Literatura de Mulher


.

Esse artigo tem por objeto a análise dos livros Ao homem que não me quis, de Ivana Arruda Leite (2005) e Dez (quase) amores, de Claudia Tajes (2008), baseado nos conceitos de sociedade de mulheres de Allain Touraine (2007). Esse sociólogo francês inova no olhar lançado sobre estudos de gênero, quando dá voz às mulheres, deixando expostos os fatos sem interpretações sociologizantes. Assim, a impotência, a falsa consciência e a total dependência das mulheres são afirmações desmentidas pelos factos. É necessário ouvi-las, em lugar de falar em seu nome.

A partir de um estudo iniciado em 2004 com dezenas de entrevistas, individuais e coletivas, feitas a mulheres, incluindo muçulmanas, pode concluir-se que elas se definem como mulheres e não como vítimas, mesmo quando sofrem injustiças. Desse modo, as pesquisas qualitativas de Touraine (2007) sobre as mulheres evidenciam como elas almejam “construir-se a si mesmas como mulheres” (TOURAINE, 2007, p. 86). Em suas pesquisas, Touraine utiliza a intervenção sociológica como procedimento metodológico. Essa técnica de pesquisa “consiste em substituir o estudo à distância dos atores e das situações pelo estudo da relação entre o pesquisador e o ator” (Idem, p. 97). Seguindo tal procedimento, Touraine propôs que as mulheres mostrassem como elas se representam a si mesmas a partir de suas próprias experiências de vida. A sociologia do sujeito propicia o exame crítico da situação vivenciada por atores e atrizes sociais. “A intervenção do sociólogo reenvia o grupo a ele mesmo, o ajuda a conquistar a imagem de si”, mediante “o exame crítico” de situações vivenciadas no cotidiano, atores e atrizes conseguem “se avizinhar da consciência de seus próprios engajamentos” (MARTINS, 2009).

É a feminilidade, consciente e assumida, que está em causa, que é a razão de ser e de estar das mulheres. O seu objetivo fundamental na vida – diz Touraine, baseado nos testemunhos recolhidos – é o de se construírem enquanto mulheres. Não são obrigadas a sê-lo: é sua opção, consciente, livre (SERRA, 2007).

E essa construção feminina passa, na maior parte dos casos, pela sexualidade. Este o campo vital onde as mulheres melhor podem vencer ou fracassar em sua feminilidade assumida. Nesse campo, podem ser protagonistas de seus destinos, dada nova ordem de modernidade ocidental que preconiza o sujeito. Sempre vistas como não existentes, como despojadas de subjetividade, as mulheres na atualidade são, afinal, sujeitos históricos ativos não tanto, hoje, de um movimento social quanto de um movimento cultural. O movimento da afirmação da feminilidade.

No feminismo, a afirmação das mulheres como sujeitos possibilitou a luta pelo reconhecimento de direitos. Por isso, Touraine sustenta que, na atualidade, “a categoria que melhor carrega o sujeito é aquela das mulheres, já que, mais do que qualquer outra categoria, elas por longo tempo viram rejeitado seu direito à subjetividade” (p. 161). As mulheres iniciaram o processo de construção de si mesmas como sujeitos. Desse modo, “o tema da situação atual das mulheres ocupa um lugar central na análise sociológica” (p. 197). A assim, a sociologia das mulheres, destacada nesse livro,  e do feminismo aparece como uma temática de destaque na sociologia do sujeito. Sujeito visto no contexto do pós-modernismo. Segundo esse estudioso, feminismo “definido aqui como pertencente solidamente a um pós-modernismo que se define antes de tudo como fim do homem, o fim da história e o fim da metafísica” (TOURAINE, 2010, p. 165).

