Metáforas para um duelo no Sertão


 

 

O poeta paraibano Linaldo Guedes lança no próximo domingo (25), às 16 horas, na Casa das Rosas, em São Paulo, o seu novo livro de poemas – “Metáforas para um duelo no Sertão”. O livro já foi lançado em João Pessoa e Campina Grande. A obra foi editada pela Editora Patuá, de São Paulo, e custa R$ 25,00. A obra também pode ser adquirida no site da editora: www.editorapatua.com.br

“Metáforas para um duelo no Sertão” traz 106 poemas inéditos do autor e tem prefácio do poeta e escritor Antônio Mariano.

Segundo o crítico Hildeberto Barbosa Filho, o sertão de Linaldo Guedes é mais metafórico que paisagístico. “Todo tecido pelos fios intangíveis de uma geografia interior, parece se comprazer com a ideia de Guimarães Rosa de que o sertão está em toda parte, sobretudo dentro de nós. Se há, assim, referências como que mitográficas às glebas da infância e ao simbólico clã dos parentes mais próximos, sobremaneira pai e mãe, predominam, no entanto, os sítios urbanos e suas decorrências culturais e estéticas, calcadas principalmente num “duelo” literário que se fragmenta nas múltiplas vozes que ecoam e iluminam a intensidade da dicção lírica. O seu sertão me parece, pois, um modo de ser, um modo de ser tão, de perceber e apalpar a carnadura das coisas, dos fatos, das situações e das pessoas sob um crivo todo seu, em que realismo, ironia, humor e lirismo se mesclam na configuração da visão poética”.

Já para o poeta e crítico Astier Basílio, mais do que os irremediáveis cactos, da vegetação bem sugestiva de imagens, o sertão de Linaldo é urbano, onde “os meninos (…) já nascem sorrindo para a rua/ às vezes nus/outras, não/ fazem dos paralelepípedos/ residências oficiais de verão”. Mais do que um território varado por sol e terra calcinada, a paisagem que surge é a do afeto. É num dos mais belos poemas do livro, o soneto “Mater”, que Linaldo pega emprestado os olhos da sua mãe para olhar para si próprio: “Quando olho nos olhos de minha mãe/ vejo as peraltices da infância tardia/ com um arrazoado de conselhos alheios/ e uma cumplicidade do futuro que dormia”

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A lírica agreste de Linaldo Guedes

Por Antônio Mariano

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Uma frase atribuída a Leon Tolstói (e por demais conhecida para nos furtarmos da transcrição) trata da fórmula para o encontro da universalidade através do canto da própria aldeia. Tem servido de aporte para autores mais experientes aconselharem os mais jovens sobre que tônica de ambição darem à sua literatura. Linaldo Guedes, um poeta nascido numa  cidade sertaneja de um estado nordestino brasileiro, tem seguido à risca em sua poética, como muito de seus pares mundo afora,  a lição deste escritor russo do século XIX.

Venho acompanhando por duas décadas a militância em poesia de Linaldo Guedes, que passou pelo grupo performático Poecodebar há 20 anos, publicando Os zumbis também escutam blues, em 1998, Intervalo lírico, em 2005, e este  Metáforas para um duelo no Sertão, novo projeto que nos chega às mãos.

Penetro em silêncio estas paisagens. Primeira constatação: Linaldo é um poeta determinado em não se esconder por trás das palavras. Engana-se quem pensar que isso o torna mais fácil. Se Poesia não é difícil, como declara Carlos Filipe Moisés em seu belo e degustável livro tese, não quer dizer que não requeira esforço para tê-la e contê-la. Carece de intimidade com a matéria, um entranhar-se sem fim. Assim é o autor em página, em tela. Este transparente enigma,  que o poeta constrói e doa, tem dor e tem dó de tantos mundos, funde-se em si mesmo e mais confunde o leitor.

Vai um pouco desta exposição que ele anuncia em (a) caba (que é) marcado, um tanto referencial e intertextual, para começo de conversa:
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”sou um homem marcado

marcado para doer

gado preso no curral

quando não, abatido

comendo baudelaire

na erva daninha de meu capim”.

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Sim, fui encontrar o retrato do sertão linaldiano querendo-se definir onze poemas à frente, quando arremata a referida peça embriagando-se do vinho e da virtude de um poeta francês. Charles Baudelaire, um criador completo e complexo divisor de tantas águas da poesia universal que tornou-se perplexa e reencontrou-se em seguida, depois de suas porradas impiedosas. Mas eu poderia também começar definindo-o de modo simplista pelo que diz nos dois primeiros versos de Quimera, seu oitavo poema, ávido de infinitude:
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”vontade de ser feliz

e não chorar como o menino que chora no último banco de lorca”.

