O acaso objetivo e André Breton


O acaso objetivo e André Breton: encontros com a vida e a morte

…………………………….[James Sebor - Art Archive]
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- Veja! Lá está ela, não vê? A Tour Saint-Jacques!

Nomes de lugares me soavam familiares, sem que os reconhecesse.

Não identificava a torre que o amigo francês me apontava, diante do Chatelêt, bem visível do trecho da Rue de Rivoli onde estava, na altura do Hôtel de Ville:

- La Chancelante!, insistiu ele. Diante do meu ar desentendido, citou a imagem com que Breton a descreve em um poema, por sua vez citado em O Amor Louco: Em Paris a Torre Saint-Jacques cambaleante/ igual a um girassol.

A Torre Saint-Jacques, ponto de partida das peregrinações a Santiago de Compostela. Diante dela, uma ruazinha com a extensão de um quarteirão, Rue Nicolas Flamel, evocando o mago do século XV que lá viveu, fazendo dos arredores da torre um bairro de alquimistas.

Por sua oferta de hotel conveniente, amigos por perto, metrô e acesso a tudo, ao lado o Marais, o bairro mais antigo, mais o centro cultural, o Beaubourg com a vista oferecida por seu quinto andar, novidade dos anos 70 afastando a região de sua anterior decadência, e ainda as margens do Sena e seus cais, pontes, igrejas, palácios e luminosidades, por tudo isso escolhi aquele trecho de Paris.

Ou fui por ele escolhido, ao instalar-me junto ao Hôtel de Ville, o paço municipal, reduto de rebeliões em l789 e em l871, a dois quarteirões da torre, perto de Les Halles, encostado à Cité, a ilha onde ficam a Catedral de Notre Dame, o Cais das Flores, as pontes, o Pont-au-Change e o Pont-Neuf e, atravessando-a, o Quartier Latin.

Trajetos bretonianos. Berço de Paris, a expressão comum para designar esse trecho, é usada por ele em O Amor Louco.

O Forum Les Halles substituiu o mercado demolido no começo dos anos 70, em cuja vizinhança, até a década de 60, reuniu-se em um bar o grupo surrealista. Na plataforma superior do Forum, caminhos com nomes de escritores. Alameda André Breton, esquina com Garcia Lorca e Saint-John Perse. Mas essa lembrança, evocando a quem detestava homenagens, pouco significa. E a distribuição de nomes de escritores pelas alamedas é um retoque de verniz cultural em um centro comercial. Não sei se o arquiteto ou administrador que as batizou se lembrou dos trechos de O Amor Louco que mencionam Les Halles e suas imediações. Nem eu, ao afastar-me do Forum e suas alamedas, margear o Beaubourg e chegar à Torre Saint-Jacques. E, de lá, flanquear o Hôtel de Ville e dobrar à direita, atravessando o Sena, passando pela Notre-Dame, pelo Cais das Flores, até o Quartier Latin.

Movia-me o esquecimento em minha tarde de disponibilidade sem hora marcada ou destino fixo. Da catedral de Notre Dame, podia ter dobrado à direita, chegando à ponta da ilha, a Praça Dauphine, e, pelo Pont-Neuf, de volta à margem direita, até as Tuileries. Teria refeito outra caminhada, aquela com Nadja durante a noite da janela vermelha, da mão em chamas, do chafariz. Mas não: meu roteiro foi o da madrugada de 29 de maio de l934, em que Breton caminhava acompanhado por uma mulher, a quem, pouco antes, havia dirigido a palavra pela primeira vez, depois de observá-la a escrever à mesa de um bar. E que lhe pareceu bela. Escandalosamente bela, insiste ele.

Se caminhar por uma cidade tão notável pela existência literária, aquela onde escritores se perderam por vielas e ruas para deparar-se com imagens e histórias, pode ser uma fonte de descobertas e surpresas, assim também a leitura de um texto como O Amor Louco – onde, talvez por sua adesão a Freud e ao pensamento psicanalítico, Breton procurou arrancar significados latentes, buscar o que está por baixo ou além da realidade manifesta, em um esforço intelectual que coexistiu, o tempo todo, com a livre expressão de sua imaginação poética – é um percurso, é a revelação da cidade de signos.

