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	<title>Musa Rara</title>
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	<description>Musa Rara - Literatura e Adjacências</description>
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		<title>NUNO RAMOS na Casa das Rosas</title>
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		<pubDate>Sat, 25 May 2013 11:47:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[ADJACÊNCIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[O artista plástico e escritor <b>Nuno Ramos</b> 
é o convidado do ciclo de diálogos O QUE É A POESIA? - hoje, na Casa das Rosas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/oque_e_poesia_maio_2013-2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-92881" title="oque_e_poesia_maio_2013 (2)" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/oque_e_poesia_maio_2013-2.jpg" alt="" width="500" height="707" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>DIÁLOGO O QUE É A POESIA? com NUNO RAMOS</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Nuno Ramos</strong> nasceu em 1960, em São Paulo, onde vive e trabalha. Formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, é pintor, desenhista, escultor, escritor, cineasta, cenógrafo e compositor. Começou a pintar em 1984, quando passou a fazer parte do grupo de artistas do ateliê Casa 7. Desde então tem exposto regularmente no Brasil e no exterior. Participou da Bienal de Veneza de 1995, onde foi o artista representante do pavilhão brasileiro, e das Bienais Internacionais de São Paulo de 1985, 1989, 1994 e 2010.</p>
<p>Publicou <strong>em 2011</strong> seu oitavo livro, <strong>Junco</strong>, pela editora Iluminuras, vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura na categoria poesia. Em 2008, venceu Prêmio Portugal Telecom para melhor livro do ano com <strong>Ó</strong>, também da Iluminuras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h2>Livros (Literatura)</h2>
<p><strong> </strong></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>1993</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Cujo,</em> Editora 34, São Paulo</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2000</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Minha Fantasma, </em>Author’s edition, São Paulo</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2001</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>O Pão do Corvo, </em>Editora 34, São Paulo</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2008</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Ensaio geral</em>, Editora Globo, São Paulo</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2009</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>O</em>, Editora Iluminuras, São Paulo [venceu Prêmio Portugal Telecom para melhor livro do ano]</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2010</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>O Mau Vidraceiro</em>, Editora Globo, São Paulo</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2011</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Junco</em><strong>, </strong>editora Iluminuras<strong>, </strong>São Paulo [vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura na categoria poesia.]<strong> </strong></span></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<h2><span style="color: #000000;">Livros de Arte e Objetos</span></h2>
<p><span style="color: #000000;"><strong> </strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>1995</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Balada, </em>editora 34, São Paulo</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2001</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Magalhães, </em>The Coutts Contemporary Art Foundation</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2002</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Un coup de dés,</em> Galeria Fortes Villaça’s edition</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2003</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Mocambos (paraGoeldi 3),</em> livro e edição de gravuras, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Galeria Paulo Fernandes</span></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #000000;"><strong> </strong></span></p>
<h2>Filmes e Vídeos</h2>
<p><span style="color: #000000;"><strong> </strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2002</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Para Nelson (Luz Negra e Duas Horas)</em>, com Eduardo Climashauska</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2003</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Alvorada</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Casco,</em><strong> </strong>com Eduardo Climashauska e Gustavo Moura</span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2006</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Iluminai os      Terreiros, </em>com      Eduardo Climashauska e Gustavo Moura<em> </em></span></li>
</ul>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2010</strong></span></p>
<ul>
<li><span style="color: #000000;"><em>Verme</em>.</span></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>OBRA PLÁSTICA</strong>: <a href="http://www.nunoramos.com.br/portu/obras.asp">Aqui</a>.</p>
<p><strong>FILMES:</strong> <a href="http://www.nunoramos.com.br/portu/video.asp">Aqui.</a></p>
<p><strong>CANÇÕES</strong>: <a href="http://www.nunoramos.com.br/portu/cancoes.asp">Aqui.</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Site do Artista</strong>: <strong><a href="http://www.nunoramos.com.br/">http://www.nunoramos.com.br/</a></strong></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Iara: mitopoética em texto e voz</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/iara-mitopoetica-em-texto-e-voz</link>
		<comments>http://www.musarara.com.br/iara-mitopoetica-em-texto-e-voz#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 20 May 2013 02:08:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #59]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor e pesquisador <b>Leonardo Davino</b> 
escreve sobre a sereia amazônica Iara no imaginário português-brasileiro. Confira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/milagrario-pessoal.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-90340" title="milagrario pessoal" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/milagrario-pessoal.jpg" alt="" width="500" height="390" /></a></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Como sabemos, mitologicamente a poesia (o logos poético) está ontologicamente imbricada à musicalidade, ao ritmo da vocalização das palavras. Convenientemente, o corte acontece no Renascimento, momento de radicalização do longo processo filosófico de desvocalização do logos. &#8220;Capturando a <em>phoné</em> no sistema da significação, a filosofia não só torna inconcebível um primado da voz sobre a palavra como também não concebe ao vocálico nenhum valor que seja independente do semântico. Reduzida a significante acústico, a voz depende do significado. Longe de ser óbvia, essa dependência é fundamental. Ela aprisiona a voz num sistema complexo que subordina a esfera acústica à visual&#8221;, anota Adriana Cavarero, em <strong>Vozes plurais</strong> (2011, p. 52).</p>
<p>É também Cavarero quem registra: &#8220;A matriz etimológica é conhecida. Logos deriva do verbo <em>legein</em>. Desde a Grécia arcaica, este verbo significa tanto &#8216;falar&#8217; quanto &#8216;recolher&#8217;, &#8216;ligar&#8217;, &#8216;conectar&#8217;. Isso não é surpreendente, uma vez que quem fala liga as palavras umas às outras, uma após a outra, recolhendo-as em seu discurso. Tampouco é estranho que, exatamente por isso, <em>legein</em> signifique também &#8216;contar&#8217; e, ainda mais propriamente, &#8216;narrar&#8217;. Na sua acepção comum, o logos se refere à atividade de quem fala, de quem liga os nomes aos verbos e a qualquer outra parte do discurso. O logos consiste essencialmente numa conexão de palavras. Justamente nesse plano da conexão, que &#8216;liga&#8217; e &#8216;recolhe&#8217; segundo determinadas regras, está centrada a atenção da filosofia. Centrada inclusive com prejuízo – mas talvez fosse melhor dizer: sobretudo com prejuízo – do plano acústico da palavra. O logocentrismo filosófico se interessa, principalmente, pela ordem que regula a conexão, isto é, pela linguagem como sistema da significação&#8221;. (p. 50-51).</p>
<p>Felizmente, parte importante dos pensadores, entre eles Adriana Cavarero, vem questionando os paradigmas de base platônica de desvocalização do logos. O ponto central da questão não é a desvalorização da escrita, ou sua negação, mas observar os contatos, as intersecções e os pontos de mutação entre a palavra falada e a palavra escrita. Importa ouvir o logos não para &#8220;entende-lo&#8221; (racionalmente), mas para a partir dele escolher caminhos. Ou seja, questionar a ordem que regula a conexão entre as palavras e se deixar envolver com a &#8220;força bruta&#8221;: ser criação ao ritmo do plano acústico da palavra.  &#8221;Quando dizemos que o som era sentido, sua força era de tocar o homem para qualquer lugar e não de fazer o homem refletir sobre este fenômeno, dividi-lo ou analisá-lo. Assim, a gestualidade espontânea do corpo é já por si mesma certa objetivação, uma certa manifestação do sentido. Ela não é, obviamente, a objetivação de uma ideia, mas a de uma situação no mundo sobre a qual se decalcam as próprias ideias&#8221;, anota Li Tomás, em <strong>Ouvir o lógos: música e filosofia </strong>(2002, p. 50).</p>
<p>Tal proposta passa por um retorno mitológico do vocalizar, do cantar, do narrar: por reconhecer aqui que a sonoridade das palavras tem mais relevância do que seus significados. Ou melhor, que o plano acústico da palavra está visceralmente ligado à significação empreendida pelo ouvinte. Daí também que um livro como <strong>Milagrário pessoal</strong>, de Jose Eduardo Agualusa, ajuda na argumentação de minha intenção. Temos no livro de Agualusa o embate entre um professor e uma ex-aluna (Iara), linguista, cujo trabalho é identificar e dicionarizar as palavras novas. &#8220;A Iara interessam sobretudo as palavras recém-nascidas, ainda úmidas, ofegantes, indefesas, caídas de repente nesse vasto alarido que é a vida. Para encontrar eventuais neologismos serve-se de um programa informático, o Neotrack, o qual recolhe, a partir dos jornais do dia disponíveis na internet, as palavras não dicionarizadas&#8221; (p. 15).</p>
<p>Fazendo uso de uma escrita que utiliza o ritmo da fala, posto que a &#8220;sensação&#8221; criada é a de uma conversa entre narrador e leitor, Agualusa tematiza a complementaridade entre a fala e a escrita. O narrador se dirige diretamente ao leitor, bem como faz avanços e recuos no tempo, suspensões da narrativa para inserir outras histórias, num procedimento típico da oralidade. Iara entra em conflito quando percebe a disseminação inesperada de um grande número de neologismos. E busca a ajuda do antigo professor para entender o problema. Em geral, personagens femininas são o motor dos romances de Agualusa, na contramão de certa corrente que silencia as <em>mulheres que cantam</em>.</p>
<p>Referência indígena brasileira, em <strong>Milagrário pessoal</strong> Iara, para além da personagem, mas mimetizada ao narrador, é a sereia que seduz o leitor a ouvir o som das palavras: &#8220;Até esta altura qual foi o neologismo mais bonito que tu encontraste? Iara esperava a pergunta: Não sei, rendeu-se. Nunca me apareceu uma palavra bonita. Mesmo bonita. A verdade é que os neologismos são quase todos feios. Acho-os, de uma forma geral, grosseiros e enfadonhos&#8221; (p. 16-17). Mais adiante, quando instigada a escolher as dez palavras mais bonitas da língua, Iara sugere que é a sonoridade o que as tornam bonitas e grávidas de significado.</p>
<p>A indicação de Iara como sereia, gesto de recuperação, apropriação e manipulação do mito feito por Agualusa durante todo o romance, está presente já na capa do livro. Tanto na edição portuguesa – fotografia de uma imagem de Iara em local de devoção, quanto na brasileira – fotografia “A Sereia e o Cinema”, still do vídeo <strong>Psinoe</strong>, de Adriana Varejão.</p>
<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/psinoe1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-90341" title="psinoe1" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/psinoe1.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a></p>
<p>Seja como for, a sereia amazônica Iara imprime sua mitopoética no imaginário da língua portuguesa-brasileira e se espalha pelas artes. De José de Alencar (<strong>O tronco do ipê</strong>) ao grupo Axial (&#8220;Beijo da Iara&#8221;, de Kiko Dicucci), passando por Olavo Bilac (&#8220;Iara&#8221;), que descreve a sereia: &#8220;Vive dentro de mim, como num rio, / Uma linda mulher, esquiva e rara, / Num borbulhar de argênteos flocos, Iara / De cabeleira de ouro e corpo frio. / Entre as ninfeias a namoro e espio: / E ela, do espelho móbil da onda clara, / Com os verdes olhos úmidos me encara, / E oferece-me o seio alvo e macio. / Precipito-me, no ímpeto de esposo, / Na desesperação da glória suma, / Para a estreitar, louco de orgulho e gozo&#8230; / Mas nos meus braços a ilusão se esfuma: / E a mãe-d&#8217;água, exalando um ai piedoso, / Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.&#8221;. Entre outras tantas inúmeras aparições.</p>
<p>A título de mais um exemplo, na canção &#8220;Kirimurê&#8221;, de Jota Velloso, ela é a sereia que canta a afirmação da existência de um povo que foi dizimado – &#8220;Onde era mata hoje é Bonfim / De onde meu povo espreitava baleias / É farol que desnorteia a mim&#8221; – e da certeza da permanência do desejo de ser os donos daqui: &#8220;Se me der a folha certa / E eu cantar como aprendi / Vou livrar a Terra inteira / De tudo que é ruim&#8221;. Sabe-se que a região que hoje conhecemos como Baía de todos os santos era chamada pelos tupinambás de Kirimurê. Na voz de uma Maria Bethânia (<strong>Mar de Sophia</strong>, 2006) mimetizada em Iara, a canção ganha sentidos amplos: &#8220;Espelho virado ao céu / Espelho do mar de mim / Iara índia de mel / Dos rios que correm aqui / Rendeira da beira da terra / Com a espuma da esperança (&#8230;) Na fome da minha gente / E nos traços que eu guardo em mim / Minha voz é flecha ardente / Nos catimbós que vivem aqui&#8221;.</p>
<p>Assemelha-se a essa &#8220;Iara índia de mel&#8221;, a cantada pelo grupo Axial em &#8220;Beijo de Iara&#8221; (<strong>Simbiose</strong>, 2011). Ambas são concentração de doçura e resistência, &#8220;espelho virado ao céu&#8221; a refletir no ouvinte que a escuta a beleza de seu canto beira-rio. Diz o sujeito da canção: &#8220;Ouvi no beira-rio / um canto ecoar / é a mãe d´água / pra me encantar&#8221;.</p>
<p>Senhora das águas ou Mãe-d&#8217;água, a mitopoética de Iara é contada vocalmente e passa gerações. O sujeito da canção recolhe e condensa algumas narrativas sobre a sereia. Nos versos &#8220;Rema rema remador / Iara quer te namorar / quem provar dos beijos seus / com a morte vai se casar&#8221;, temos tanto a retomada da cantiga folclórica &#8220;Rema rema remador, que este barco é do Senhor&#8221;, quanto da marchinha &#8220;Marcha do remador”: Rema, rema, rema, remador / Quero ver depressa o meu amor / Se eu chegar depois do sol raiar / Ela bota outro em meu lugar&#8221;. No encontro dos fragmentos das canções permanece o mote de não sucumbir ao canto mortal.</p>
<p>Porém, está no modo de apresentação da canção por Sandra Ximenez (vocais e piano elétrico), Felipe Julián (loops, ruídos e teclados) e Leonardo Muniz Corrêa (clarinete) o engenho do encanto. O clima sonoro criado pelo grupo presentifica a mítica sereia. O palimpsesto cultural brasileiro, onde Iara se forja, é apontado na palheta de sons do grupo Axial. E assim o feitiço se realiza: &#8220;Espelho virado ao céu / Espelho do mar de mim / Iara índia de mel / Dos rios que correm aqui&#8221;, como canta Bethânia. Ou: &#8220;Sinhá sereia chegou / beldade maior / nunca se viu // Deixa eu banhar você / lavar teus cabelos / nas águas do rio&#8221;. O grupo Axial e Maria Bethânia mostram que a potência da palavra está em sua vocalização. É assim também que age o narrador de Agualusa: logos vocalizado, quente e úmido na voz de alguém cantando. &#8220;O corpo aí se recolhe. É uma voz que ele escuta e ele reencontra uma sensibilidade que dois ou três séculos de escrita tinham anestesiado, sem destruir&#8221;, como observaria Paul Zumthor, em <strong>Performance, recepção, leitura</strong> (2007, p. 60). Surge o beijo. Da Iara.</p>
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<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Leonardo Davino de Oliveira</strong> é Paraioca. Pesquisador, ensaísta e  escritor, especialista e mestre em Literatura Brasileira. Autor do livro  <strong>Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso</strong>.   Doutorando  em Literatura Comparada com projeto sobre Canção (Poéticas   vocais) e  Teoria da Literatura. Assina o blog Lendo canção: <a href="http://lendocancao.blogspot.com">http://lendocancao.blogspot.com</a> E-mail: <a href="mailto:%20leonardo.davino@gmail.com">leonardo.davino@gmail.com</a></p>
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		<title>Romance metamórfico</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/romance-metamorfico</link>
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		<pubDate>Mon, 20 May 2013 01:53:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor <b>Anderson Fonseca</b> escreve 
sobre o livro <i>Febre</i>, de <b>Renato Essenfelder</b>. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/capa-febre-final.png"><img class="alignnone size-full wp-image-90395" title="capa febre final" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/capa-febre-final.png" alt="" width="500" height="751" /></a><br />
<span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><em>Febre</em>, livro de estreia do escritor Renato Essenfelder, é um romance metamórfico em que a linguagem se desestrutura pouco a pouco na velocidade da alucinação, como uma filmadora registrando a cada segundo as mudanças psicológicas intensas do personagem principal. O conflito central do romance é uma ruptura emocional que lança o narrador-personagem num redemoinho de pensamento-memória-realidade-ficção, onde não se sabe mais a diferença entre realidade e fantasia, pois o tempo, o espaço e o outro – oposto ao eu – são convertidos à subjetividade do personagem.  <em>Febre</em> é um romance que mistura o fluxo narrativo herdado da obra de Raduan Nassar e a introspectividade de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. É literalmente um romance PORRADA na cara do leitor, porque cada frase, cada parágrafo é um questionamento da relação do homem com seu meio e consigo, é uma LITERATURA DESAUTOMATIZANTE, pois o leitor se parte entre as várias (re)descobertas do narrador. Busquei durante a leitura da obra uma classificação adequada, mas não encontrei, <em>Febre </em>foge a todas as classificações, apesar da comparação com o estilo de Nassar, a escrita de Essenfelder é bastante diferente, o fluxo narrativo é dinâmico, mas as frases, lírico-filosóficas, lançam o leitor num abismo. Eu fiquei à margem do precipício enquanto lia <em>Febre</em>: “O natural das coisas é morrer, simplesmente.” Tudo morre, eis a verdade da obra, uma verdade simples, mas que se torna a cicatriz que conduz ao clímax. A morte está no inicio do livro, no meio e no fim: a morte do amor, a morte de um menino, a morte da palavra, mas a morte é a transformação, a figura tomando corpo e o corpo aniquilado na figura, é também o limite, a febre, o último grau que o corpo pode suportar, é o limite entre o real e a palavra, é o caminho da palavra durando após a última página. Acrescento uma coisa: Essenfelder não escreve como Nassar – a comparação é minha – escreve como ele, escrita singular, por isto inclassificável, por isto forte, por isto vale essa PORRADA.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Anderson Fonseca</strong> é autor do livro de contos <em>Notas de Pensamentos Incomuns</em> (2011). E-mail: <a href="mailto:%20luizdovalefon@hotmail.com">luizdovalefon@hotmail.com </a></p>
