Literatura também é diversão


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Uma das principais, senão a única, função da literatura de ficção é divertir. É provável que quanto mais divertido o texto maior sua qualidade e mais talentoso é o autor. Javier Arancibia Contreras tem consciência da importante função. Nascido em 1976, pertence à nova safra de ficcionistas brasileiros. Foi repórter policial por vários anos em São Paulo. Sua ficção, que pela carreira de repórter policial deveria ser carregada de violência, segue o caminho de Rubens Fonseca (ficcionista que também conhece o cotidiano policial, já que foi delegado de polícia), com trivialidades que prendem a atenção e demarcada força inventiva na construção da trama.

O romance tem duas partes (“Um factóide particular” e “Jornada ao avesso dos fatos”), mas poderia não ter nenhuma. A divisão em partes apenas facilita o melhor andamento da leitura. Aliás, o texto é bem distribuído, ajudando o leitor fazer ponto na leitura para continuar depois, se assim for o caso. João Carlos Lins da silva é o editor-chefe do maior diário de São Paulo. É o personagem central da trama. O dia em que eu deveria ter morrido é seu livro de confissão, como gosta de dizer. A história é contada em primeira pessoa em mini-fitas cassetes ou direto no laptop pelo próprio João. O homem, a criança asmática, que deveria ter morrido num atentado terrorista em Istambul, quando explodiram um restaurante de grã-fino matando setenta e oito pessoas, sendo ele o único sobrevivente, e sem um aranhão.

João é um personagem bem construído que vai ganhando corpo no correr do romance até o gran finale onde tudo voa pelos ares. Javier Arancibia, o autor, foi bem assessorado pelo jovem escritor Estevão Azevedo (autor do excelente romance Nunca o nome do menino) que também cuidou da edição do livro junto com Irene Paris Buarque de Hollanda.

Como todo bom divertimento o livro é permeado de mulheres: Helena, a mãe de um amigo que João espia no banho pelo buraco da fechadura; Rita, a negrinha de seios volumosos que mais tarde, na trama, João a encontra cantando num bar para janotas como ele, quando finalmente dá um trato na outrora menina com rostinho de criança e seios de mulher que na verdade não mudou em nada; a misteriosa Sabina e a maluca da Lorena.

A história de João é a da busca por Lorena, de uma explicação racional para piração da mulher amada. No caminho se depara com perguntas da sua própria existência. Tudo narrado com agilidade e diversão. Não é só o cinema que diverte.

 

 

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O DIA EM QUE EU DEVERIA TER MORRIDO / JAVIER ARANCIBIA CONTRERAS / TERCEIRO NOME / 144 PÁGINAS

 

 

 

 

 

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Cláudio Portella (Fortaleza, 1972). É escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Tem 8 livros publicados de diferentes gêneros. Colaborador da Folha de S. Paulo e da Revista da Cultura. E-mail: clautella@ig.com.br




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