O começo de um livro precioso


…………Macedonio Fernández: o começo de um livro precioso

 

O escritor argentino Macedonio Fernández (1874 – 1952), considerado um dos pais da vanguarda argentina, tinha uma ideia bastante peculiar a respeito das divulgações de conferências. Segundo ele: “Poder-se-iam primeiro dar as conferências e só depois anunciá-las. Ou fazer como no ‘Círculo dos Intelectuais’: ‘Hoje não dá conferência o romancista fulano de tal’”. E, prosseguia o escritor, “[...] como não haveria hora indicada, não se poderia falar de ausência, e desse modo, teríamos um auditório cheio”.[1]

O fato é que, no mundo de Macedonio Fernandez, as conferências não acontecem, os horários não são anunciados, e o que sobra, para me valer de um paradoxo bem ao gosto do escritor argentino, são os ausentes, que segundo ele, foram tantos “[...] que se faltar mais um não vai caber.”[2]

Segundo Macedonio Fernández, os ausentes receberiam, contudo, um certificado nos seguintes termos: “Certifico que o Sr. Dudino Dominguez é o faltante mais assíduo de minhas conferências”.[3]

Parece difícil ainda hoje definir a obra de Mcedonio Fernández em razão dessa concepção desconcertante e hilária do universo cultural. Por ocasião de sua morte, em 1952, Jorge Luis Borges declarou: “Definir Macedonio Fernández parece uma tarefa impossível: é como definir o vermelho por meio de outra cor.”[4]

A obra de Macedonio Fernández parece embaralhar o tempo e o espaço, a escrita e a leitura, a vigília e o sonho e a ficção e a teoria, colocando-se numa fronteira inusual, como afirma a estudiosa Sueli Barros Cassal. Nessa fronteira, Macedonio Fernández questiona a realidade: “O que não quero, e vinte vezes consegui evitar em minhas páginas, é que o personagem pareça viver, fato que acontece cada vez que, na alma do leitor, há alucinação da realidade do acontecimento: abomino a verdade da vida, a cópia da vida [...].” [5]

Em vez da realidade ou do realismo, Macedonio preferia declaradamente a fantasia. O escritor afirmava que “diante do terrível escolho [sic] que é evitar a alucinação da realidade – mácula da arte –, criei o único personagem até hoje nascido, cuja consistente fantasia é garantia de firme irrealidade neste romance indegradável ao real.” Para o escritor argentino, “[...] o mundo, o ser, nos parecem reais porque há sonhos”.[6]

Na opinião de Sueli Cassal, com o romance Museu do romance da Eterna, “Macedonio faz tábula rasa do sistema de representação do mundo que tinha no romance realista o seu representante privilegiado. A literatura [se torna] ‘sem mundo’, ‘sem assunto’, ‘imaterial’ [...]. Para Macedonio, o realismo é uma alucinação que se interpõe entre nós e a realidade, por meio de cópias derrisórias e falsas. Por que repetir aquilo que a realidade nos oferece como espetáculo contínuo e vivo? – é o que se pergunta Macedonio, em busca da arte como invenção e não como imitação.”[7]

As ideias saborosamente propagadas por Macedonio Fernández através de sua obra podem ser comparadas àquelas do Manifesto do Surrealismo, escrito por André Breton, em 1924. Segundo Breton, “tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde”.[8]

Breton dizia que a “intratável mania de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, embala os cérebros.”[9] Macedonio Fernadez fugia das classificações fáceis através, principalmente, do uso de paradoxos, como se falou atrás. No paradoxo, afirma Gilles Deleuze, existe um tipo de relação intrínseca especial entre o sentido e o não-sentido, uma síntese, digamos, dos dois[10]. Para Deleuze, “o sentido não é, pois, separável de um novo gênero de paradoxos, que marca a presença do não-sentido no sentido [...]”[11]

Macedonio Fernández talvez esteja lutando, por meio de seus paradoxos, que “operam a gênese da contradição ao da inclusão nas proposições desprovidas de significação”[12], contra o interesse das determinações de significação, que é, como expõe Deleuze, “o de engendrar os princípios de não-contradição e de terceiro excluído, ao invés de dá-los já feitos”.[13]

Um exemplo de paradoxo na obra de Macedonio Fernández pode ser lido no seu livro inclassificável Museu do romance da Eterna, já traduzido para o português. Diz Macedonio: “único romance contado integralmente que, todavia, não contém nada além disso, embora o ímpeto de contá-lo por inteiro me levasse a contar mais [...]”.[14]

Um tema recorrente na escritura do mestre argentino é, como não poderia deixar e ser, depois de tudo o que falei até aqui, a ausência: a ausência de sentido, de mundo, de tema, do ser. Na sua obra temos, me valendo das palavras de Cassel, “o conto que não se conta, a reunião a que se faltou, a saudação tão curta que o autor não encontrou espaço para colocar um ponto final.”[15]

Mas a ausência, assim como o inacabado em sua obra, como lembra o estudioso Damián Tabarovsky, “não é fruto de negligência, acaso ou descuido, [...], trata-se da chave que abre a literatura à modernidade.” [16] Afinal, o romance moderno se faz de retalhos, desvios, digressões.