Ao abandonar o tom de relatório, quase diário, de Nadja, em favor das longas passagens de poesia em prosa de O Amor Louco, Breton quis que o desejo se expressasse pela escrita. Encontrar a bela desconhecida no meio da noite de Montmartre pareceu-lhe a realização da busca do amor único. Confunde-a com o universo e a faz partilhar suas qualidades. Seus cabelos são chuva clara sobre castanheiros em flor, da cor de um sol extraordinariamente pálido. Aparece rodeada de um vapor – vestida de labaredas? – Tudo perdia a cor, tudo gelava em presença daquela tez de sonho, perfeita concordância de tons de ferrugem e de verde.

Mas O Amor Louco é mais que a história desse encontro e da poesia por ele suscitada. Fala de uma revelação, a descoberta de novas relações: É como se, de repente, fosse desvendada a profunda noite da existência humana, como se, tendo a necessidade humana aceito formar um só todo com a necessidade lógica, todas as coisas adquirissem uma total transparência, tudo se ligasse entre si como uma corrente de vidro à qual não faltasse um só elo.

Seu propósito é escrever sobre nada menos que a lei de produção do misterioso intercâmbio entre a matéria e o espírito. Então, é um livro sobre a magia, embora Breton não use a palavra ao tratar do modo como o sujeito, movido pelo desejo e pela paixão, altera, inverte ou subverte a causalidade, a temporalidade, a aparente ordem natural.

O nome da mulher a quem Breton encontrou não é dito em O Amor Louco. Sabemos, através dos biógrafos, tratar-se de Jacqueline Lamba. Mas sua fotografia foi publicada no livro, retratando-a de corpo inteiro. É verdade que de modo pouco nítido, embaçada, tornando irreconhecível seu rosto, permitindo apenas entrever sua nudez, pois essa amada inominada foi fotografada debaixo da água, mergulhando. Ela mergulhava, mas não no oceano, em um lago ou piscina. Artista de cabaré, um de seus números era esse, do mergulho visto através da parede de vidro de um aquário. É possível que Breton, ao escolher, dentre as muitas de que dispunha, a foto que a mostra quase vulto, sugestão mais que forma de mulher, quisesse apresentá-la como ser de outra espécie, criatura de outro elemento.

Breton logo soube que o texto escrito por Jacqueline à mesa do bar, nessa primeira ocasião em que a viu, era uma carta para ele. Marcaram de ver-se mais tarde, à meia-noite, no Café des Oiseaux em Montmartre. Saindo dali, caminharam conduzidos pelo vento: esse belo vento que nos impele e que decerto não irá amainar. O vento do eventual, que os acompanhou enquanto desciam a Rua Montmartre, atravessando um bom pedaço de Paris. Mas Breton não descreve o percurso completo. Seu relato recomeça em Les Halles, onde passam pela porta dos bares de fim de noite e observam o movimento de caminhões descarregando verduras no velho mercado. Prosseguem pelo quarteirão dos alquimistas até a Torre Saint-Jacques, passando pelo Hôtel de Ville, atravessando o Sena na altura da Catedral de Notre-Dame. Antes de se perderem por ruelas do Quartier Latin, detiveram-se no Cais das Flores, onde os floristas descarregavam vasos de plantas e armavam suas barracas. A cena inspirou-lhe novas passagens de exaltada poesia em prosa:

Todas as flores, mesmo as que se mostram menos exuberantes nesse clima, se empenham em conjugar esforços para me proporcionar uma sensação totalmente nova. Límpida fonte, onde vem se refletir e dessedentar a vontade de arrastar comigo um outro ser, desejo meu de percorrer a dois – e já que antes não me fora possível fazê-lo – o caminho perdido ao sair da infância, o caminho que entre prados se insinuava, rodeando de bálsamos aquela mulher ainda desconhecida, a mulher que um dia haveria de me aparecer. Será você, finalmente, essa mulher? Só hoje, enfim, você deveria aparecer?

Não conhecemos o restante da caminhada, por onde passaram e se detiveram depois de enveredar pelo Quartier, em uma rota que os conduziu ao casamento, dois meses depois.

Antes disso, Breton já havia reparado que passagens da caminhada e detalhes do encontro daquela noite estavam em um poema seu de l923, da época em que procurava cartazes anunciando carvão de lenha como um alucinado e cruzava com moças misteriosas fazendo perguntas aos passantes pelas ruas de Saint-Germain-des-Prés. Escrito de modo automático, de um só jato, publicado em Clair de Terre, intitula-se Tournesol, Girassol – imagem de sua predileção, a flor que se move acompanhando o sol, como se quisesse ser seu espelho, e que também aparece no poema sobre a Torre Saint-Jacques.

