Manuel Bandeira e a Cidade


…….MANUEL BANDEIRA E A CIDADE: O POETA E SUAS CRÔNICAS

 

As obras em prosa de Manuel Bandeira, além de traduções de romances e estudos literários (escreveu compêndios de História da Literatura Universal (Noção de história das literaturas, 1942) concentram-se basicamente nas crônicas. Nelas, a extrema sagacidade e olhar clínico do poeta para nossas mazelas nacionais, representam importantes reflexões acerca de aspectos peculiares que caracterizariam a visão positiva, mas não menos consciente, do povo brasileiro. Sobre essa intensa atividade de Bandeira e a qualidade dos seus textos cronísticos, nos explicita Júlio Castañon Guimarães:

A esta diversidade dos periódicos, estará ligada a diversidade da prosa de Bandeira, ou seja, a natureza bem distinta de muitos textos tem a ver com as solicitações dos diferentes periódicos. Assim, o que hoje se entende consensualmente por crônica não dá conta dessa diversidade. Esta na verdade é uma característica do gênero, de modo que, mesmo sob esse rótulo, a crônica de Bandeira avança pelo campo do estudo, da crítica literária, da história. Já se tentou classificá-la – Stefan Baciu procurou agrupá-la em cinco conjuntos: sobre costumes e paisagens locais; memórias; de viagens; e fatos diversos. Sem tentar esse tipo de classificação, mas salientando sua diversidade, Giovanni Pontiero estabelece algumas distinções para ressaltar que “a série de conhecimentos e interesses nesses escritos em prosa toca as raias do prodigioso” e que, entre os vários tipos de texto, “alguns dos seus mais importantes escritos são, em última análise, aqueles que dizem respeito ao interior do Brasil e ao passado colonial da Nação”. Num outro extremo, algumas das crônicas confinam com a ficção, para o que o próprio Bandeira tratou de chamar a atenção, quando no Itinerário do Pasárgada observa que diante de certos textos das Crônicas da província do Brasil – “Reis vagabundos” e “Golpe do chapéu” -, amigos seus pensaram que ele pudesse escrever ficção. Ao referir essa dimensão ficcional de seu trabalho de cronista, Bandeira descartou a possibilidade de um texto efetivamente ficcional. (BANDEIRA, 2006, p. 256-257).

Sabemos da imensa colaboração de Manuel Bandeira para a cultura nacional através da Imprensa. No Diário Nacional, por exemplo, colaborou de 10 de maio de 1930 a 17 de outubro de 1931. No Estado de Minas, alguns meses em 1933. No A Província, esteve de 19 de agosto de 1928 a 28 de setembro de 1930. E, também, nos seguintes periódicos: O Jornal, Ilustração Brasileira, Revista Souza Cruz. Boletim de Ariel, Literatura e Bazar. Diante do exposto, falaremos sobre a relação de Manuel Bandeira com a cidade, especialmente o Rio de Janeiro e Recife. Destacamos, também, alguns temas para comentarmos de suas crônicas: o português do Brasil, a valorização da linguagem popular e a crítica de arte (especialmente artes plásticas). Para tal recorte, escolhemos nos deter unicamente no livro organizado por Guimarães (BANDEIRA, 2009), intitulado Crônicas Inéditas II, pela Cosac Naïf. Sobre esse livro em especial, lemos o depoimento de Guimarães:

A prosa publicada por Bandeira na imprensa, de modo especial aquela a que de modo mais claro se aplica a denominação de crônica, tem sido com frequência considerada a partir de pontos de vista relativamente limitados. Refere-se Bandeira como um cronista de um certo quotidiano carioca. Ele é referido também como um antecessor de alguns cronistas. No primeiro caso, a leitura do conjunto conhecido e disponível dos textos mostra que na verdade o quotidiano carioca boêmio e musical ocupa parcela reduzida deles. Quanto ao segundo, esse conjunto também mostra diferenças substanciais, que podem ser mais bem percebidos se se levar em conta a produção de autores anteriores a Bandeira ou até mesmo seus contemporâneos. Essa comparação pode mostrar não somente uma aproximação entre textos, mas uma situação de contato entre eles que tem diretamente a ver com o espectro do termo crônica e com sua mobilidade dentro dos periódicos, numa época em que as seções destes estavam em processo de definição. (BANDEIRA, 2009, p. 440).