Assim, a proposta de uma sociologia do sujeito é fundamental para uma compreensão mais abrangente da problemática que envolve a relação entre indivíduo e sociedade, suscitando reflexões sobre as dimensões da subjetividade e da objetividade (MARTINS, 2017). Aplicado ao mundo das mulheres, significa partir do geral para o particular, do plural para o singular, detendo-se nas especificidades de cada categoria de mulher. Pois, nas palavras de Touraine:

As mulheres têm um papel seguramente importante nessa tomada de consciência e nesses conflitos, como o mundo operário o foi, num passado ainda próximo. De fato, é mais importante dar-se conta de que as mulheres se levantaram contra o poder masculino e suas instituições a fim de transformar  a sociedade e criar novas formas de liberdade. Talvez tenha sido a presença, nas mulheres, de uma tão forte referência a elas mesmas, à sua liberdade e aos próprios valores de autodesenvolvimento que tornou difícil à geração pós-feminista a organização de uma ação coletiva, e, principalmente, mostrar à população inteira o caráter exemplar de seus propósitos. O pensamento e a ação das mulheres atuais questionam muito mais do que a partilha de bens, mesmo se o tema da igualdade ou aquela da luta contra as desigualdades sempre se revista de uma importância central (TOURAINE, p. 2007, 108).

Visto esse resumo de Touraine, que nos inseriu no contexto dos novos estudos de gênero, passamos aos livros referenciados e às respectivas análises. O primeiro livro, ao homem que não me quis, de Ivana Arruda Leite,  é composto por 18 contos (sendo alguns micro contos), nos quais a autora conta, em cenário urbano, histórias de personagens quase sempre caricatas ou implacáveis, que procuram a todo custo se encontrar ou se perder nas relações amorosas. São mulheres que estão sempre querendo nos lembrar que a paixão existe e não tem limite. Mulheres que habitam nosso cotidiano, intensas e viscerais (LEITE, 2017). Em praticamente todos os contos, aparece o estereótipo da mulher submissa, inferiorizada em relação ao companheiro. A mulher que inclusive trabalha, mas é dependente emocionalmente do homem (Da difícil vida das rêmeras). Ou a mulher As confissões em discursos diretos, reprodução dos pensamentos das personagens, são de chocar. Termos fortes, como esses:

Ele não ligaria, eu sabia. Cabia a mim procura-lo. Foi o que fiz. (LEITE, 2005, p. 39 – grifos nossos);

Acho que eu não tenho mais cura (Idem, p. 34 – grifos nossos).

Tivesse eu feito da minha vida algo que preste e não precisaria de você nem para pra limpar a casinha do meu cachorro. Vê se te enxerga! (Idem, p. 69 – grifos nossos)

Mulheres mal resolvidas, infelizes, que se rebaixam sexual e afetivamente em relação aos homens são a tônica forte desses contos. Noutras palavras, mulheres-rêmoras, que vivem das sobras de afeto que seus companheiros lhe dão, do que lhes sobra das demais mulheres, conforme a autora bem explicitou no conto Da difícil vida das rêmoras:

A rêmora e o tubarão têm uma relação de mutualismo – explicava o professor de biologia. O mutualismo é uma relação positiva onde apenas onde apenas um dos seres sai beneficiado. A rêmora gruda no corpo do tubarão e vai se alimentando do que ele não utiliza, dos seus restos. Para o tubarão, a presença da rêmora não cheira nem fede. Ele não abre mão de nada que lhe é essencial. Ela não pede nada que lhe faça falta, contenta-se com o lixo que o tubarão vai deixando para trás.

Algo me diz que um dia o tubarão ia virar-se para a rêmora e dizer:

- Você não sabe, rêmora querida, mas eu também preciso muito de você. (LEITE, 2009, p. 35 – grifos nossos)

Tal como na biologia, a mulher desse conto se alimenta dos restos que o seu homem deixa para ela. Ela não interfere me sua vida, não pede compromissos ou fidelidades. E ainda alimenta a ilusão de que um dia, o tubarão (seu homem) vai se voltar para ela reconhecendo seu valor (mulher-rêmora).

De uma forma ou de outra, essas mulheres-rêmoras aparecem e desaparecem nos contos de Ivana. Na verdade, sempre é a mesma mulher, ora com trejeitos de emancipada econômica e culturalmente, mas que ainda depende afetivamente do outro masculino para sobreviver.

