Gnose, Gnosticismo e a Poesia Moderna


UM OBSCURO ENCANTO: GNOSE, GNOSTICISMO E A POESIA MODERNA

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Em meados de 2002, matriculei-me em um doutoramento direto no DLCV-FFLCH-USP, apresentando como título Literatura e Ocultismo: Aproximações, tema que me acompanhava há tempos. Depois de escrever um bom número de páginas sobre literatura e ocultismo, dei-me conta de que, mantido o projeto inicial, este resultaria em uma tese de mil páginas, ou mais: algo pouco funcional, inclusive para sua circulação. Por isso, no final de 2004 resolvi circunscrever o tema, tratando apenas do gnosticismo, a doutrina que figura como uma espécie de capítulo primeiro ou ponto de partida da tradição esotérica ocidental. Assim reaproveitava algo do que já havia preparado.
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O acaso pode impulsionar pesquisas. Naquele final de 2004, após resolver concentrar-me em gnosticismo, passava diante de um sebo de rua, uma banca de livros usados. Seu dono me chamou: “Olha, tenho um livro que vai te interessar!” Era a edição brasileira de Escrituras Gnósticas, a coletânea preparada por Bentley Layton, obrigatória para quem quiser avançar no assunto. No primeiro folhear de páginas, chamou-me a atenção como Layton, em seu prefácio, classifica taxativamente o gnosticismo como cristianismo herético, nisso discrepando de outros autores que havia examinado. Algumas páginas adiante, uma “escritura” gnóstica, O Trovão – Intelecto Perfeito, que, de modo evidente, não possibilitava qualquer identificação ou aproximação com cristianismo: é um texto poético, com suas séries de antinomias, que será citado a seguir. Havia, portanto, matéria para discussão. Isso ficou mais evidente ainda depois da leitura de Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels, especialista de prestígio que sustenta ser o gnosticismo um cristianismo mais autêntico.
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Coincidentemente, gnosticismo foi se tornando um assunto da moda nestes últimos anos. Houve a repercussão da publicação de O Evangelho de Judas, a celeuma provocada pelo livro de Dan Brown, com a imputação de segredos aos gnósticos (e, como sempre, aos templários) etc. Quando fui comprar a nova edição brasileira de Os Evangelhos Gnósticos de Pagels, o recém-chegado estoque da Livraria Cultura já havia acabado: “vende como água”, comentou o atendente da livraria.
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Daí – reconhecendo meus limites, pois não sou historiador das religiões, porém apenas um leitor de poesia – a motivação adicional, feita de fascinação pela controvérsia, fazendo que meu número de páginas tratando de gnosticismo crescesse. Provocaram-na a constatação de que autores de peso, a exemplo de Doresse e Pagels, podiam oferecer caraterizações tão distintas do gnosticismo. Ampliaram-na os documentários sobre O Evangelho de Judas no National Geographic e History Channel, sugerindo que esse apócrifo poderia corresponder a “outra” visão do cristianismo, a um cristianismo mais verdadeiro (ao contrário do que afirmam os autores dos ensaios que completam a edição de O Evangelho de Judas).
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Observei uma espécie de mistificação nesses documentários: por exemplo, ao mostrarem, valendo-se de testemunhos de especialistas de peso, de Umberto Eco a Elaine Pagels, que não há provas de um “segredo” gnóstico, cátaro ou templário sobre a descendência de Cristo – rapidamente acrescentando, porém, que também não há provas conclusivas da sua inexistência… Textualmente: “Os Evangelhos não dizem que Jesus Cristo fosse casado – mas também não afirmam que fosse solteiro”. Vendem algo pelo que não é. Um exemplo é a chamada de capa de O Evangelho de Judas na edição brasileira: O texto perdido que revolucionou a história do cristianismo. Ora, O Evangelho de Judas não revolucionou coisa alguma, pois havia sido comentado por heresiólogos desde o século II d.C, e a presente descoberta e publicação apenas corrobora fontes indiretas. Sua doutrina coincide, em linhas gerais, com aquela exposta em maior detalhe na Pistis Sophia e outros textos conhecidos há bastante tempo: doutrina essa, como é exposto nos ensaios que acompanham O Evangelho de Judas, que não revoluciona o cristianismo pelo simples motivo de não ser cristã, porém gnóstica. E assim prosseguem a desviar a discussão do que efetivamente interessa no gnosticismo: sua dimensão rebelde e subversiva, suas qualidades poéticas, não por reformar, retificar ou ratificar o cristianismo, mas por falar de outras coisas e expor outros mitos.
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Não apenas é complexo o gnosticismo, território de fronteiras móveis; mais complexa ainda é a poesia; por isso, a relação dos poetas com o gnosticismo. Examinar aqui todos os grandes poetas gnósticos do período considerado, com a atenção que dei a Blake e Nerval, provocaria novamente a espectral aparição da tese de mil páginas. Poetas que figuram obrigatoriamente em uma agenda gnóstica, como Yeats e Whitman, são apenas tocados ou mencionados. Meu exame de colossos como Goethe e Victor Hugo é sumário. Em matéria de simbolismo, o que está aqui é uma introdução. Mas penso que consegui tratar de autores típicos, de um modo que pode ser projetado em futuras discussões. Em comum, a aparente incoerência, parecendo oscilar entre a visão de mundo dualista ou monista. Há, nisso, um fio condutor que vai de William Blake a Hilda Hilst. De tudo isso, sobra a impressão de que as páginas a seguir são um esboço, o começo de algo, uma etapa no exame das relações entre mitologia, doutrinas religiosas, esoterismo e poesia. São temas que sempre oferecerão surpresas, aparentes contradições que, por sua vez, poderão sugerir novas inquirições.