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		<title>Quem precisa do amor?</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/quem-precisa-do-amor</link>
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		<pubDate>Mon, 20 May 2013 01:32:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[O poeta paraense <b>Caco Ishak</b> mostra-nos 
poemas de seu segundo livro, <i>Não Precisa Dizer Eu Também</i>. Confira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/caco.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-90370" title="caco" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/caco.jpg" alt="" width="500" height="334" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>pros diabos com o amor</p>
<p>quem precisa do amor?</p>
<p>amor se compra a cada esquina</p>
<p>amor se vende por um trago</p>
<p>amor se perde na saudade</p>
<p>quem precisa do amor?</p>
<p>eu não preciso</p>
<p>vamos, repete comigo:</p>
<p>eu não preciso do amor</p>
<p>pros diabos com o amor</p>
<p>mais vale uma punheta</p>
<p>mais vale uma cachaça</p>
<p>mais vale um sono tranquilo</p>
<p>pros diabos com o amor</p>
<p>eu não preciso do amor</p>
<p>vamos, seu bosta, repete comigo:</p>
<p>eu não preciso do amor</p>
<p>nem da dor em que ele vive</p>
<p>nem dos centavos que ele cobra</p>
<p>nem do choro que ele extorque</p>
<p>pros diabos com o amor</p>
<p>vamos, seu idiota, grita bem alto</p>
<p>enche de ar esse peito vazio</p>
<p>enche de cana esse estômago fraco</p>
<p>enche teu saco como enche o amor</p>
<p>e grita bem alto, seu palerma:</p>
<p>eu não preciso do amor</p>
<p>pros diabos com o amor</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>bis in idem</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>não sei dizer se acredito em deus ou se sou o próprio</p>
<p>tentando manter a calma</p>
<p>e concertar o mundo que gira em órbita do meu planeta</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>enquanto afasto o peso-de-chão da porta</p>
<p>e lambo as patas de quem me chega</p>
<p>celebrando meu corpo fechado</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>ainda que não cumprindo com sua parte no trato</p>
<p>estabelecido quando da conquista</p>
<p>de quem agora me aponta dois pentes carregados</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>e aparenta de tudo um pouco saber sobre o dia</p>
<p>e as noites que lhe antecederam</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>freeway inn(ferno)</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></strong></p>
<p>enquanto em mim não havia caminho</p>
<p>foste o atalho em que me arrisquei</p>
<p>trepidei</p>
<p>derrapei</p>
<p>capotei</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>disk 0800-6669</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>e assim minha língua se desenrolaria</p>
<p>que nem tapete vermelho esmalte</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>discando</p>
<p>zero oitocentos meia mei</p>
<p>amei a nove</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>com a boca suja de colarinho</p>
<p>diante do espelho me exigindo</p>
<p>acordo amigável de divórcio</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>free república</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>vai do gosto de cada lady</p>
<p>rasgar sua pele com diamantes</p>
<p>ou adorná-la com carvão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>vai da pressa do freguês</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>de cada um de seus chiliques</p>
<p>e dos tropeços encenados</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>de aviões de guardanapo</p>
<p>de cada promessa clandestina</p>
<p>dum retorno debruçado no guidão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>vai ao gosto de bloody</p>
<p>mary vai embora</p>
<p>vai, pois, mas não volta</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>vai-de dia</p>
<p>que a noite já não suporta</p>
<p>tua presença em sacos plásticos</p>
<p>nem teu funga-funga em tufos de algodão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">,</span></p>
<p>[Poemas de livro recente de Caco Ishak, <strong>Não Precisa Dizer Eu Também</strong>, sua segunda coletânea de poesia pela <strong>Editora 7Letras</strong>, com ilustração no miolo do artista paraense <strong>Fábio Vermelho</strong>.]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">,</span></p>
<p><strong>Caco Ishak</strong> é paraense de Belém, onde mora desde os cinco anos, embora tenha nascido em Goiânia, em maio de 1981. Escritor, jornalista e tradutor literário, foi idealizador e curador, ao lado do gongorista André Czarnobai, da primeira galeria virtual brasileira, baixo calão (2007-2010), voltada à arte urbana e ao lowbrow. É Mestre em Epistemologia da Comunicação pela USP.<strong> </strong>E-mail: <a href="mailto:cacoishak@gmail.com">cacoishak@gmail.com</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>De tudo a nada</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/de-tudo-a-nada</link>
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		<pubDate>Mon, 20 May 2013 00:41:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[A pesquisadora mineira <b>Bianka de Andrade</b> 
escreve sobre livro do poeta <b>Wilmar Silva</b>. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/z.gif"><img class="alignnone size-full wp-image-90356" title="z" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/z.gif" alt="" width="500" height="503" /></a><br />
<span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Você  suportaria e assumiria a indizibilidade, a inapreensividade, a inexpressividade, a insuficiência da linguagem (do que entendemos por linguagem)? Você resistiria ao claustrofóbico e pulsante espaço do nada? É diante desse desafio que se encontra o leitor de <em>Z a Zero</em>.</p>
<p>Permitir penetrar-se pelo impacto da capa que arfa em vermelho e fere com seu contrastante “Z” e arriscar abrir as dúbias páginas é adentrar uma experiência de leitura convulsionada e sangrenta, é imergir um vazio assombrosamente pleno e ofegante; um nada que nos impõe a atitude frenética e desnorteada de buscar a saída e o signo; um vão que nos afoga, nos sufoca e, ainda que sem ar, nos sentimos tão apavoradamente atraídos por ele que nele permanecemos em busca de uma fagulha sígnica. A ambivalente pulsão de vida e de morte grita nesse espaço oco que nos impele sincronicamente a fugir e a ficar nele. Se sairmos, o nada deixa o espaço exterior para habitar-nos interiormente, habitar-nos da inquietante, estranha (un<em>heim</em>lich) e insanável sensação de fracasso. Se ficarmos, permanecemos sem ar até a morte, em busca de lampejos de obscuridade, diante de uma luminosidade completamente ludibriosa e opaca. Fora do nada de <em>Z a Zero</em>, somos vivos-mortos. Dentro dele, somos mortos-vivos. Não há saída.</p>
<p>Do poeta, emerge o sangue empurrado por uma prensa de chumbo. À sua pele, não resta caminho ou força impermeável, há que deixar-se verter <em>a</em> vida, <em>em</em> vida. Do leitor-esponja, clama-se a coragem de absorver o sangue, de degusta-lo gota a gota em seu amargor.</p>
<p>Uma vez aprisionados nessa experiência de leitura, sentimos o horror de não poder fugir dela e, ao mesmo tempo, o delicado e sensível toque do poeta que libertou a palavra da escravidão da comunicação. Não há significados! A angústia que nos habita, agora nos transcende, salta de nossos poros para os (in)signos de <em>Z a Zero</em>. Somos lógicos, impulsionados à sistematização, à racionalização do mundo e de nós; somos seduzidos pelo intelecto a esmagar nossos sentimentalismos e ingenuidades em nome da conquista de um modo de vida (ilusoriamente) harmônico e seguro. Nós nos esmagamos em nossa sensibilidade e, ao nos depararmos com uma poesia tão vertiginosamente sistemática e organizada, tão progressista e linear (ao partir de “Z” a “A”, de “0” a “9” e concomitantemente de “A” a “Z” e de “9” a “0”), nos assombramos pelo que ali é <em>falta</em> e é exatamente aquilo que de nós lançamos fora.</p>
<p>Mas o que fazer agora ante essa <em>falta </em>que explode?!  Essa sensibilidade que não resistiu ao recalque?! Numa tentativa desesperada de elaborar e lidar com essa falta, nos damos conta de que o mundo insigne de <em>Z a Zero </em>guarda toda e qualquer possibilidade de construção de sentido. O livro é uma explosão semântica inesgotável, ele contém todas as letras e todos os números com os quais podemos fazer infinitas combinações. Nós, leitores-esponja, percebemos agora que o mesmo sufocante espaço do nada é o salvador relampejo de notar que a inquietante e perturbadora leitura do livro e de nós mesmos nos oferece possibilidades de (re)construção. Já temos o tudo de que nos cercamos, já temos a luz tão brilhante que acabou por nos cegar, precisamos agora de rastros de vazio, pois só a partir do ponto zero podemos construir algo. Sair da leitura do livro com esse lampejo de esperança nos dá a sensação de que valeu a pena engolir o amargor do sangue. Sentimos que esse absinto indigesto está pulsando em vida e assim nos esforçamos para segurá-lo em nosso estômago, para não vomitá-lo e deixar que sua vida se emaranhe em nossa racionalidade alienada e desencantada.</p>
<p><em>Z a Zero</em> é nosso quartinho de bagunça e estamos ali ante a perturbadora porta enquanto nosso mundinho pequeno-burguês, minuciosamente organizado, nos cerca. Abrir essa porta é nos afundar da avalanche que nos amontoará. <em>Z a Zero</em> nos coloca ante o pavor de nós mesmos, nos faz perceber que nossa conduta racionalista e fria levou-nos a possuir um tudo que nos esvai e esvazia. Passado o assombro e o pavor, somos acometidos pelo alento de encontrar em <em>Z a Zero</em> muito mais que a sufocante avalanche que nos invade. Após termos sido revoltos e desorganizados pela experiência de leitura, sentimos a esperança de que podemos combinar novas possibilidades, podemos nos perder do tudo insosso que edificamos e nos entregar à tarefa de recombinar (ordenadamente ou não) os estilhaços de nossa ruína. Assim, indo infinitamente de <em>z</em> a <em>zero</em> e de <em>zero</em> a <em>z,</em> notamos que o sangue do poeta não é vazio e não foi em vão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>[SILVA, Wilmar. <em>Z a zero</em>. Belo Horizonte: Anome Livros, 2010.]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Bianka de Andrade</strong> é natural de Desterro de Entre Rios e vive em Belo Horizonte desde 2004. É graduada em Letras pela UFMG. E-mail: <a href="mailto:biankandrade@gmail.com">biankandrade@gmail.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>SAP &#8211; Poesia contemporânea na Internet</title>
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		<pubDate>Sun, 12 May 2013 04:37:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[Confira como foi um dos diálogos do <b>2º 
Seminário de Ação Poética</b> - Poesia contemporânea na Internet.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><iframe width="510" height="300" src="http://cdn.livestream.com/embed/mandebemnoenem?layout=4&amp;clip=pla_c23efcdd-685b-4e41-8f06-1bbc4230f6e1&amp;height=300&amp;width=510&amp;autoplay=false" style="border:0;outline:0" frameborder="0" scrolling="no"></iframe>
<div style="font-size: 11px;padding-top:10px;text-align:center;width:510px">Watch <a href="http://www.livestream.com/?utm_source=lsplayer&amp;utm_medium=embed&amp;utm_campaign=footerlinks" title="live streaming video">live streaming video</a> from <a href="http://www.livestream.com/mandebemnoenem?utm_source=lsplayer&amp;utm_medium=embed&amp;utm_campaign=footerlinks" title="Watch mandebemnoenem at livestream.com">mandebemnoenem</a> at livestream.com</div>
<p>Na sexta-feira, 10 de maio, e no sábado, 11, a Casa das Rosas promoveu o 2º Seminário de Ação Poética. </p>
<p>19h – Mesa: <strong>Como a poesia contemporânea brasileira é divulgada pela internet?</strong><br />
Mediação: <strong>Frederico Barbosa</strong>.<br />
Com <strong>Edson Cruz</strong> e <strong>José Luiz Goldfarb</strong>.</p>
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		<item>
		<title>Claudio Willer fala sobre Poesia</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/claudio-willer-fala-sobre-poesia</link>
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		<pubDate>Sun, 12 May 2013 03:10:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[TV MUSA]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[Confira como foi o diálogo, no ciclo 
<b>O que é a Poesia?</b>, com o poeta e ensaísta <b>Claudio Willer</b>.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><iframe width="510" height="300" src="http://cdn.livestream.com/embed/mandebemnoenem?layout=4&amp;clip=pla_feac028f-de13-4d05-b697-b5b2903c9523&amp;height=300&amp;width=510&amp;autoplay=false" style="border:0;outline:0" frameborder="0" scrolling="no"></iframe>
<div style="font-size: 11px;padding-top:10px;text-align:center;width:510px"><a href="http://www.livestream.com/mandebemnoenem?utm_source=lsplayer&amp;utm_medium=embed&amp;utm_campaign=footerlinks" title="Watch mandebemnoenem">mandebemnoenem</a> on livestream.com. <a href="http://www.livestream.com/?utm_source=lsplayer&amp;utm_medium=embed&amp;utm_campaign=footerlinks" title="Broadcast Live Free">Broadcast Live Free</a></div>
<p>Diálogo realizado no ciclo de diálogos <strong>O QUE É A POESIA?</strong>, em 27 de abril, na Casa das Rosas.</p>
<p><strong>Claudio Willer</strong> (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela representada pelo surrealismo e geração beat. Publicou <em>Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia</em>, ensaio (Civilização Brasileira, 2010); <em>Geração Beat </em>(L&#038;PM Pocket, coleção Encyclopaedia, 2009); <em>Estranhas Experiências</em>, poesia (Lamparina, 2004); <em>Volta</em>, narrativa (terceira edição em 2004); <em>Lautréamont – Os Cantos de Maldoror</em>, Poesias e Cartas (Iluminuras, nova edição em 2008) e <em>Uivo e outros poemas</em> de Allen Ginsberg (L&#038;PM Pocket, nova edição em 2010). Teve publicados, também, Poemas para leer en voz alta (Andrómeda, Costa Rica, 2007) e ensaios na coletânea Surrealismo (Perspectiva, 2008). É autor de outros livros de poesia – <em>Anotações para um Apocalipse</em> (Massao Ohno, 1964), <em>Dias Circulares</em> (Massao Ohno, 1976) e <em>Jardins da Provocação</em> (Massao Ohno / Roswitha Kempf, 1981) – e da coletânea <em>Escritos de Antonin Artaud</em>, todos esgotados. Aguarda publicação de <em>A verdadeira história do século XX</em>, poesia (Annablume) e Manifestos (Azougue). Poemas em grande número de antologias e inúmeros magazines e periódicos literários, no Brasil e outros países. Presidiu por vários mandatos a UBE, União Brasileira de Escritores. Trabalhou em administração cultural, inclusive como Coordenador da Formação Cultural na Secretaria Municipal de Cultura (1993-2001). Doutor em Letras na USP com Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (2008), fez pós-doutorado na mesma universidade sobre Religiões Estranhas, Hermetismo e Poesia, onde também ministrou, como professor convidado, um curso de pós-graduação sobre surrealismo e outro de extensão cultural sobre a Geração Beat. Coordena oficinas literárias; ministra cursos e palestras sobre poesia e criação literária. Prepara um livro sobre surrealismo e uma coletânea de ensaios sobre misticismo e poesia. Mais informações em <a href="http://claudiowiller.wordpress.com/">http://claudiowiller.wordpress.com/</a></p>
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		</item>
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		<title>Vender Literatura é muito difícil</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/vender-literatura-e-muito-dificil</link>
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		<pubDate>Fri, 10 May 2013 12:46:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[O jornalista e poeta <b>Linaldo Guedes</b> 
entrevista o poeta e editor <b>Eduardo Lacerda</b>. Repórter PB na Musa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Eduardo Lacerda: “Vender Literatura é muito difícil” </strong></p>
<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/eduardo-lacerda.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-86564" title="eduardo-lacerda" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/eduardo-lacerda.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span><strong><br />
</strong></p>
<p>Não é nada fácil vender Literatura no Brasil. A constatação é do jovem poeta e editor <strong>Eduardo Lacerda</strong>. Um dos editores da <a href="http://www.editorapatua.com.br/"><strong>Patuá</strong></a>, editora paulista, Lacerda recebe cerca de 100 originais por mês. Em dois anos de atividades, a editora já publicou cerca de 90 autores, sendo que 70% do catálogo é de poesia. Para Lacerda, os próprios autores também são responsáveis pelas dificuldades em se vender literatura.  “O desejo de publicação – publicação em qualquer lugar, com qualquer qualidade – é muito maior do que o desejo de se estabelecer um diálogo com outros escritores e com a própria editora. É muito maior o desejo de publicar do que o desejo de ler. E eu acho estranho”, avalia. A lógica de Eduardo Lacerda é perfeita: “Se os autores de poesia também fossem leitores de poesia, então poesia não daria prejuízo”. A Patuá já lançou os paraibanos Linaldo Guedes e André Ricardo Aguiar e lança, ainda este mês, Antônio Mariano.</p>
<p>Poeta, Eduardo Lacerda é autor de “Outro dia da folia”, obra que deverá ser lançada brevemente em João Pessoa. Em 2011 o projeto do livro, que ainda não estava finalizado, foi premiado pelo ProAC. “Com o prêmio foi possível a edição de uma tiragem de 1.100 exemplares, algo quase inimaginável nos dias de baixas tiragens”, conta. E qual é a poética de Eduardo Lacerda? “Sobre os poemas, eu realmente não sei o julgamento que deveria fazer. Qual julgamento de um poeta é válido sobre seu próprio trabalho? Sei que existem alguns poemas ali que são acima da média. Mas quem não faz coisas acima da média de vez em quando? Há outros poemas que considero ruins e falhos. Eu ainda estou me permitindo errar. Eu gosto do erro, da experiência, do ridículo”. Confira a entrevista e em seguida alguns poemas de Eduardo Lacerda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>REPORTERPB &#8211; Livros são amuletos?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Eduardo Lacerda</strong> &#8211; Muitas pessoas questionam se a ideia de livros como amuletos, uma espécie de slogan que criamos com a simbologia do nome Patuá, significaria que acreditamos que os livros nos protegem. Acho que livros-amuletos são mais nossa crença e forma de enfrentamento, de embate. Não é proteção, é luta mesmo. Mas, como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, no poema O Lutador: “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. / São muitas, eu pouco. // (&#8230;) // Palavra, palavra / (digo exasperado), / se me desafias, / aceito o combate. (&#8230;). É um bom combate. É uma luta pela literatura.</p>