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Típico de uma poesia contemporânea que vive a referência em cada verso, mais uma vez nós vemos um poeta que evoca outros pares para definir sua visão e sentimento de mundo. Federico García Lorca, planta e fruto ceivado pela loucura de um ditador do século XX, sempre me disse muito com seu olhar (des)encantado. A vontade, como algo a ser alcançado, só expõe cada vez mais esse menino que não quer chorar, mas que ainda não atingiu tal objetivo. Há, contudo, um porém, como nos faz ver em Primeira infância, adversativa só compreendida numa geografia subjetiva:

“os meninos do sertão

já nascem sorrindo para a rua

(…)

os meninos do sertão nascem livres para sonhar”.

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Lá vou eu desembestado pelas estradas de barro deste Sertão, quero reduzir a marcha e sou impedido. Giro em círculos e não consigo sair da quinta, mas volto atrás nesta coletânea, volto à quinta, à quinta peça. Aconselhável um bom lombo de jumento, melhor desapear, zanzar a pé, degustando e remexendo com o quengo o que tem no caldeirão de Linaldo neste  Condimento:
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“é saber da cheia

que resseca o sertão

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com a pele do olfato

transbordando águas

entre coxas, buracos e palato (…)”

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Linaldo Guedes compôs mais de uma centena de poemas integrando este  Metáforas para  um duelo no Sertão. Considerável número de objetos. Plural quis ser. Tantas vezes substantivo, tantas vezes adjetivo. Metáfora, figura de linguagem literária desgastada, abusada por tantas mãos inábeis que perdeu a graça para os poetas ambiciosos de invenção. Metáforas há que aqui se revestem de senso e sensibilidade. Figurações que a mim me soam mais interessantes porque Linaldo embora as use, como comumente se faz (e, me desculpem,  estrategicamente me dou o direito de não indicá-las), vai além na titulação e definição do projeto desta reunião de poemas. Tonto ma non tropo, o poeta persegue outro tropo (como coletivamente nos conceitua o Dicionário Aurélio) na conhecida  “transferência  de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa, e que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado”. Duelo, que o mesma fonte vai definir como “combate entre duas pessoas” (1) e com “armas iguais” (2), aqui vai igualmente ampliado de significações, afirmando e negando signos/significados/significantes quando no eu lírico do poeta vamos encontrar várias pessoas e, na acepção do vocábulo, outras gentes, seres, objetos, sensações, contradições, falas, apelos, negações, contradicções… E o Sertão? O sertão é o dele, não mais dele quando agora o pinta com palavras e leituras que tomou de empréstimo e dele o tomamos, sorvemos.

Se neste sertão pretérito não tem os pecados que a romântica ignorância e alienação traz, pois “no sítio, ninguém sabia que existiam guerras do outro lado do azul” (Sossego), o sertão presente de Linaldo “tem semanas e dias dezembros/onde espero, só nos livros/: é natal, temos que recomeçar” (Entre o rio e o mar). O que no Lamento o poeta tenta responder que é “apenas a névoa/ de um tempo escondido pela sombra das horas”.

Um sertão apaixonado ao extremo, como visto em tantas voltas, definha em momentos a exemplo de Pote de ouro:

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“(no fim do arco-íris

o olhar do vaqueiro

em preto e branco)”.

 

A vida em poesia…

A vida em poesia é, sim, solidão como nos prazeres primários descritos em Singular:

 

“apenas uma:
se tu, luva,

te encaixas em minha mão
por que procurar outra vulva?”

 

A vida em poesia é, sim, desencanto, como em Déjá vu:

 

“entendo, querida

fui muito dócil com você

e as mocinhas gostam mesmo de bandidos
no faroeste tupiniquim que sobrevivemos

é muita fala para pouca bala
e os cartuchos se esvaziam rapidamente

no coldre do revólver”.

 

Ou desapontamento como em Renúncia:
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“e o grito que não vinha

veio,

vinícius,

mas ficou mudo,

inútil ludo,

sem eco no escuro quarto”.

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A vida em poesia é além disso esperança, como em  Colheita:
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“sempre existe um oásis

mesmo quando a seca seca tudo

inclusive a dor de não saber colher beijos”.

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O que cabe neste micromundo e é tudo, mais que as certezas, fruto da perplexidade do poeta, matéria maior do seu métier, como vemos em Curral:

 

-“nunca consegui entender

a melancolia que ecoava

nos chocalhos das vacas!”

