Manoel de Barros de cor e salteado


Neste 13 de novembro faz exatamente um ano que o poeta partiu, privando-nos  de sua  presença. Manoel de Barros partiu trinta e seis dias antes de completar, em 19 de Dezembro, seus 98 anos. O poeta que bebia “na fonte do ser e cuja palavra é Bem-de-Raiz” desfiava vocábulos que traduziam uma afiada percepção da natureza, não só humana.

Foi-se o corpo, mas permanecerá sempre viva a alma de Manoel de Barros. Nos anos que usufrui com enlevo e encanto de sua amizade aprendi que, mais que as confidências, admirava   nele seu modo gentil e afável de bem receber os amigos. Ele tinha uma personalidade única e abrangia com sua inteligência telúrica os mais diversos temas e assuntos. Nestes tempos de homenagens a saudade dele bate dobrada e faz o coração sofrer a dor da solidão dando um vazio enorme na gente.

Em sua casa na rua Piratininga nos reuníamos para os “diálogos de ócio”. Eram conversas que tínhamos sempre que lançava um novo livro. Manoel gostava de mostrar e comentar com os amigos sobre a obra inédita e os encontros resultavam em bons papos e sarau de poesia. Por ter se “abastecido de infância” e viver  constantemente em sua “terra do nunca” eu brincava ser ele “o Peter Pan da literatura”. No que me apelidou “bardo”, visto que eu gostava de declamar. Declamava outros poetas que trazia de cor pois os poemas dele nunca consegui entender porque não conseguia decorar.  Sempre que os declamava lia direto do livro.

Ele dizia gostar da “sinceridade cerimonial e emoções fonéticas” que lhe provocavam minhas leituras. Ia lendo o escrito novo dele e o poeta se comprazia em complementar seus próprios versos ao final de cada leitura. Fazia de sua memória um armazém de infinidade de versos construídos artesanalmente. E os “ócios do ofício” davam o tom dos diálogos que mantínhamos. Os encontros em sua casa, meu caro Manoel, mostraram-me o quanto é produtivo aproveitar o “ócio” para exercitar a linguagem, descompromissada, mas inebriante que produzia.

De seu engenho artístico aflorava um poeta original, criativo, divertido, poético e filosófico e assim como na vida na poesia a mina de seu coração cordial nos abastecia  de  palavras e infância. De memória invejável guardava na ponta da língua a maioria das construções poéticas que originavam os versos artesanalmente tecidos por ele e referendados por Stella, sua copidesque e único amor de sua vida. Meu caro poeta, misturadas à saudade, vêm à lembrança desses momentos, da sensibilidade e da poesia do amigo  que sempre cultivou a linguagem simples,  o avesso às convescotes  gramaticais à estilos ou sociais.

Meu caro Manoel! Que morte é essa que não há? Pois você continua presente, como se a matéria estivesse intacta a conduzir essa atmosfera de poesia, que ainda nos circunda e alimenta a nossa alma. Meu caro poeta, neste momento em que todos te homenageiam, gostaria de lhe segredar uma novidade para os próximos saraus. Lembra aqueles poemas seus e que eu te dizia ter me ajudado a ver a ver o mundo de uma forma diferente? Pois bem meu caro poeta não se preocupe mais!!!

Desde que você partiu os poemas foram prosperando em mim e agora os trago na ponta da língua: De cor e salteado!!!

 

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Em tempo: Segue uma coletânea de versos originais do poeta Manoel de Barros:

“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa Com janelas de aurora e árvores no quintal – Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores E ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores. O que desejo é apenas uma casa. Em verdade, Não é necessário que seja azul, nem que tenha cortinas de rendas. Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas. Quero apenas uma casa em uma rua sem nome. Sem nome, porém honrada, Senhor. Só não dispenso a árvore, Porque é a mais bela coisa que nos destes e a menos amarga. Quero de minha janela sentir os ventos pelos caminhos, e ver o sol Dourando os cabelos negros e os olhos de minha amada. Também a minha amada não dispenso, meu Senhor. Em verdade ele é a parte mais importante deste poema. Em verdade vos digo, e bastante constrangido, Que sem ela a casa também eu não queria, e voltava pra pensão. Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos E a dona é sempre uma senhora do interior que tem uma filha alegre. Eu adoro menina alegre, e daí podeis muito bem deduzir Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição. Nas minhas solidões de amor e nas minhas solidões do pecado Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite, E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis Como amarga a vida de um homem o carinho das prostitutas! Vós sabeis como tudo amarga naquelas vestes amassadas Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti Que eu continue sonhando com a minha casinha azul. Permiti que eu sonhe com a minha amada também, porque: – De que me vale ter casa sem ter mulher amada dentro? Permiti que eu sonhe com uma que ame andar sobre os montes descalça E quando me vier beijar faça-o como se vê nos cinemas… O ideal seria uma que amasse fazer comparações de nuvens com vestidos, e peixes com avião; Que gostasse de passarinho pequeno, gostasse de escorregar no corrimão da escada E na sombra das tardes viesse pousar Como a brisa nas varandas abertas… O ideal seria uma menina boba: que gostasse de ver folha cair de tarde… Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra, E ficasse assustada quando ao cair da noite Um homem lhe dissesse palavras misteriosas … O ideal seria uma criança sem dono, que aparecesse como nuvem, Que não tivesse destino nem nome – senão que um sorriso triste E que nesse sorriso estivessem encerrados Toda a timidez e todo o espanto das crianças que não têm rumo…”

“O mundo meu é pequeno, Senhor. Tem um rio e um pouco de árvores. Nossa casa foi feita de costas para o rio. Formigas recortam roseiras da avó. Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas. Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves. Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio. Quando o rio está começando um peixe, Ele me coisa Ele me rã Ele me árvore. De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.”

 

 

 

 

 

Bosco Martins é jornalista e diretor presidente da Rádio, TV e Portal da Educativa. E-mail: reporterbosco@gmail.com

 




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