Exemplo desse papel contraditório de independente-dependente é a protagonista do conto que dá título ao livro, a homem que não me quis. Funcionária pública, com sua vida profissional consolidada, ela não se conforma consola solidão e procura sempre nos colegas de trabalho ou companheiros uma forma de exercer sua sexualidade. Mas não de maneira autônoma, cheia de autoestima e amor próprio. Em seus devaneios de solteirona, angustia-se com sua condição, sente-se feia e bonita. Mesmo não entendendo bem, envolve-se com homens pelos quais não sente nada. Quando encontra um que de fato a valoriza, não correspondendo a sua carência extrema (Lúcio, o amigo que acompanharia para o resto da vida, único que não a quis sexualmente, mas a valorizou enquanto ser humano), desenvolve-se o seguinte diálogo entre ambos:

-O que há de errado comigo?

- Ora essa, não há nada de errado com você.

- Então, por que você não me quer?

- O fato de eu não te querer não quer dizer que haja algo errado com você.

- Então, é verdade, você não me quer?

- Que diferença isso faz?

- Que diferença faz?

- Seremos bons amigos para sempre (LEITE, 2007, p. 84)

Saindo um pouco desse contexto, chamou  nossa atenção o destaque que deu à sexualidade da mulher da terceira idade, mostrada no conto Mulher do povo, em que a protagonista revela:

Daqui a pouco devo me apresentar no Hospital Universitário. Se tivesse dinheiro, pagaria um plano de saúde e não precisaria me submeter ao serviço público de saúde, mas não foi essa a minha vida. [...] Minha mãe e minha filha nos acompanha. Minha mãe é viúva há muito tempo e eu também. Eu e minha filha crescemos sem pai. Deve ser hereditária essa tara por matar maridos (LITE, 2007, p. 43-44 – grifos nosso)

O trecho grifado reproduz a fala de uma mulher do povo, de baixa renda, que reclama, quase praguejando, o fato de não ter marido e de sua filha, por sua vez, também não o ter. Ao final, culpa a si mesma e ás filhas por ser como que amaldiçoada e não ter a proteção do homem. Como se isso fosse alterar de fato alguma coisa no tratamento de saúde a que essa mulher vai se submeter.

Mais adiante a autora vai trabalhar também a sexualidade das mulheres de terceira idade do quarto de hospital da protagonista, por ocasião da visita de um médico bonitão, dando ênfase a esse aspecto esquecido da mulher madura, que, em muitas situações, coloca sobre si a toga de assexuada por ser viúva ou divorciada:

O marido de Mercedes não gosta do médico que a examina. É lindo demais, educado demais. Pega na mão da mulher com delicadeza demais. O mulherio do quarto fica excitadíssimo. – Quer trocar de médico? Perguntamos eufóricas. Há muito não se via uma manifestação tão efusiva no 608. Bastou entrar um homem bonito pra saber que continuamos vivas. [...] Tive vontade de dizer-lhe: sexo é saúde, meu caro. Corpo doente não tem sexo. Se voltou o desejo é porque estamos quase prontas para ir embora (LEITE, 2005, p. 60 – grifos nossos)

Dessa forma, Ivana Leite trabalha com ironia e perspicácia a condição da mulher, denunciando que, em pleno século XX, as mulheres ainda aceitam carregar sobre si o fardo de se sentirem inferiores aos homens, de admitir sua dependência em relação a eles, negando-se a uma relação igualitária e harmoniosa, em que sentiriam felizes porque reconhecidas como mulheres em seus plenos direitos e cidadania, enxergando nos homens companheiros e não algozes. A crítica vê essa atitude da escritora com receio, pois seu excessivo sarcasmo, suas expressões desbragadas de sentimento de inferioridade em relação aos homens poderiam ser vistas como estímulos para essas mulheres continuarem tais comportamentos, ao invés de se emanciparem, se valorizarem. Mas essa é uma questão para qual não há consenso entre os críticos literários. Livro carregado de dramas e frases comprometedoras, mas que se propõe a ser leitura indispensável a quem quer adentrar no universo de Literatura e Gênero.

