Hora Zero


 

 

A Casa Ferida
,

Prisca Agustoni já possui uma obra consolidada em diversos campos do universo literário, seja em prosa ou verso, incluindo nesse conjunto, também, a produção de ensaios ou de textos voltados especificamente para o público infanto-juvenil. Este novo título poético da escritora suíça, há muito radicada no Brasil, concentra-se de modo absoluto no tema da casa profanada, com suas diversas variações simbólicas. Nos poemas de abertura das duas partes iniciais do livro podemos colher os primeiros indícios dessa profanação, eis que a imagem da casa-templo é construída com extremo vigor lírico: “Esta casa é um relicário de vidro e verde. / Tem ares de casa dos milagres” e “antes que o chão não fosse / tição ardente sob os pés // ou tapete de ladrilhos / numa igreja sem fiéis”. O desenvolvimento da imagem de “casa dos milagres”, aliás, atingirá seu ápice na parte intitulada “ex-voto no salão”.

A mão segura de Prisca leva o leitor nessa viagem que se inicia com “A Primeira Visita” – poema centrado na metáfora do paraíso prometido pela nova morada, com seu “perfume de laranjeira em flor” – e termina com “a dura lição do parto”, colhida dos escombros da referida profanação. Em consonância com a imagem da casa-templo, os ecos de um devir edênico vibram a todo momento, mas vibram “em vão, pois o pecado / é anterior ao caos” e contamina até mesmo esse domicílio tão virgem de vidas e assombros. Eis a habitação que “recusa a travessia (…) e para evitar a queda do paraíso / adia a vida como erva daninha”. A referência ao adiamento serve de base para a construção de um lugar de delícias que jamais será efetivamente vivenciado, de tal forma, pelo eu lírico. Afinal de contas, o paraíso é evocado apenas como promessa, como expectativa de que, “aos poucos”, a plenitude se cumpra: “A poesia, aos poucos, brotará, / romã que dobra o galho. // A vida, aos poucos”. A incômoda presença desse adiamento justifica a existência de elementos negativos, não somente como antecipações de uma traumática “invasão”, mesmo nos poemas iniciais. Há uma atmosfera de aguda melancolia envolvendo esse pretérito composto de “nenhum sinal de vida / ou de morte antes”:

 

Nesses quartos, corpo nenhum,
antes, consumiu a luz,

não houve criança
arranhando as tábuas

nem gato pulando o muro
para a clandestinidade.

Nada disso aconteceu, ainda.

Essa ausência de um passado efetivamente vivido naquele lugar de eleição responde pelo “vazio”, pelo “abandono que nos persegue / em cada quarto”. Afinal de contas, “falta rosto / sequer um traço / nessa insistente morada”. Mas a profanação do templo doméstico será um substituto amargo para o “vazio” dos primeiros tempos: “Naquela casa já entraram. E naquela outra / e na de frente, naquela ao lado, idem, / ibidem, ad infinitum”. Após a “invasão”, o medo atinge até mesmo “a cela do mosteiro”: “se não fosse o medo / poderíamos até nos ajoelhar / e rezar / nesse inquieto paraíso”.

Sai de cena, então, a figura da casa-templo. Como indicam os poemas da parte “ex-votos ”, as imagens de São Jorge, São Francisco, Santa Cecília e Santo Antônio (o “que protege o lar”) não conseguiram impedir a “estranha sensação” advinda da “mudança inesperada / dos objetos / dentro da casa”. Os invasores “deixam atrás de si / no corredor // um batalhão de objetos inermes / detritos de casas derribadas / pelo terremoto”. Um doloroso puzzle que, de acordo com a alta voltagem poética de Prisca, também poderá compor o “jogo de amarelinha” que personaliza uma das melhores peças da obra. A relação de perdas e danos inclui até mesmo “três dentes de leite” que estavam “guardados no algodão / junto ao terço de prata // e à infância da menina”. Por fim, “um dente foi achado / debaixo da cama (…) já a infância da menina / ninguém sabe”.  Permanece, ao fundo, a aguda percepção que gravará, doravante, o eu lírico – a de ter sido coisificada e descartada, com a sua vida íntima exposta aos quatro ventos:

 

enquanto apalpam
rendas e sutiãs
na terceira gaveta
sinto-as descer
ávidas, as mãos
ao longo do corpo –
até que apaga-se
a vontade
e jogam-me no chão

boneca, cuja mola quebrou

.
O medo constante de novas invasões faz entrar em cena a figura do castelo, da casa fortificada: “levantamos as muralhas do castelo / como cavaleiros medievais / e cravamos grades nas janelas”. Ao lado das fortíssimas imagens de abandono e solidão – que povoam o percurso deste Hora zero –, a permanência do eu lírico nos cômodos dessa fortaleza, em estado de tensa e interminável vigília, responde por muitas das passagens mais pungentes do livro. “No começo, somente o muro. Nem alto, nem baixo. / Um muro, como outro qualquer. / Depois foram acrescentando a rede elétrica. / O arame farpado. / O sansão no fundo do terreno”. A clausura imposta pelo medo joga por terra qualquer semelhança com o paraíso prometido nos primeiros dias, agora transformado num “mirante verde sobre o inferno”:

