Mais um dia de Bloom


 

Se no dia 16 de junho festejamos o Bloomsday, ou o Dia de Bloom, é porque existe um romance de um escritor irlandês, James Joyce, intitulado Ulisses. O romance foi publicado em 1922 e seu protagonista é Leopold Bloom; daí por que a festa se chama Bloomsday.

Mas afinal sobre o que é Ulisses? O livro conta especialmente a peregrinação de Leopold Bloom, um homem comum, um angariador de anúncios de um jornal, pela cidade de Dublin, terra natal de Joyce, durante pouco mais de 17 horas, ou, como diria o escritor russo Vladimir Nabokov, “Ulisses é a descrição de um único dia, a quinta-feira, 16 de junho de 1904, nas vidas misturadas e separadas de numerosas pessoas que vagueiam, viajam, se sentam, conversam, sonham, bebem e realizam diversos atos fisiológicos e filosóficos, de maior e menor importância, durante esse dia e nas primeiras horas da madrugada seguinte em Dublin”.

O que tem de extraordinário nesse dia talvez seja o fato de ele ter acontecido num ano bissexto, como se lê no romance. O leitor não encontrará nas cerca de 800 páginas do livro nenhum ato heroico de uma batalha; ao contrário, o leitor está diante do cotidiano e diante de fatos, na maioria das vezes, banais ou até escatológicos, como quando Leopold Bloom, o herói do século XX, lê seu jornal no banheiro enquanto se preocupa com o tamanho de suas fezes: “Um jornal. Ele gostava de ler na privada. Espero que nenhum chato venha bater na porta justo na hora em que eu estiver [...]. Tranquilamente ele leu, se contendo, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. No meio do caminho, sua última resistência cedeu, ele permitiu que seus intestinos se esvaziassem tranquilamente enquanto ele lia, lendo ainda pacientemente aquela ligeira prisão de ventre da véspera tenha-se ido. Espero que não seja grande demais para não provocar novamente hemorroidas. Não, justo o tamanho [...]. Ele continuou a ler sentado calmamente sobre o seu próprio cheiro que se elevava”. Cito a tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, uma das poucas tradutoras (mulheres) de Ulisses. E tenho a impressão, infelizmente, que sua tradução foi muito mal lida, se é que foi lida.

Bom, Bernardina recorda que “realmente tudo acontece naquele bendito dia 16 de junho de 1904: nascimento, morte, frustração, alegria, rejeição, traição, prazer, masturbação, menstruação, tudo, enfim, que um ser humano vivencia”. Deparamo-nos ainda com um número surpreendente de correntes de pensamento, e tudo vai culminar no famoso monólogo interior ou fluxo de consciência de Molly Bloom, que se estende, quase sem nenhuma pontuação, por quase cem páginas do romance e que é considerado um dos momentos cruciais da literatura universal.

A corrente de pensamento consiste numa série de mensagens sucintas que o cérebro anota. Mas exige do leitor uma atenção e uma compreensão maiores do que uma descrição convencional, para acompanhar os pensamentos íntimos que afloram à superfície movidos por uma impressão exterior ou por associações significativas de palavras, nexos verbais, imagens, na mente de quem pensa.

Afirma Nabokov que, em Ulisses, tudo se funde durante um segundo numa única imagem. Isso seria Joyce no seu melhor momento. No romance, como disse Lyotard, a aventura está na língua, na sua proliferação, na sua dispersão e na libertação de seus horizontes.

Mas, além dos inúmeros monólogos interiores, o leitor de Ulisses terá que enfrentar a mudança contínua de estilo do escritor. Ora Joyce escreve em primeira pessoa, ora em terceira pessoa. Mesmo quando escreve em primeira pessoa, custamos a saber quem está falando; isso acontece, por exemplo, no capítulo 12 que inicia assim:

“Eu estava só passando o tempo com o velho Troy do D.M.P. ali na esquina de Arbour Hill quando macacos me mordam, um maldito limpador de chaminé se aproximou e quase meteu seu equipamento de limpeza no meu olho”.

“Eu quem?”, o leitor se pergunta. Nesse capítulo, Bloom é citado em terceira pessoa. “Será que é Stephen quem fala?”. O fato é que, à medida que a leitura avança, o leitor acaba se perguntando: “Afinal interessa saber quem está falando?”.

Aliás, no capítulo 12, os diálogos, numa mesa de bar, entre um gole de bebida alcoolica e outro, abarcam os mais variados assuntos, nenhum se conclui, todos se confundem e, entre uma conversa e outra, entre uma leitura da coluna social do jornal e pensamentos, alguém, de repente, resolve analisar a figura de uma estátua.

Quando, ao final das longas páginas do capítulo 12, o leitor se habitua com esse estilo e com essas quebras constantes de raciocínio, ele se depara com um capítulo que começa descrevendo criancinhas brincando na praia da forma mais clara e contínua possível.

E o que dizer do capítulo 10, subdividido em pequenos capítulos ou pequenos contos, como aquele em que Bloom vai a uma livraria comprar um livro para sua Molly? Ou do capítulo 14, em que Joyce vai parodiar vários estilos: o de Thomas Malory, de George Moore, de Jonathan Swift, de Richard Sheridan, entre outros.  Tudo isso numa prosa que ora lembra uma novela de cavalaria, ora um sermão: “Portanto, Homem, olha o teu fim que é a tua morte e ao pó que se agarra a todo homem nascido de mulher pois assim como ele veio nu do ventre de sua mãe assim também nu seguirá ele no final para ir como veio” (Tradução de Bernardina Pinheiro). O que esse estilo tem a ver com o do capítulo 15, por exemplo, que mais parece um texto teatral?