E sobre as dificuldades de ser crítico de uma área da qual originalmente não fazia parte, revela em crônica de 12 de outubro de 1941, no jornal A Manhã:

Quando no Salão se passava da Divisão Moderna para a Divisão Geral, a primeira impressão que se tinha é que nesta as malhas do júri de admissão eram muito mais largas. Parece que o júri gritou para fora: – Entre quem quiser e fale alto para chamar a atenção! E foi a cambulhada de todos os anos. Como é difícil distinguir o ruim do péssimo no meio de tanta tinta e de tão pouca pintura! Há um clima temperado na saleta em que estão os trabalhos de Visconti – a bonita paisagem de Teresópolis e os retratos do Dr. Moscovo e do Sr. Bieitas, e os falecidos Teixeira da Rocha – uns interiores de tom velho, com uma honesta sensação de intimidade, bem desenhados, e umas paisagens frescas e bem arejadas de Haydée e Manuel Santiago e os dois quadros de Presciliano Silva, que conquistou a medalha de ouro e teve quinze votos para medalha de honra e  excelente autorretrato de Oswald, e a contribuição de Osvaldo Teixeira (aliás infelicíssimo naquela Alegria de viver, tão vazia de interesse, tão mal composta, tão pretenciosa) e outros mais. Mas, nas outras salas? [...] O leitor dirá: -“Será possível?” Os expositores dirão: -“Esse cronista não entende nada de artes plásticas! A verdade é mesmo essa: não entendo nada de artes plásticas. Nem quero entender. (BANDEIRA, 2009, p. 267).

Nesse sentido, observando, como Silviano Santiago, que a produção crítica de bandeira se concentra nas décadas imediatamente anteriores (BANDEIRA, 2009, p. 441), com o que aconteceu antes dele começar suas colaborações. Assim, Guimarães concluiria:

Já em diversos textos da década de 1920, Bandeira havia feito comentários que procuravam esclarecer aspectos do Modernismo ou que esclareciam sua posição em relação ao movimento. Não havia aí nenhum traço de revisão, como apressadamente talvez se possa pensar, mas sim uma discussão aberta sobre a produção literária e artística em curso. (BANDEIRA, 2009, p. 449).

Dito isso, passemos aos comentários de suas crônicas. De início, percorrendo sua obra, percebemos que o poema Evocação do Recife é uma louvação ao modo de falar do brasileiro, do povo simples, que, sem macaquear a sintaxe lusíada, fala gostoso o português do Brasil, incorporando a musicalidade do negro e do indígena, as palavras de origem africana e indígena, que transforma o português falado em nosso país numa forte característica identitária:

Língua errada do povo/ Língua certa do povo/ Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil/ Ao passo que nós/ O que fazemos/ É macaquear/ A sintaxe lusíada. (BANDEIRA, 1993, p. 133 – grifos nossos).

Note-se que Bandeira referiu-se ao português do Brasil; isso demonstra uma tomada de posição do poeta. Ele defendia uma fala brasileira, mas afirmava ser o português o que realmente nos caracteriza linguisticamente. Pois, conforme afirmou no artigo “Fala Brasileira” (Crônicas da província do Brasil, 2006):

Um linguista como ele (Nascentes) o é, não podia absolutamente usar naquela denominação (idioma nacional) para encobrir a realidade das coisas, nem entrar na corrente delirante dos que pretendem, pela simples resolução de adotar na língua escrita todas as licenças da língua falada, criar uma língua nova, uma língua que querem não seja portuguesa, sem se lembrarem de que, com esse processo, apenas conseguiriam (se veleidades humanas pudessem desviar o curso natural das coisas) escrever uma língua que seria a portuguesa com alterações numerosas e talvez profundas, mas sempre e em substância a língua portuguesa. (BANDEIRA, 2006, p. 45).

Envolvido em tal discussão com Sousa da Silveira, Bandeira que, embora admitindo, nos outros, certas liberdades, continua defensor da tradição literária escrita. E se equivoca em sua crítica, pois ninguém jamais falara em criar uma língua nova, uma “língua brasileira”. Nem mesmo Mário de Andrade, o qual jamais se propusera publicar uma “gramatiquinha” da língua brasileira – e sim da fala do Brasil. O que ele queria, afirma Bandeira, era “criar na linguagem escrita uma tradição mais próxima da linguagem falada natural, correta sem afetação literária, da sociedade brasileira culta” (BANDEIRA, 2006, p. 47). Refletindo sobre a relação fala-escrita brasileira, sentencia o poeta:

Entre esta linguagem e a tradição literária existe um abismo como não há em país algum, inclusive o próprio Portugal. É que a linguagem literária entre nós divorciou-se da vida. Falamos com singeleza e escrevemos com afetação. (BANDEIRA, 2006, p. 47).