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Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, de Claudio Willer, além de constituir uma lúcida análise do gnosticismo e suas imbricações na poesia do Romantismo até a atualidade, abre-se à discussão das relações entre heterodoxia e criatividade poética. Ao abordar temas da tradição do pensamento gnóstico e suas confluências na literatura, releva inclinações de poetas inovadores que se valeram de perspectivas sincréticas e heterodoxas na construção de poéticas abertas. Inclinações gnósticas, nas quais criar implicava a busca de sabedoria na experimentação verbal do novo, sem fronteiras fixas que ritualizassem ou tornassem previsíveis processos do conhecimento. Poesia discutida através de vozes e práticas poéticas de quem se viu à margem, às vezes incompreendido por seus contemporâneos, como no exemplo clássico de Rimbaud.
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É possível estabelecer paralelos analógicos entre inclinações gnósticas e a condição de exilado em que se veem poetas da atualidade. São atitudes inconformistas que podem favorecer a subversão de uma poética institucionalizada, como evidencia o poeta e o crítico Claudio Willer, quando rastreia linhas de reintegrações e de rupturas em poetas insubmissos que, como Blake, abrem-se às “portas da percepção” ou ao “holismo” (Novalis); à “compreensão das coisas mudas” (Baudelaire); à “alquimia do verbo” ou aos “desregramentos dos sentidos” (Rimbaud); à busca da “palavra pura” (Mallarmé) ou ainda ao conhecimento intuitivo (Pessoa). Intuição poética, em autores tão distintos, permitiu a aproximação (explicitada) de Breton em relação à gnose, e, numa vertente brasileira, o sentido do “poeta livre”, em Hilda Hilst.
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Há, evidentemente, especificidades, que são mostradas nessas atitudes gnósticas, alheias ou avessas, ao mesmo tempo, ao pensamento cartesiano e à ortodoxia religiosa. A práxis poética heterodoxa envolve não apenas reconfigurações com base nas analogias (reintegrações), mas também rupturas. Analogia e ironia se disputam, como explicita o autor: a poesia como “expressão de contradições profundas, básicas, entre real e imaginário, mundo e sonho, a esfera subjetiva, o desejo de realização. Contradições, mesmo insolúveis, literariamente produtivas”.
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Poesia, diríamos, como práxis libertária que dinamiza as recíprocas relações entre sujeito e objeto, motivada, nos poetas aqui estudados, por um sempre móvel obscuro encanto. Poesia como liberdade formal implicada com a heterodoxia, inerente à poesia, discorre Claudio Willer, isto é, como uma busca aberta de sabedoria.
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Benjamin Abdala Junior

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Com a perícia consumada de um piloto e a paciência meticulosa de um cartógrafo, este navio-livro de Cláudio Willer percorreu a belíssima costa de um continente raramente visitado na crítica literária do Brasil. Sob uma perspectiva mista, cujas raízes se aprofundam nos livros de Pico, Ficino e Cornelius Agripa, temos um encontro entre as diversas formas do neoplatonismo, com as tantas partes da magia e da gnose. Mas não como quem desenha o mapa de Marte ou de Vênus. Não como se fosse um mago. Willer, na melhor acepção do scholar, não se apresenta como conservador de museu, mas como se fosse o capitão de uma viagem fascinante, que alcança a poesia contemporânea, de Artaud a Bataille, de Apollinaire a Jorge de Lima. Dos surrealistas aos florentinos. E com uma liberdade, uma inventividade, criando uma tessitura de relações inesperadas e seminais. Como se destas páginas emergisse uma espécie de Atlântida esquecida, com suas altas colunas, e toda uma arqueologia de objetos latentes, que iluminam a leitura na criação de belos e mais vastos horizontes.
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Marco Lucchesi