As dúvidas de Breton sobre o sentido deste poema só foram respondidas onze anos depois de tê-lo escrito, ao perceber que falava de seu encontro com Jacqueline:

A viajante que atravessou os Halles ao cair do Verão
Caminhava na ponta dos pés
O desespero rolava pelos céus seus grandes arãos tão belos
E na valise de mão escondia-se meu sonho esse frasco de sais
Que só a madrinha de Deus aspirou
Os torpores pairavam como vapor de água
No “Chien qui fume”
Onde o pró e o contra acabavam de entrar
Difícil lhes era ver a moça só de soslaio a viam
Estaria eu diante da embaixatriz do salitre
Ou da curva branca sobre fundo negro a que se chama pensamento
O baile dos inocentes estava no auge
Nos castanheiros incendiavam-se devagar os lampiões
A dama sem sombra ajoelhou-se no Pont-au-Change
Na Rua Gît-le-Coeur outros eram agora os timbres
As promessas da noite cumpriam-se finalmente
Os pombos-correio os gritos de socorro
Vinham juntar-se aos seios da bela desconhecida
Dardejados sob o crepe dos significados exatos
Uma chácara prosperava em pleno centro de Paris
Com suas janelas viradas para a Via Láctea
Mas ninguém lá morava ainda por causa dos que viriam a aparecer
Dos que mais dedicados são que as almas do outro mundo
Alguns como esta mulher mais parecem nadar
E no amor insinua-se algo de sua matéria
Ela os interioriza
Não sou joguete de nenhuma força sensorial
E no entanto o grilo que cantava sobre os cabelos de cinza
Certa noite junto à estátua de Etienne Marcel
Lançou-me um olhar cúmplice
André Breton disse ele está passando

Logo na frase inicial, a travessia de Les Halles pela viajante que, sendo dançarina, caminha na ponta dos pés. E que, adiante, parece nadar: Jacqueline, a dançarina-mergulhadora. No final, a estátua de Etienne Marcel na praça ao lado do Hôtel de Ville, por onde passaram. O Pont-au-Change, que leva ao Cais das Flores e ao Quartier. A Rua Gît-le-Coeur, no caminho do Quartier, vindo pelo Pont-au-Change. Além das correspondências de trechos do poema com etapas da caminhada, há outras, como na menção aos pombos-correio. Jacqueline tinha um primo que já conhecia Breton, e funcionou como elo de ligação entre ambos, pois lhe havia indicado seus livros, despertando nela o desejo de conhecê-lo. Na época, o rapaz prestava serviço militar e estava ligado a um centro columbófilo, uma criação de pombos-correio. Breton havia acabado de receber uma carta dele, em um envelope timbrado com o carimbo desse centro columbófilo.

Essas são as correspondências mais flagrantes. Breton ainda fala de referências a seus estados de espírito na época, ao desespero, a torpores, à sensação de ser um joguete de forças desconhecidas (ele saia de uma paixão mal resolvida por Suzanne Muzard, interlocutora do final de Nadja que também aparece em Os Vasos Comunicantes). Observa que, caminhando lado a lado, só podia mesmo ver Jacqueline de soslaio, da forma como está no poema. Relaciona imagens à prática da alquimia nas imediações da Torre Saint-Jacques. Associa o grilo do poema a outro, figurante das passagens finais dos Cantos de Maldoror. Destaca a confluência de paixões que recebem respostas de todo o Universo, das chácaras brotando inesperadamente em Paris até a Via Láctea.

No entanto, comparações como essa, entre poesia e realidade, podem acabar mostrando que inumeráveis encontros amorosos já foram anunciados por outras tantas produções do lirismo romântico. Quantos apaixonados não tiveram experiências semelhantes à revelação? Quantos já não se sentiram retratados, a si e a sua paixão, em um poema inesperadamente descoberto ou redescoberto? Tantos, com certeza, quanto os que viveram a sensação do sublime diante dos floristas da madrugada, vagando por Paris, São Paulo ou qualquer outra cidade nas horas intermediárias entre o que se fecha, encerrando as atividades, e o que vai se abrindo para o dia seguinte.

