O Haicai no Brasil


 

Crítica da crítica:


PARA QUE CONTAR SÍLABAS POÉTICAS?
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A resenha crítica “Humor ácido domina versos breves postados no Instagram”, publicada na edição de 6 de janeiro no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, fornece elementos para uma reflexão importante sobre criação e leitura de poesia.

Ao tratar do livro “Stolarkais”, reunião de haicais de André Stolarski, recentemente lançada, Rodrigo Garcia Lopes afirma que o autor “procura seguir a divisão em três linhas (de 5-7-5 sílabas)”, mencionando tratar-se de “uma convenção básica do gênero, com a qual brinca em ‘Promoção: use/ De-zes-se-te-sí-la-bas/ Leve mais cinco’”. A respeito do assunto, digamos sucintamente que uma das vias de adaptação e tradução do haicai (modelo de poesia tradicional japonesa) ao português adota a ideia de fazer corresponder ao esquema original, de três segmentos contendo 5, 7 e 5 durações, ou sons, um esquema de três versos com 5, 7 e 5 sílabas poéticas, como o fizeram, entre outros, o modernista Guilherme de Almeida (na década de 1930), um dos pioneiros na divulgação do haicai no Brasil, e o concretista Pedro Xisto, que publicou cerca de 1.150 haicais entre as décadas de 1960 e 1980.

Chama a atenção, na resenha, a afirmação quanto à escolha de Stolarski relativa ao número de sílabas: a julgar pelos próprios exemplos apontados no artigo, o procedimento adotado pelo poeta é incerto: no poema já referido, considerando-se as regras básicas de versificação e a convenção vigente em língua portuguesa de contagem silábica de versos (segundo a qual se contam as sílabas até a última tônica), o primeiro verso tem 4 sílabas (Pro-mo-ção:-u(se)), o segundo, 5 (conta-se até “sí”), e o terceiro, 4 (contando-se até “cin”). Pode-se argumentar que o autor não seguisse as normas de metrificação, e empregasse, estranhamente aos fundamentos de composição poética, a noção de sílaba gramatical: de fato, os versos citados teriam, conforme esse critério, 5, 7 e 5 sílabas, o que esclareceria a questão, ainda que o critério incomum não seja observado pelo resenhista.

A mesma regra peculiar parece corroborada pelo também citado poema “Abri franquia:/ Delivery de haicai/ Noite e dia”, em cujos versos se contariam 5, 7 e 5 silabas gramaticais, embora apresentem 4, 7 e 3 sílabas poéticas (uma vez que ocorre elisão da vogal final “e”, de “noite”, no “e” seguinte, no verso “Noi-te e- di(a)”). Mas a certeza desaparecerá quando se considerarem outros versos escolhidos pelo resenhista para citação: “Na rede, ao léu/ Repousam meus sonhos/ Sob a fronha do céu”. No primeiro verso, contamos 5 sílabas gramaticais e 4 poéticas (há elisão em “de ao”); no segundo, 6 sílabas gramaticais e 5 poéticas; e, no terceiro, 6 sílabas gramaticais e 6 poéticas, o que evidencia que o suposto critério inusual também não vale para todos os haicais do autor.

Há hipóteses a serem consideradas a respeito do procedimento adotado, talvez de pouca valia: o autor desconheceria as regras de metrificação; mesmo as conhecendo, teria optado por considerar a contagem de sílabas gramaticais; ou, mesmo adotando esse padrão, teria incorrido em exceções.

Contudo, o mais interessante a se observar a respeito não é, exatamente, o conhecimento ou a opção do autor, mas, sim, a eleição desse aspecto de seu trabalho para caracterizá-lo, e o modo como sua suposta escolha foi apresentada – como se não houvesse incerteza em relação a ela. O caso sugere um tema que ultrapassa o seu contexto: o da pouca importância atribuída, por poetas e críticos, aos fundamentos técnicos de metrificação, o que explicaria sua desatenção para com eles; ou, mesmo, do possível desconhecimento acerca do assunto, e do significado desse desconhecimento no contexto da produção poética contemporânea.