Em sua dissertação de mestrado (Obscenidade do abandono: a devastação feminina em Marilene Felinto), defendida em 2010 no Programa de Pós-graduação em Literatura e Interculturalidade (UEPB), Myrna Maia Maracajá, ao apoiar-se nas teorias psicanalíticas de Freud e Lacan para analisar as mulheres personagens da obra de Marilene Felinto, conclui:

As análises de mulheres mostram o quanto elas estão preocupadas com o que seus homens falam sobre elas. Não importa muito se a fala é de elogio ou de insulto, desde que se fale dela ou que se fale com ela. Prova disso é que algumas mulheres não conseguem deixa seus parceiros, por mais que estes lhe maltratem, pois o que está em jogo é a parceria-sintomática, regida pelo gozo de um e de outro. A maneira como o homem aborda uma mulher, também se constitui como motivo de queixa. Ela diz: “ele me usa para fazer sexo, para cozinhar, para cuidar dos filhos”, “não quero que ele goste de mim só porque tenho um corpo bonito”. As mulheres confundem o fato de ter que se fazer objeto causa de desejo para um homem, com se fazer objeto de gozo. Elas querem ser amadas pelo que não são (MAIA, 2010, p. 59-60)

Percebemos que, nos contos de Ivana Arruda leite, há uma profunda semelhança com essas personagens analisadas por Maracajá: são mulheres devastadas, sem amor próprio, que agradecem a atenção de seus homens. Não se descobrem protagonistas de  seus destinos ou sentem a força de sua autoestima; existem em função de seus homens, de seus maridos. Incomodam-se com essa condição mas não têm força ou coragem de ir à luta, de mudam suas sinas, reproduzindo assim, o passado de suas predecessoras. Falta-nos aqui espaço para maiores considerações, mas, sem dúvida há semelhanças palpáveis entre essas autoras, pelo viés de análise da referida dissertação

Dez (Quase) Amores, de Claúdia Tajes, trata os encontros e desencontro amorosos da Maria Ana. A história conta como foram os seus 10 relacionamentos, da infância até a maturidade. São várias histórias em cada um dos 10 contos, perfazendo todas as nuances da condição feminina, do trabalho à sexualidade. Com muito humor, ela conta as histórias dá 5º serie, passando pela mulher emancipada até o cara vestido de papai Noel. Com apenas 128 páginas, torna-se assim uma leitura prazerosa e leve, tratando da leitura de gênero um assunto para não iniciados. E em forma de diário, em tom confessional, que as diversas protagonistas relatam seus acontecimentos amorosos. Na verdade, esse livro foge do politicamente correto, mas não chega a ser panfletário. Se não, reparem nesse trecho em que fala do homossexualismo no mundo animal:

Sem querer remexer na intimidade dos outros, é preciso falar algumas palavras sobre Pitoquim. Apesar da aparência rústica, o cachorro-anão é homossexual. Foi pego em flagrante pelo irmão do Henrique com um poodle da vizinhança. O poodle fazendo o serviço dele. A família aceitou a opção do cachorro, mas Dona Cloé não abandona o sonho de um dia segurar nos braços os filhotes de Pitoquim, de preferência que ele não seja a mãe (TAJES, 2007, p. 27 – grifos nossos)

Nesse trecho, saindo da linguagem politicamente correta e panfletária, fala da homossexualidade de Pitoquim com bastante naturalidade. Os donos não discutiram o assunto, mas aceitaram o fato, não prolongando a questão de gênero em diferentes discussões. Noutro contexto, mas refletindo sobre isso, também os indígenas nem falam de homossexualidade, embora, na Paraíba mesmo, segundo relatos há vários assumidamente gays entre os tabajaras, que ocuparam o litoral do estado.  Tão naturalmente eles vivenciam sua sexualidade que não chegam a criar embróglios públicos sobre isso. Um dado para refletir, somente.

Assim como nos livro de Ivana Arruda Leite, a autora investe na informalidade para desenvolver suas histórias.  Leitura, por conseguinte, é mais leve, não tem os ranços do drama das mulheres mal amadas e desvalorizadas de Ao homem que não quis. Assim, no conto Quase amor 1 que inaugura o livro, relata:

Reginaldo me chama n quarto. O abajur espalha uma luz fraca. Vejo muitos livros, uma escrivaninha, algumas roupas dobradas em cima de uma cadeira e, como não poderia deixar de ser, um colchão direto no chão. Deito com ele. Agora estamos conversando sobre a organização, a vida de Reginaldo e a minha, nessa ordem. Ele fala de política tentando subir o meu vestido. Reginaldo não sabe, nem vai saber, que nunca estive com um companheiro antes.