Na obra dos surrealistas, onde é frequente os textos conterem endereços reais ao se converter a cidade em espaço mágico, como em Le Paysan de Paris e Liberté ou L’Amour de Robert Desnos, Girassol pode ser o poema mais claramente antecipatório. Mas não é o único texto de Breton com essa continuidade entre o escrito e o vivido, dando-lhe um caráter de magia propiciatória. A mesma qualidade está presente em toda a sua obra. Um exemplo é Nadja, com seu final anunciando algo por acontecer, ao perguntar quem vem aí? E o próprio O Amor Louco também tem a característica extraordinária de antecipar-se. Os acontecimentos nele descritos invertem a relação habitual entre narrativa e realidade, o que levou Breton a sentir o mundo transformar-se em floresta de indícios, de sinais do que estava por vir. Entre outros desses indícios, o trocadilho ouvido em um restaurante, incluído no texto antes do primeiro encontro com Jacqueline Lamba em Montmartre: Ici l’on dine (aqui se janta); Ici l’Ondine (“aqui a Ondina”, a ninfa das águas representada por Jacqueline).

Ele ia descobrindo, nesses dias antecipatórios, objetos que pareciam apontar além de si mesmos, despertando a sensação do jamais visto, o oposto do mesmo, do lugar comum. Uma das ocasiões em que isso aconteceu foi ao percorrer o Mercado de Pulgas, a feira parisiense de antiguidades e velharias, em companhia do escultor Alberto Giacometti, que comprou um desses objetos, uma estranha máscara gradeada. Breton, por sua vez, ficou com uma colher de madeira com um cabo longo e um suporte, um apoio semelhante a um salto, dando ao todo uma forma de sapato alongado. A máscara acabou acabou servindo a Giacometti como peça de que precisava para completar uma das suas esculturas. E a colher, enquanto Breton, já em sua casa, a examinava, transformava-se. Como em uma alucinação, ganhava em brilho, a madeira assemelhando-se aos poucos ao vidro, até converter-se no sapato de Cinderela, o sapato de cristal perdido da história da Gata Borralheira. Esta imagem vinha lhe aparecendo em sonhos, levando-o a pedir a Giacometti que a modelasse. Antes que o escultor o atendesse, a imagem do sonho aí estava, encontrada na realidade. Assim, os dois objetos encontrados, a máscara e a colher-sapato, preencheram, sem que eles o soubessem de imediato, desejos de seus possuidores.

Breton observa que a transformação da colher em sapato correspondia à metamorfose da abóbora em carruagem na história da Cinderela. Um duplo objeto – colher, o instrumento de cozinha que ela usava, e sapato de cristal, a ligação ou veículo para a transformação em princesa, a revelação de sua identidade. Um no outro: o sapato existia na colher, assim como a Gata Borralheira já era, antes de vir a sê-lo, a mulher eleita, o símbolo da realização do amor único. Essa permuta equivale a um dos jogos que os surrealistas ainda viriam a praticar, o “um no outro”, aplicação do princípio da analogia, da lógica poética pela qual cada coisa partilha propriedades de outras. O mesmo princípio a que obedecem os sonhos e seus deslocamentos e condensações, aqui tomando conta da realidade, ou da surrealidade.

Já a máscara comprada por Giacometti revelou-se um instrumento de guerra. Outro poeta, Joe Bousquet, contou-lhes que havia sido usada na Primeira Guerra Mundial, mostrando-se ineficiente como proteção, causando a morte de soldados. Breton não chega a tanto, mas vê-se que a colher-sapato e a máscara gradeada são objetos complementares, ligados à vida e à morte. Talvez, cada um deles, a uma das dimensões primordiais ou instintos básicos, Eros e Tanatos.

No encontro, seja com a colher que é o sapato de Cinderela ou com a amada, resolve-se a tensão entre a espera e a descoberta, o desejo e a realização. Um curto-circuito, quando, observa Breton, é abolida a sensação do tempo, com a embriaguez da sorte. Cresce então a consciência de que existe esse homem vivo que, alguma vez, tentou, ou tenta ainda reequilibrar-se sobre o traiçoeiro trapézio do tempo. Essa é a manifestação do acaso objetivo, o encontro entre duas séries causais diferentes, uma delas externa, a outra interna, uma natural, a outra humana, provocando acontecimentos sob o signo da espontaneidade, da indeterminação, do imprevisível ou até mesmo do inverossímil. O acaso, para Breton, é a forma da necessidade exterior se manifestar, ao abrir caminho através do inconsciente humano.

Assim, ele apresenta sua interpretação materialista e freudiana do que é atribuído por alguns à intervenção do sobrenatural, e negado por outros, que o reduzem à mera coincidência em nome da lógica, do bom senso ou do saber científico. Mas a sua é a voz de um poeta, e não de um psicanalista, cientista social ou filósofo. Usar conceitos vindos do pensamento dialético e da psicanálise não o impediu de querer chegar, no Segundo Manifesto do Surrealismo, a um certo ponto do espírito, onde vida e morte, real e imaginário, passado e futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo, deixem de ser percebidos como contraditórios.