 

Ávida de poesia, a pessoa lírica do habitante Linaldo Guedes vê mais. Sem maniqueismo e ilusão de jardins sempre floridos. A vida em literatura, essa Guerra (quase) sem testemunhas para lembrar Osman Lins, um dos caros pensadores do ofício de escrever.

Metáforas para um duelo no Sertão vai apontar um poeta lúbrico em essência, tal a reincidência da temática erótica e amorosa nesta coletânea que o leitor encontrará com rapidez, justificada em qualquer Motivação: “confesso que não soube segurar seus bicos//(por isso)/não sou alegre/não sou rico/:só, maldito” e, admire-se, até em Da falta de inspiração: “às vezes/ a dificuldade do poema/ está/ no olhar que não surge/ na blusa/ que a musa/ teima em usar”. Subversiva, diga-se de passagem, contestadora em todos os vieses é a marca predominantemente dialogante que sua poética traz. Faca de arrasto que abre caminhos de um lado a outro da obra nas caatingas do sem-sentido. Baudelaire, Lorca, Bandeira, Drummond, Quintana, Pessoa, Mario de Andrade, Dostoiévski, Caetano, Maiakóvski, Augustos (Anjos e Campos), Rosa. Testemunha de seu tempo, não dispensa uma conversa mole com ícones dos movimentos populares como Guevara e até mesmo referência às redes sociais, como o twitter. Merece nota também o tom marcadamente confessional e memorialístico, autobiográfico mesmo, dos poemas, como tudo o que um autor escreve diz do que ele percebe objetiva e subjetivamente.

Linaldo Guedes cultua uma poesia simples, sem grandes laivos de invenções, malabarismos de linguagem. Em sua maioria, seus poemas são fluentes, impulsivos, predominantemente coloquiais. Não é à toa que, sendo um dos líderes do já mencionado Poecodebar, ao lado de jovens poetas e inspirados nas práticas do guru Jomard Muniz de Britto, escreveu a maior parte de seus primeiros versos em guardanapos de mesa de bar. Some-se a essa escrita espontânea os desafios do batente das redações dos jornais, que ele exerce praticamente desde a mesma época do início da militância literária, e temos o perfil da expressão formal deste poeta. Mais definido e mais experiente esse criador, testificamos essa trajetória para encontrar um autor mais voltado para uma poética de ideias e ideais, de atitudes do dizer. O que não implica em deméritos nem elide possibilidades mais positivas. Assim, constatamos grandes momentos da obra com que nos identificamos e encontrarmos peças bem realizadas do ponto de vista ideativo, imagético, rítmico e sonoro a exemplo de Intenso, Mapa de rugas, O guardador de segredos, Partida, Lamparina, Luz del fuego, Singular, Ocas, No dia sem juízo final, Déjá vu, Renúncia, Memória erótica e Pote de ouro, para referir alguns que marcaram minha compensadora leitura ao lado de outros já assinalados em transcrições e outros ainda que a natural injustiça que a brevidade de um texto como esse obriga a cometê-la.

Não paremos, pois. Não nos rendamos às traidoras conclusões, se é isso o que se quer. Metáforas para um duelo no Sertão é também uma sábia advertência. Atentemos. Onde se lê: um livro de poemas de um nordestino, leia-se: entre metáforas e duelos em tantos sertões. Leitura, notas, nocautes. Depois da 108ª volta. Há caminhos! Sigamos adiante com Linaldo Guedes.


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Alguns poemas do livro:

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Entre o rio e o mar

 

tem semanas que acordo janeiro

versos feitos cabral

seco ácido sertão

lâmina e pedra na poesia

galo escondendo a manhã

dias em que custam suores

recordar outros valores

lembrar dos asfaltos de jambeiros

andar pelas ruas, jaguaribe

: há que sempre mirar adiante

nadar nada no capibaribe

colhendo feijão e poemas

lá na cozinha da casa grande tão pequena

 

tem semanas que me fixo em junhos

versos vêm de vinícius

solto louco sezão

sonetos infiéis em minha castidade

elegias e sempre um grande amor

dias que valem suores

vale o hoje, o agora, vale o já

cajazeiras é só uma página e saudades

outras ruas outros olhos outras cores

madalenas e seus códigos secretos

mergulha poesia tambaú

– plantar sonhos e fantasias

no quarto, onde deve ficar minha pequena

 

tem semanas e dias dezembros

onde espero, só nos livros

: é natal, temos que recomeçar.

 

 

Matraga

 

matraca silenciosa

liturgia de augusto

remoendo

moendo

doendo

moenda

– bagaço de homem no altar dos sertões

 

de repente, a hora chega

pai, filho e espírito santo

agora só quero rezar

e carregar os meus carregos.