Naquele colchão imundo, mais uma vez o proletariado (ele) e a pequena burguesia (eu) estão frente a frente. Ou um em cima do outro. Ou um na frente, o outro atrás. É mais um embate que um namoro. Canso de resistir. Fecho os olhos e espero.

Um dia isso tinha mesmo que me acontecer (TAJES, 2007, p. 17).

Com irreverência Cláudia Tajes conta o desenlace do primeiro romance de Ana Maria que acabou no seu defloramento ou perda da virgindade. Eis que a personagem desse conto, diferentemente dos de Leite, se apresentam mais soltas, resolvidas com sua sexualidade, o que faz com que o enredo se desenvolva de uma forma menos pesada de frases negativas, desânimo e conformismo femininos.

Esse politicamente correto também é tratado de forma jocosa, mas não por isso menos questionadora no conto Quase amor 5. Bernardo Antônio, nome bem branco, cristão, é a alcunha do namorado negão de Maria Ana. Diferentemente da maioria da população negra brasileira, Bernardo é bem nascido, senegalês, tem dinheiro e nenhum engajamento político e… gago! Na verdade, assume o papel do homem convencional, de alta classe. Tem casa grande, bonita, empregada também negra (uma contradição). Gosta de música clássica e de viajar. Maria Ana também é desprezada por esse homem, mas reage de maneira diferente das personagens mulheres de Ao homem que não me quis. Depois de se esforçar por agradar seu home cumprindo bem o papel de dona de casa, após ser despedida de um emprego com a qual não se realizava profissionalmente, a decepção:

Ou estou ficando paranoica, ou Bernardo Antônio não ficou nem um pouco entusiasmado com a minha volta ao lar. O meu jantar já vi que não entusiasmou, Bernardo Antônio acha melhor a Gisenete (empregada) reassumir o posto.

Quase preciso implorar para ele largar a Escrava Anastácia e deitar comigo. No escuro, quando eu gosto de não ver como ele fica muito mais escuro, a voz de Bernardo Antônio ainda parece um carinho quando diz que talvez a minha mudança para Brasília e para a vida dele tenha sido precipitada.

Estou levando um fora sem nem saber por quê. Se foi por que não fiquei cuidando dele, como uma mucama. Ou por que Bernardo Antônio não chegou a gostar de mim, mesmo que tenha dito eu tem amo em senegalês. Decido ir embora.

- Cequesssssssabe!

Levanto da cama e arrumo as coisas. Na verdade, a maior parte das roupas nem saiu das malas. Os vestidos de festa que usei aqui são meu legado para Gisenete. Para ela lavar os pratos bem bpnita nas próximas recepções quem Bernardo Antônio vai dar.

Como se vê, diferentemente das personagens de Ivana, a de Tajes é decidida. Resoluta, toma iniciativas. Ao perceber que o namoro não dá mais certo, decide acabar e não espera que o homem tome essa decisão. Ainda usa de humor e ironia ao deixar as roupas de festa, que seriam lembranças do seu enlace, para a empregada doméstica, personagem-símbolo das mulheres convencionalmente negras, pobres, domésticas e dedicadas. Também usa de bom humor quando brinca com a cor de pele do companheiro, mostrando não estar interessada em discursos ideológicos.

Da mesma forma que desengata relações amorosas, a personagem de Claudia Tajes também inicia, tem coragem e ousadia de ir atrás de seus parceiros. No conto Quase amor 8, em pleno ambiente de trabalho, um flerte e início de namoro:

Eis que o cara puxa uma cadeira e não sai mais do meu lado. O chefe chega e vê aquela cena, dois velhos amigos tricotando em horário de expediente. Nem a Verinha acredita no que suas lentes de contato azuis mostram. Sou obrigada a expulsar o fotógrafo, que se chama André Araújo, não sem antes deixar um encontro combinado para a noite (TAJES, 2007, p. 89)

Mais adiante, novo protagonismo feminino: ao ser correspondida, ao não ficar numa posição apenas passiva,  toma a iniciativa de levar a sua casa seu pretenso homem:

É contra meus princípios levar um homem que não é meu para dentro de casa, mas André beija mordendo e morde beijando tão bem, que, ás seis da manhã, quando ele finalmente vai embora, você pode me chamar de qualquer coisa, destruidora d elares, inimiga das esposas, bug da família, menos de Delçolina Terezinha (TAJES. 2007, p. 94)