Em Museu do romance da Eterna, o leitor é aquele que lê salteando “um livro [...] cheio de valas” e a quem a numeração de páginas é inútil[17], como opinava o próprio Macedonio Fernández.

A respeito do leitor, o escritor argentino recorda de um deles a quem um romance agradou tanto que ele resolveu continuar a lê-lo mesmo depois de terminada a leitura. Diz o leitor imaginário e criativo de Macedônio: “Só muito mais tarde me dei conta de que aquilo que lia vinha depois do fim [...].”[18]

Se o romance de Macedonio não tem fim, seu começo é bastante difícil. Museu do romance da Eterna tem mais de uma dúzia de prólogos, além de dedicatória, epígrafes e uma série de comentários dedicados aos leitores, aos personagens e à crítica. Caberia recordar aqui o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, com seu prólogo imenso, à maneira talvez do autor
argentino.

Em “O começo de um livro é precioso”, a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol parece resumir o que acontece no romance de Macedonio Fernandez: “No início do texto, era a derrota/ No espaço reinava um vazio de cinza [...]/ Não teria fim, mas apenas começos,/ Nem recomeços, o que o deixaria exausto,/ Tornara-se um desígnio incomportável./ Todos os começos diferentes e simultâneos eram areais,/ Imagem tão errada como o mar, pensou a escrita.”[19]

Depois de tantos começos e recomeços, o romance de Macedonio Fernádez por fim começa quase no final do livro e revela que os prólogos talvez sejam mais interessantes do que o próprio romance, que se coloca como o grande enigma para o leitor e acaba, parece-me, como pura frustração. A respeito do enigma, vale para o livro de Macedonio, a teoria de Giorgio Agamben segundo a qual “a essência do enigma está no fato de a promessa de mistério que ele gera ser sempre necessariamente gorada, uma vez que a solução consiste precisamente em mostrar que o enigma não era mais que aparência.”[20] O fato enigmático, prossegue Agamben, “se refere apenas à linguagem e à sua ambiguidade, e não àquilo que nessa linguagem é visado, e que, em si, não só é absolutamente desprovido de mistério, como também não tem nada a ver com a linguagem que deveria dar-lhe expressão [...].”[21]

Enigmáticas continuaram sendo sempre a obra e a figura mítica de Macedonio Fernández a quem conhecemos por suas cartas e pelos depoimentos de amigos, entre eles, Jorge Luis Borges, de quem foi um dos mestres.

Uma carta escrita por Macedonio Fernandez a Borges resuma talvez o cerne do humor do autor de Museu do romance da Eterna: “Caro Jorge Luis desculpe-me por não ter ido ontem à noite. Eu estava indo, mas sou tão distraído que no caminho me lembrei que havia ficado em casa.”[22]


[1] FERNÁNDEZ, Macedonio. Tudo e nada. Rio de Janeiro: Imago, 1998, p. 37, 38.

[2] Idem, p. 37.

[3] Idem, p. 38.

[4] FERNÁNDEZ, Macedonio. 1998, p.11.

[5] FERNÁNDEZ, Macedonio. 1998, p, 60.

[6] Idem ibidem.

[7] Idem, p. 18.

[8] BRETON, André. Manifestos do Surrealismo. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 33.

[9] Idem, p. 39.

[10] DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2003, pp. 71,72.

[11] DELEUZE, Gilles. Op. Cit, p. 73.

[12] Idem, p. 72.

[13] Idem, p. 72.

[14] Idem, p. 68.

[15] FERNÁNDEZ, Macedonio. 1998 p.16.

[16] FERNÁNDEZ, Macedonio. Museo do romance de eterna. São Paulo: Cosac Naify, 2010, s/p.

[17] FERNÁNDEZ, Macedonio. 2010, p. 15.

[18] Idem, p. 68.

[19] Llansol, Maria Gabriela. O começo de um livro é precioso. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p.43.

[20] AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Lisboa: Cotovia, 1999, p. 106.

[21] Idem ibidem.

[22] FERNÁNDEZ, Macedonio. 2010, s/p.

 

 

 

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante é professora do curso de artes cênicas da UFSC. E-mail: dwa@matrix.com.br




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