<p><strong>Você é um dos editores da Patuá, uma editora pequena, mas que em pouco tempo de atividades já conseguiu lançar vários livros e alcançar uma boa credibilidade junto ao público e a crítica. Como surgiu a idéia de criar a editora e qual balanço que se pode fazer das atividades da Patuá até agora?</strong></p>
<p>Em dois anos de atividades já publicamos cerca de 90 autores, sendo que 70% de nosso catálogo é de poesia. Para 2013, planejamos a edição de mais 90 títulos, dobrando nosso catálogo de livros. Recentemente recebemos um prêmio ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo. O prêmio permitirá a publicação de 12 livros de 12 autores inéditos, com uma tiragem de 1.500 exemplares, totalizando 18000 livros impressos. O melhor desse prêmio é que 20% da tiragem é destinada gratuitamente às bibliotecas públicas do Estado de São Paulo.</p>
<p>A Patuá foi criada por mim e pela poeta e editora Aline Rocha. Nossa intenção e objetivo foi a de criar uma editora que pudesse trabalhar autores jovens e estreantes, mas com uma qualidade de grandes editoras. Acho, pelos números que apresentei, que temos conseguido isso.</p>
<p><strong>A Patuá tem lançado bons títulos, à despeito de ser uma editora pequena. Como é investir em um mercado polarizado por grandes editoras que investem muito em best-sellers?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>A maior dificuldade da Editora Patuá ainda é financeira. Vender literatura é muito difícil. E eu acho estranho que seja difícil. Recebemos cerca de 100 originais por mês, mas apenas uma pequena parte das pessoas que nos procuram conhecem a editora. O desejo de publicação – publicação em qualquer lugar, com qualquer qualidade – é muito maior do que o desejo de se estabelecer um diálogo com outros escritores e com a própria editora. É muito maior o desejo de publicar do que o desejo de ler. E eu acho estranho. Eu gosto de ler poesia, de todos os autores, de todas as editoras. E admiro quem gosta de ler também.</p>
<p>Eu devo muito aos nossos autores que também são leitores. E leitores de poesia, principalmente. Sem a ajuda deles, seja participando dos lançamentos, seja comprando livros, seja mesmo apenas nos ajudando com a divulgação, nós não teríamos chegado até aqui. Então, que pelo menos os que se consideram escritores, também sejam leitores. Não trabalhamos com o best-seller, mas não publicamos livros para ninguém. Nós esperamos encontrar leitores.</p>
<p><strong>Quais são os critérios na escolha dos títulos que são lançados pela editora?</strong></p>
<p>Existem diversos critérios para a escolha do que será editado pela Patuá. Esses critérios nem sempre são muito objetivos. Inicialmente, por exemplo, só poderíamos publicar autores de São Paulo (seu livro Metáforas para um duelo no sertão foi o primeiro título publicado em outro estado). Isso mudou após nosso primeiro ano de atividades, já que hoje podemos escolher editar autores de todo o país. E estamos dando preferência, inclusive, para autores do norte e nordeste. Só da Paraíba já são 4 autores.</p>
<p>E a qualidade dos livros é sempre o principal critério. Mas a qualidade pode ser algo muito subjetivo, não pode? Eu acredito que sim. A poesia contemporânea é marcada por diversas tendências e vozes que convivem – quase sempre – pacificamente. E viver em paz também não significa ser passivo. Como disse, nossos amuletos são formas de enfrentamento.</p>
<p>Também damos preferência aos que se interessam pela editora como uma proposta e projeto literário mais do que como plataforma para a publicação. Autores que se aproximam da editora, que freqüentam os lançamentos, que participam do debate, acho que temos uma tendência maior a publicá-los também. É uma coisa importante para a editora.</p>
<p>Por fim, nunca queremos perder a intenção de ser, além de tudo, uma editora que dá espaço para autores jovens e estreantes. Recebemos muitos livros de pessoas importantes nos últimos meses: jornalistas, autores premiados, editores, mas publicar um garoto ou garota que escreveu o primeiro livro e está vivendo intensamente a poesia, esse é um dos nossos maiores objetivos e critérios. É um critério dar espaço para os jovens autores.</p>
<p><strong>Como é o trabalho de distribuição das obras lançadas?</strong></p>
<p>Muitos autores desconhecem o sistema de distribuição brasileiro, isto é, como trabalham as grandes livrarias. As livrarias, em geral, cobram um desconto de 50% do preço de capa de um livro. Ou seja, de um livro com preço de venda em média de R$ 30,00, as editoras recebem apenas R$ 15,00. Para a Patuá, o custo de produção de um livro já é quase nesse valor, pois pagamos, em apenas 100 exemplares impressos inicialmente, os custos com registros, ilustração, diagramação, projeto gráfico, revisão, edição, impressão, além dos custos fixos de uma empresa, com água, luz, telefone, contador, impostos, taxas etc. Então criamos um modelo de distribuição que consiste em vendas diretas nos lançamentos, vendas diretas ao autor (com desconto) e vendas diretas através de nosso site. Após os 100 primeiros exemplares, nós então trabalhamos com a venda em livrarias. Mesmo assim, estamos sujeitos aos descontos abusivos, um prazo de pagamento de 60 dias após a entrega dos livros, frete por nossa conta, além de outras condições comerciais injustas.</p>
<p>Não consigo pensar em mudar o cenário de distribuição de livros sem uma reestruturação de como funcionam as livrarias. Que não são mais livrarias, mas megastores preocupadas unicamente com a venda do maior número de produtos possíveis.</p>
<p>Mas acho que a culpa também é dos leitores – ou da falta de leitores – do Brasil. O custo de produção de um livro com uma tiragem de 1500 exemplares é de menos de R$ 4.00 por exemplar. Se fosse vendido a R$ 12.00 e dividido em 3 partes – produção, editora e autor – todos na cadeia poderiam ganhar. Mesmo se vendido a R$ 16.00 e incluindo a livraria. Mas onde encontrar mercado para a venda de 1500 exemplares de qualquer livro de qualidade? A conta não fecha. Como as editoras sabem que só venderão menos de 500 exemplares, colocam o preço do livro três vezes mais caro do que deveria custar. E estão certas. Essa história de que livro mais barato vende mais é bobagem, não vende mais a ponto de justificar preços mais baixos. E quem quer correr o risco? Aqui na Patuá nós trabalhamos com tiragens de apenas 100 exemplares, então nossos custos já são bem mais altos, mas tentamos manter os preços de nossos livros abaixo da média.</p>
<p>Mas acho que fugi um pouco da pergunta ou da resposta até para chegar mais próximo de uma resposta exata. A Patuá busca maneiras alternativas de distribuição, mas também procura, de forma não prejudicial ao nosso negócio, se integrar aos modelos tradicionais de distribuição.</p>
<p><strong>Investir em poesia dá prejuízo, como alegam a maioria das editoras?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Não. O que dá prejuízo é vender poucos livros de poesia. Se os autores de poesia também fossem leitores de poesia, então poesia não daria prejuízo. Mas o que acontece é que a história recente da poesia está repleta de exemplos de pessoas que arriscaram. Há uma forma de resistência nesses poetas que nos precederam. Fazer poesia, editar poesia, é uma forma de resistência. E nós estamos dando continuidade a isso. Prejuízo é não fazer nada. Nós estamos fazendo, então estamos lucrando (o que não significa, quase sempre, lucrando dinheiro).</p>
<p><strong>A Patuá participa, também, de feiras e eventos literários?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Nós começamos há dois anos e já participamos da programação da Off-Flip e de alguns outros eventos literários. Não participamos ainda de feiras, pois elas exigem alguma estrutura da qual ainda não dispomos, mas provavelmente em 2014 começaremos a participar de forma alternativa dessas feiras.</p>
<p>Pretendemos também criar algum evento relacionado com as atividades da editora. Virá algo muito bom em breve!</p>
<p><strong>A editora tem lançado autores paraibanos também, como André Ricardo Aguiar e Antônio Mariano. Como é este intercâmbio com autores que atuam longe das cercanias paulistas?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Há um discurso corrente que todos os autores ‘fora do eixo’ rj-sp são excluídos de eventos, encontros, antologias etc. Acho que os espaços realmente são poucos, mas se pensarmos apenas na Paraíba, poderia citar o seu nome, nomes como os que você citou, mas também uma pessoa como Lau Siqueira, um dos mais importantes poetas do país, ou também mais jovens, como o Bruno Gaudêncio, por exemplo. É possível sentir a importância desse cenário. Eu me interesso muito por conhecer a literatura que está sendo produzida em todo o país, então estou sempre em contato com diversos autores de todos os lugares possíveis. Tenho um gosto especial, hoje, por poder editar livros de autores que não encontrariam espaço em outras editoras, não apenas por serem desconhecidos, mas também pelo afastamento geográfico.</p>
<p><strong>Você também é poeta, autor do livro “Outro dia de folia”, que deve ser lançado, inclusive, aqui na Paraíba. Fale um pouco sobre essa obra.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Meu livro de poemas Outro dia de folia, que é meu livro de estreia, foi escrito de 2001, quando entrei no curso de Letras da USP, até 2012. Em 2011 o projeto do livro, que ainda não estava finalizado, foi premiado pelo ProAC. Com o prêmio foi possível a edição de uma tiragem de 1100 exemplares, algo quase inimaginável nos dias de baixas tiragens. Também pudemos, a editora – que também é minha – e eu, realizar uma edição de luxo, com capa dura. Como objeto, é um livro livro.</p>
<p>Agora, sobre os poemas, eu realmente não sei o julgamento que deveria fazer. Qual julgamento de um poeta é válido sobre seu próprio trabalho? Sei que existem alguns poemas ali que são acima da média. Mas quem não faz coisas acima da média de vez em quando? Há outros poemas que considero ruins e falhos. Eu ainda estou me permitindo errar. Eu gosto do erro, da experiência, do ridículo.</p>
<p>Em geral, eu acho que é um bom livro. Mas bom, como dizer que algo nosso é bom sem cair na pretensão? Acho que se eu não conseguir ser meu melhor leitor, então é melhor desistir. Eu gosto dos meus poemas, fico feliz que eles existam, sinto prazer na leitura deles, sinto vergonha na leitura deles. Eles são a minha vida, também.</p>
<p><strong>Como você definiria sua poesia e como tem sido à receptividade ao seu trabalho como poeta, junto à crítica literária?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Não houve, até o momento, nenhuma receptividade da crítica especializada (aliás, ela existe realmente?). Tive generosas leituras de alguns amigos, preferi incluir essas leituras no fim do livro, mais como forma de integrar a experiência pessoal de relação com essas pessoas do que como fortuna crítica – não esperava nenhum elogio – da obra. Meu livro, embora carregado de uma certa melancolia, é uma festa. E toda festa precisa de convidados.</p>
<p><strong>Você diz que não se considera poeta, mas é, sim, um poeta que tem qualidade e está acima da média de muita coisa publicada hoje em dia, pelo que tive a oportunidade de ler de sua produção. Quais são suas principais referências literárias?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Quando afirmo que não me considero poeta, eu não quero me isentar minha obra de qualquer julgamento estético. Muitos pensam, quando digo que não sou poeta, que quero me proteger de críticas, pelo contrário, posso não me considerar um poeta, mas vivo intensamente a poesia e a literatura. Uma coisa é a minha poesia, que é poesia e que existe. Outra coisa é a pessoa se considerar um poeta. Eu acho que escrevo poesia. E isso já é suficiente. Minha paixão, entretanto, não é escrever, é editar.</p>
<p>O que é editar? Podem existir diversas definições para esse trabalho. No meu caso estou envolvido com a descoberta de novos poetas ou com a redescoberta de poetas importantes, com a leitura inicial e seleção dos trabalhos, com a definição de especificações técnicas para o livro, como formato, papel, número de páginas, tenho algum envolvimento com o que fazemos com ilustrações, arrisco dinheiro também, trabalho a divulgação. É uma infinidade de pequenos trabalhos diários e que me completam como ser humano. Ser poeta não me completa. Por isso não sou poeta.</p>
<p>Sobre as minhas referências literárias, as principais, além de Drummond, que me acompanha desde sempre, são os poetas contemporâneos. Eu descobri nomes jovens da literatura contemporânea antes de conhecer o cânone, é natural que estas pessoas me influenciem mais. Sempre estudei em escolas públicas, quase sem acesso ou estímulo à literatura – embora leia muito, desde cedo, por vontade própria e algum incentivo de meus pais –. Quando entrei no curso de letras da Universidade de São Paulo, enquanto começava realmente alguma formação literária, me interessava muito conhecer o que pessoas vivas estavam fazendo, quem são os poetas – que, como eu acreditava que era também um nessa época –. Então eu conheci praticamente toda a literatura contemporânea antes de conhecer tudo de Bandeira ou Drummond, por exemplo. A minha formação é confusa. É muito confusa.</p>
<p><strong>O poeta é sibilino, como você afirma em um de seus poemas?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Sim e não. Se um poeta puder ser definido por uma única palavra, talvez ele deixe de ser poeta. O maior encanto da poesia e dos poetas é que eles podem sempre surpreender. Ou não surpreender.</p>
<p><strong>O que lhe dá mais prazer, escrever ou publicar?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>Me dá mais prazer beber cerveja. Acho que publicando outros escritores eu aumento as chances de beber com alguém. Escrever é muito solitário.</p>
<p>Mas, sem brincadeiras, o Auden diz algo como “Aos olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um poema. Aos seus próprios olhos um homem é poeta no momento exato que revisa seu último poema. Antes, era apenas um poeta em potencial. Depois, apenas alguém que parou de escrever poesia. Talvez para sempre.”. Mesmo não sendo poeta, compartilho dessa angústia. Compartilho duplamente. Os dias mais felizes da minha vida são os dias de lançamentos de livros. E talvez eu tenha parado de escrever e talvez eu tenha parado de editar – hoje não escrevi ou lancei nenhum livro –, talvez para sempre. Mas não será agora, espero.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>TRÊS POEMAS DE EDUARDO LACERDA</strong></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>A última Ceia</strong></p>
<p>Há regras à mesa<br />
como em um brinquedo<br />
de quebra-cabeça.</p>
<p>/ E eu não entendo<br />
os dispostos à esquerda</p>
<p>dos pais.</p>
<p>Restos do pequeno<br />
que sentavam ao meio</p>
<p>da mesa (como prato<br />
que se enche<br />
e procura lugar entre<br />
as pessoas). /</p>
<p>Já não me encaixo<br />
depois que aprendi</p>
<p>a olhar de lado<br />
e sair por baixo.<br />
<span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Festim</strong></p>
<p>Jogou copos contra<br />
Paredes.</p>
<p>Mudou de letra, com<br />
caligrafia e sessões<br />
terapêuticas, dando-<br />
se firmeza às mãos.</p>
<p>Rabiscou espelhos<br />
não sendo ele<br />
sua própria</p>
<p>letra.</p>
<p>Lençóis amassados e<br />
marcas de unhas<br />
nas costas.</p>
<p>Cheiro de cigarros,<br />
bebida, suor<br />
e incenso.</p>
<p>— os poucos amigos,<br />
dispersos,</p>
<p>juravam que vivia<br />
em festa. —</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>CONDICIONADOR<br />
<span style="color: #ffffff;">.</span></strong></p>
<p>Agora</p>
<p>que meus cabelos</p>
<p>cresceram</p>
<p>(e parecem femininos)</p>
<p>tenho menos</p>
<p>medo</p>
<p>que pareça</p>
<p>desespero</p>
<p>minhas duas mãos cravadas</p>
<p>no centro</p>
<p>da</p>
<p>cabeça</p>
<p>:</p>
<p>agora que meus cabelos cresceram</p>
<p>(e constantemente cobrem meus olhos)</p>
<p>penso</p>
<p>que parece o tempo</p>
<p>o tempo todo</p>
<p>que estou negando</p>
<p>algo</p>
<p>(assim, quando os balanço</p>
<p>para o lado).</p>
<p>Mas também</p>
<p>que afirmo</p>
<p>(como se</p>
<p>cisco</p>
<p>para alimento)</p>
<p>quando</p>
<p>insisto</p>
<p>(reticente) em</p>
<p>ir com eles,</p>
<p>para trás e</p>
<p>para frente.</p>
<p>E</p>
<p>embora</p>
<p>agora que meus cabelos</p>
<p>cresceram</p>
<p>e esses gestos</p>
<p>(e minhas mãos ali no centro)</p>
<p>não</p>
<p>pareçam</p>
<p>desesperos</p>
<p>(muitos pensam até que parece um carinho).</p>
<p>Carinho, carinho, carinho, carinho</p>
<p>ninho:</p>
<p>de coceiras</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>[Entrevista publicada no site <a href="http://www.reporterpb.com.br/?p=noticia_int&amp;id=3444">REPÓRTER PB</a>]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Linaldo Guedes</strong> é  jornalista e poeta. Nascido em Cajazeiras, é radicado em João Pessoa  desde 1979. Como jornalista, é atualmente editor executivo do portal  REPORTERPB (<a href="http://www.reporterpb.com.br" target="_blank">www.reporterpb.com.br</a>).  Como poeta, lançou os livros “Os zumbis também escutam blues e outros  poemas” e “Intervalo Lírico” e “Metáforas para um duelo no Sertão”.  E-mail:<a href="mailto:%20linaldo.guedes@gmail.com" target="_blank">linaldo.guedes@gmail.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Alerta vermelho</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/alerta-vermelho</link>
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		<pubDate>Fri, 10 May 2013 12:19:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor e compositor <b>Braulio Tavares</b> 
escreve sobre os 'reality shows' e a banalização da vida. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>Reality shows<br />
</strong></p>
<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/kohlanta.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-86553" title="kohlanta" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/kohlanta.jpg" alt="" width="400" height="299" /></a></p>
<p>Num artigo de 2001 sobre os “reality shows”, que ele comparava aos espetáculos sangrentos do Coliseu romano, Salman Rushdie perguntava quanto tempo iria demorar até acontecer a primeira morte ao vivo, e quanto tempo iria decorrer entre esta e a segunda. Essa pergunta começou a ser respondida, de certo modo, nos últimos dias, quando morreu um participante do programa Koh Lanta (a versão francesa do “Survivor”), e uma semana depois suicidou-se um médico da equipe do programa, acusado de negligência. As duas mortes não ocorreram ao vivo, diante das câmaras, mas acho que não devemos ser tão puristas. Aliás, acabará acontecendo.</p>