Um certo ponto do espírito – meta também dos místicos, ponto que figura, entre outros lugares, no Zohar, livro da Cabala do século XIII. Ambiguidade do poeta que trafega na zona cinzenta entre misticismo e materialismo, recusa do transcendentalismo e religiosidade herética. Capaz de dizer logo adiante, na terceira parte de O Amor Louco, que enxerga o símbolo da busca surrealista, a síntese do racional e do real, em uma folha de sempreviva. Visão semelhante à de Jacob Boehme enxergando o universo em um prato de estanho, e a tantos outros vislumbres de iluminados que viram o macrocosmos em um pedaço do microcosmos, o todo em uma das partes.

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Se os capítulos iniciais de O Amor Louco são a crônica do tempo em que, independentemente do que possa ou não acontecer, a espera é magnífica, e se o trecho seguinte, da caminhada por Les Halles e da evocação do Girassol, é a celebração do encontro e o triunfo do acaso objetivo, então a continuação da narrativa é a realização do desejo.

Por isso, nele sucedem-se páginas e páginas de poesia em prosa escrita a partir de dentro, do interior da união amorosa. Como etapa de uma viagem a lugares onde havia manifestações surrealistas, Breton e Jacqueline chegaram às Ilhas Canárias em abril de 1935. Lá, possuído pelo delírio da presença absoluta, vê seu Jardim do Éden no Pico de Teide, ponto culminante de uma das ilhas, Oratawa. Transcreve a música sobreposta aos nossos passos sobre praias de areia branca e de areia negra, passando por matizes e gradações da água do mar, por uma vegetação de figueiras de raízes que mergulham na pré-história, semprevivas com folhas refletindo a Unidade, eufórbias e pitangas, cactos de muitas formas, e as flores, não mais as flores da feira no cais do Sena, breve irrupção da natureza na cidade, porém agora flores ocupando tudo, até que os amantes se confundam com elas:

A um sinal, que, por maravilha, tarda a aparecer, irei juntar-me a ti no seio da flor fascinante e fatal. No interior da flor, a liberdade, a suficiência total que, naturalmente, reina entre dois seres que se amam, deixa de enfrentar, neste momento, o mínimo obstáculo. Dentro da flor, no seio da oblíqua claridade. Dentro da nuvem, dentro do puro informe: quando Oratawa desapareceu, foi-se perdendo pouco a pouco sobre nossas cabeças, até acabar por ser tragada; ou então fomos nós que, a esses mil e quinhentos metros de altitude, fomos de repente sorvidos por alguma nuvem.

Nuvens, lugar do encontro entre desejo e realidade: levantar os olhos daqui de baixo, da terra, para uma nuvem, é a melhor forma de interrogar nossos mais íntimos desejos. É perceber que toda a questão da passagem da subjetividade à objetividade se encontra aqui implicitamente solucionada. Leonardo da Vinci pedia a seus alunos que olhassem as manchas em uma parede e copiassem as formas que viam desenhar-se nelas. Nuvens de Oratawa ou manchas na parede, telas onde se projetam imagens do desejo: O homem só poderá ser senhor dos seus atos no dia em que, como o pintor, aceitar reproduzir, com a máxima fidelidade, aquilo que uma tela apropriada tiver sabido mostrar antecipadamente a esses mesmos atos. Ora, essa tela existe. Qualquer existência comporta um todo homogêneo de fatos aparentemente escalavrados e nebulosos, que bastaria encararmos mais fixamente para que eles nos desvendassem o futuro.