Os leitores ficam espantados com Ulisses, mas, na verdade, não há nada de espantoso nessa narrativa que tem tudo a ver com a nossa realidade; afinal, nosso dia é assim, acordamos, comemos, vamos ao banheiro, divagamos, conversamos com os amigos e, muitas vezes, no meio da conversa, nossa cabeça está em outro lugar, estamos pensando e sentindo coisas que não necessariamente dizem respeito àquele assunto.

Nossos estilos também mudam no decorrer do dia, ora estamos calmos, ora agitados; ora falamos trivialidades, ora nossos assuntos são sérios.

Se no nosso dia a dia encaramos com naturalidade todas essas mudanças de estilo e de temática, na literatura tendemos a “apreciar” ou “compreender melhor” quando o texto é linear, objetivo e claro, quando podemos nominar todas as personagens e identificar cada imagem.

Joyce é um escritor vanguardista, e não aprendemos a ler vanguarda em sala de aula. A escola exige que o leitor resuma o enredo, e não raras vezes pergunta a ele qual a mensagem da obra.

Como resumir um dia comum na vida de um cidadão comum? Como resumir Ulisses? Resumir e apagar os detalhes tão importantes nessa narrativa.

Não bastassem todos esses percalços, Joyce ainda compara cada um dos capítulos de Ulisses a uma aventura da Odisseia, de Homero.

Mas, da Odisseia grega ao Ulisses irlandês, as transformações são enormes. Talvez até porque Joyce se baseie no conceito de Giambattista Vico de que a história é circular e espiral: circular, porque sempre se repete, e espiral, porque nunca se repete de maneira igual.

Particularmente, não vejo problema em alguém se interessar por esse paralelismo entre Ulisses e a Odisseia. Mas também, se não o encontrar, isso não significa o fim da leitura, pois muitas outras podem ser feitas; e Ulisses é justamente interessante porque comporta um número infinito de leituras: política, religiosa, feminista, que é, aliás, a que está me interessando neste momento.

É evidente que, ao batizar seu romance de Ulisses, Joyce estaria instigando o leitor, o qual deveria buscar entender o porquê dessa escolha, o que existiria por trás desse nome. Joyce incentivaria, em suma, o leitor a decifrar o enigma do título do seu romance. Mas nós, leitores, como Édipo da tragédia grega, se deciframos o enigma, daremos início à nossa própria tragédia, que é ler o romance considerando apenas as referências à Odisseia, deixando de lado, desse modo, outras leituras tão pertinentes quanto essa ou tão ou mais interessantes que ela.

A escolha do título do romance de Joyce pode ser algo arbitrário, nada mais do que um jogo joyciano, uma brincadeira nonsense ao estilo do escritor inglês Lewis Carroll, que, sabemos, não só influenciou seu romance posterior, Finnegans wake, como também teria influenciado Ulisses.

Humpty Dumpty diz à menina Alice, em Através do espelho, de Carroll, que um nome sempre significa alguma coisa e que o nome dele significa o seu formato. A explicação de Humpty Dumpty não faz sentido, não leva a nada, deixando Alice perplexa.

Ulisses não tem o formato da Odisseia, que é um poema épico constituído de versos longos, e aí começa, a meu ver, toda a confusão ou brincadeira em torno de seu título. Vale lembrar aqui que Joyce tinha muito bom humor.

Diria que o leitor de Ulisses deveria se portar como um cidadão comum que, sentado no banco de uma praça, vê pessoas passarem conversando umas com as outras. Mas ele não sabe exatamente quem elas são, embora algumas delas ele conheça superficialmente (Leopold Bloom, o judeu errante; Stephen Dedalus, o intelectual pernóstico que deixou a casa do pai para morar com amigos numa torre em Dublin; e a sedutora Marion (Molly) Bloom, a infiel esposa de Leopold Bloom, que também é infiel a ela).

O leitor ouve todo esse burburinho, inclusive o que se passa na cabeça das personagens, mas muitas vezes não fica sabendo o desenrolar da história, seu desfecho.

De fato, tudo fala em Ulisses, tudo emite o seu ruído: uma voz vinda da galeria; o relógio que, “abrindo a portinhola”, faz “Cuco. Cuco. Cuco.”; as argolas que fazem “Diguedigue. Digadiga. Digdig”; um “anônimo” qualquer etc. Basta abrirmos o romance no capítulo 15 para vermos humanos e inumanos conversando na maior naturalidade possível. Aliás, esse capítulo é quase uma peça de teatro, que lembra muito as peças de objetos do teatro futurista italiano, escritas na mesma época que a epopeia joyciana. Mas esse tema fica para um próximo Bloomsday.

Se Deus, como diz Stephen, é um ruído de rua, estamos em Ulisses diante do “divino”, do som ensurdecedor da cidade moderna. Diante do improvável, quero dizer.

Há que se lembrar que a primeira metade do século XX foi uma época de experimentação no campo das artes. Época em que o banal foi elevado a estatuto de arte. Em 1917, o francês Marcel Duchamp introduziu, com sua A fonte, um mictório adquirido  numa lojinha em Nova York, um novo conceito de escultura e de arte, o ready made. Os cubistas estavam também em pleno desenvolvimento com seus múltiplos pontos de vista sobre uma mesma imagem. Gertrude Stein causava furor com suas experimentações artísticas. Os futuristas italianos escandalizavam plateias com suas peças sintéticas etc.

É dentro desse contexto que devemos ler Ulisses.

 

 

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante traduziu e organizou, entre outros, Finnegans Wake (por um fio), de James Joyce, publicado pela editora Iluminuras. E-mail: waltrickdoamarantedirce@gmail.com

 




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