<p>Gerald Babin, de 25 anos, sentiu-se mal em 22 de março, no primeiro dia de gravação, durante um dos puxadíssimos exercícios que os participantes tinham de fazer. Foi retirado de barco da ilha onde as provas acontecem (a imprensa considerou que se o levassem de helicóptero talvez ele tivesse sido salvo), e morreu em seguida, de ataque cardíaco. A imprensa francesa, ao que parece, fez inúmeras críticas ao programa e responsabilizou o médico Thierry Costa, de 38 anos. Entre outras coisas, foi dito que a gravação continuou durante nove minutos sem ser interrompida, mesmo com o participante sentindo-se mal, e que ele ainda teria tido que dar uma entrevista antes de ser socorrido.</p>
<p>Uma semana após a morte de Babin, Costa suicidou-se num hotel do Camboja, pedindo que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas lá mesmo, e nunca fossem levadas de volta para a França. Numa nota manuscrita, o médico afirmou que a imprensa enxovalhou seu nome, e que nunca mais teria coragem de voltar para a França e encarar as pessoas.</p>
<p>Existem situações humanas tão viciadas e tortas desde a origem que todo mundo lá dentro é vítima e é culpado. Os programas tipo “Big Brother” que se misturam com esportes radicais ou técnicas de sobrevivência alimentam um voyeurismo doentio na platéia – aquela expectativa de que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa séria. Não diferem muito de uma tourada, onde a expectativa do sangue e da morte (da morte humana) está implícita na fórmula. Uma morte humana ganha outro significado se existe uma câmara apontada para ela, acompanhando-a, registrando-a, preservando-a para sempre. Pouco importa se tudo foi arranjado de tal jeito que a morte, por caminhos aleatórios, acabe acontecendo; não se sabe bem quem vai morrer, como, nem quando, mas no momento em que essa morte é transmitida estamos tocando com o dedo numa medula proibida da existência. É como se víssemos o instante da fecundação de alguém; a forma mais requintada de invasão de privacidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<div>
<p><strong>Braulio Tavares</strong> é escritor e compositor. Estudou       cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas       Gerais, é Pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira       bibliografia do gênero na literatura brasileira, o <em>Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog</em> (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992). Publicou <em>A máquina voadora</em>, em 1994 e <em>A espinha dorsal da memória</em>, em 1996, entre outros. Escreve artigos diários no Jornal da Paraíba:<a title="http://jornaldaparaiba.globo.com/" href="http://jornaldaparaiba.globo.com/">http://jornaldaparaiba.globo.com/ </a>Blog: <a title="http://mundofantasmo.blogspot.com/" href="http://mundofantasmo.blogspot.com/">http://mundofantasmo.blogspot.com/</a> E-mail:<a href="mailto:btavares13@terra.com.br">btavares13@terra.com.br</a></p>
</div>
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		</item>
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		<title>Revistas definem o panorama literário</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/revistas-definem-o-panorama-literario</link>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 05:51:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaio]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[O poeta e editor <b>Claudio Daniel</b> reflete 
sobre as revistas literárias na cena contemporânea brasileira. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/banca-digital.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85234" title="banca-digital" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/banca-digital.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a><br />
<span style="color: #ffffff;">,</span></p>
<p>Qual será o papel da poesia num mundo unipolar, regido pelo império da tecnologia, do mercado e da mídia, que exilou o sentido utópico, presente nas vanguardas do início do século passado? Acredito que há, no mínimo, três atitudes que os poetas podem tomar, respondendo ao desafio da esfinge: a) aceitar a nova visão de mundo, ingressando no coro dos contentes, já bem afinado por tantas vozes que buscam o sucesso antes mesmo de terem realizado uma obra literária válida (para estes, o que importa é o marketing, não a estética ou a mudança do mundo); b) conformar-se à criação poética pura, fazendo do exercício rigoroso da linguagem a sua ética pessoal, sem concessões à facilidade nem retrocesso a formas gastas; e c) manter a atitude inconformista, de denúncia e rebelião solitária, unindo a experiência da linguagem à consciência crítica. A terceira atitude é a mais arriscada, numa época em que a revolução comportamental iniciada nos anos 60 foi consolidada, e transformada em objeto de consumo, e os projetos alternativos para a mudança social foram arquivados, pelo consenso relativo em torno da democracia liberal e da economia de mercado. A própria ideia de vanguarda foi colocada em xeque pelos formuladores do conceito de pós-modernidade. Essa aparente apatia é questionada, no entanto, pela própria realidade, que em Chiapas, Oaxaca, La Paz e outras localidades, não só na América Latina, aponta os resultados nocivos da globalização econômica, como a redução dos direitos sociais para favorecer a acumulação de capital. Ainda é cedo para sabermos se os novos movimentos aglutinados no Fórum Social Mundial apontarão uma saída viável. O fato concreto é que surgem vozes dissonantes, inclusive na intelectualidade norte-americana, denunciando a agressão imperial a outros países, a limitação da liberdade individual e de imprensa, a pretexto de combater o terrorismo (medidas autorizadas pelo Ato Patriota) e a agiotagem financeira internacional. Nesse contexto, o poeta pode assumir uma posição de consciência crítica: assumir sua cidadania, seu inconformismo intelectual, sua participação num processo, ainda incipiente, de mudança de valores, aceitando pagar o preço pela dissidência.</p>
<p>A revista<em> Sibila, </em>editada por Alcir Pécora e Régis Bonvicino, busca referências literárias diferentes daquelas presentes no cânone literário recente (que vai de Bandeira e Drummond a Cabral e à Poesia Concreta). Essa jornada parte de uma reflexão crítica sobre a vanguarda e avança no sentido de ampliar o repertório, por meio da atividade crítica e da tradução de autores estrangeiros contemporâneos como Robert Creeley, Michael Palmer, Charles Bernstein e Claude-Royet Journaud (escolhas mais inteligentes do que as realizadas pela revista carioca <em>Inimigo Rumor</em>, que se contentou com autores de dicção tradicional, como Adília Lopes, Nicanor Parra e Antônio Cisneros, que em nada contribuíram para a renovação das formas poéticas). O diálogo brasileiro com a poesia norte-americana divulgada por <em>Sibila </em>(e antes dela, pela extinta revista <em>Monturo</em>), no entanto, merece um comentário mais atento. A tradição minimalista, prenunciada talvez por Emily Dickinson, no final do século XIX, teve o seu momento de expansão na década de 1920, com a obra seminal de poetas como William Carlos Williams, Louis Zukofski, cummings e outros, em geral ligados ao Objetivismo. Esta é uma poesia concentrada, de imagens rápidas, fragmentárias, que exploram ao mesmo tempo a sonoridade e o pensamento, pela maneira como articula o discurso. Gertrude Stein adotou estratégia diversa, transformando palavras e fonemas em matéria plástica e sonora, sem um sentido preciso (os &#8220;tender buttons&#8221;, aliás uma gíria para designar o clitóris). A influência combinada dos objetivistas e da autora da <em>Autobiografia de Alice B. Toklas</em> foi decisiva para a chamada <em>Language Poetry</em>, surgida nos Estados Unidos na década de 1970, que podemos considerar uma síntese da tradição da vanguarda norte-americana. O trabalho tradutório de Bonvicino foi importante para a divulgação desses autores entre nós, e influenciou a fase inicial de poetas como Tarso de Melo e Kleber Mantovani. Com o passar do tempo, no entanto, essa abordagem do minimalismo criou um novo beco sem saída, pela excessiva repetição de processos. O uso exclusivo de minúsculas, em espaço duplo, com abundância de substantivos e poucos verbos (sempre no infinitivo) tornaram-se cacoetes, assim como a descrição de cenas e situações em linguagem fragmentária e elíptica e o uso não-gramatical da pontuação, bem como o uso de palavras imprecisas como <em>alguém, ninguém, algo, talvez, outro, quando</em>. A reverberação das técnicas mais evidentes da <em>Language Poetry, </em>que não pode ser reduzida a esses recursos, acabou estabelecendo um padrão que não causa mais surpresas.</p>
<p>A Poesia Concreta, diga-se aqui, desde a década de 1950 já realizou uma síntese radical da herança das vanguardas, ainda não plenamente assimilada por nossos poetas e críticos literários. Se alguns aspectos do <em>Plano-piloto</em> envelheceram, permanece o desafio de buscar uma solução para a crise histórica do verso, sem o retorno acrítico a fórmulas exauridas. O próprio Haroldo de Campos, em obras como <em>Galáxias</em>, <em>Crisantempo</em> e nos ensaios sobre o pós-utópico buscou uma outra vereda, que podemos situar na tendência chamada neobarroca, que se desenvolveu, sobretudo, nos países de língua espanhola da América Latina, a partir de 1970, tendo como expoentes autores como o cubano José Kozer, o argentino Nestor Perlongher e o uruguaio Roberto Echavarren (e poderíamos acrescentar a essa lista os brasileiros Wilson Bueno, Horácio Costa, Josely Vianna Baptista e o Leminski do <em>Catatau, </em>além do próprio Haroldo). O neobarroco não é uma escola; não tem princípios normativos como o verso livre ou as &#8220;palavras em liberdade&#8221;. Podemos caracterizá-lo, em termos gerais, como uma estética da miscigenação, da quebra de fronteiras entre repertórios culturais, mesclando o erudito ao popular, o neologismo ao arcaísmo, o ocidental ao oriental, o poético ao prosaico, num deliberado hibridismo, que incorpora ainda a tradição do Século de Ouro (com sua rica imagética e proliferação de metáforas) e da vanguarda internacional. Divulgado no Brasil por Josely Vianna Baptista (<em>Caribe</em> <em>Transplatino</em>) e por mim (<em>Jardim de Camaleões</em>), e ainda por revistas como <em>Coyote, Oroboro </em>e<em> Et Cetera</em> (todas editadas no Paraná), o neobarroco teve presença discreta em nossas letras, mas é visível sua influência em autores mais jovens, como a paulista Adriana Zapparoli e o cearense Eduardo Jorge.  Se a dicção neobarroca ou hermética é uma das respostas possíveis à crise do verso, outro caminho, pouco explorado entre nós, é o da poesia eletrônica, que permite a interação entre som, imagem, ideia e movimento, em suportes digitais (que facilitam ainda a permutação de signos, a mobilidade e a interatividade, multiplicando as rotas de leitura e a geração de significados). Esse campo de experimentação, que não abole o livro ou a escrita, mas amplia as potencialidades da palavra, com certeza nos surpreenderá, em futuro breve. Na internet, podemos acessar algumas experiências nesse sentido nas revistas <em>Artéria</em>, de Omar Khoury, <em>Errática</em>, de André Vallias, e <em>Popbox</em>, de Elson Fróes.</p>
<p>A revista <em>Inimigo Rumor</em>, editada no Rio de Janeiro por Augusto Massi e Carlito Azevedo, realizou em seus primeiros números (que contaram com a colaboração editorial de Júlio Castañon Guimarães) um mapeamento criterioso da poesia brasileira contemporânea, publicando autores como Augusto de Campos, Duda Machado, Régis Bonvicino, Claudia Roquette-Pinto, Antônio Risério e Arnaldo Antunes, entre outros nomes estabelecidos, além de poetas jovens, com pouca oscilação de qualidade. Num segundo momento, a revista assumiu contornos mais ecléticos e tornou-se porta-voz de uma dicção coloquial e cotidiana, que reivindica a herança do Modernismo de Bandeira e Drummond e de autores da década de 1970, como Cacaso e Francisco Alvim. Os elementos centrais dessa vertente são o lirismo, a subjetividade, a temática prosaica, inspirada na crônica de jornal, e o humor (por vezes opaco ou ingênuo, sem a contundência de Glauco Mattoso e Sebastião Nunes). É uma poesia que não investe na renovação léxica ou sintática, respeita o discurso e a lógica linear e não busca novos processos de criação. A defesa do lirismo contra a vanguarda, feita por poetas desse grupo, causa certa surpresa, e merece breve comentário. Lirismo e subjetividade estão presentes, em maior ou menor grau, em toda a poesia moderna, inclusive na vanguarda (lembremos aqui o <em>Poetamenos</em>, de Augusto de Campos, ciclo de poemas coloridos de temática amorosa, inspirados na &#8220;melodia de timbres&#8221; do músico austríaco Anton Webern). A revolta da modernidade, desde seus primórdios, foi contra o eu lírico narcísico, de efusão sentimental, dominante na época romântica e ainda na simbolista. Ao reduzir a presença do eu, focando a atenção no mundo objetivo e na linguagem, a modernidade deu um novo sentido ao lirismo, que foi reinserido na dimensão social e histórica (lembremos aqui de Paul Celan, autor de rigoroso artesanato lingüístico e não menos intenso do ponto de vista emocional, e ainda o Rilke dos <em>Novos Poemas</em>).</p>
<p>Propor uma antinomia radical entre o lírico e o lingüístico parece-nos uma desculpa para justificar poéticas frágeis, assim como a tática diversionista de apelar a um suposto &#8220;conteúdo&#8221; ou &#8220;urgência de dizer&#8221; que não raro se limita à descrição banal da frase escrita numa camiseta. Outro ponto que carece de discussão é o relativo ao enfoque crítico da realidade. Talvez pela excessiva influência do método sociológico de Antonio Candido na universidade, esse debate ainda está atrasado entre nós. O retrato ácido, caricatural do mundo urbano e fabril está presente em Baudelaire, Cesário Verde, Ezra Pound, Drummond, Décio Pignatari. Não há conflito entre consciência social e consciência da forma (discussão já travada na Rússia na década de 1930 entre os cubo-futuristas e os adeptos do realismo socialista), ao contrário: a denúncia é ainda mais expressiva quando apoiada num texto poético forte e eficaz.  No poema <em>Nós</em>, de Cesário Verde, para ficarmos num único exemplo, podemos ver a antecipação do futurismo pela temática urbana, concisão e estilo telegráfico de certas passagens: &#8220;cidades fabris, industriais,/ De nevoeiros, poeiradas de hulha&#8221; / (&#8230;) &#8220;condados mineiros! Extensões/ Carboníferas! Fundas galerias!/ Fábricas a vapor! Cutelarias!/ E mecânicas, tristes fiações! / (&#8230;) Mas isso tudo é falso, é maquinal, / Sem vida, como um círculo ou um quadrado, / Com essa perfeição do fabricado, / Sem o ritmo do vivo e do real&#8221;. Não encontramos essa fúria rebelionária, social e semântica, na poesia defendida pelo grupo da <em>Inimigo Rumor</em>, que se limita, muitas vezes, ao registro de pequenas cenas corriqueiras, com palavras singelas, às vezes pueris, como os diminutivos, sem a força de impacto de Cesário Verde, Brecht, Maiakovski ou Drummond (aquele das peças mais consistentes, como <em>Nosso Tempo</em>: &#8220;Os lírios não nascem / da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se / na pedra. (&#8230;) / Tenho palavras em mim buscando canal, / são roucas e duras, / irritadas, enérgicas, / comprimidas há tanto tempo, / perderam o sentido, apenas querem explodir&#8221;).</p>
<p>O uso da ironia e da sátira na poesia de temática urbana é uma conquista que remonta ao século XIX, especialmente a Jules Laforgue e Tristan Corbière, autores valorizados por Ezra Pound, que via no humor uma forma de crítica não apenas social, mas também da linguagem.  O humor é subversivo, corrói as fórmulas gastas do discurso, as pérolas da retórica, as metáforas vazias, e acrescenta ao vocabulário poético termos considerados chulos, obscenos ou de mau gosto, <em>pour épater le bourgeois</em>. Recordemos aqui alguns versos de Corbière, em tradução de Augusto de Campos: &#8220;Não nasceu por nenhum lado / e foi criado como mudo,/ tornou-se um arlequim-guisado, / mistura adúltera de tudo. / Tinha um <em>não-sei-que</em>, — sem saber onde; / Ouro, — sem trocado para o bonde; / Nervos, — sem nervo; vigor sem &#8216;garra&#8217;; / Alma, — faltava uma guitarra; / Amor, — mas sem bastante fome. / — Muitos nomes para ter um nome. / Idealista, — sem ideia. Rima / Rica, — sem matéria-prima; / De volta, — sem nunca ter ido; / Se achando sempre perdido.&#8221; Comparemos essa peça com o poema-piada <em>Parque</em>, de Francisco Alvim, que o crítico Manuel da Costa Pinto incluiu em sua <em>Antologia Comentada</em><em> da Poesia Brasileira do Século</em> <em>XXI</em>: &#8220;é bom / mas / é muito misturado&#8221;. Enquanto o texto de Corbiere, a cada releitura, permite a investigação de novos sentidos, o texto de Alvim esgota-se na primeira leitura, pela banalidade. Esse estilo ingênuo de humor, que deriva dos versos de circunstância de Manuel Bandeira, não pode competir com os mestres do sarcasmo e da irreverência de nosso idioma, como Gregório de Matos, Bocage, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Glauco Mattoso; é um humor bem-comportado, tímido, funcionário público, de óculos e gravata, incapaz de atingir a força expressiva dos <em>clowns</em> de que falava o próprio Bandeira (&#8220;O lirismo difícil e pungentes dos bêbedos / O lirismo dos <em>clowns</em> de Shakespeare&#8221;). Acredito que nossa literatura só teria a ganhar com uma poesia, ou antipoesia, coloquial-cotidiana de alta elaboração formal, mas este não é o caso de muitos poetas valorizados pela revista <em>Inimigo Rumor</em>, cuja qualidade literária não está no mesmo nível de sua divulgação publicitária, não apresentando nenhuma aventura intelectual.</p>
<p>&#8220;A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos à nossa consciência.&#8221; Este pensamento de Pedro Juan Gutiérrez, que serve de editorial ao n. 14 da revista <em>Coyote</em>, define de maneira lapidar a linha seguida pela publicação, dirigida pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. Não se trata aqui de um grupo articulado em torno de uma proposta exclusivamente <em>literária</em>, já que a literatura não é concebida como mera representação do mundo, mas como algo que nos permite pensar e modificar o mundo. <em>Coyote</em> investe na atitude crítica para manifestar o seu desconforto perante uma sociedade cada vez mais acéfala, construída à imagem e semelhança da indústria de consumo, cujos ícones, na realidade brasileira, são programas de televisão como <em>Big Brother</em> ou os <em>shows</em> de auditório de Gugu Liberato, Faustão e assemelhados. Como antídoto à lavagem cerebral, a revista ataca em várias frentes, publicando desde textos experimentais de alta elaboração formal, como a prosa poética do escritor João Filho, até a tradução de autores estrangeiros pouco conhecidos no Brasil, de diversas épocas e países, como o coreano Yi Sáng, o sírio Adonis, o chinês Po Chu  I, o escocês Edwin Morgan ou o dominicano León Félix Batista. Em seus dossiês, a publicação privilegia autores que além da invenção verbal têm uma visada crítica de repúdio à massificação e à banalidade, como a chilena Cecília Vicuña, o mexicano Heriberto Yépez, o brasileiro Roberto Piva.  <em>Coyote</em> também publica obras de fotógrafos e artistas visuais, incentivando o diálogo entre a poesia e outras artes. É uma publicação bem-informada, que tem aberto espaço a poetas e prosadores da novíssima geração, com critério na escolha de autores e textos — e cabe aqui destacar o trabalho de Simone Homem de Mello, autora que reside hoje na Alemanha, que publicou em 2005 o importante livro <em>Périplos,</em> pela Ateliê.</p>