 

a mata no fundo
não dorme, não fala, não mexe:

fiquemos de olhos abertos
escutando o vento lamber as telhas,
dias e noites sem calma
um mirante verde sobre o inferno

 

Por conseguinte, a vigília martiriza as noites: “no quarto os corpos / antes descansavam / agora dormem sobre espinhos”. Muitos poemas deste Hora zero estão voltados para um cotidiano repleto de vigilância e medo, bem como para a realidade de sentir-se intimamente em guerra dentro de um ambiente urbano capaz de absorver, com kafkiana naturalidade, todas as violências do dia a dia. De nada valem, contra esse peculiar estado de hostilidade, as muralhas erguidas, as grades nas janelas, as concertinas e os alarmes: “a noite toda sentada na cozinha / as costas na parede / a faca na mão // penso nos homens no front de guerra”. De nada valem todas as defesas possíveis, ainda mais quando as pegadas de Cronos e de Tânatos já podem ser percebidas dentro de tão jovem fortaleza. No quarto ao lado, na cabeceira da cama da menina, ironicamente, em confronto direto com os fatos vividos, “o livro ficou sem palavras”, guardando “perplexo sua história, / uma linda história / com final feliz”.

Os poemas de Hora zero encontram-se tomados pelo paradoxo, desde a construção lírica do “inquieto paraíso” até a dorida cristalização do “mirante verde sobre o inferno”. O périplo desta casa-navio (que ondula até mesmo em terra firme) abre-se para o mergulho “numa selva marinha” – com “os tubarões camuflados nas ondas” da sala de estar, à espera do momento propício para a invasão – e termina no “escuro da noite”, “sob as cobertas”. A experiência surreal, enfim, não consegue superar o pesadelo. Após a dura metamorfose, deixando de ser espaço de culto e assumindo, à força, seu destino bélico, resta a cruciante imagem da “casa ferida”: “atrás das poltronas / trincas cada dia maiores // já esticam no vento / um varal de ruínas”.

Todavia, como revela o poema de encerramento deste belo livro, a casa “sempre esteve pronta”. Caberá a seus habitantes, no entanto, aprender “uma vez mais / a dura lição do parto”.

Juiz de Fora, 15/09/2015

 

Iacyr Anderson Freitas

.

 

***

 

Prisca Agustoni, HORA ZERO, São Paulo, Ed. Patuá, 2016.

 

 

A PRIMEIRA VISITA
.

A casa.

Ao abrir a porta, rebobino o passado.
Aquilo que me ocorreu, mas que não vivi.
Ainda.

Azul é a cor dessa casa.

Os quartos brancos, grandes,
atravessados pelo vento.
A sala, imensa, com muito céu dentro.

O perfume de laranjeira em flor.

Essa casa é um relicário de vidro e verde.
Tem ares de casa dos milagres.
Ou, quem sabe, apenas dos dias
que virão, dos outros
que seremos.

A poesia, aos poucos, brotará,
romã que dobra o galho.

A vida, aos poucos.

A primeira visita ainda guarda
retratos do que seremos

e a paixão do humano
que arde sem dor.

 

***

.
Amarrada ao cais
sua âncora presa na grama,
a casa recusa a travessia,
virginal e tentadora
tem medo de pecar
e para evitar a queda do paraíso
adia a vida como erva daninha

em vão, pois o pecado
é anterior ao caos

 

***
,

Isso talvez explique
o abandono que nos persegue
em cada quarto
onde nos escondemos
incrédulos e solitários
face ao esplendor

no assoalho duro desse lugar
na boca aberta das bromélias
sentimo-nos donos, por certo
apenas

de um mútuo estremecimento

 

***
,

Tivemos que lavar de novo esse vazio
esfregar com força a transparência dos vidros
desamassar os cantos
deixar a luz forjar sombras
queimar as velas
rezar pelos ausentes

às paredes os espelhos
não jogam imagem nenhuma
por enquanto,

falta rosto
sequer um traço
nessa insistente morada

 

 

 

 

 

Prisca Agustoni nasceu em 1975. É poeta, narradora, tradutora e ensaísta. Leciona literatura comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade onde reside.  Escreve também em italiano e francês. Em 2014 publicou o livro de contos Cosa resta del bianco, Capelli Editore, Suíça e em 2015 a coletânea de poemas Un ciel provisoire, Samizdat, Genebra. Desde 2009 integra o grupo de autoras migrantes “Compagnia delle poete”, Itália (www.compagniadellepoete.com). Sua obra em português compreende, dentre outros, os livros: Irmãs de feno (2002), A neve ilícita (2006, contos),  A recusa(2009), A morsa (2010). Alguns poemas do Hora Zero foram publicados previamente (em português ou em italiano) em revistas brasileiras e italianas.




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