Mesmo sendo poeta, ensaísta e tradutor por excelência, Manuel Bandeira se dispôs a entrar na ceara da crítica de artes. Dessa feita, em Retrato de meus pintores, crônica publicada no dia 07 de outubro de 1931 pelo periódico Bazar, assim definiu o bom pintor:

Quando um pintor faz nosso retrato, o que esperamos dele é que nos ajude a conhecer-nos. O seu olhar exercitado em aprender a relação exata das linhas e dos volumes irá descobrir, surpreender e pôr em destaque expressivo os detalhes que contam, que marcam numa fisionomia e que no entanto se atenuam, se disfarçam na mobilidade geral do trato quotidiano. Nas longas horas do tête-à-tête da pose virá de vez em quando o instante perigoso em que desarmamos, em que o mais profundo de nós aflora aos olhos, à boca. São indícios esses que revelam a personalidade ao pintor como na floresta pios e pegadas imperceptíveis denunciam ao caçador a proximidade da presa. Os bons retratistas são como grandes caçadores. (BANDEIRA, 2009, p.28).

E sobre o retrato de Bandeira feito por Portinari, o poeta exprime sua opinião:

Devo dizer de saída que me reconheço bem em ambos. Em Portinari me agrada, além de todas as qualidades plásticas que deixo aos cuidados dos técnicos assinalar, aquela ambiência de tranquilo lirismo corrigido pelo ar de pé de trás, de desconfiança adquirida. Outrossim, gosto sem reserva do realismo implacável de Maron. (BANDEIRA, 2009, p. 30).

E também mais adiante nessa mesma crônica vai apontar a identidade do Brasil em Portinari como uma das grandes características de sua arte:

Eis aqui duas imagens do mesmo homem e que diferem por tudo quanto separa os temperamentos e as inteligências dos respectivos criadores. Porque estes, sem o querer, se retrataram a si mesmos. Trabalho de subterrâneo da criação. O alemão, por maior que fosse a sua tensão de exprimir objetivamente uma realidade humana, exprimiu-se de fato, mas rigorosamente dentro de si mesmo e de sua raça. O ítalo-brasileiro de Brodósqui, terra de Palamim, entregou-se desde o primeiro momento ao subjetivismo lírico de suas origens latinas. (BANDEIRA, 2009, p. 33)

E era tão arraigado o amor de Bandeira por sua terra que até nessas exposições, do qual muitas vezes, além de crítico, assumiu o papel de jurado, derrama-se por Pernambuco (A Manhã, 07 de outubro de 1941):

Mas não quero fechar estas notas sem mandar o meu abraço ao velho Luís Soares pelo Maracatu e sobretudo pelo Pastoril. Não há no Salão dois quadros pintados com  mais ingenuidade. Pernambuco está escondidinho naquele canto obscuro da exposição (BANDEIRA, 2009, p. 265).

Também nas figuras de Cícero Dias, seu colega modernista, Bandeira enxerga traços de regionalismo. Ao criticar a “europeização” da arte do pintor, chega a declarar (Notícias de Cícero Dias, A manhã, 03 de fevereiro de 1943):

Meus amigos, meus inimigos, tive notícias de Cícero Dias, o pintor-poeta conseguiu deixar a França antes de trancada a fronteira pelos alemães, e no dia 10 de dezembro inaugurou em Lisboa uma exposição, cerca de trinta quadros. Foi um sucesso: os críticos assinalaram o sabor bem brasileiro (poderiam dizer – bem pernambucano) de sua pintura. Um dos quadros expostos vem reproduzido em cores no segundo número da revista Atlântico. Intitula-se Mulher na janela. Por essa única amostra já se deixa ver que nosso Cícero mudou bastante. Cícero morigenou-se. Não direi que se adulterou, mas inegavelmente adultou-se. Não é mais aquele menino louco. A sua pintura não é mais vadiação e tumulto. Um Cícero com perspectiva! Um Cícero calmo! Um Cícero brasileiro ainda, mas o seu tantinho parisienizado, que vê o Brasil já um pouco exótico, como Gauguin via as ilhas do Pacífico… Se o nosso Gilberto Freyre não tomar providências, tenho o meu receio que Pernambuco perca para sempre o seu intérprete. (BANDEIRA, 2009, p. 363).