<p>Não poderíamos concluir este ensaio sem mencionarmos a produção de autores jovens que vêm publicando poemas e traduções de qualidade em blogues e revistas virtuais, com destaque para o <em>Papel de Rascunho</em>, de Virna Teixeira (autora dos livros de poesia <em>Visita</em> e <em>Distância</em>), <em>Caderno V</em>, de Daniela Ramos, <em>Folhas de Girapemba</em>, de Ana Maria Ramiro e <em>Uri Geller</em>, de Leonardo Gandolfi, além das revistas <em>Mnemozine</em>, <em>Germina, Confraria</em> e <em>Zunái</em>. A internet hoje é o veículo mais atualizado para quem deseja conhecer o que se faz de mais qualitativo na poesia contemporânea, furando o boicote dos cadernos culturais da imprensa diária, cada vez mais reduzidos à condição de folhetos publicitários. A questão básica, hoje, não é discutir onde está a poesia, mas onde está a crítica.</p>
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<p><strong>Claudio Daniel,</strong> poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, os livros de poesia <em>A Sombra do Leopardo</em> (2011), <em>Figuras Metálicas</em> (2004), <em>Fera Bifronte</em> (2010) e <em>Letra</em> <em>Negra</em> (2010). É curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo e editor da revista <strong>Zunái</strong>. Mantém o blog <strong>Cantar a Pele de Lontra</strong>, <a href="http://cantarapeledelontra.blogspot.com/">http://cantarapeledelontra.blogspot.com</a> E-mail: <a href="mailto:claudio.dan@gmail.com">claudio.dan@gmail.com</a></p>
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		<title>Poesia e viagens incessantes da linguagem</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 05:23:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[O poeta e editor <b>Floriano Martins</b> 
entrevista a poeta uruguaia <b>Amanda Berenguer</b>. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/Amanda.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85228" title="Amanda" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/Amanda.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a></p>
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A uruguaia <strong>Amanda Berenguer</strong> (1923-2010) é uma das mais expressivas vozes da poesia em seu país, destacando-se ao lado de outros importantes poetas, a exemplo de Julio Herrera y Reissig, Juana de Ibarbourou, Juan Cunha e Circe Maia. Sempre instigante no tratamento com a linguagem, escreveu uma Dialética da invenção e uma Autobiografia, textos onde questiona seu próprio afazer poético. Em uma entrevista, disse: “Meu verdadeiro ofício é criar a esperança”. Antes havia dito: “Minha evolução é uma busca, cada vez mais afincada, uma abertura para muitos lados, com tudo o que a abertura possui de dinâmico”. A seu respeito, escreveu Rafael Courtoisie, no prólogo de um de seus livros, <em>La botella verde </em>(1995) “Se ‘o vocábulo é a viagem’, esta mulher viaja para dentro e para cima, às vezes dando voltas em uma palavra como um mundo. Com Emily Dickinson resgata o encantamento e a magia; mas também conquista o espaço desde a insinuação do signo, em Composición de lugar. Em Identidad de ciertas frutas se aproxima do vegetal com uma vocação anterior a todo manifesto ecológico, completando um ciclo que se parece muito com uma ‘botânica das imagens’, pródiga em polpas e sabores de palavras.” Autora de livros como <em>Elegía por la muerte de Paul Valery</em> (1945), <em>Contracanto</em> (1961), <em>Identidad de ciertas frutas</em> (1983) e <em>El Pescador de caña</em> (1995), sua poesia completa se intitula <em>Constelación del navío </em>(2003). Entrevista realizada em 1996. Os trechos entre aspas reproduzem passagens do livro <em>El monstruo incesante</em> (Expedición de caza) (1990), e foram selecionadas pela poeta.</p>
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<p>FLORIANO MARTINS: Teu primeiro livro é Elegía por la muerte de Paul Valéry (1945). Em sua Antología de la poesía uruguaya contemporánea (1966), Domingo Luis Bordoli assinala que alguns escritores de tua geração cuidavam do estilo de Valéry “como se fosse a letra de uma lei”. Segundo o poeta de A jovem Parca, a finalidade indiscutível de uma obra de arte é “provocar atos internos”. O que tem buscado a poesia através de Amanda Berenguer?</p>
<p>AMANDA BERENGUER: De minha parte, indago: o que busca o aroma através da flor? “Provocar atos internos?” Recorrer ao sentimento da beleza ou da fealdade? Estimular o perecimento? Representar o amor? Seduzir o que se esconde dentro dela? Perfumar por perfumar, doce ou nauseabundo, sem propósito algum na cavidade da corola? Vejo que me invadem múltiplas opções, e que é difícil distingui-las uma da outra. A “forma” da corola, seu porte, os delicados pistilos, o estame central, germe da semente e do fruto, escrevem a própria flor que é seu próprio perfume: o poema. Esta flor pode ser vivificadora ou mortal, pode abrir a primavera ou um nicho funerário, pode mostrar a delícia ou a nostalgia ou o terror, pode induzir o pensamento, atrair a memória ou provocar a imaginação. A flor inteira, completa, forma e interioridade, é o poema, e pode-se deduzir que o perfume é sua maneira de dar vida ou poesia, o que é a mesma coisa. Tudo concorre para esta convocatória dos sentidos e do pensamento. O exterior e o interior sobrepostos. Minha poesia tem buscado e segue buscando ser essa flor no tempo, e sempre cambiante. “Mesmo sendo esta aventura aparentemente tão pessoal, em definitivo é para ser compartilhada entre todos. São os outros que corroboram a existência. Sem a abelha que a poliniza e a publica, a flor não saberia o que fazer com sua mensagem.” Agora um exemplo de interioridade externa: “Quando escrevo sinto que a ponta da caneta é uma continuação de meus dedos, que vai segregando uma substância parecida com a teia de aranha ou o fio de seda. Não sei se construo um casulo ou um alçapão; de qualquer maneira, a escritura é uma matéria brilhante e adesiva, protetora e audaz.”</p>
<p>FM: De Paul Valéry até o Surrealismo, as infindáveis viagens do inconsciente à consciência. No entanto, a originalidade do poeta não se encontra no “ditado do pensamento na ausência de todo controle exercido pela razão”, da mesma forma que no “trabalho mais consciente a partir de uma estrutura vazia”. Em tal sentido, é possível afirmar que os melhores momentos da poesia deste século somam os enunciados de Breton e Valéry?</p>
<p>AB: Creio que mais do que somar enunciados separados, o melhor da poesia é uma simbiose permanente entre o sonhado e o raciocinado: entre a escritura automática, trazida, sonhada, desde o subconsciente e a daquela controlada pela razão. “As palavras de Antonio Machado, ‘canta-se uma viva história contando sua melodia’ e as de Valéry, ‘Honte d’être comme la Pythie’, mais o ‘ostinato rigore’ de Leonardo da Vinci, sugeriram-me uma inquietante proposta.” Minha maior ambição como escritora é chegar a “pensar o sensível” e a “sentir o inteligente”, e poder transmiti-lo.</p>
<p>FM: Em suas leituras de Huidobro, disse o venezuelano Guillermo Sucre que ali “o fracasso é estético na medida em que é também existencial: não é possível apagar o acaso, nem a morte”. Disse também que “a poesia está ligada à busca do que não se poderá encontrar”, que a poesia é uma impossibilidade. O que pensas? Qual é o verdadeiro âmbito da poesia?</p>
<p>AB: Creio que o verdadeiro âmbito da poesia é o estar e o não estar simultaneamente. É ser escritura ou canto e seu fantasma. A linguagem, como “o mar, experimenta sua própria superfície, vive sua fundura em entranhável relação com a aventura do mundo exterior, porém não se pode nunca dizer do mar que é superficial, porque essa mesma forma &#8211; toda superfície &#8211; é a reveladora de outra dimensão. Então, o que sabemos da fundura? Percebemos apenas formas, rostos cambiantes da superfície. Sua profundidade nasce de uma dedução intuída. Na tomada de consciência do valor existencial das formas, em perfeita mudança e em presente contínuo, está minha descoberta do profundo. E as palavras com as quais fazemos nossa obra também são superfícies profundas, reveladoras: tecnicamente alcançáveis porém mágicas ao serem capturadas. As palavras são sutis utensílios, signos fluorescentes, com auréola, que vivem em família sedentária ou são nômades ou solitárias. Com elas elaboramos simulacros e tratamos também de obter vida: a do próprio texto?, a nossa pessoal?, a dos outros?, ou tudo junto?, não sei.” A “palavra viva”, junto com “O vocábulo é a viagem” são minhas consignas.</p>
<p>FM: Recordo um verso de teu livro Contracanto (1961): “Quero morrer de tua morte, / de tua viva quantidade / resplandecente”. É verdade que o tempo se dá sempre de modo circular, que não há linearidade possível neste sentido. Enlaço esse pensamento com outro de Sartre, acerca da essencialidade do desamparo no nascimento da liberdade. Agora nosso contato direto com as perdas, sobretudo com a morte, com a dor das perdas. Até que ponto a morte expande nossa visão do mundo?</p>
<p>AB: A morte é uma barreira, um muro do tempo. Acaso é uma ilusão ou uma metamorfose existencial? A morte nos acompanha desde que nascemos e faz nossos próprios gestos e nossos próprios atos. A esquecemos na juventude, a respeitamos na vida adulta e a sentimos de verdade na velhice. Essa morte, por oposição à vida, sublinha obscuramente todos os acontecimentos: vai por baixo como um peixe das profundidades, seguindo o navegante: deslumbramento acima e brilho escuro abaixo. O mundo então se completa, torna-se mais intenso, mais frágil, mais maravilhoso: a morte o estimula.</p>
<p>FM: Ernst Jünger defende que “o artista é antes de tudo responsável perante sua obra e não perante esta ou aquela orientação política”, concluindo que, “para ele, é uma necessidade ser egoísta.” É esta também a tua opinião? Está de acordo com ele, quando afirma que “em primeiro lugar está o homem, e seu ambiente vem depois”?</p>
<p>AB: É muito difícil para mim separar o ser humano de seu habitat; mais ainda, diria que é impossível, e que não há um antes nem um depois: há intercâmbios simultâneos.O homem é essencialmente um ser social no presente: dialético, circunstancial, cambiante, metamorfósico.“Assim há processos, ou melhor, esquemas de processos que, no entanto, se repetem: a história da humanidade dentro da história universal, a história do homem dentro da história da humanidade, a história de um indivíduo dentro da história do homem e, de certa maneira, chegamos a esses pequenos e íntimos ciclos temporais dentro da história de um só homem.” Esses ciclos temporais estão respaldados por todo o universo. Sentimos que mudamos, que vivemos. Tudo se transforma. Qualquer um desses processos interiores seria, além do mais, parecido com o de certas flores, por exemplo, o da flor do girassol. É primeiro um centro fechado, curvado para dentro, côncavo, ensimesmado, que pouco a pouco vai, lentamente, recebendo e oferecendo-se à luz, ao ar, com tesão e assombro, abrindo-se, estendendo-se, exteriorizando-se, mudando de forma, povoando-se para fora até dar com uma estrutura exposta, convexa e desnuda em radial relação com o mundo exterior. Passaria assim naturalmente do côncavo, primitivo e pessoal, para o convexo, aberto, evoluído e social. Para aquele cuja forma de exteriorizar-se, de aparecer e de comprometer-se fundamentalmente (nisto lhe vai o real e o imaginário, a fome e a saciedade, esta vida suspensa e essa outra que vamos perdendo, um legado de amor e o próximo explorado em um cego anonimato), é também fazer uma arma, uma ferramenta, um objeto literário gerador de constante vitalidade, essas maneiras cambiantes e entremescladas de ser a si mesmo &#8211; determinadas por tantos estímulos interiores ou exteriores, ou mesmo interdependentes &#8211; condicionam o poema. Vive-se permanentemente acossado por circunstâncias, fatos, situações presentes. Os estímulos andam pelo ar, ora políticos, científicos, estéticos, econômicos, mas todos, mesmo os mais pessoais, se transformam em matéria social.” Egoístas ou não, “estamos com as mãos na massa, condenados à perpetuidade sobre a corda frouxa, ou fazendo malabarismos, ou escutando o estalo do chicote do domador, ou dispostos a exprimir o destino em um salto mortal com capa, como uma onda”. E alguns corremos a aventura &#8211; com ar não justamente egoísta -, a bordo da linguagem.</p>
<p>FM:Uma vez mais desgarrada de um conhecimento das forças mágicas de sua própria origem, a poesia latino-americana torna a perder sua expressão singular, uma vez mais acossada por uns facilismos formais. Penso na obsessão pelo obscuro que lateja na letra do neobarroco, ao mesmo tempo em que nas vertigens esvaziadas de sentido de uma palavra centrada somente em si mesma, como era o caso do concretismo brasileiro. Supondo que concordes com esta minha visão, qual seria a razão da pobreza atual de nossa imaginação e de nossa capacidade de renovação formal?</p>
<p>AB: Não temos que confundir obscuridão com profundidade. O neobarroco é obscuro, e nem sempre tem outra dimensão, uma palavra sozinha estendida sobre a página (penso em Mallarmé) às vezes é um abismo. Alguns concretistas brasileiros movem-se nos dois terrenos com valores antitéticos; penso em Haroldo de Campos. Creio que neste momento estamos avassalados por um elemento muito poderoso: a imagem visual. Os cartéis da propaganda e da publicidade, a maioria dos programas de televisão, o cinema comercial, configuram geralmente o mundo passivo da aparência. Este elemento exerce uma potente influência negativa sobre as formas mais ativas e secretas da imaginação criadora. A imaginação comum estendeu-se ao sol e pôs-se a dormir, e ficou letargiada, quando não desapareceu. Assim ocorre em todo o jogo de luzes dos cartéis da propaganda, que nos afogam com sua presença, e quando, raras vezes, beiram uma formulação poética, esta se nos impõe como um impacto repetitivo, anulante.</p>
<p>FM: Não tenho indagado acerca de tua poesia, uma vez que concordo contigo em que “nada pode falar com mais precisão de uma obra que ela própria”. Há, contudo, uma notável abrangência de tua obra do ponto de vista formal. O que se passa então com o conteúdo? Acaso é puramente formal teu desejo de expressão?</p>
<p>AB: Meu desejo não é formal: é uma necessidade vital, mas ocorre que os escritores não temos mais do que palavras para expressar-nos, e as palavras têm superfície e fundo, são signos significantes dos quais só se pode avaliar sua profundidade através da aparência. “Na tomada de consciência do valor existencial das formas, além da perpétua mudança está o conhecimento do profundo.”</p>
<p>FM: Outro ponto que me desperta curiosidade: há uma passagem maravilhosa em tua Autobiografia, quando falas de tuas preferências, tuas relações com a poesia de outros poetas, no plano da amizade. São palavras tuas que “não me sinto amiga do norte-americano Ezra Pound, ainda que me impressione e me impulsione à investigação de seus Cantos sem limites, oscilando entre o conhecimento humano e a acumulação de uma processadora de palavras”. Decerto que há um exagero em torno da importância de Pound, porém sua presença encarnou a totalidade, o mesmo que Dante ou Lezama Lima. Não há acaso uma dívida secreta de tua poesia em relação a Pound?</p>
<p>AB: Não creio ter dívidas com ele, pela simples razão de que apenas recentemente li Pound, quando já havia escrito mais de 2/3 de minha obra. Senti então uma especial relação literária, formal, de procedimento, porém a escritura de Pound deslumbra-me, ou melhor, cega-me, é tão poderosa!, tanto que não me deixa ver claro.</p>
<p>FM: Recordo Eugène Ionesco: “Uma civilização de palavras é uma civilização atormentada”. Temos vivido uma época obcecada pela produção do genuíno em escala vertiginosa, a palavra convertida em slogan sensasionalista. A mediocridade ascende à categoria de “esplendor artificial”, como assinalou George Steiner. Como escapar do silêncio das sereias? Como é possível fazer com que as palavras voltem a ser expressão do humano em nós?</p>
<p>AB: Vivemos uma civilização anestesiada ou excitada até o crime pela “imagem visual” (a grande protagonista de nosso tempo), e pela imagem sonora (o ruidoso, o ritmo desenfreado, a música de massas, as multidões de jovens atraídos e caídos em estado de frenesi ajudados pela droga). E todos os demais, calados, solitários, diante do televisor transformado em tubo de refúgio ou escapatória. Por outro lado, não creio, como diz Ionesco, que seja “uma civilização de palavras”. Atualmente, a linguagem torna-se cada vez mais pobre, mais sintética ou analítica (mesmo que as linguagens científicas sejam bem-vindas à casa do dicionário). Abundam as apócopes e as siglas compressoras, parece que a língua, à medida que se torna planetária, se retrai e está em perigo de implosão (em especial o inglês, tão avassalador com toda sua artilharia de computação e de comunicações eletrônicas). Não, não é uma civilização de palavras, mas é, isto sim, uma civilização “atormentada”.</p>
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<p>[Publicado no <a href="http://www.diariodecuiaba.com.br/capa.php">Diário de Cuiabá</a>]</p>
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<strong>Floriano Martins</strong> (Ceará, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor. Dirige a Agulha Revista de Cultura (<a href="http://www.revista.agulha.nom.br" target="_blank">www.revista.agulha.nom.br</a>) e colabora semanalmente com o DC Ilustrado com uma série de entrevistas que futuramente reunirá em livro intitulado Invenção da América. Contato: <a href="mailto:arcflorianomartins@gmail.com" target="_blank">arcflorianomartins@gmail.com</a>.</p>
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		<title>O Triunfo do Ovo</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 05:02:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[O escrivão e tradutor <b>Mário Zeidler Filho</b> 
mostra-nos um conto do escritor norte-americano <b>Sherwood Anderson</b>. Confira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/sherwood-anderson.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85213" title="sherwood-anderson" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/sherwood-anderson.jpg" alt="" width="500" height="755" /></a><strong> </strong></p>
<p><strong>Sherwood Anderson</strong></p>
<p>[Tradução de<strong> Mário Zeidler Filho</strong>]<br />
<span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Meu pai foi, estou certo, naturalmente feito para ser um homem alegre e gentil. Até os trinta e quatro anos de idade ele trabalhou como granjeiro para um homem chamado Thomas Butterworth, cuja fazenda ficava perto da cidade de Bidwell, Ohio. Na época ele tinha um cavalo só dele, e nas noites de sábado ia até a cidade para passar algumas horas em relações sociais com outros granjeiros. Na cidade ele bebia um monte de cerveja e ficava à toa no Ben Head’s Saloon – abarrotado nas noites de sábado com granjeiros das redondezas. Canções eram cantadas e copos batiam no balcão. Às dez da noite meu pai voltava pra casa por uma solitária estrada vicinal, ajeitava seu cavalo para a noite e ia ele mesmo para a cama, bastante feliz com sua posição no mundo. Naquela época ele não tinha nenhuma ideia de tentar subir na vida.</p>
<p>Foi na primavera de seu trigésimo quinto ano que meu pai se casou com minha mãe, então uma professora do interior, e na primavera seguinte eu vim chorando e me contorcendo ao mundo. Alguma coisa aconteceu com os dois. Eles ficaram ambiciosos. A paixão americana por subir na vida se apossou deles.</p>
<p>Pode ser que minha mãe tenha sido a responsável. Sendo professora ela sem dúvida havia lido livros e revistas. Ela devia, eu presumo, ter lido sobre como Garfield, Lincoln e outros americanos saltaram da pobreza para a fama e a grandeza, e enquanto eu jazia ao seu lado – nos seus dias de resguardo – ela deve ter sonhado que um dia eu governaria homens e cidades. De alguma forma ela induziu meu pai a abandonar seu posto como granjeiro, vender seu cavalo e embarcar num empreendimento próprio, independente. Ela era uma mulher alta e calada, com um longo nariz e aflitos olhos cinzentos. Para ela mesma não queria nada. Por meu pai e por mim, era incuravelmente ambiciosa.</p>
<p>O primeiro negócio em que os dois se meteram acabou mal. Eles alugaram dez acres de terra ruim e pedregosa na estrada de Griggs, a oito milhas de Bidwell, e se lançaram na criação de galinhas. Passei a meninice naquele lugar e foi dali que tirei minhas primeiras impressões sobre a vida. Desde o começo foram impressões desastrosas, e se de minha parte me tornei um homem sombrio, inclinado a ver sempre o lado mais escuro da vida, atribuo isto ao fato de que aqueles que deveriam ter sido os meus alegres e prazenteiros dias de infância se passaram numa granja de galinhas.</p>
<p>Alguém pouco versado em tais assuntos não pode ter noção das muitas e trágicas coisas que podem acontecer a um frango. Ele nasce de um ovo, vive algumas semanas como uma coisinha fofa tal qual se vê estampada nos cartões de páscoa, e então se transforma numa coisa horrivelmente pelada, come porções de milho e ração compradas com o suor do rosto do teu pai, pega doenças chamadas de gôgo, cólera e outros nomes, fica parado olhando com olhos estúpidos para o sol, adoece e morre. Algumas galinhas, e de vez em quando um galo, feitos para servir aos misteriosos desígnios de Deus, lutam até à maturidade. As galinhas botam ovos dos quais saem outros frangos e o ciclo tenebroso assim se completa. É tudo inacreditavelmente complexo. A maioria dos filósofos deve ter crescido em granjas de galinha. Espera-se tanto de uma galinha e se acaba tão horrivelmente desiludido. Franguinhos, apenas começando a jornada da vida, parecem tão brilhantes e alertas e são na verdade tão horrivelmente estúpidos. Eles se parecem tanto com pessoas que acabam nos confundindo em nossos julgamentos sobre a vida. Se a doença não os mata, eles esperam até que suas expectativas estejam satisfatoriamente elevadas e então passam por baixo das rodas de uma carroça – voltando arrebentados e mortos para as mãos do Criador. Vermes infestam sua juventude, e fortunas têm que ser gastas em talcos curativos. Na vida adulta eu percebi como toda uma literatura foi construída sobre o assunto, sobre como fortunas podem ser feitas com a criação de galinhas. Ela é feita para ser lida pelos deuses que acabaram de comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. É uma literatura esperançosa e declara que muito pode ser feito por pessoas simples e ambiciosas que possuam algumas galinhas. Não se deixe enganar por ela. Isto não foi escrito para você. Vá à procura de ouro nas montanhas congeladas do Alasca, deposite sua fé na honestidade de um político, acredite se quiser que o mundo está melhor a cada dia e que o bem triunfará sobre o mal, mas não leia nem acredite na literatura que é escrita a respeito da galinha. Não foi escrita para você.</p>
<p>Mas, contudo, divago. Minha história não se relaciona primariamente à galinha. Se contada corretamente, deverá se centrar no ovo. Por dez anos meu pai e minha mãe lutaram para fazer nossa granja lucrar, e então desistiram desta luta e começaram outra. Eles se mudaram para a cidade de Bidwell, Ohio, e embarcaram no negócio de restaurantes. Após dez anos de preocupação com chocadeiras que não chocavam, e com pequenas – e a seu próprio modo amáveis – bolinhas de penugem, que então passavam à seminua franguescência e daí para uma falecida galinescência, jogamos tudo para o alto e, juntando nossos pertences numa carroça, descemos pela estrada de Griggs até Bidwell, uma pequena caravana de esperança à procura de um novo lugar para começarmos nossa jornada de ascensão pela vida.</p>
<p>Devíamos ser um bando bem triste de se ver, não muito diferentes, eu imagino, de refugiados escapando de um campo de batalha. Minha mãe e eu andávamos pela estrada. A carroça que levava nossas coisas fora emprestada por um dia pelo Sr. Albert Griggs, um vizinho. Pelos lados saiam pernas de cadeiras baratas e no fundo da pilha de camas, mesas e caixas cheias de utensílios de cozinha, estava um caixote de galinhas vivas, e no topo de tudo o carrinho de bebê no qual me carregavam na minha infância. Por que ficamos com o carrinho de bebê eu não sei. Era improvável o nascimento de outra criança, e as rodas estavam quebradas. Pessoas de poucas posses se agarram fortemente àquelas que têm. Este é um dos fatos que fazem a vida tão desalentadora.</p>
<p>Meu pai ia em cima da carroça. Era então um homem careca de quarenta e cinco anos, um pouco gordo e, pela longa associação com minha mãe e com as galinhas, havia se tornado habitualmente silencioso e desanimado. Durante todos os dez anos na granja ele havia trabalhado como ajudante nas fazendas vizinhas, e a maior parte do dinheiro que ganhou foi gasta em remédios para curar as doenças das galinhas, na Maravilha Branca de Wilmer Contra a Cólera ou no Produtor de Ovos do Professor Bidlow ou em outros preparados que minha mãe via anunciados nas revistas de avicultura. Havia dois pequenos retalhos de cabelo na cabeça de meu pai, logo acima das orelhas. Eu me lembro que quando criança costumava ficar sentado, olhando para ele, enquanto ele dormia numa cadeira em frente ao fogão, nas tardes de domingo no inverno. Naquele tempo eu já tinha começado a ler uns livros e a ter minhas próprias ideias, e a faixa calva que subia até o topo de sua cabeça era, eu imaginava, como que uma larga estrada, uma estrada como as que Cesar deve ter construído, pela qual levava suas legiões de Roma até as maravilhas de um mundo desconhecido. Os tufos de cabelo que cresciam sobre as suas orelhas eram, eu pensava, como florestas. Eu ficava meio adormecido, meio acordado, sonhando que era uma coisinha pequena andando pela estrada até um belo e longínquo lugar onde não existiam granjas e onde a vida era um assunto alegre e sem ovos.</p>
<p>Alguém poderia escrever um livro sobre nossa fuga da granja para a cidade. Minha mãe e eu andamos todas as oito milhas – ela para se certificar de que nada cairia da carroça, e eu para ver as maravilhas do mundo. No assento da carroça, ao lado do meu pai, estava seu maior tesouro. Vou te contar o que era.</p>
<p>Numa granja de galinhas, onde centenas e até milhares de galinhas saem de ovos, coisas surpreendentes às vezes acontecem. Aberrações nascem dos ovos como nascem das pessoas. Este acidente não acontece com frequência – talvez em um de cada mil nascimentos. Nasce uma galinha, veja você, com quatro pernas, dois pares de asas, duas cabeças ou qualquer coisa do tipo. Estas coisas não vivem. Elas voltam rapidamente para as mãos momentaneamente trêmulas de seu Criador. O fato de que as pobres coisinhas não conseguiam sobreviver era uma das tragédias da vida para meu pai. Ele tinha a ideia de que, se conseguisse trazer à galinescência ou à galescência uma galinha de cinco pernas ou um galo de duas cabeças, estaria feita a sua fortuna. Ele sonhava em levar a maravilha pelas feiras rurais e ficar rico exibindo aquilo para outros granjeiros.</p>
<p>De alguma forma ele salvou todas as pequenas monstruosidades nascidas em nossa granja. Elas eram preservadas em álcool e colocadas cada uma em seu frasco de vidro. Estes frascos ele havia colocado cuidadosamente numa caixa, e em nossa jornada até a cidade ele a carregou ao seu lado no banco da carroça.  Ele guiava os cavalos com uma mão e com a outra se agarrava à caixa. Quando chegamos ao nosso destino, a caixa foi imediatamente descida e os frascos guardados. Durante todos os nossos dias como donos de um restaurante na cidade de Bidwell, Ohio, as aberrações em seus pequenos frascos de vidro ficaram numa prateleira atrás do balcão. Minha mãe às vezes protestava, mas meu pai era uma rocha quando o assunto era aquele seu tesouro. As aberrações, ele declarava, eram valiosas. As pessoas, ele dizia, gostavam de ver coisas estranhas e maravilhosas.</p>
<p>Cheguei a dizer que embarcamos no negócio de restaurantes na cidade de Bidwell, Ohio? Eu exagerei um pouco. A cidade propriamente ficava ao pé de uma colina baixa e à margem de um rio pequeno. A ferrovia não passava pela cidade e a estação ficava a uma milha para o norte num lugar chamado Pickleville. Havia ali um engenho de cidra e uma fábrica de picles perto da estação, mas antes da época em que viemos os dois já haviam falido. De manhã e à noite ônibus desciam até a estação por uma ladeira chamada Turner’s Pike, vindos do hotel na rua principal de Bidwell. Nossa ida para este lugar fora de mão para embarcar no negócio de restaurantes foi ideia da minha mãe. Ela falou sobre isso por um ano e então um dia foi lá e alugou um armazém vazio em frente à estação ferroviária. A ideia de que o restaurante seria lucrativo era dela. Os viajantes, ela dizia, estariam sempre por ali esperando os trens que partiam da cidade, e as pessoas da cidade desceriam até a estação para esperar pelos trens que chegavam. Eles viriam ao restaurante para comprar pedaços de torta e tomar café. Agora que estou mais velho eu sei que ela tinha outro motivo para nossa mudança. Ela tinha ambições para mim. Ela queria que eu subisse na vida, que eu entrasse numa escola da cidade e me tornasse um homem cosmopolita.</p>
<p>Em Pickleville meu pai e minha mãe trabalharam tão duro quanto sempre tinham feito. No começo havia a necessidade de fazer o lugar ficar parecido com um restaurante. Isso levou um mês. Meu pai fez uma prateleira na qual colocou latas de legumes. Ele pintou uma placa na qual colocou seu nome em grandes letras vermelhas. Embaixo do nome estava a áspera ordem – “COMA AQUI” – que era tão raramente obedecida. Uma vitrine foi comprada e enchida com charutos e tabaco. Minha mãe esfregou o chão e as paredes do salão.  Eu fui para a escola municipal e estava feliz de estar longe da granja e da presença desanimada daquelas galinhas de triste figura. Mesmo assim eu não era muito alegre. No fim da tarde eu caminhava da escola até em casa pela Turner’s Pike e me lembrava das crianças que eu via brincando no pátio da escola municipal. Uma tropa de garotinhas saiu pulando e cantando. Eu tentei aquilo. Descendo a estrada congelada eu ia pulando solenemente sobre uma perna só. “Pulando Faceiro até o Barbeiro”, eu cantava estridente. Então parei e olhei desconfiado ao redor. Eu tinha medo ser visto naquela alegria toda. Devia me parecer que eu estava fazendo alguma coisa que não devia ser feita por alguém que, como eu, foi criado numa granja de galinhas que a morte visitava diariamente.</p>
<p>Minha mãe decidiu que nosso restaurante deveria ficar aberto à noite. Às dez da noite um trem de passageiros passava por nossa porta indo para o norte, seguido por um trem de cargas local. A turma do cargueiro tinha que fazer baldeação em Pickleville e quando o trabalho acabava eles vinham até nosso restaurante procurando por café quente e comida. De vez em quando um deles pedia um ovo frito. Às quatro da manhã eles retornavam pelo norte e nos visitavam de novo.  Uma pequena troca começou a acontecer. Minha mãe dormia de noite e durante o dia cuidava do restaurante e alimentava nossos fregueses enquanto meu pai dormia. Ele dormia na mesma cama que minha mãe havia ocupado durante a noite e eu saía para ir à escola na cidade de Bidwell. Durante as longas noites, enquanto minha mãe e eu dormíamos, meu pai cozinhava as carnes que iam nos sanduíches que nossos fregueses levavam nas marmitas. E então uma ideia a respeito de subir na vida lhe veio à cabeça. O espírito americano tomou conta dele. Ele também ficou ambicioso.</p>
<p>Nas longas noites, quando havia pouco o que fazer, meu pai tinha tempo para pensar. Isso foi sua ruína. Ele decidiu que havia sido um homem malsucedido no passado porque não havia sido suficientemente alegre e que no futuro ele adotaria uma aparência alegre na vida. No começo da manhã ele subiu as escadas e se deitou na cama com minha mãe. Ela acordou e os dois conversaram. Da minha cama no canto eu escutei.</p>
<p>A ideia do meu pai era que ele e minha mãe deviam tentar entreter as pessoas que vinham comer em nosso restaurante. Agora não consigo lembrar suas palavras, mas ele dava a impressão de alguém que estivesse para se transformar, de algum jeito obscuro, num comediante. Quando as pessoas, principalmente gente jovem da cidade de Bidwell, vinham ao nosso estabelecimento, como acontecia em ocasiões muito raras, conversas brilhantemente divertidas seriam entabuladas.  Pelo que meu pai falava, deduzi que alguma coisa como o efeito da familiaridade de um alegre estalajadeiro era o seu objetivo. Minha mãe deve ter duvidado desde o começo, mas não disse nada que pudesse desencorajá-lo. A ideia do meu pai era que o gosto pela companhia dele e da minha mãe simplesmente brotaria do peito das pessoas mais jovens da cidade de Bidwell. Ao anoitecer, grupos alegres e luminosos desceriam cantando a Turner’s Pike. Eles invadiriam o estabelecimento com gritos de alegria e risadas. Haveriam canções e festividade. Não quero dar a impressão de que meu pai falava tão elaboradamente do assunto. Ele era, como eu disse, um homem pouco comunicativo. “Eles querem algum lugar para ir. Estou falando, eles querem algum lugar para ir”, ele dizia, de novo e de novo. Só chegava até aí. Minha própria imaginação preencheu as lacunas.</p>
<p>Por duas ou três semanas esta ideia do meu pai invadiu nossa casa. Nós não falávamos muito, mas em nossas atividades diárias tentamos honestamente fazer com que sorrisos tomassem o lugar dos olhares sombrios. Minha mãe sorria para os fregueses e eu, pegando a infecção, sorria para o nosso gato. Meu pai se tornou um tanto febril em sua ansiedade por agradar. Havia, sem dúvida, escondido em algum lugar dentro dele, o toque de um espírito performático. Ele não gastava muita munição com os ferroviários que ele servia à noite, mas parecia esperar pela chegada de algum rapaz ou alguma moça de Bidwell para mostrar o que podia fazer. No caixa do restaurante havia uma cesta de arame que estava sempre cheia de ovos, e aquilo devia estar bem ali na sua frente quando a ideia de ser divertido nasceu em seu cérebro. Havia algo de pré-natal quanto à forma em que os ovos se mantinham sempre ligados ao desenvolvimento da sua ideia. De algum jeito, um ovo arruinou seu novo impulso na vida. Uma noite, tarde da noite, fui despertado por um rugido de raiva vindo da garganta do meu pai. Minha mãe e eu nos erguemos rapidamente em nossas camas. Com mãos trêmulas ela acendeu uma lâmpada que ficava numa mesa perto da cabeceira. Lá embaixo a porta da frente do nosso restaurante bateu estrondosamente e em poucos minutos meu pai subiu tropeçando pela escada. Ele tinha um ovo na mão e sua mão tremia como se ele estivesse tendo um calafrio. Havia uma luz meio louca em seus olhos. Enquanto ele ficava ali nos encarando, eu tinha certeza de que ele atiraria o ovo em minha mãe ou em mim. Mas então ele colocou o ovo mansamente na mesa ao lado da lâmpada e caiu de joelhos ao lado da cama da minha mãe. Ele começou a chorar como um garotinho, e eu, carregado por sua aflição, chorei com ele. Nós dois enchemos a pequena sobreloja com nossas vozes lamuriosas. É ridículo, mas da cena que fazíamos eu consigo me lembrar apenas do fato de que a mão de minha mãe batia continuamente na faixa calva que passava pelo topo da cabeça dele. Eu me esqueci do que foi que minha mãe disse e de como ela o convenceu a contar o que havia acontecido lá embaixo. Sua explicação também agora me escapa. Eu me lembro apenas da minha aflição e medo e da faixa brilhosa sobre a cabeça do meu pai refletindo a luz da lâmpada enquanto ele se ajoelhava junto à cama.</p>
<p>Quanto ao que aconteceu lá embaixo. Por alguma razão inexplicável, eu sabia a história tão bem como se tivesse testemunhado a descompostura do meu pai. Com o tempo se chega a saber muitas coisas inexplicáveis. Naquela noite o jovem Joe Kane, filho de um comerciante de Bidwell, veio a Pickleville encontrar seu pai, que era esperado no trem das dez vindo do sul. O trem estava três horas atrasado, e Joe entrou no restaurante para reclamar e esperar por sua chegada. O cargueiro local entrou na estação e os carregadores comeram. Joe ficou sozinho no restaurante com meu pai.</p>
<p>Desde o momento em que entrou em nosso estabelecimento, o jovem de Bidwell deve ter ficado estupefato com o comportamento do meu pai. A ideia dele era que meu pai estava irritado por ele ficar ali à toa. Ele notou que o dono do restaurante estava aparentemente incomodado com sua presença e pensou em sair. Contudo, começou a chover e ele não arriscou uma longa caminhada de volta para a cidade. Comprou um charuto barato e pediu uma xícara de café. Ele tinha um jornal no bolso, que tirou e começou a ler. “Estou esperando o trem da noite. Está atrasado”, ele disse se desculpando.</p>
<p>Por um longo tempo meu pai, a quem Joe Kane nunca tinha visto antes, permaneceu calado, olhando o visitante. Ele sem dúvida estava sofrendo um ataque de medo de palco. Como acontece tantas vezes na vida, ele havia pensado tanto e tão frequentemente na situação que agora o confrontava que ficou um tanto nervoso em sua presença.</p>
<p>Por um lado, não sabia o que fazer com as mãos. Ele enfiou uma delas nervosamente por cima do balcão e cumprimentou Joe Kane. “Como é que vamos”, ele disse. Joe Kane largou seu jornal e o encarou. Os olhos de meu pai se iluminaram por sobre a cesta de ovos em cima do caixa e ele começou a falar. “Bem,” ele disse hesitantemente, “bem, você já ouviu falar no Cristóvão Colombo, hã?” Ele parecia estar irritado. “Esse Cristóvão Colombo era um trapaceiro”, ele declarou enfaticamente. “Ele falava em fazer um ovo ficar em pé. Ele falava isso, sim, e aí ele foi e quebrou o fundo do ovo.”</p>
