Homenagem a Ricardo Rizek


por Edson Cruz

[cena do filme “O Sacrifício”, de Andrei Tarkovski]

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“Nada é mais importante do que a consciência, que se mantém alerta e proíbe o homem de se apoderar do que deseja da vida e depois acomodar-se, gordo e satisfeito.”

Essa frase é do cineasta russo Andrei Tarkovski, que conheci e passei a amar graças a meu contato com o professor Ricardo Rizek. Lembro-me da primeira vez que o vi. Era a aula inaugural do curso de composição e regência da FAAM. Eu havia me preparado durante um ano para a prova teórica e prática. A prática foi a mais difícil, pois tive que tocar ao violão uma peça do século 18. Fiquei nervoso, toquei mal, mas passei. E o tão esperado e desejado curso que não sabia direito o que seria estava começando. Compositor? Regente? Sei lá, vamos ver…

A aula inaugural seria sobre musicologia, ou algo assim. Interessei-me. E ele, Ricardo Rizek, começou a falar. Parecia o mago Merlin mais jovem, mas já grisalho e com o cabelo comprido preso para trás da cabeça. Quando terminou seu discurso inaugural eu tinha certeza que havia entrado naquela confusão musical toda só pra conhecê-lo. Não sabia explicar, mas cheguei junto, me apresentei e falei que queria estudar aquelas coisas com ele.

Ele me olhou meio desconfiado, deu um sorrisinho e convidou-me para participar de algumas aulas extras que ele estava ministrando aos sábados. Compareci e logo de cara vi que, além de pouca gente, só havia alunos do terceiro, quarto anos, e alguns já formados. Não sei bem como, mas comecei a frequentar também algumas aulas de sexta-feira à noite nos fundos da casa de sua mãe. Chamavam-se de Aulas de Estética e iam até altas horas da madruga. Me lembro de voltar a pé para casa meio atordoado e encantado com tudo que ouvira. Era um turbilhão de informações. Um misto de conhecimento musical, filosófico, tradições antigas, e sei lá mais o quê. Tudo difícil de explicar. O homem tinha um carisma danado. Ficava falando, como que pensando em voz alta, e tragando seus intermináveis cigarros. Eu poderia ficar, e ficava, horas e horas ouvindo-o falar. Para acompanhar melhor aquele fluxo de pensamentos lembro-me que passei a levar cigarros de cravo e ficava tragando enquanto ouvia aquelas coisas que para mim soavam como revelações. Depois de um tempo, como não podia pagar, combinei com ele que eu levaria garrafas de café, algumas aromatizadas.

Qual a relação da música de Bach com a arquitetura daquelas fantásticas catedrais góticas? Parecia loucura, mas ouvindo-o tudo fazia sentido. Como eu nunca ouvira falar daquelas relações? Lei áurea? Cacilda! Era um curso de matemática/filosofia e música avançada. Muito mais do que minha formação deficitária poderia acompanhar. Mas eu era teimoso, ou pretensioso, ou ávido pelo conhecimento, sei lá…

Até então, eu pensava que um acorde básico era o que era: a tônica, a terça e a quinta. Não, não! A tríade significa muito mais do que isso, remete-nos a conhecimentos da Ciência Sagrada, a ensinamentos de uma ordem tradicional que o Rizek destrinchava e atualizava de maneira ímpar, mesmo que ancorado nos estudos de René Guénon e outros grandes mestres do passado. Para Rizek a tradição era um resíduo não documentário que permeava a tudo e estava velado por nossa pressa e incapacidade contemporânea de mergulhar ativamente no significado profundo das coisas.

Fiquei tão intelectualmente excitado em conhecê-lo que fiz questão de levar meus amigos mais chegados para ouvi-lo. Eu não poderia compartilhar aquilo sozinho. Alguns riram depois e me diziam: você está louco? Aquilo é um conhecimento iniciático, parece mais uma igreja.

Bem… o que fazer? O caminho de cada homem deve ser campeado com coragem, e quase sempre solitariamente. Continuei a ouvi-lo falar sobre a imaginação criativa ativa. Aquilo me fascinava.

Uma vez perguntaram para ele: você tem certeza que o artista pensou em tudo isso, que você nos detalhou, quando criou a obra? E ele, sabiamente, respondeu: não importa. O que interessa é que tudo isso está na obra.

Bingo!

Era essa a chave. Era o que me atraía. Como exercitar a imaginação criativa no dia a dia? A capacidade de ver e dar sentido a detalhes que normalmente passamos batido. Comecei a perseguir esse conhecimento.

Ele claramente distinguia a imaginação ativa da passiva. Na passiva, a sensação vinha até você e os dados do sentido eram recolhidos. Na ativa, exigia-se uma elaboração, uma forja. Você que se dirige até a sensação. Um misto de razão e sensibilidade.

Para quem estava chegando, e suas aulas abertas constantemente abrigavam alunos novos (havia alunos que o acompanhavam há 12 anos), pensamentos como “as musas modularão os padrões cósmicos guardados pela mnemosine”, ou “o fígado é o órgão que representa o olho imaginativo, e se relaciona com sagitário” eram herméticas ou nebulosas demais. Para mim tudo fazia sentido. Pelo menos assim eu achava naquelas noites e dias.