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Índice do livro:
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INTRODUÇÃO
PRIMEIRA PARTE: GNOSE E GNOSTICISMO
1. Gnosticismo: religião da literatura?
2. O conhecimento gnóstico
3. O conhecimento sobre o gnosticismo: enigmas e controvérsias
4. O conhecimento sobre o gnosticismo, II: esoterismo
e poesia; mitologia e rebelião
5. Cosmovisão e mitologia do gnosticismo; o dualismo; o demiurgo;
do gnosticismo ao satanismo
6. Gnosticismo e hermetismo; astrologia e alquimia
7. O tempo gnóstico e os tempos da poesia
8. Viagens, as duas almas e a centelha de luz: uma antropologia
ou psicologia gnóstica?
9. O gnosticismo licencioso
10. A mulher no gnosticismo
SEGUNDA PARTE: POETAS GNÓSTICOS
11. William Blake: romantismo e gnosticismo libertário
12. Novalis e a gnose de Jena
13. Gnoses otimistas e anti-gnoses: Goethe e Victor Hugo …
14. O gnosticismo trágico de Gérard de Nerval
15. Baudelaire: gnose e ambivalência
16. Rimbaud, iluminações e alquimia
17. Foi o simbolismo um gnosticismo?..
18. Lautréamont: Maldoror e a gnose do mal
19. O surrealismo e suas imediações
20. Pessoa, as quedas de Deus e o mundo ilusório
21. Gnósticos brasileiros, do simbolismo até hoje
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
BIBLIOGRAFIA

 

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Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. Tem formação acadêmica como sociólogo (Escola de Sociologia e Política) e psicólogo (Instituto de Psicologia – USP) e doutorado em Letras Comparadas, pela Universidade de São Paulo. Ocupou diversos cargos e funções em administração cultural, foi assessor na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, responsável por cursos, oficinas literárias, ciclos de palestras e debates, leituras de poesia, de 1994 a 2001; e participou de dezenas de congressos, seminários, ciclos de palestras, apresentações públicas de autores, etc, no Brasil e no exterior. Foi presidente da União Brasileira de Escritores por dois mandatos, entre 1988 e 1992. Foi novamente eleito em 2000 e re-eleito em 2002. Foi também secretário geral da UBE em outros dois mandatos (1982-86), e presidente do Conselho da entidade (1994-2000). Algumas obras: Anotações para um Apocalipse, Massao Ohno Editor, 1964, poesia e manifesto; Dias Circulares, Massao Ohno Editor, 1976, poesia e manifesto; Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, 1ª edição Editora Vertente, 1970, 2ª edição Max Limonad, 1986, tradução e prefácio; Jardins da Provocação, Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores, 1981, poesia e ensaio; Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg, L&PM Editores, 1984 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas; nova edição, revista e ampliada, em 1999; edição de bolso, reduzida, em 2.000; Crônicas da Comuna, coletânea sobre a Comuna de Paris, textos de Victor Hugo, Flaubert, Jules Vallés, Verlaine, Zola e outros, Editora Ensaio, 1992, tradução; Volta, narrativa em prosa, Iluminuras, 1996, segunda edição, 2002; Lautréamont – Obra Completa – Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas, edição prefaciada e comentada, Iluminuras, 1997; segunda edição em 2003. E-mail: cjwiller@uol.com.br




Comentários (4 comentários)

  1. Daniel Lopes, Parabéns Willer pelo livro. Vou comprar o livro, ler e depois entro em contato para discutirmos melhor o assunto. Por enquanto, gostaria de fazer duas perguntas. Ao seu ver quais são as relações entre genialidade e gnosticismo? e, Harold Bloom, em seu livro gênio, afirma ser o gnosticismo a religião da literatura. O senhor concorda? trecho de Gênio, pag 22: “Decerto, há poetas cristãos geniais que jamais foram acusados de hereges, desde John Donne a Gerard Manley Hopkins e o neocristão TS Eliot. Contudo, os poetas mais ousados da tradição romântica ocidental, que fizeram da poesia sua religião, foram gnósticos, de Shelley e Victor Hugo a WB Yeats e Rainer Maria Rilke” ABração
    28 janeiro, 2012 as 13:43
  2. Claudio Willer, Daniel – depois me conte o que achou da leitura. Essa e outras observações de Bloom sobre poetas gnósticos, eu cito. Brilhantes provocações dele, também, de que estudar gnosticismo e cabala é mais produtivo do que teorias literárias.
    28 janeiro, 2012 as 17:57
  3. Leonardo Morais, Adquiri o livro há alguns dias! Parabéns pelo belo trabalho, mestre Willer!
    28 janeiro, 2012 as 18:09
  4. Joana Ruas, Abraço.Partilhei com pena de não poder usufruir do encanto deste livro.
    22 abril, 2013 as 12:50

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