<p>Parecia ao visitante que meu pai estava fora de si quanto à duplicidade de Cristóvão Colombo. Ele resmungava e xingava. Ele declarou que era errado ensinar às crianças que Cristóvão Colombo era um grande homem quando, afinal, ele havia trapaceado no momento crítico. Ele declarava que faria um ovo ficar em pé, e então, quando aceitaram o blefe, ele fez um truque. Enquanto resmungava sobre Colombo, meu pai pegou um ovo da cesta no caixa e começou a andar pra cima e pra baixo. Ele rolava o ovo entre as palmas das mãos. Sorria genialmente. Começou a murmurar palavras a respeito dos efeitos produzidos sobre um ovo pela eletricidade transmitida pelo corpo humano. Ele declarou que, sem quebrar sua casca, e por força apenas de rolá-lo continuamente entre as mãos, ele conseguiria fazer o ovo ficar parado em pé. Ele explicou que com o calor das mãos e o lento movimento de rolagem ele dava ao ovo um novo centro de gravidade, e Joe Kane ficou levemente interessado. “Eu já manuseei milhares de ovos,” meu pai disse. “Ninguém sabe mais sobre ovos do que eu.”</p>
<p>Ele colocou o ovo no balcão e o ovo caiu deitado. Ele tentou o truque de novo e de novo, sempre rolando o ovo entre as palmas das mãos e falando sobre as maravilhas da eletricidade  e as leis da gravidade. Quando, depois de meia hora tentando, ele conseguiu fazer o ovo ficar de pé por um momento, percebeu que o visitante não estava mais olhando. Quando conseguiu chamar a atenção de Joe Kane para o sucesso dos seus esforços, o ovo já havia caído de novo e rolado para o lado.</p>
<p>Aceso com sua vontade performática e ao mesmo tempo bastante desconcertado com o fracasso de sua primeira tentativa, meu pai então tirou os frascos com as monstruosidades avícolas da prateleira e começou a mostrá-las ao visitante. “O que você acharia de ter sete pernas e duas cabeças como esse camaradinha aqui?”, ele perguntou, exibindo o mais notável dos seus tesouros. Um sorriso alegre apareceu em seu rosto. Ele passou o braço pelo o balcão e tentou dar um tapa no ombro de Joe Kane, como ele havia visto os homens fazerem no Ben Head’s Saloon, quando era um jovem granjeiro  e ia até a cidade nas noites de sábado. O visitante ficara um tanto enojado com a visão daquela ave terrivelmente deformada boiando no álcool do frasco, e se levantou para sair. Dando a volta por detrás do balcão, meu pai segurou o braço do jovem e o devolveu a seu assento. Ele ficou um pouco nervoso e por um momento teve que virar o rosto e forçar um sorriso. Então colocou os frascos de volta na prateleira. Numa demonstração de generosidade, ele bondosamente compeliu Joe Kane a aceitar outro charuto e uma xícara de café novo por conta da casa. Aí pegou uma panela e encheu de vinagre, que guardava num garrafão embaixo do balcão, e declarou que faria um outro truque. “Vou esquentar este ovo nesta panela de vinagre”, ele disse. “E aí vou passar o ovo pelo gargalo de uma garrafa sem quebrar a casca. Quando o ovo estiver dentro da garrafa ele vai voltar à sua forma normal e a casca vai endurecer de novo. Então vou te dar a garrafa com o ovo dentro. Você pode leva-la com você pra qualquer lugar. As pessoas vão querer saber como você colocou o ovo na garrafa. Não diga nada pra elas. Deixe que elas imaginem. É assim que você se diverte com esse truque.”</p>
<p>Meu pai sorriu e piscou para o visitante. Joe Kane decidiu que o homem a sua frente era meio louco, mas inofensivo. Ele tomou a xícara de café que havia ganho e começou novamente a ler seu jornal. Quando o ovo já estava quente no vinagre, meu pai o levou numa colher até o balcão e buscou uma garrafa vazia no quarto dos fundos. Ele estava irritado porque o visitante não o olhava fazendo seu truque desde o começo, mas mesmo assim continuou alegremente com o serviço. Por um longo tempo ele lutou, tentando fazer o ovo passar pelo gargalo da garrafa.  Ele colocou a panela de vinagre de volta no fogão, pensando em reaquecer o ovo, mas queimou os dedos quando o pegou. Depois de um segundo banho em vinagre quente, a casca do ovo amoleceu um pouco, mas não o suficiente para cumprir seu propósito. Ele tentou e tentou, e um espírito de determinação desesperada tomou posse dele.  Quando ele pensou que afinal o truque se consumaria, o trem atrasado entrou na estação e Joe Kane começou tranquilamente a andar até a porta. Meu pai fez uma última tentativa desesperada de vencer o ovo e fazer com que acontecesse aquilo que estabeleceria sua reputação como alguém que sabia divertir os clientes que viessem ao seu restaurante. Ele intimidou o ovo. Ele tentou ser algo rude com ele. Ele xingava e o suor começou a surgir em sua testa. O ovo quebrou em sua mão. Quando o interior estourou em suas roupas, Joe Kane, que havia parado na porta, virou as costas e saiu rindo.</p>
<p>Um rugido de raiva subiu da garganta de meu pai. Ele sapateou e gritou um cordel de palavras inarticuladas. Pegando outro ovo na cesta do caixa, ele o atirou, errando por pouco a cabeça do jovem, que se desviou pela porta e escapou.</p>
<p>Meu pai subiu as escadas até minha mãe e eu, com um ovo na mão. Eu não sei o que ele pretendia fazer. Imagino que ele tivesse alguma ideia de destruí-lo, de destruir todos os ovos, e que queria que eu e minha mãe o víssemos começar. Entretanto, quando se viu na presença de minha mãe, alguma coisa aconteceu com ele. Ele deixou o ovo gentilmente na mesa e caiu de joelhos perto da cama como eu já tinha explicado. Depois ele decidiu fechar o restaurante pela noite e vir para cima e ir para a cama. Depois que fez isso, ele apagou a luz e depois de muita conversa resmungada tanto ele quanto minha mãe foram dormir. Suponho que eu tenha ido dormir também, mas meu sono foi intranquilo. Eu acordei de madrugada e por um longo tempo eu olhei para o ovo em cima   da mesa. Eu imaginava por que os ovos tinham que existir e por que do   ovo saía a galinha que novamente botava o ovo.  A coisa entrou no meu   sangue. E ficou lá. Eu imagino, porque sou o filho do meu pai. De alguma   forma, o problema continua irresolvido em minha cabeça. E isto,   concluo, é apenas mais uma evidência do completo e definitivo triunfo do   ovo – pelo menos até onde isto diz respeito à minha família.</p>
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<p><strong>Sherwood Anderson</strong> (1876-1941), contista e romancista norte-americano, foi um dos precursores da chamada “Geração Perdida”. Amigo e leitor de Gertrude Stein, com quem manteve extensa correspondência, foi responsável pela publicação dos primeiros trabalhos de Hemingway e Faulkner, influenciando também escritores como Norman Mailer e J. D. Salinger. <em>O Triunfo do Ovo</em> foi publicado originalmente em 1920 pela revista <em>The Dial</em>, que no ano seguinte concedeu ao autor seu primeiro prêmio literário – seguido, em 1922, por T. S. Eliot. Em 1923, foi republicado sob o título <em>The Egg</em> [<em>O Ovo</em>], no volume <em>The Triumph of the Egg: A Book of Impressions from American Life in Tales and Poems</em>.  Como lembra Irving Howe no prefácio a <em>Winesburg, Ohio</em> (único livro de S. Anderson publicado no Brasil), <em>O Triunfo do Ovo</em> é “o maior de seus contos isolados (&#8230;) conseguindo unir uma superfície de farsa a uma insinuação de tragédia”, sendo uma “obra-prima americana”.</p>
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<p><strong>Mário Zeidler Filho</strong> (1982) é escrivão. Co-editou o falecido blog Ditirambo Zine, e colabora esporadicamente para a Revista Bula (<a href="http://www.revistabula.com">www.revistabula.com</a>) e para o Jornal Opção (<a href="http://www.jornalopcao.com.br">www.jornalopcao.com.br</a>), de Goiânia-GO, onde nasceu e vive.  E-mail: <a href="mailto:mariozfilho@gmail.com">mariozfilho@gmail.com</a></p>
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		<title>A dedicatória de Gullar</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 03:56:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor e editor <b>Gustavo Felicíssimo</b> mostra-nos a marca alva da poesia. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/Capa-Gullar-11.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85204" title="Capa Gullar 1" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/Capa-Gullar-11.jpg" alt="" width="500" height="342" /></a></p>
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<p>Poetas são pássaros de asas embalsamadas, praticam uma arte ao mesmo tempo efêmera (propícia para o voo) e permanente (favorável à queda), que apenas pode se afirmar no devir, ininterruptamente em construção, e na tentativa de se atravessar e ultrapassar a realidade experenciada, sempre acompanhados pela certeza da incompletude, mas com anseios à permanência. Por isso é que apenas o inaudito poderá ser matéria de poesia: o sopro da eternidade nos fatos, o aspecto aparentemente menos importante dos acontecimentos.</p>
<p>Poetas se revelam através da expressão retorcida, do significante reinventado, conferindo à linguagem um estado que vai além do horizonte do verbo, atribuindo assim um sentido distinto ao ordinário. Ou seja, poetas defendem a língua repugnando a linearidade da escrita dentro da qual se desenvolve.</p>
<p>Em 2010, se não me equivoco, fui a São Paulo com a finalidade de estar próximo, ainda que por alguns instantes, de um desses transgressores da palavra, do poeta brasileiro vivo que mais aprecio, cuja obra me parece traduzir as maiores preocupações e anseios do nosso povo, os maiores dilemas da arte e do artista na modernidade, um camarada que atravessou momentos cruciais da poesia, e porque não, da intelectualidade brasileira, assegurando para si um lugar de importância maiúscula entre os grandes, a respeito de quem Vinícius de Morais disse ser o <em>último grande poeta brasileiro</em>. E ainda que a assertiva do Poetinha não passe para alguns de uma blague, hoje não são poucos os especialistas que o consideram o maior poeta vivo do Brasil. Falo – meus amigos – do senhor José de Ribamar Ferreira. Mas podem tratá-lo, fraternalmente, pelo seu nome de guerra: Ferreira Gullar.</p>
<p>A coisa se deu mais ou menos assim. Há tempos precisava estar em São Paulo para cumprir alguns compromissos particulares, mas adiava e adiava a viagem pelo simples fato de não gostar muito de grandes deslocamentos e por preferir a cadeira na varanda de casa e o sorriso da minha filha que poltrona de avião. Esperei algum tempo até surgir ocasião adequada, em que pudesse transformar necessidade em oportunidade. Foi quando soube que Ferreira Gullar autografaria o livro <strong>Em alguma parte alguma</strong> numa livraria da capital paulista.</p>
<p>Nem se faz necessário dizer que a partir da compra das passagens minha vida se transformou em uma só apreensão e expectativa, ansioso que sou. E enfim chegou o dia. Dentro do avião eu só queria estar no chão. E estando na São Paulo que tanto me assombra com seu ritmo convulsivo eu só queria estar na minha Ilhéus.</p>
<p>Obrigações cumpridas, em prazo recorde, para na data anunciada poder estar lá, na fila, entre amigos e fãs de Gullar, à espera de uma dedicatória na folha de rosto do novo compêndio de poemas, alguns deles lidos e relidos ali mesmo, como o belíssimo “Fica o não dito por dito”, em que o poeta retoma um tema que lhe é muito caro, a reflexão sobre a escrita, sobre o fazer poesia, mais especificamente, e que resume o que o próprio autor vem afirmando nas entrevistas, que fazer poesia é tatear o indizível sabendo o que se quer dizer, pois como diz um verso desse poema: <em>é que só o que não se sabe é poesia</em>. Acrescentando que <em>o poeta inventa/ o que dizer/ e que só/ ao dizê-lo/ vai saber/ o que/ precisava dizer</em>. É poesia nascendo do espanto.</p>
<p>Salvo prova em contrário, essa faceta metalinguística da poesia de Gullar carece de estudo aprofundado, o que demonstraria facilmente a grande capacidade que o autor possui de teorizar sobre a poesia fazendo poesia, afinal quando o poeta assevera que <em>A poesia é, na verdade, uma/ fala ao revés da fala</em>, nada mais está fazendo que concordar, por exemplo, com um teórico como o Deleuze quando este diz em <strong>A literatura e a vida</strong> que <em>a língua está tomada por um delírio, que a faz precisamente sair dos seus próprios sulcos</em>, ou quando neste mesmo texto subsume as palavras de André Dhôtel quando este afirma que <em>a única maneira de defender a língua é atacá-la</em>. Ora, é desse “delírio” e desse “ataque” que os teóricos falam que o poeta sobrevive, refratando a realidade, ou se preferirem, dizendo as coisas como elas não são, e até como a sociedade não as enxerga. Esse consenso entre os teóricos e o poeta está claro nos versos acima, extraídos do poema “Falar”.</p>
<p>Outro poema que chama a atenção, talvez pela temática singular, imprevista até, e quem sabe inédita, é “Reflexão sobre o osso da minha perna”. De vestidura existencialista, traz uma dicotomia e até um estranhamento em relação à condição humana e leva-nos a especular que o poeta pode muito bem tê-lo escrito por conta de um assombro, um lampejo qualquer, causado por uma dor, uma surpresa que lhe tomou em hora inexata do dia (pois o poema não tem hora para acontecer) e o fez elucubrar sobre esse elemento que sustenta o nosso corpo servindo de apoio para os músculos, permitindo assim o movimento. Este osso, <em>dura mais do que tudo o que ouço/ e penso/ mais do que tudo o que invento</em>, reflete. Para rematar perguntando se <em>este osso/ (a parte de mim/ mais dura/ e a que mais dura)/ é a que menos sou eu?</em>.</p>
<p>Como aponta Alfredo Bosi em um dos textos introdutórios, <em>neste livro em que o velho e o novo alternam ou se misturam ganha força a intuição renovada do mistério sem margens das coisas</em>, referindo-se diretamente à segunda parte do livro, em que o novo na poesia de Gullar está presente através de uma temática que até então não se havia notado em sua obra, cuja percepção está balizada por conhecimentos gerados pela astronomia. São poemas como “Universo”, “O tempo cósmico”, “O espaço”, “ A relatividade eterna”, dentre outros que demonstram não apenas mais uma das faces formadoras da cosmovisão do autor, mas também como um poeta, já na casa dos 80 anos, continua a renovar-se e a renovar a poesia, ofertando-a um pouco mais de oxigênio, novos instrumentos para a imaginação.</p>
<p>Tudo isso torna fácil concordar com Sérgio Buarque de Holanda quando afirma que <em>em Gullar a voz pública não se separa em momento algum de seu toque íntimo, de seu timbre pessoal, de esperanças e desesperanças</em>, por isso é que se pode afirmar que esse espaço de onze anos que cumpriu-se entre <strong>Em Alguma Parte Alguma</strong> e o livro anterior, é tempo demais para quem admira a potencia verbal, a consciência literária e o compromisso com a vida que emanam deste poeta tão importante para o Brasil.</p>
<p>Melhor que eu volte ao relato sobre o lançamento do livro, sob pena desta crônica se transformar em algo diverso daquilo que pretendia originalmente. Que o leitor generoso me desculpe.</p>
<p>Para aquela noite de autógrafos levei comigo um livro que tenho como um troféu, uma das raridades da minha modesta biblioteca, um exemplar da primeira edição do clássico <strong>Poema Sujo</strong> que, escrito na Argentina, durante o exílio, evoca a São Luís da infância do poeta e das mais ternas sensações, obra que, segundo a crítica, alçou definitivamente o nome de Gullar ao rol dos grandes nomes da literatura brasileira.</p>
<p>O evento foi agradável e concorrido. Logo na entrada da livraria, que fica na sede da editora, um banner com a imagem do autor e a capa do livro. Por volta das 20 horas chega o poeta, já octogenário, magro e menor que imaginava. Cumprimentou algumas pessoas, trocou rápidas palavras com outras e logo tomou assento.</p>
<p>Embora o público fosse grande, pelo menos para o lançamento de um livro, a espera foi curta. Chegada minha vez, não disse palavra alguma. Entrego-lhe o livro mais recente. Gullar pergunta meu nome e sapeca a dedicatória: Para Gustavo, com carinho. Imediatamente após, passo-lhe às mãos o meu exemplar de <strong>Poema Sujo</strong>. Dessa vez o poeta para e, surpreso, olha-me nos olhos e pergunta: Gustavo, não é? Respondo-lhe sem pestanejar: Sim, poeta, Gustavo Felicíssimo. É seu sobrenome mesmo, filho? Respondi-lhe brevemente, dizendo apenas que sim, e que também arriscava alguma poesia. Gullar silenciou, pensou um instante e então, a dedicatória: Para Gustavo Felicíssimo, que me traz a marca suja da vida.</p>
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<p><strong>Gustavo Felicíssimo </strong>é escritor, editor da Mondrongo Livros<strong><em> </em></strong>(<a href="http://www.mondrongo.com.br">www.mondrongo.com.br</a>) e graduando em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. E-mail: <a href="mailto:gfpoeta@hotmail.com">gfpoeta@hotmail.com</a></p>
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		<title>Coleção Patuscada</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/colecao-patuscada</link>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 02:11:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Lançamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[A <b>Editora Patuá</b> lança coleção Premiada 
pelo ProAC 2012. Publicará 12 livros de <b>12 autores inéditos</b> em 2013.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/preview_peabaixa.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85170" title="preview_peabaixa" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/preview_peabaixa.jpg" alt="" width="309" height="407" /></a></p>
<p>A <strong>Editora Patuá</strong> lançará, no dia 23 de maio a partir das 19h, os dois primeiros títulos de poesia da <strong>Coleção Patuscada</strong> &#8211; que publicará, ao longo dos próximos meses, 12 livros de poesia de  autores inéditos. Nesta primeira leva, os livros lançados serão <em>Poemas em autoplágio</em>, de Wilson Caritta e <em>Domingo no matadouro</em>, de Marcelo Pierotti. O lançamento acontecerá no Bar Canto Madalena, Rua Medeiros de Albuquerque, 471 &#8211; São Paulo &#8211; SP.</p>
<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/preview_dmbaixa.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85171" title="preview_dmbaixa" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/preview_dmbaixa.jpg" alt="" width="309" height="407" /></a></p>
<p>A <strong>Coleção Patuscada</strong> recebeu o prêmio <strong>ProAC &#8211; 2012 </strong><em>- Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo</em>. O prêmio possibilitará a publicação de 12 títulos de poesia de autores inéditos. As tiragens iniciais serão de 1.500 exemplares de cada título, totalizando 18.000 exemplares impressos no fim do projeto. Desse total, 3.600 exemplares (20% de exemplares impressos de cada título) serão distribuídos gratuitamente para as Bibliotecas Públicas do Estado de São Paulo. Os livros também estarão com preços populares de R$ 25.00 nos lançamentos.</p>
<p>Conheça os 12 autores selecionados!</p>
<p><strong>• </strong>Ana Peluso<strong><br />
• </strong>Aline Rocha<strong><br />
• </strong>Anderson Petroni<strong><br />
• </strong>Cel Bentin<strong><br />
• </strong>Carina Castro<strong><br />
• </strong>Caio Carmacho<strong><br />
• </strong>Leo Chioda<strong><br />