Mas apesar de todo protagonismo feminino de Tajes, cá e lá, ela coloca na voz de seus personagens algumas frases preconceituosas, machistas, rendendo-se ao patriarcalismo. Assim, após assumir a culpa por um acidente que não cometeu, apenas para agradar sua pquera, a personagem do Quase amor 9 confessa:

Tomara que Rosemarie Muraro não em escute. Eu, que não tive culpa no acidente, estou assumindo a responsabilidade só porque o oriental foi atencioso comigo. A categoria das mulheres deveria se envergonhar de me ter como sócia (TAJES, 2007, p. 101).

Mais adiante, no mesmo conto, essa mesma personagem vai confessar, ao despistar uma cantada de Eduardo, seu agora “ficante”, para subir ao seu apartamento:

Se tivesse assento ejetor no carro, o Doutor Eduardo tinha acionado. Ele vai embora e eu subo as escadas com uma sensação de vitória e um vazio que quase me faz duvidar de ter vencido (TAJES, 2007, p. 108 – grifos nossos).

É a consciência da mulher que se culpa por não ter dado abertura, ter sido mais acessível ao seu companheiro. Na verdade, ´retrata a obrigação de a mulher ser sempre mais amável, receptiva, que o homem, mesmo quando não deseja se pôr em risco ou tem ainda dúvidas quanto ao futuro da relação. Apesar disso, percebemos que as personagens de Tajes são muito mais libertas, emancipadas, positivas que as de Leite. Se elas erram, talvez por conta da pressão social introjetada por séculos de patriarcalismo, ao menos essas primeiras têm consciência disso, enquanto as de Leite parecem não se aperceberem de como estão acorrentadas a estereótipos, sempre justificando suas atitudes negativas em relação a si mesmas.

Analisando as duas autoras com base em A sociedade das mulheres (TOURAINE, 2010), percebemos que as mulheres de Cláudia Tajes se aproximam mais desse modelo do que as de Leite, embora nenhuma esteja livre de nalguns trechos, demonstrar sintomas de inferioridade feminina porque, afinal, ainda vivemos num mundo sob a égide do patriarcalismo. Despir-se desses papeis submissos, embora doloroso, é processo ininterrupto. Afinal, nos perguntamos, o que denuncia mais a condição das mulheres, o sarcasmo, a ironia sórdida (Ivana Arruda leite) ou a jocosidade, o bom humor, a atitude de fugir do convencional e do politicamente correto (Tajes)? Não temos resposta para isso, mas certamente, a trajetória das mulheres na Literatura está apenas começando.

 

 

 

 

.

REFERÊNCIAS

LEITE, Ivana Arruda. Ao homem que não me quis. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

_____. Resenha Ao homem que não me quis. Blog. Acesso em 07/05/2017.

MAIA, Myrna Agra Maracajá. Obscenidade do abandono: a devastação feminina em Marilene Felinto. Dissertação. Universidade Estadual da Paraíba. Programa de Pós-graduação em Literatura e interculturalidade. Campina Grande: UEPB, 2010.

MATINS, Pedro. Sobre o Homem que não me quis. Artigo. Disponível em: https://www.skoob.com.br/usuario. Acesso em: 07 de maio de  2017

SERRA, Maurício. Resumo do livro ao homem que não me quis. Disponível e:   Acesso em: 07 de maio de 2017.

TAJES, Claudia. Dez (quase) amores. Porto alegre: L&PM, 2008.

TOURAINE, Alain. O mundo das mulheres. Tradução de Francisco Morás. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

 

 

 

 

 

 

.

André Cervinskis é jornalista, ensaísta, mestre em Linguística pela UFPB. Produtor cultural, com vários projetos aprovados pelo FUNCULTURA-PE na área de Literatura. Com várias premiações nacionais e internacionais, tem 13 livros publicados em autoria própria e coautoria. Colabora com o site Interpoética e o jornal U-carboreto, ambos de Pernambuco, e o periódico Correio das Artes na Paraíba. Mora em Olinda-PE e teve avós lituanos. E-mail: acervinskis@gmail.com




Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook