O Inferno de Wall Street


 

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SOUSÂNDRADE (Joaquim de Sousa Andrade), poeta maranhense (1832-1902),  pertence à segunda geração do Romantismo. Sua poesia não teve a ressonância que merecia junto aos seus contemporâneos e só muitos anos depois passou a ser compreendida, recuperada a partir da publicação  do livro Re-visão De Sousândrade (1964). O poeta, aliás, previra esse destino, escrevendo em 1877: “Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci — decepção de quem escreve 50 anos antes“.

O principal motivo dessa incompreensão  reside  nas  singulares  inovações que fazem dele um precursor do Simbolismo e do Modernismo e chegam a antecipar importantes linhas de pesquisa da literatura contemporânea.

O Guesa, também denominado O Guesa Errante, longo poema em 13 cantos, inacabado e elaborado entre  as décadas de 1860 e 1890, é a obra mais ambiciosa de Sousândrade. Identificando-se à figura lendária do guesa, jovem destinado à peregrinação e ao sacrifício ritual, na mitologia dos indígenas colombianos, adoradores de Bochica, o deus do sol, Sousândrade descreve as suas viagens em estilo fragmentário, criando um poema épico-subjetivo atravessado por digressões e alusões  de cunho social.

O poeta, por um lado,  toma o partido dos povos aborígines da América contra a opressão e a corrupção do colonialismo. De outro, preconiza o modelo republicano associado utopicamente ao sistema comunitário dos Incas.

No Guesa se localizam os mais ousados experimentos da poesia de Sousândrade: são os episódios a que se deu a denominação de  ”Tatuturema” e “Inferno de Wall Street“, nos quais  explode, sob a forma de uma livre sequência de epigramas dialogados, toda a “verve” satírica do poeta. Personagens e eventos históricos ou mitológicos são justapostos segundo uma técnica moderníssima da montagem  e de ordenação analógica. Na estilística sousandradina salientam-se sobretudo a criação de palavras compostas,  as sínteses metafóricas e as colagens textuais, processos que só na época moderna passaram a ser aceitos e incorporados à linguagem poética.

O “Tatuturema” se elabora a partir da dança-pandemônio dos indígenas decadentes da  Amazônia, às voltas com seus corruptos colonizadores. Já o  “Inferno de Wall Street” tem como cenário Nova York e tópicos que vão dos pregões de Wall Street às peripécias da Exposição Industrial do  (1876), inaugurada pelo Presidente Grant e pelo Imperador D. Pedro II em Filadélfia.  Nesse contexto explodem  todas as contradições da nascente sociedade industrial na conturbada  década de 1870, que abrange desde os escândalos financeiros do governo Grant até o despontar rebelionário da primeira candidata à Presidência dos Estados Unidos, Victoria Woodhull — eventos extraídos por Sousândrade das manchetes sensacionalistas dos jornais  novaiorquinos.   O poeta-guesa-inca, depois de longa peregrinação pela América Latina, acaba “subindo” à República do Norte e “descendo”, como Orfeu, Dante  e Enéias, a um novo “círculo infernal” — a Bolsa de Nova York, onde ele é sacrificado pelos corretores, devotos de Mammon (Mammão), deus do dinheiro e da especulação. Na enigmática estrofe que conclui as 176 que compõem este episódio satírico, Mammon e os seus  “ursos” (Bears) — como então eram apelidados os corretores da Bolsa— são invocados juntamente com  Atta-Troll e Mumma, casal de ursos de um poema satírico de Heinrich Heine. O urso Atta-Troll, que fugira do circo em busca de liberdade equalitária à dos humanos, é atraído a uma emboscada e morre clamando pela companheira,  Mumma, a ursa-mãe do poema: — Mammuma, mammuma, Mammão! Completa-se assim a alegoria pluriforme do circulo infernal sousandradino.

Augusto de Campos

 

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