De maneira imparcial, também ao artista Lasar Seagall, importante nome das Artes Plásticas no Brasil até meados do século passado, Bandeira vai dirigir seu senso crítico. Defende os pintores modernistas contra os ataques do então conservador pintor lituano, mas que depois se tornará aliado desses:

O sr. Seagall falou de certos confrades modernos que “desejam mostrar nos seus trabalhos formas em oposição, cores gritantes, linhas em choque, objetos que berram na incongruência de um resultado que se pode fazer sucesso, mas que não considero ser mais importante para o artista e para a pintura em geral”. Gostaria de saber (para evitar os mal-entendidos) que artistas são esses. Falando dessa maneira, revela o sr, Seagall, como crítico, a mesma estreiteza de juízo com que tanta gente caçoa de suas deformações, sem lhes sentir a profunda beleza. O sr. Seagall não é de um temperamento gritante, não é homem de imaginação, não é um extrovertido. Tudo nele é economia, concentração, depuramento. Uma visão, como esta do conjunto de sua obra, produz mesmo no observador certa impressão de monotonia. Mas por que querer condenar e levar à conta de propósito escandaloso outras formas de manifestação artística, que se fundam em sensibilidade mais generosa e sensuais? Reivindico em arte o direito de gritar. (BANDEIRA, 2009, p. 381).

É então que percebemos o equilíbrio que o poeta dedicou à sua crítica, como também á sua arte poética ou mesmo sua vida. Na mesma crônica, mais adiante, vai reconhecer traços modernistas em Seagall:

Se houvesse que falar de amadurecimento na arte do sr. Seagall, aponta-lo-íamos nos seus quadros de animais: os seus bois me trouxeram à lembrança o verso do meu querido Abgard Renault: “E gravemente rumina a silenciosa eternidade que o rodeia”. Se eu fosse um rico grã-fino, não consentiria que ninguém ficasse com o delicioso Rebanho de ovelhas (n. 40). (BANDEIRA, 2009, p. 383)

Demonstrando esse apego à região, Manuel Bandeira escreveria a crônica “Impressões de um cristão novo do regionalismo” (Crônicas de província do Brasil, 2006) e compara-se a Joaquim Nabuco, assumindo-se como “ex-regionalista” – uma vez que saiu muito cedo de sua região, indo tentar a vida com a família no sul do país, conforme lemos a seguir:

Esse ex-regionalista fora como ele. Escrevera sobre cozinha pernambucana, sobre os descendentes dos fidalgos vianeses que vieram com Duarte Coelho, sobre os negociantes portugueses que comiam nas calçadas da Rua Nova em porcelana azul de Macau, sobre as sinhás que as mucamas espiolhavam na modorra das sestas, tudo com abundantes citações de KJoster e Tollenare. Para acabar tomando leite condensado de Horlick… [...] A expectativa sarcástica do ex-Regionalista ficou lograda. O Regionalista só tinha encontrado motivos de prazer. É verdade que não contou par ao outro a sua impressão do famoso cheiro quer embriaga para a vida inteira quando  respirado na infância. Pareceu-lhe que pode ser sentido numa simples xícara de mel de engenho e dispensa a infância. O que não dispensa é o dom de poesia, como existiu em Nabuco.(BANDEIRA, 2006, p. 191)

A favor dessa conservação de certo ar “provinciano”, no Recife, também se manifesta Bandeira, em outra crônica, no jornal A Província, de 1928 (“Um belo exemplo que a Província está dando”):

Provinciano, provincianismo… Eis um debique fácil de atirar. Mas como se há de definir afinal esse tão falado provincianismo? Pondo de lado toda sutileza, pode-se considerar provincianismo maneiras de proceder, modos de pensar, de sentir próprios da província. É evidente que há bom e mau provincianismo. A palavra é contudo empregada sempre em sentido pejorativo. O literato a que aludimos não pensou decerto em menoscabar os confrades provincianos: ele próprio é exemplo do nortista que venceu no Rio. Decerto os nortistas empolgaram os maiores jornais da capital. [...] As redações estão cheias de gente de Minas e do Norte. Talvez por isso  é que os jornais do Rio têm um ar tão… provinciano.  O que é perfeitamente metropolitano para a capital do Brasil pode passar a provincianismo em relação a Paris ou a Londres. É um abuso de lugar-comum citar a famosa frase de Disraeli, mas ela vem aqui muito ao caso. (BANDEIRA, 2008, p. 147)

Semelhante provincianismo levará também Manuel Bandeira, em crônica de 6 de outubro de 1929 do jornal A Província, dirigida por Gilberto Freyre nesse período, a reclamar da falta de jardins no Recife, que seriam lugares privilegiados da convivência social, especialmente para as crianças, demonstrando seu apego a certos hábitos provincianos:

O Recife é uma cidade sem jardins. O Parque Amorim e o Entroncamento parecem cenários de mambembe e dão impressão de pretexto para aqueles horrendos banquinhos de caliça que têm todos um ar de dizer ao transeunte: “Não se sente, eu sou enfeite!”  E é preciso reformar os jardins do Recife pensando nas crianças. Mais de uma vez A província tem chamado a atenção para isso. Como se pena pouco entre nós em dar bons jardins de recreio para a meninada! (BANDEIRA, 2008, p. 247).