É provável que a já antiga conquista modernista do verso livre seja a base sobre a qual se teria construído a ideia de que se pode fazer poesia sem considerar seus aspectos tidos como meramente técnicos ou relativos a “fôrmas” aprisionadoras tradicionais; ou, em certos casos, de que se podem realizar versos valendo-se, apenas, de uma percepção intuitiva do ritmo e de outros efeitos que os permeiam. Ou, ainda, atentando-se apenas ao plano semântico do poema, concebido como um meio de expressão de ideias.

De todo modo, haverá uma questão fundamental a se considerar: o ritmo sempre estará presente em versos, e poderá ser percebido na leitura, independentemente de sua regularidade e da intencionalidade – consciente ou não – de seu autor. Como em toda obra de arte, o domínio dos elementos próprios da linguagem com que se trabalha permite a experimentação com os recursos de composição dos quais se deseja dispor. Assim sendo, a suposta “liberdade” dada pela desconsideração de um repertório tradicional de procedimentos apenas limita o campo de escolhas do poeta. Conhecimentos básicos de versificação – que incluem a contagem silábica e a disposição das sílabas tônicas nos versos – são instrumentos primários e primordiais para o pleno exercício da composição, seja qual for o caminho estético escolhido, neste ambiente “pós-utópico” de grande pluralidade que vivemos no campo da produção poética.

É importante lembrar que mestres do “verso livre” e do verso metrificado, como Manuel Bandeira, buscaram explicitar o equívoco de se considerar descartável a consciência do ritmo, alertando para a falsa facilidade de tal desprezo:

À primeira vista, [o verso livre] parece mais fácil de fazer do que o verso metrificado. Mas é engano. Basta dizer que no verso livre o poeta tem de criar seu ritmo sem auxílio de fora. [...] Sem dúvida, não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre.

Mas isso, humildemente acrescentaria eu, nunca foi poesia.

 

Marcelo Tápia

 

 

 

 

 

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Marcelo Tápia, poeta, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária e co-organizador do Bloomsday em São Paulo. E-mail: marcelotapia@superig.com.br

 




Comentários (1 comentário)

  1. Charles Gentil, O rigor técnico e a clareza apolínea elucidadora com que o poeta,Marcelo Tápia, ilumina – através de seu artigo Crítica da crítica – as trevas do desconhecimento da composição poética; aquele não-saber, que negligencia as regras de metrificação e sustenta – sem fundamento – a ilusão de que os versos livres são mais fáceis de se elaborar, do que aqueles versos aprisionados em uma cadeia formal, é sem dúvida, o teor, simultaneamente, saboroso e fascinante do artigo em questão. Isto porque, a posição defendida pelo poeta Marcelo Tápia ,desmistifica, de acordo com minha interpretação, preconceitos que, muitas vezes, se enraízam até mesmo em candidatos a poetas que, penso, por mais paradoxal que possa parecer, externam repúdio a formas fixas de composição, valendo-se do discurso da liberdade artística, como pretexto para não dedicarem-se ao estudo e domínio das técnicas de metrificação. Aliás, é importante frisar que para negar um procedimento técnico é preciso, antes, conhecê-lo; a mera negação pela negação, não caracteriza um ato como sendo nem subversivo e nem poético, mas define uma tendência a uma irresponsabilidade literária, que depõe,sim, e sempre irá depor, contra este ou aquele candidato a poeta. Sendo assim, não oponho-me a ideia de que poetizar é brincar com as palavras, ao contrário, considero apenas, que a brincadeira é séria, motivo pelo qual, tanto mais liberdade haverá, quanto mais recursos o artista possuir e mais subversivo será, quanto mais domínio tiver do que deseja ver transgredido. Considero fascinante e saboroso o artigo Crítica da crítica, do poeta Marcelo Tápia, pelas consequências que são possíveis extrair do mesmo, após serena reflexão. É um texto claro, mas ao mesmo tempo, profundo e que engana pela aparente roupagem de simplicidade. Outra consequência, penso, deste artigo: não se engane o leitor, há muito não-poema que, ilicitamente, quer fazer-se de poema, pois, furta-se às regras e procedimentos necessários para sê-lo. Por tudo isto, digo que o texto Crítica da crítica de Marcelo Tápia, é daqueles textos que como disse Nietzsche – devem ser ruminados – penso que, pelo muito que com pouco, nos tem a dizer. Daí o sabor, daí o fascínio.
    3 fevereiro, 2014 as 0:50

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