 

 

Condimento

 

saber de teus cheiros

é saber da cheia

que resseca o sertão

 

com a pele do olfato

transbordando águas

entre coxas, buracos e palato:

 

cheiro verde nas narinas

erva do mato, minha daninha.

 

 

Natal

 

natal é meu pai

deitado na rede

: tocaiando sonhos de olho no alpendre

 

natal é minha mãe

na cadeira de balanço

: embalando filhos no seu jeito manso

 

natal são meus irmãos

espalhados no quintal

como se vivessem num curral

 

natal é você

: nascendo flores

no jardim de cimento.

 

 

(a) caba (que é) marcado

 

sou um homem marcado

 

marcado para doer

 

gado preso no curral

quando não, abatido

 

comendo baudelaire

na erva daninha de meu capim.

 

 

Luz del fuego

 

à luz da lamparina

os livros tinham mais letras

– leitura removendo vírgulas

remoendo pedras

: carro de boi em silêncio noturno

 

(menina de anáguas e apelos

restos de réstias na parede)

 

à luz da lamparina

o sítio era sempre maior

quanto maior fossem as páginas de sonho

– sem marca-livros na memória

– com incêndios fátuos no vão das coxas.

 

 

Pote de ouro

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(no fim do arco-íris

o olhar do vaqueiro

em preto e branco).

 

 

Guitarras na caatinga

(para Naldinho Braga)

 

também se toca blues

também se escuta rock

também há melodias

estrangeiras

se apossando da nossa dor.

 

 

E-book

gosto de violar segredos
sentir larica após o gozo
(que não veio)
escrever cartas chilenas
(e rasgá-las)
: medo de você estar a fim de um soneto
gosto de estar além da tela
e de nossa ausência de estar
– excêntrico almodóvar

em busca de aventuras qual um indiana jones
em tuas ancas (perdido)
gosto até de pagar o mico
da solidão
quando desligo o micro
e você se torna apenas um conto de assunção.

 

 

Poética


poeta é bicho esquisito

todo mês sangra

(versos)

e aduba loucuras

vermelhas

com frases azuis.

 

 

Parabolicaleitura

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as casas sustentam antenas

eu vi

fossem antenas poundianas

eu não via

 

EU LIA:

(as antenas globalizam novas raças).

 

 

O velho aprendiz

 

agora é com vocês, jovens

meus cabelos já caíram

e as palavras estão feridas

no último grão da semente que não germinou

 

falem de helenas, sim

nunca de uma única helena

que a poesia não deve ser refém apenas daquela musa

 

leiam os velhos poetas:

sobretudo leminski, cabral, pessoa, augustos, drummond

é com eles que aprenderão os novos tons

 

versem sobre política, sim

nunca sobre os políticos,

que estes só merecem estrofes xingadas de atritos

 

debulhem as palavras a serem usadas, separem, bem separado,

o arroz

do

feijão

: caroços que serão úteis deixem em forno brando, sem pressa para cozinhar

os outros, ah, os outros, deixem pra lá

 

não se frustrem pelo poema imperfeito:

se fores poetas de verdade

o verso preciso há de surgir antes do derradeiro pôr-do-sol

, sem a pressa que aniquila a vaidade

 

agora é com vocês, jovens

façam seus poemas, mas não me mostrem:

estarei ocupado tentando descobrir a poesia dos mestres

e a linguagem que ainda não aprendi.

 

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SERVIÇO:

O QUE: Lançamento do livro “Metáforas para um duelo no sertão”, de Linaldo Guedes (Editora Patuá)

ONDE: Casa das Rosas, Av. Paulista, 37 – Bela Vista, São Paulo

QUANDO: Dia 25 de março de 2012 (domingo)

 

 

 

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Antônio Mariano é poeta e escritor. Autor de, entre outros livros, “Guarda-chuvas esquecidos”, publicado pela editora Lamparina, do Rio de Janeiro. Militante de movimentos culturais, coordena o projeto “Tome Poesia, Tome Prosa”, que dialoga com autores contemporâneos e debate  a literatura e seus caminhos. E-mail: antoniomarianolima@gmail.com

 

 

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Linaldo Guedes é poeta e jornalista. Nasceu em Cajazeiras (Alto Sertão da Paraíba) em 1968. Lançou dois livros de poemas: Os zumbis também escutam blues (Editora A União, 1998) e Intervalo Lírico (Forma Editorial, 2005). Como jornalista, atuou nos principais jornais da Paraíba e foi editor do suplemento Correio das Artes por seis anos. Tem poemas publicados em antologias e diversos sites de literatura em todo o país e até no exterior. E-mail: linaldo.guedes@gmail.com

 




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