É impossível reproduzir o que foram aqueles anos de convívio. Fuçando agora em minhas anotações vejo que tenho um roteiro, ainda não totalmente explorado por mim, de intuições e reflexões que ainda estão sendo confirmadas e avalizadas por meu ser. Mas, vendo em perspectiva, muito do que sou e penso hoje em relação ao conhecimento, arte, música, literatura, também foi moldado naqueles diálogos. Aquelas aulas eram explanações, reflexões, como deviam fazer os antigos que iam falando, andando e pensando. Articulando o pensamento ali, remexendo acolá. Um pensamento que buscava a reconciliação entre o sensual e o espiritual. E ele ouvia também os comentários e dúvidas, reconfigurava, expandia, jogava de volta, mas era sempre um show de clareza e erudição. Sínteses fundamentadas em textos clássicos, com citações, referências e insights sempre novos.

Ele dizia que era a afirmação dentro de cada um de nós que poderia corrigir a desafinação que imperava na natureza. E este era o papel do homem: ordenar o caos. E não era uma tarefa só do músico. Era de todos e fora perseguida por muitos antigos. Por exemplo, o calendário criado pelo homem era uma tentativa de fazer essa correção. A Mecânica, mas uma tentativa. Assim como o Cravo Bem Temperado de Bach fora uma tentativa de ordenar o caos criativo da natureza. Tirar proveito da série harmônica, organizar o que na natureza se repete já modificado.

“O homem é um vaso receptor de uma natureza naturante, ou seja, uma natureza que dá natureza”. Alguns pensamentos davam um nó na nossa cabeça.

“A última das virtudes divinas é a primeira das virtudes divinas”.

Em quantas camadas podemos separar e definir, hierarquicamente, a razão? Qualquer dúvida, consultar o “Timeu” de Platão.

Só merece ser chamado de pensamento aquilo que atinge nossos sentidos juntamente com seus contrários. O homem, então, é um mediador. É aquele que medita entre esses contrários. A razão só trabalha a posteriori com os dados dos sentidos.

Intuição intelectual é igual a intuição espiritual. Intuição, no sentido de ir para dentro, in-tuir, contemplar o interior. O mesmo que conhecimento direto. A sensibilidade não julga, conhece. Uau! Segurem essa se forem sensíveis…

No início era o Logos, a razão universal. Agora, bem, agora é o caos. Por isso precisamos de músicos, ou melhor, por isso precisamos da música.

Qual a função da arte: através das formas resgatar as pistas de um anjo. Anjo aqui, como um ângulo de Deus.

“Mil existências e uma existência carregam a mesma questão. Então vamos resolver essa”.

O amor é o ato de existenciar o que sempre ainda não é, no amado. É como ouvir música. Ah, essa eu surrupiei e transformei em um poema.

Depois de um tempo tive que me afastar para deglutir tudo o que ouvira e anotara. Entre os alunos de música corria o boato, meio difamatório, de que quem estudava com o Rizek acabava não compondo nada. Só analisando, pensando, divagando. Era uma bobagem, claro. Uma defesa medíocre devido à incapacidade pessoal (falta de tempo, de aptidão, de têmpera) de se aproximar do conhecimento primacial.

Não posso deixar de encerrar essas minhas palavras confusas e emocionadas pelas lembranças (algumas pessoas não deveriam nos deixar assim), sem citar as experiências estéticas que foram assistir as suas análises de filmes. Eram um acontecimento. Jamais vou esquecer o que senti ao assistir com ele “O Sacrifício” de Tarkovski.

Lembro-me que era um sábado e cheguei ao local da análise às 15 horas. A sessão do filme com a análise acabou às 21 horas. Saí de lá suando frio, com tremedeira e ao chegar em casa tive que ir direto para cama. Dormi 12 horas seguidas. Foi tanta informação, revelação, conhecimento tão vital que eu passei mal. O que era aquilo? Será que era assim que se estudava na Idade Média. O Trivium; o Quadrivium? Não. Não havia cinema, nem videocassete para parar as cenas e mostrar o que ninguém vira antes.

Termino com um poema de Arseni Tarkovski, pai de Andrei Tarkovski, que jamais poderá ser lido por mim sem que a lembrança de Ricardo Rizek aflore. Sim, Rizek, tem de haver mais. Pelo menos pra você.

Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

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Edson Cruz é escritor e editor do portal MUSA RARA (www.musarara.com.br). Estudioso de Letras na USP, publicou quatro livros de poesia, uma adaptação em prosa do clássico indiano Mahâbhârata, um livro de depoimentos de poetas sobre o que seria a poesia, Musa Fugidia (Editora Moinhos). Seu livro Ilhéu (Editora Patuá) foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Em 2016, lançou O canto verde das maritacas (poemas, Editora Patuá). Em 2019, lançou seu primeiro infantojuvenil, Trabucada (Terracota Editora). Coloca textos diariamente no blogue:
https://sambaquis.blogspot.com/ E-mail:sonartes@gmail.com




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