O estrangeiro atraente


Por Dirce Waltrick do Amarante

Uma das epígrafes que abrem o romance Os amantes, do jornalista e escritor indiano, radicado nos Estados Unidos, Amitava Kumar, é uma frase de Dentes brancos, de Zadie Smith, filha de mãe jamaicana e pai inglês, nascida no Reino Unido: “Ah, sim, ele a ama: tal como os ingleses amavam a Índia, a África e a Irlanda; o problema é o amor, as pessoas tratam muito mal seus amores”. A escolha da epígrafe não é casual, Smith é uma escritora engajada em questões raciais e políticas e sua frase dá o tom do romance de Kumar, que discutirá justamente esses temas tendo como pano de fundo as aventuras amorosas de um estudante indiano de pós-graduação, Kailash, em Nova York, nos anos 1980 e 1990.

A propósito do título do livro, no Canadá, nos Estados Unidos e no Reino Unido, ele se intitula Immigrant, Montana (Imigrante, Montana), já, na Índia, The Lovers (Os amantes), título esse adotado pela editora Todavia, ou pelo tradutor Odorico Leal; embora na ficha catalográfica da edição brasileira conste como título original do romance o outro.

Na edição brasileira, tanto a escolha do título como a escolha da imagem de capa, do espanhol, radicado em Miami, Javier Mayoral, em que se vê amantes se beijando e um voyeur em primeiro plano, parecem querer destacar apenas um aspecto do romance, ou seja, os casos amorosos de Kailash.

As relações amorosas do protagonista são o ponto de partida para uma reflexão maior, ou seja, a da relação do estrangeiro com a cultura do país no qual se radicou, com a cultura de seu próprio país visto à distância e consigo mesmo em dois mundos. Muitas vezes, essas questões são tratadas com humor como quando, no início do romance, Kailash declara que a primeira coisa que gostaria de dizer aos novos amigos americanos era que o filme Gandhi não deveria ter ganho o Oscar (em 1983), pois lhe parecera “insuficientemente autêntico – eu mesmo, e isso é mais crucial, me sentia insuficientemente autêntico”, portanto, para ele o vencedor deveria se E.T. – O extraterrestre. Em outra passagem, o protagonista ouve a seguinte afirmação feita a um repórter: “aquele paquistanês devia ser você-sabe-o-que por trazer mais problemas ao país”.  Essa frase, contudo, não chega a provocar indignação no seu “coração pós-colonial”, pois o jovem indiano, ainda deslumbrado com o Ocidente, logo detém sua atenção na fala subsequente sobre uma moça com “suas longas pernas torneadas, sua compleição suave, o rosto oval e os olhos azuis amendoados”. 

Uma outra epígrafe, extraída do livro Um esporte e um passatempo, do norte-americano James Salter, parece descrever o mal-estar que o protagonista sente em seus primeiros anos na América, quando procura uma narrativa que escape dos clichês para se descrever aos novos amigos e para se confundir com eles. Diz a epígrafe: “Eles sabem que eu sou um estrangeiro. Isso me deixa um tanto apreensivo”. O livro de Salter é, aliás, sobre o relacionamento de um rapaz americano com uma francesa.

É nas aulas de pós-graduação que Kailash lê textos de autores clássicos que tratam das questões pós-coloniais como, por exemplo, o palestino Edward Said e o jamaicano Stuart Hall: “Num ensaio, Hall dizia que pessoas como ele, que chegaram à Inglaterra nos anos 1950, estavam lá na verdade havia muitos séculos. Falava, naturalmente, da escravidão e das plantações de açúcar. Eu sou o açúcar no fundo da xícara de chá inglês. O que Hall dizia ali é que, simbolicamente, as pessoas das nações mais escuras tinham uma longa história no Ocidente”.

Em Os amantes ficção e realidade se misturam. A reflexão de Hall dialoga então com uma passagem em que uma moça, amante do protagonista, está na sala de aula e, de repente, ele se dá conta de que o seu “colete cinza-claro de seda crua por cima de uma camisa de algodão sem mangas, havia sido feito na Índia. Ela provavelmente a adquirira em alguma loja tipo Bloomingdale’s, mas podia muito bem ter sido um presente meu”. Lembra, em seguida do primo no tear de madeira. Desse modo, os indianos também tinham uma longa história nos Estados Unidos. Eram o algodão na roupa dos americanos, como os jamaicanos eram o açúcar na xícara de chá dos ingleses.

Assim, os casos amorosos de Kailash se mesclam com teorias culturais importantes que, ao longo do livro, vão sendo apresentadas ao leitor. Parte da história dos anos 1980 e 1990 também faz parte do enredo do romance, como a invasão iraquiana no Kuwait e o envolvimento dos Estados Unidos na guerra, sempre tentando proteger “seu” petróleo. Críticas severas à economia indiana não ficam de fora. O escritor lembra, por exemplo, que “a muito celebrada liberalização do mercado indiano não trouxera riqueza aos pobres; pelo contrário, tornara-os mais vulneráveis, deixando-os desamparados e sozinhos”.

O livro de Kumar parece referendar uma frase de Edward Said: “O exílio é estranhamente atraente enquanto reflexão, mas terrível como experiência”, mesmo que o exílio seja voluntário.

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Amitava Kumar é escritor e jornalista. Nasceu em 1963 em Arrah, na Índia, radicando-se mais tarde nos Estados Unidos. É professor na Universidade Vassar e colabora com publicações como New York Times, Granta e New Yorker.


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Dirce Waltrick do Amarante é professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC, autora, entre outros, de James Joyce e seus tradutores (Iluminuras, 2015). E-mail: dwa@matrix.com.br




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