, para outra atividade com a sensação de termos adquirido um novo amigo, ou vários amigos e conhecidos como os personagens que lemos e os eu líricos versejados, além de uma nova amizade com um novo autor – se esse foi nosso primeiro contato com ele –, ou de uma amizade renovada – se o autor já nos era conhecido.

Porém, como comentei no início deste ensaio sobre o objeto, o toque no livro, o prazer de tê-lo entre as mãos, de sentir seu cheiro, sua presença real entre nós, talvez se acabe com os anos, ou diminua drasticamente com a popularização dos livros digitais; o que considero uma pena, pois aqueles que o lerem somente dessa forma irreal não terão o prazer de senti-lo vivo entre as mãos; ao invés disso, a sensação fria do plástico inerte e sem movimentação, a rigidez do leitor de livros digitais, o moderno e-Reader, sem páginas para serem passadas com o toque, sem o cheiro para ser respirado, sem a acomodação suave entre as mãos, sobre as pernas, na estante, olhando para outros amigos na prateleira da frente, enfim, todos estarão no mesmo bloco frio e rígido, compactados, sem rostos.

Não quero com isso desmerecer o valor do e-Reader, que é útil em viagens para palestras e compromissos semelhantes – momentos nos quais é sempre incômodo levar muitos livros na bagagem, como já sugeriu Umberto Eco há algumas páginas atrás neste artigo –, mas desejo que ele não seja a ruína da tradição, e sim seu parceiro eventual; tendo em vista que, notadamente, as mídias digitais têm se mostrado pouco perenes na nossa história recente, como acertadamente diz o escritor, dramaturgo e roteirista, Jean-Claude Carriére, ao se referir à efemeridade dos suportes duráveis, como eram chamados, no seu surgimento, os cassetes eletrônicos e o CD (que hoje está perdendo terreno até mesmo para o antigo vinil):

ainda somos capazes de ler um texto impresso há cinco séculos. Mas somos incapazes de ler, não podemos mais ver, um cassete eletrônico ou um CD-ROM com apenas poucos anos de idade. A menos que guardemos nossos velhos computadores em nossos porões (CARRIÈRE; ECO, 2010, p. 24).

Ainda sobre as formas de mídias, Umberto Eco, ao falar da efemeridade delas, sentencia que “se o computador ou o e-book caírem do quinto andar estarei matematicamente seguro de que perdi tudo, enquanto se cair um livro, no máximo se desencadernará completamente”, e arremata com a suspeita de que “os suportes modernos parecem criados mais para a difusão da informação do que para sua conservação” (ECO, 2009); enquanto Mario Vargas Llosa, outro que rejeita a hipótese de eliminação do prazer e conforto do livro, quando fala sobre a importância deste em papel, rechaça, por assim dizer, a ideia de Bill Gates de acabar com a existência dos livros impressos e, por conseguinte, do papel:

[...] nutro certas dúvidas, que não só a literatura é indispensável para o conhecimento correto e para o domínio da língua, mas que o destino dos romances está ligado, em um matrimônio indissolúvel, ao do livro, produto industrial que muitos declaram já obsoleto.

Um deles é um senhor importante e a quem a humanidade deve muito no campo das comunicações, isto é, Bill Gates, o fundador da Microsoft. O senhor Gates estava em Madri, há pouco tempo, e visitou a Real Academia Espanhola, com a qual a Microsoft lançou as bases daquilo que, assim se espera, será uma fecunda colaboração. Entre outras coisas, Bill Gates assegurou aos acadêmicos que se ocupará pessoalmente de que a letra “ñ” nunca seja retirada dos computadores, promessa que, é óbvio, arrancou de nós um suspiro de alívio, de nós, 400 milhões de hispanohablantes dos cinco continentes, para os quais a mutilação daquela letra essencial no ciberespaço teria criado problemas babélicos.

