Invasão Mineira


 

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…………………..FÁBULAS ENTORTADAS”, DE ISRAEL JELIN

 

O pingue-pongue dialético de Jelin

Literatura pode ser um ótimo divertimento, capaz de nos abrir os portões para as ambiguidades da vida e do mundo. Principalmente se escrita com bastante humor, muita irreverência e generosas pitadas de ceticismo.

O autor destas fábulas é craque em misturar ótima literatura com humor finíssimo. Além de escrever muito bem, é engraçado sem fazer força, transmitindo com ironia e sarcasmo sua visão das coisas, numa gangorra que oscila entre otimismo e pessimismo.

Entortadas por seu humor cínico, as vidas de bichos e de homens surgem com extrema clareza diante de nós, exibindo fraquezas e defeitos, mas também sabedoria.

Jelin não toma partido, deixando que o leitor decida, entre as duas versões que apresenta, qual delas ele (o leitor) prefere. Nem todas têm feliz final. Quase nunca a moral é moralista. Acima de tudo predomina o humor. E, com ele, reina, soberana, a melhor literatura satírica.

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[Trecho da apresentação de Sebastião Nunes]

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Uma das “fábulas entortadas”, de Israel Jelin

 

A galinha dos ovos de ouro

Um pobre sitiante tinha, no fundo do seu quintal, um galinheiro. Dez, doze galinhas, um galo, tudo muito normal. Eis que um dia, para seu enorme espanto, uma das galinhas botou um ovo de ouro. E, no dia seguinte, outro. E mais outro e outro e outro.

Depois de uns quinze ovos, o sitiante não se aguentou de curiosidade e matou a pobre galinha, para ver o que havia lá dentro.

Nada. Não havia nada. A galinha era igual a qualquer outra.

“Que idiota que eu fui!”, pensou o sitiante.

Mas, no dia seguinte, apareceu mais um ovo de ouro no galinheiro.

– Puxa, que sorte! Matei a galinha errada!

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Moral:

A galinha põe e Deus dispõe.

 

 

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CASA ABERTA”, CRÔNICAS DE FERNANDO BRANT

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As crônicas deste livro foram publicadas, originalmente, ao longo dos últimos cinco anos no jornal Estado de Minas. Relidas e selecionadas, ganham nova dimensão: o tempo decanta e o livro reúne. As linhas de força aparecem, o discreto pulso que as animava vem à tona. Para além do exercício de reconhecimento entre pares, há agora algo mais íntimo e exposto, um recolhimento e uma receptividade de outra ordem, a casa aberta anunciada há tempos numa das letras de música mais bonitas do autor.

Está mais nítida, por exemplo, a travessia interna que se constituiu no cronista a partir das primeiras notas sobre a morte do pai até o nascimento da neta – uma trajetória dramática de elaboração do luto e de reafirmação da vida. O choque inicial, a percepção da presença para sempre herdada, a vida nova anunciada (da criança e de si mesmo), está tudo ali. Coisa comum; coisa extraordinária.
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[Trecho da apresentação de Cristiane Brasileiro]

 

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UMA NOITE, HÁ QUARENTA ANOS
Fernando Brant

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Na memória e na foto, eu vejo aquele menino olhando seu parceiro que canta. No meio do palco do Maracanãzinho, vestido com roupas que não eram dele. Nunca tivera, nem viria a ter, smocking. O paletó, um pouco grande para seu corpo magro, e a gravata borboleta eram de amigos que o socorreram diante da obrigatoriedade do traje de gala para a grande final. Ali, naquele mesmo lugar em que era aplaudido, um ano depois Tom Jobim e Chico Buarque seriam vaiados. Mas isso, não havendo ainda acontecido, não faz parte desta história. A importância daquele momento em sua vida não lhe ocorrera, a ficha custou a cair.

Estudante em Belo Horizonte, ficara amigo de um jovem talento extraordinário, que cantava, compunha e tocava com uma beleza original, única, muito além de tudo que ouvira antes. Entusiasmado com as descobertas literárias, poéticas, cinematográficas e teatrais que sua gula de conhecer desvendava, aquele rapaz, frequentador da Faculdade de Direito, viu-se um dia diante do desafio de escrever as palavras de uma canção deslumbrante do novo amigo. Ouviu várias vezes a melodia até decorá-la; nem sonhava com gravadores. Pôs-se a trabalhar na delicada tarefa. Timidamente, morrendo de vergonha, ousou mostrar, ao agora parceiro, o que fizera. Um alívio percorreu seu corpo quando sentiu que tinha agradado. Tomaram, para comemorar, no escritório do pai, uma pequena garrafa de vinho de Caldas. O violão da irmã embalava a canção nascente.

Era apenas uma letra escrita para um amigo e ficaria nisso se o cantor Agostinho dos Santos não a tivesse inscrito no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro. Ficaria nisso, pois era uma entre milhares. Mas a danadinha da música foi classificada para a apresentação pública no fim de outubro. Éramos abraçados por gente que, até há pouco, admirávamos à distância, pelos discos, rádio ou televisão. Eu entrara, sem perceber, em um mundo novo.

Eu não tinha dimensão exata do que estava acontecendo. No dia da final, pois a nossa canção ia rompendo obstáculos, acordei com a chegada, em terras cariocas, de meus pais, irmãos, amigos e vizinhos. A coisa estava ficando mais séria do que eu imaginava. Não consigo descrever minha reação, à noite, depois da orquestra e do aplauso, dos cumprimentos e abraços, da vitória gloriosa.

Tenho certeza que, mesmo nas comemorações noturnas, no despertar do dia seguinte e na volta para casa alguns dias depois, eu não tinha consciência plena da transformação que me atingiria, do rumo que se abria para mim e meus parceiros, da travessia que eu e Milton Nascimento estávamos iniciando.

No dia 22 de outubro de 1967 eu encontrei minha profissão.

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Comentários (2 comentários)

  1. NOVAS NA MUSA, [...] Invasão Mineira [...]
    12 abril, 2012 as 17:41
  2. Daniel Lopes, Fui lá, comprei o livro e ganhei autógrafo e abraço. Que cara, o Fernando Brant! Gênio simpático.
    12 abril, 2012 as 21:02

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