Noventa anos de Surrealismo


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Lançado pelo poeta francês André Breton, em 1924, o Manifesto do Surrealismo, que em outubro completa 90 anos, combatia “a intratável mania” que embala os cérebros “de ligar o desconhecido ao conhecido, ao classificável”. Breton afirmava que, “sob as cores da civilização, a pretexto de progresso, chegou-se a banir do espírito tudo aquilo que, com ou sem razão, pode-se classificar de superstição, de quimera; a proscrever toda a forma de pesquisa da verdade que não esteja de acordo com o uso”.

As expressões surrealistas, dizia Breton, deveriam ser ditadas pelo pensamento livre de qualquer controle da razão e fora de qualquer preocupação estética ou moral. Esse jogo livre do pensamento se daria, segundo se lê no Manifesto, em dois momentos: no sonho e na infância.

Embora o Surrealismo deva muito à psicanálise, principalmente, à teoria dos sonhos de Sigmund Freud, seu interesse pelo mundo onírico está voltado exclusivamente à linguagem e não à matéria de interpretação analítica: é o sonho enquanto significante e não uma busca de algum significado.

Quanto à infância, Breton afirma que, “por mais massacrada que tenha sido pelo cuidado dos moralistas, não lhe parece menos cheia de encantos. Lá a ausência de todo rigor conhecido deixa-lhe a perspectiva de vários caminhos percorridos ao mesmo tempo [...]”.

Abro aqui um parêntese para lembrar do conto “O menino que carregava água na peneira”, do poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros, outro nonagenário, que parece endossar essa tese surrealista. O referido conto narra as peripécias de um menino que descobriu, no exercício da escrita, que podia moldar a realidade ao seu bel-prazer: “o menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor!”. A mãe do menino se questionou: “Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?  Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?”. O pai do pequeno poeta, no entanto, concluiu: “com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças”.

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André Breton afirma, em seu Manifesto, que o adulto perde a capacidade da imaginação ilimitada, pois nele a imaginação só se exercita “de acordo com as leis de uma utilidade arbitrária; ela [a imaginação] é incapaz de assumir por muito tempo este papel secundário e, por volta dos vinte anos, prefere, geralmente, abandonar o homem ao seu destino sem luz”. Adulto, o homem pertenceria, “de corpo e alma, a uma impiedosa necessidade prática”, prossegue o escritor francês. Mas, para o Surrealismo, lembra Octavio Paz, o mundo já não se apresenta como um “‘horizonte de utensílios’, mas sim como um campo magnético, onde tudo está vivo, tudo fala e faz sinais, os objetos e as palavras se unem ou se separam de acordo com certas chamadas misteriosas”.

Quando menino do conto de Manoel de Barros (assim como o próprio Manoel de Barros, diria) aprendeu a usar as palavras, logo percebeu que elas guardavam essa chama misteriosa e “com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira”.

Para André Breton, “a linguagem foi dada ao homem para que ele dela faça um uso surrealista”. Àqueles que quiserem se valer dessa máxima, o Manifesto oferece algumas dicas importantes: “Mandem trazer algo com que escrever, depois de se haverem estabelecido em um lugar tão favorável quanto possível à concentração do espírito sobre si mesmo. Ponham-se no estado mais passivo, ou receptivo que puderem [...]. Escrevam depressa, sem um assunto preconcebido, bastante depressa para não conterem e não serem tentados a reler [...]. Confiem no caráter inesgotável do murmúrio [...] e tragam de volta o arbitrário [...]”.

 

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[Leia o Manifesto aqui]

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante é autora de “As antenas do caracol” e “Pequena biblioteca para crianças” (Iluminuras) e professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC.




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