Dessa forma, saudoso do Recife de sua infância, tempo evocado pelo poeta em três poemas nos quais se refere à sua cidade (Evocação do Recife, de Libertinagem, 1930), e dois com o título Recife: um, de Estrela da Tarde, 1960; outro, também, de Libertinagem), bem como em crônica intitulada “Recife”, Bandeira, regressando de uma viagem a trabalho de sua terra natal, vai reclamar do ar moderno que tomou conta dela:

Há tempo que não te vejo!/ Não foi por querer, não pude,/ Nesse ponto a vida me foi madrasta,/ Recife.[...] Mas não houve dia em que não te sentisse dentro de mim:/ Nos ossos. Nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,/ Recife. /Não com és hoje,/ Mas como eras na minha infância, / Quando as crianças brincavam no meio da rua/ (Não havia ainda automóveis)  / e os adultos conversavam de cadeira nas calçadas./ (Continuavas província,/ Recife)./ Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas,/ sem Arraes, e com arroz,/ Muito arroz,/ De água e sal,/ Recife. (BANDEIRA, 1993, p. 249 – grifos nossos).

Este mês que acabo de passar no Recife me repôs inteiramente no amor da minha cidade. Há dois anos, quando a revi, depois de uma longa ausência, desconheci-a quase, tão mudada a encontrei. E sem discutir se essa mudança foi para melhor ou para pior, tive um choque, uma sensação desagradável, não sei que despeito ou mágoa. Queria encontrá-la como a deixei menino. Egoisticamente, queria a mesma cidade da minha infância. Por isso diante do novo Recife, das suas avenidas orgulhosamente modernas, sem nenhum sabor provinciano, não pude reprimir o mau humor que me causava o desaparecimento do outro Recife, o Recife velho, com a inesquecível Lingüeta, o corpo Santo, o Arco da conceição, os becos coloniais… Mesmo fora do bairro do Recife, quanta diferença! Quanta edificação nova em substituição às velhas casas de balcões esses balcões tão bonitos, tão pitorescos, com os seus cachorros retangulares fortes e simples como traves. (Um arquiteto inteligente aproveitaria esse detalhe tradicional bem característico do Recife). Os cais do Capibaribe, entre Boa Vista e Santo Antônio, sem os sobradões amarelos, encarnados, azuis, tão mais de acordo com a luz dos trópicos do que esta grisalha que os requintados importaram de climas frios. (BANDEIRA, 2006, p. 109).

 

 

 

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REFERÊNCIAS

ARRIGUCCI JR., Davi. Humildade, Paixão e Morte: a Poesia de Manuel Bandeira. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

_______. O Cacto e as Ruínas. Rio de Janeiro: duas Cidades, 1997.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 34.ª  Ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1993

______. Crônicas da província do Brasil. São Paulo: Cosac Naif, 2006.

______. Crônicas Inéditas I. São Paulo: Cosac Naif, 2009.

______. Crônicas Inéditas II. São Paulo: Cosac Naif, 2009.

MORAES, Marcos Antônio (org.). Correspondência Mário de Andrade e Manuel Bandeira. São Paulo: EDUSP/IEB-USP, 2001.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos. Rio de Janeiro: 11.ª Edição, Ouro sobre Azul, 2007.

CERVINSKIS, André. A Identidade do Brasil em Manuel Bandeira. Olinda: Livro Rápido, 2008.

______. Manuel Bandeira, poeta até o fim. 2.ª Edição, Olinda: Livro Rápido, 2006.

______.O Brasil de Manuel Bandeira.  Recife: Ed. Universitária – UFPE, 2010.

______. Crônicas da província do Brasil II. São Paulo: Cosac Naif, 2009.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 3.ª edição,  Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997.

SANTIAGO, Silviano. Permanência do discurso da tradição no modernismo. In: _______. Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

 

 

 

 

 

 

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André Cervinskis é jornalista, ensaísta, mestre em Linguística pela UFPB. Produtor cultural, com vários projetos aprovados pelo FUNCULTURA-PE na área de Literatura. Com várias premiações nacionais e internacionais, tem 13 livros publicados em autoria própria e coautoria. Colabora com o site Interpoética e o jornal U-carboreto, ambos de Pernambuco, e o periódico Correio das Artes na Paraíba. Mora em Olinda-PE e teve avós lituanos. E-mail: acervinskis@gmail.com




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