A projeção do desejo é invocação do acaso objetivo: Uma vez vencidos todos os princípios lógicos, virão então a nosso encontro – se tiver valido a pena interrogá-las – as forças do acaso objetivo, que nada querem saber de verossimilhanças. Tudo o que o homem pretende saber se encontra escrito nessa tela em letras fosforescentes, em letras de desejo. A resposta à interrogação da nuvem é a revelação do amor único. Encontram-se no interior da nuvem os amantes, os Romeus e Julietas míticos ou históricos. Onde poderei eu estar melhor que no seio de uma nuvem, para adorar o desejo, único impulsionador do mundo, o desejo, único rigor que o homem deve se impor? Se há algo que se assemelha ao interior da nuvem ou do nevoeiro, é a madrugada. São zonas cinzentas, intermediárias, onde formas se dissolvem, contornos se confundem, e cada coisa pode ser outra, permitindo à imaginação desenhar seus objetos que, animados pela energia de Eros, passam a compor a realidade.
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O amor e a morte, o lado claro e o lado sombrio da realidade caminham lado a lado como as metades da esfera do Tao, o Yin e o Yang. O trecho final de O Amor Louco é uma carta, escrita a sua filha, para ser lida em 1952, quando tivesse dezesseis anos. Texto para o futuro, complemento ou posfácio do livro. Mas a história dos encontros de Breton com Jacqueline e das intervenções do acaso objetivo termina, depois da homenagem ao desejo entre as nuvens de Oratawa, com um capítulo sombrio, onde a tônica dominante é a morte. Breton não menciona a complementaridade de Eros e Tanatos, mas a torna presente no início do livro, com a história do par de objetos encontrados, a máscara militar e a colher-sapato, e nesse final, com o episódio da “casa das raposas”. Mudando de estilo, passa da fusão de reflexão filosófica e poesia em prosa a uma narrativa realista, bem descritiva.

Ele e Jacqueline estão, já em 1936, passando alguns dias no litoral da Bretanha, terra de origem de sua família e de seu sobrenome. Em uma tarde de mau tempo, caminham por uma praia deserta e perdem-se na desolação. Sentem que nunca mais conseguirão sair dessa extensão sombria, para chegar a algum lugar povoado e tomar uma condução que os devolva ao ponto de partida. Breton vai sendo tomado por uma crescente depressão. Não conseguem mais falar-se. O mal-estar chega ao máximo ao passarem por uma casa desabitada. Vê-a cercada de grades metálicas. Atravessam um riacho que dá em um costão de praia, um monte de pedras e, logo adiante, uma antiga fortaleza abandonada: O fosso aberto entre nós cavara-se ainda mais, parecia tão alto como aquele rochedo onde o ribeiro que acabávamos de atravessar se perdia. De nada servia esperarmos um pelo outro: impossível trocarmos uma palavra que fosse, passar um pelo outro sem desviar a cabeça e estugar o passo.

Aos poucos, à medida que se afastam da casa e do desvio com o riacho, a paisagem se abre. A sensação opressiva que os havia invadido também passa. Ao refletir sobre o que havia ocorrido, Breton percebe que o mal-estar e o momento de ruptura eram delirantes. E logo fica sabendo que a casa por onde haviam passado fora o local de um crime famoso na região. Seu dono, Michel Henriot, a quem pertencia o trecho até o velho forte, um tipo degenerado, filho do procurador-geral da região, havia assassinado sua mulher, para ficar com o dinheiro do seguro. Retornando ao lugar, Breton repara que a casa é rodeada por um muro alto de cimento, e não, conforme havia visto pela primeira vez, por uma rede metálica, o cercado das raposas. Subindo no muro, vê então as redes metálicas que guardavam as raposas: Foi, portanto, como se no dia 20 de julho (a data em que passou por lá pela primeira vez) esse muro se me tivesse apresentado transparente.

Como leituras para a temporada no litoral norte francês, Breton e Jacqueline haviam trazido dois livros emprestados por um amigo. Um deles, A Raposa de Mary Webb (mais tarde filmado, história de uma mulher que se identifica com raposas e acaba morta pelo marido, um caçador). O outro, A Mulher Transformada em Raposa de David Garnett. A crise no relacionamento deles não se encerrou ao saírem dos domínios da casa das raposas, como é dado a entender em O Amor Louco. Logo teriam uma separação prolongada, para acabarem rompendo de vez em 1943. E as causas da separação não se resumiram à passagem pelos arredores de uma casa mal-assombrada. Esta pode ter precipitado o que estava latente. Mas, assim como o encontro deles já estava escrito no poema do girassol e em outros textos, aquele pesadelo estava antecipada em uma escolha de livros: É preciso reconhecer, quer se queira, quer não, que esses dois livros por certo desempenharam, na elaboração do que para nós foi esse longo pesadelo acordado, um papel mais que determinante e decisivo.

 

 

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[Parceria com a Revista Agulha]

 

 

 

 

 

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Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. Traduziu parcialmente Ginsberg e Artaud, e a obra completa de Lautréamont. Publicou também, entre outros, ‘Geração Beat’, L&PM Pocket, 2009. É um dos editores da Agulha. E-mail: cjwiller@uol.com.br.




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