Pois bem, imediatamente depois dessa concessão amável à língua espanhola e, assim entendo, sem ter sequer deixado a Real Academia, Bill Gates declarou que espera não morrer sem ter realizado o seu maior projeto. E qual seria ele? Acabar com o papel, e, pois, com os livros, mercadoria que, a seu entender, já é de um anacronismo contumaz. O senhor Gates explicou que as telas dos computadores estão em condições de substituir com êxito o papel em todas as funções e que, além de isso custar menos, de ocupar menos espaço e de ser mais fácil de transportar, as informações e a literatura por meio da tela terão a vantagem ecológica de pôr fim à devastação dos bosques, cataclismo que, pelo visto, é consequência da indústria de papel. As pessoas continuam a ler, explicou ele, mas nas telas, e, desse modo, haverá mais clorofila no meio ambiente.

Eu não estava presente – tomei conhecimento desses detalhes pela imprensa –, mas, se houvesse estado lá, teria interrompido rumorosamente o senhor Bill Gates para contestar, sem o menor constrangimento, a sua intenção de nos aposentar a mim e a tantos colegas meus, a nós, pobres escritores de livros. Pode o monitor substituir o livro em todos os casos, como afirma o criador da Microsoft? Não estou seguro disso. Digo isso sem negar, de modo algum, a revolução que no campo das comunicações e da informação representou o desenvolvimento das novas técnicas, como a internet, que todo dia me presta uma ajuda inestimável em meu trabalho; mas daí a admitir que a tela eletrônica possa substituir o papel no que concerne às leituras literárias há uma lacuna que não consigo preencher. Simplesmente não sou capaz de aceitar a ideia de que a leitura não funcional nem prática, a que não busca uma informação nem uma comunicação de utilidade imediata, possa conviver na tela de um computador com o sonho e com a fruição da palavra, gerando a mesma sensação de intimidade, a mesma concentração e o mesmo isolamento espiritual do livro.

Talvez seja um preconceito, resultante da falta de prática, da já longa identificação na minha experiência da literatura com os livros de papel, mas, se bem que navegue com muito prazer na internet em busca de notícias do mundo, não me ocorreria servir-me dela para ler os poemas de Góngora, um romance de Onetti ou de Calvino, nem um ensaio de Octavio Paz, porque sei muito bem que o efeito dessa leitura jamais seria o mesmo (LLOSA, 2009, grifos do autor).

Talvez isso nos faça românticos ou, também românticos, mas, acima de tudo, essas questões aqui reunidas dizem que temos um prazer e um respeito, uma intimidade, talvez fenomenológica, na concepção de Maurice Merleau-Ponty – que também via no corpo uma forma de sentir o mundo através do toque –[1], enfim, essas questões dizem que temos um prazer que vai além da leitura, mas que não a relega a segundo plano, une-se a ela como um adendo, e que, através da história, reconhecemos como melhor suporte para leitura já criado pelo homem, o livro de papel.

 

 


[1] “É por meu corpo que compreendo o outro, assim como é por meu corpo que percebo ‘coisas’” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 253).

 

 

 

 

 

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REFERÊNCIAS

CALVINO, Italo. Se um viajante numa noite de inverno. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

CARRIÈRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contém com o fim do livro. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Record, 2010.

ECO, Umberto. “A efemeridade das mídias”. UOL Notícias – NYT , São Paulo, abr. 2009. Blogs e Colunas. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/umberto-eco/2009/04/26/sobre-a-efemeridade-das-midias.htm>. Acesso em: 03 dez. 2010.

LLOSA, Mario Vargas. “Em defesa do romance”. Piauí, São Paulo, Edição 37, out. 2009. Questões literárias. Disponível em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-37/questoes-literarias/em-defesa-do-romance>. Acesso em: 30 mar. 2013.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Tópicos)

 

 

 

 

 

 

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William Lial é escritor, poeta, autor de três livros, Sombras (2001), Noturno (2003) e O mundo de vidro (2005), e Mestre em Literatura Comparada; além de colaborar com jornais e veículos literários on-line, e manter um blog que leva seu nome: http://williamlial.blogspot.com. Contatos: E-mail: wlial1208@gmail.com.

 




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