• </strong><a title="Página do Autor: Wilson Caritta Lopes" href="http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=170" target="_blank">Wilson Caritta Lopes</a><strong><br />
• </strong>Susanna Busato<strong><br />
• </strong>Luiz Brener<strong><br />
• </strong><a title="Página do Autor: Marcelo Pierotti" href="http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=172" target="_blank">Marcelo Pierotti</a><strong><br />
• </strong>Vanessa Reis<strong><br />
</strong><br />
Além disso, após 3 meses de cada lançamento, os e-books ficarão disponíveis para download gratuito no site da Revista Germina Literatura: <a href="http://www.germinaliteratura.com.br/" target="_blank">www.germinaliteratura.com.br</a>.</p>
<p>A edição da<strong> </strong><strong>Coleção Patuscada</strong> é de Aline Rocha, poeta e pesquisadora em Teoria Literária cujo livro <em>Gravando</em> também integrará a coleção; e de Eduardo Lacerda, poeta, produtor cultural e coeditor de diversos periódicos literários, como o jornal <em>O Casulo</em>. As ilustrações das capas, projetos gráficos e diagramação de toda a coleção serão do artista Leonardo Mathias.</p>
<p>O próximo lançamento da <strong>Coleção Patuscada</strong>, dos escritores <em>Susanna Busato</em> e Leo Chioda, acontecerá dia 21/06 na <em>Casa das Rosas &#8211; Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura</em>. Em seguida serão lançados, sempre em duplas, livros dos poetas Carina Castro, Vanessa Reis, Luiz Brener, Anderson Petroni, Caio Carmacho, Cel Bentin, Ana Peluso e Aline Rocha.</p>
<p>A <strong>Editora Patuá</strong> completou 2 anos de atividades em fevereiro deste ano e já chegou a 100 títulos publicados, com quase 70% de seu catálogo de poesia.</p>
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<strong>Serviço:</strong></p>
<p><strong>O que:</strong> Lançamento dos livros da Coleção Patuscada: <em>Poemas em autoplágio</em>, de Wilson Caritta e <em>Domingo no matadouro</em>, de Marcelo Pierotti</p>
<p><strong>Quando:</strong> Dia 23/05 a partir das 19h</p>
<p><strong>Onde:</strong> Bar Canto Madalena &#8211; Rua Medeiros de Albuquerque, 471 &#8211; Vila Madalena &#8211; São Paulo &#8211; SP</p>
<p><strong>Quanto:</strong> A entrada para o evento é gratuita e os livros estarão à venda por R$ 25.00 cada exemplar (pagamento apenas em dinheiro ou cheque)</p>
<p><strong>Informações:</strong> (11) 949530275 (Eduardo Lacerda) / (11) 970220339 (Aline Rocha), através do e-mail <a href="mailto:editorapatua@gmail.com" target="_blank">editorapatua@gmail.com</a>ou através do site <a href="http://www.editorapatua.com.br/" target="_blank">www.editorapatua.com.br</a></p>
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		<title>João Antônio, e só!</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/joao-antonio-e-so</link>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 01:34:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[LER É VER]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #58]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor e crítico <b>Paulo Bentancur</b> 
escreve sobre <i>Contos reunidos</i>, de <b>João Antônio</b>. Vale conferir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/contos-reunidos_livro.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85152" title="contos reunidos_livro" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/contos-reunidos_livro.jpg" alt="" width="350" height="530" /></a></p>
<p><em> </em></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>João Antônio Ferreira Filho (27/01/1937 – 31/10/1996) nasceu em São Paulo, capital, no então subdistrito de Osasco, hoje município emancipado, em 52. Descendia direto de imigrante português, o pai, vindo de Trás-os-Montes, nordeste de Portugal. Menino de periferia, viveu num tempo em que era possível não apenas cruzar, mas conviver com a chamada marginalia sem os riscos que hoje isso representa. Biscateiros, desempregados, pedintes, crianças abandonadas ou quase, operários do trabalho mais pesado, prostitutas, soldados de precário autoritarismo, jogadores de sinuca (que ele aproveitou como ninguém no livro de estreia, <em>Malagueta, Perus e Bacanaço</em>, de 1963), guardadores de automóvel, surfistas ferroviários, gente, enfim,  que se reúne nos cenários da periferia, vilas e favelas com seus botequins, seus campos de pelada e as diversas corriolas do vício e do crime. A tanto não chegou na convivência direta, mas mais tarde, como jornalista, assim que se formou, foi atrás dessas raízes onde buscou material para o conjunto de sua obra. A parte literária mais importante presente em <em>Contos reunidos</em>.</p>
<p>Volume extremamente bem organizado, reúne sua contística <em>Malagueta&#8230;</em>, <em>Leão de chácara</em> (1975), <em>Dedo-duro</em> (1982) e <em>Abraçado ao meu rancor</em> (1986), além dos dispersos e inéditos. Não bastasse material tão “nobre”, completa essa edição caprichada (rotina em se tratando da editora, que faz acompanhar a obra uma caderneta, <em>Vocabulário das ruas</em>, “recolhido por João Antônio”), dois perfis jornalísticos com forte influência do <em>new jornalism</em>, em que matérias produzidas direto para jornais recebem uma linguagem ficcional, caso de <em>Um herói sem paradeiro</em>, com dois perfis. Há ainda um <em>João Antônio por ele mesmo</em>, em que o autor depõe sobre sua personalidade e especificamente o primeiro livro e <em>Abraçado ao meu rancor</em>, com o qual encerraria o ciclo de contos, provavelmente embretado num projeto estético-antropológico que já começava a não fazer sentido nos novos ares políticos brasileiros, segundo bem observa Rodrigo Lacerda, na “Apresentação”. <em>Contos reunidos</em> traz também uma <em>Fortuna crítica</em>, com a qual nossa leitura encontra uma ressonância mais forte através da análise tão arguta de, por exemplo, Antonio Candido, em “Na noite enxovalhada”, e Alfredo Bosi, com seu artigo “Um boêmio entre duas cidades”.</p>
<p>As cidades são simplesmente as “capitais culturais e econômicas” do País, São Paulo, de onde brotou toda a semente amarga da obra do escritor, e Rio de Janeiro, quando ele pode expandi-la mais, onde também morou, trabalhando nas redações do <em>Jornal do Brasil</em>, da <em>Manchete</em> e <em>Fatos e Fotos</em>. A carreira jornalística, aliás, sustentou João Antônio até o início dos anos 1970, tendo ele feito parte da equipe da prestigiosa revista <em>Realidade</em>. Onde durou o mesmo tempo que a linha editorial num “corpo a corpo com a vida” – expressão cunhada por ele para todo e qualquer produção textual sua –, e que logo, por pressões políticas e de anunciantes, teve de atenuar pautas, linguagem, até chegar ao ponto de trocar toda a equipe, inclusive o editor, obviamente.</p>
<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/contos-reunidos.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-85154" title="contos reunidos" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/05/contos-reunidos.jpg" alt="" width="400" height="613" /></a><br />
[O que "Contos reunidos" tem a ver com o russo Ivan Gontcharóv? <a href="http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=13283">Veja aqui</a>]</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>De Lima Barreto a Graciliano Ramos<br />
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</strong>Com 26 anos, morando ainda com os pais, chegava à sua casa três escritores, membros da comissão julgadora que lhe consagrara com o Prêmio Jabuti. Um deles, Ricardo Ramos, também escritor (hoje esquecido), filho de Graciliano. Ricardo, se não herdara o talento do pai como literato, herdara o de bom leitor. E reconheceu de imediato um estilo, mais que uma ótica, que lembrava a escrita a carvão do autor de <em>Vidas secas</em>. Menos poetizada (a poesia da prosa cortante), mas capaz de uma síntese onde toda uma humanidade de situações e personagens cabia num parágrafo, às vezes numa frase.</p>
<p>Não bastasse, ao estilo impositivo soma-se uma renovação alimentada por uma fala particularmente popular. Sem a frouxidão desta, mas bebendo da mesma fonte, e fonte das mais fundas. Gírias são agregadas. Frases em 3ª pessoa do singular que antes nenhum escritor teria a ousadia de escrever senão na 1ª pessoa, e na voz de um pingente.</p>
<p>Sem disfarçar, nunca!, João Antônio trazia à tona o que Lima Barreto trouxe na abertura do século XX. A periferia. Uma voz brasileira como nunca antes pudéramos ler. Após a estada no Rio, João Antônio começa a dedicar todos seus livros para “Afonso Henriques de Lima Barreto / pioneiro /consagro”, variando a forma mas não o sentido. Filiava-se, deste modo, sem esperar que a crítica o empurrasse para algum cânone ou o esquecimento.</p>
<p>Não há como. Seu realismo empurra o que seriam contos (como “Malagueta, Perus e Bacanaço”), com suas 42 páginas, para a estrutura de uma novela, tantos são os elementos utilizados na composição dessa história de três perdidos numa noite suja, para lembrarmos um outro autor (neste caso do teatro) da mesma família, Plínio Marcos. “Paulinho Perna Torta”, emblema irretocável do malandro carioca, com suas mais de trinta páginas, numa diagramação especial virou livro-solo, novela. Mesmo antes sendo um dos contos de <em>Leão de chácara</em>.</p>
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<p><strong>Esquecimento – Pausa</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Atravessando a década de 1990 como um nome datado, para alguns até mesmo superado – provavelmente pela radicalidade com que se armou até os dentes o mundo então quase inocente que ele flagrara trinta anos antes –, sem contar a expansão de uma literatura para a classe média, que o autor, militante dos miseráveis, desprezara, como um mundo medíocre do qual nada podia sair, até morrer passou os últimos anos organizando coletâneas com material requentado, produtos híbridos se comparados com o que fizera até então. E o que fizera até então está incólume em <em>Contos reunidos</em>, tão datado quanto datados são Lima Barreto, Graciliano Ramos e todo o artista fiel a seu tempo.</p>
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<p><em>Serviço</em></p>
<p>Título: <strong><em>Contos reunidos</em></strong><br />
Autor:<strong> João Antônio</strong><br />
Apresentação:<strong> Rodrigo Lacerda; </strong>fortuna crítica:<strong> Antonio Candido, Tânia Macedo, Jorge Amado, Paulo Rónai e Alfredo Bosi</strong><br />
Ilustrações: <strong>Carlos Issa</strong><br />
Editora: <strong>Cosac Naify</strong><br />
Páginas: <strong>608</strong></p>
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<p><strong><span style="color: #ffffff;">;</span><br />
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<p><strong>Paulo Bentancur</strong> (Santana do Livramento, RS, 1957; mora em Porto Alegre há 45 anos) é escritor de diversos gêneros. <em>Instruções para iludir relógios</em> (prosopoemas, 1994), <em>Bodas de osso</em> (poemas, 2005), <em>A solidão do Diabo</em> (contos, 2006), <em>Três pais</em> (infanto-juvenil, 2009), além da coleção <em>Brincando de pensar (2001)</em>,   sobre gênios do conhecimento humano tanto na filosofia quanto na arte,   recontados para pré-adolescentes. Crítico literário, colabora na   imprensa cultural do País desde o início da década de 1980. Teve textos   publicados na Argentina, México e Itália. Ganhou cinco vezes o prêmio   Açorianos de literatura, nas categorias infantojuvenil, poesia e   especial (livros de gênero inclassificável). Ministra oficinas de   criação literária on line e individual em seis gêneros (conto, romance,   crônica, poesia, infantojuvenil e ensaio). Foi jurado de diversos   concursos entre os quais o Prêmio Jabuti na categoria romance. Site: <a href="http://www.artistasgauchos.com.br/paulob">www.artistasgauchos.com.br/paulob</a>. E-mail: <a href="mailto:bentancur@uol.com.br">bentancur@uol.com.br</a></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Serial killer de pernilongo</title>
		<link>http://www.musarara.com.br/serial-killer-de-pernilongo</link>
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		<pubDate>Tue, 30 Apr 2013 20:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS DE POETA]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[O poeta e polígrafo <b>Ulisses Tavares</b> 
escreve sobre a "vidinha" dos pernilongos. Coluna: COISAS DE POETA.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/04/pernilongo-fode-a-vida.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-83682" title="pernilongo fode a vida" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/04/pernilongo-fode-a-vida.jpeg" alt="" width="350" height="496" /></a></strong></p>
<p><span style="color: #ffffff;"> .</span></p>
<p>Já fui mordido por cachorro. Ene vezes. Felizmente tive de tomar vacina antirrábica numa ocasião apenas. E foi na época em que a vacina era aplicada com várias injeções na barriga. A injeção doía mais que a mordida. Nem por isso peguei raiva (o sentimento, não a doença) dos cães.</p>
<p>Cachorros soltos nas ruas tinham em mim, um moleque também criado solto nas ruas, um protetor ou um alvo. Depois de grande, já ativo resgatador de cães abandonados, volta e meia levava uma mordidinha de brinde, nada grave. Coisas, digo, dentadas, do ofício.</p>
<p>Coices de cavalos, muitos também, quase rotina na minha temporada de sitiante plantador de cebolas na primitiva cidade de Piedade. Sem grana para o luxo de um trator, arávamos a terra com tração animal. Queria ver um desses encantadores de cavalos dos filmes e documentários convencer um cavalo xucro (especialmente mulas) a puxarem placidamente um arado. Era, com razão cavalar, corcovear e coices pra todo lado, especialmente o meu lado das coxas.</p>
<p>Mas minhas lembranças dos cavalos, mesmo assim, são doces e bonitas. Um deles, baio baixinho e troncudo, conhecido na região como derrubador de valentes peões, acalmava-se instantaneamente quando meu filho, então com dois anos, era colocado em seu dorso. Vinha gente de toda região se abismar com a cena. Aquele cavalo, “selvagem” entre aspas, era todo delicadeza com o menininho que se agarrava em sua crina para não cair. E, quando meu filho estava no chão, ele não deixava ninguém se aproximar do garotinho.</p>
<p>A seu modo, o baio era mais pai protetor que eu.</p>
<p>Nunca esquecerei, ainda, quando a égua do vizinho deu cria a uma éguinha manquitola. A acolhi, tratei na mamadeira e só me arrependo de tê-la deixado entrar em casa, o que ela continuou fazendo, já bem grandona, para se aquecer em frente a lareira. Limpar cocô de cachorro é fichinha perto de cagada de cavalo no meio da sala.</p>
<p>De aranhas aprendi a gostar e a não temer desde a infância, quando meu pai me levava para seu pesqueiro em Angatuba. Ali, tinha esses seres em todos os lugares, dentro e fora da cabana. Sei diferenciar as picadas aracnídeas e seus riscos. Quanto maior a aranha, mais dolorida, mas sem perigo. Uma pomadinha resolve. As pequeninas e rajadas podem ser até letais, eu as evitava, claro. Nunca desenvolvi o medo de aranhas, nem, ainda bem, das metafóricas, aquelas que designam os genitais das fêmeas humanas.</p>
<p>Recentemente, tive uma experiência interessante com uma aranha peludona que escolheu o armário de minha despensa para trocar de pele e, dias depois, dar a luz pontinhos pretos cheios de perninhas e vitalidade.</p>
<p>Sumiram a mãe e sua prole, de repente, e minha admiração se fez plena ao descobrir que não sumiram minhas paçoquinhas (meu vício número mil e um) nem meu estoque de biscoitos de polvilho (meu vício número mil e dois). Isso contou pontos a favor das aranhas.</p>
<p>Se fosse o Homem Aranha escondido lá dentro não estaria eu tranquilo em relação a meus docinhos prediletos.</p>
<p>Das cobras, fui vítima apenas uma vez, nadando em uma represa lá em João Pessoa. Era uma coral. Para meu alívio, sem veneno. Morar em praias e restingas de João Pessoa, Salvador e Rio de Janeiro, me tornaram um seguidor da sabedoria prática de pescadores e mateiros: no mar, andar arrastando os pés para espantar arraias e, no mato, andar de botas e com passos pesados para espantar cobras. Cobras são cegas e “enxergam” as vibrações do solo. Se você pisa forte avisando que está vindo, elas fogem.</p>
<p>Aliás, de todos os bichos que conheço, o único realmente traiçoeiro e imprevisível é o bípede humano. Com esse espécime todo cuidado é pouco.</p>
<p>De abelhas enfurecidas (o truque é ficar parado, nada de correr, gente), a carrapatos sugadores (aqui o lance é usar um raminho de vassourinha ou erva de são joão atrás da orelha, os diabinhos grudam no raminho e esquecem sua pele), passando por insetos voadores e sugadores diversos (citronela até que funciona, pero no mucho), fui testado até por macacos sem vergonhas. Morei anos na reserva ecológica de São Lourenço da Serra e os macacos adoravam comer direto nas panelas se a gente deixava as janelas abertas. Um, mais atrevido, me mordeu a mão.</p>
<p>Passando seis meses nas primeiras aldeias mudadas para o Parque do Xingú, nos tempos heroicos dos irmãos Villas-Boas e dos utópicos como o tal do Ulisses aqui, foi que caiu a ficha de vez: terrível mesmo é o pernilongo. Eita, bicho chato. E enigmático.</p>
<p>Qualquer um que não seja bobocamente dominado pelo esteriótipo do índio romanticamente integrado e preservador da natureza (nunca vi, tirando nós, os índios civilizados, ao vivo e a cores, um comportamento mais predador que o dos índios em relação a fauna e a flora) sabe muito bem que a vida na selva é de testar a paciência de um Jó bíblico.</p>
<p>Não pelos perigos da natureza, que isso índio tira de letra. E tira literalmente, tanto que, sabem os geógrafos, quando os portugas predadores chegaram aqui os nativos já haviam acabado com metade da mata atlântica.</p>
<p>Problema são os malditos pernilongos. De todos os tipos, tamanhos e voracidade.</p>
<p>Eles são iguais aos nossos branquelos banqueiros: sugam nosso sangue 24 horas, sem parar.</p>
<p>Um inferno que nem os índios resolveram, com seus 6 mil anos de sociedade estática e comodista e repetitiva. Vão na base do tapinha mesmo ou na fumarenta fogueira.</p>
<p>E nem eu resolvi até hoje, em pleno século dito 21.</p>
<p>Antigamente, quando hippie em Parati, untava minha pele de urucum na tentativa de repelir esses pequenos leviatãs. Conseguia era ficar todo descascado e coçado.</p>
<p>Priscas eras, na Índia, (novamente eu, iludido, não enxergava a crueldade nua e crua grudada e disfarçada na espiritualidade indiana) vi uma solução funcional e nojenta: os saniasis, homens santos, aqueles que perambulam pelados, despreendidos ou mansos psicóticos, cobrem seus cabelos com bosta seca de vaca, repelente natural. Para eles, dá certo. Em mim, repeleria os amigos e musas.</p>
<p>Pano rápido, aqui e agora.</p>
<p>Trabalho em casa, poeta 24 horas que sou, por sobrevivência e gosto. Preferia que fossem seis horas por dia, mas daí não pago os impostos e me enchem de multas e cobranças. O feijão externo impera sobre o sonho interno. Me equilibro na lâmina da faca milenar de Eros e Tanatos.</p>
<p>Minha casa é pequena mas bem bacaninha, com quintal cheio de flores, passarinhos e computador último tipo.</p>
<p>Adoro escrever com pouca roupa, pelado se não estiver esperando visitas.</p>
<p>Os passarinhos citadinos de meu quintal são da geração maquidonald e preferem as frutas que coloco pra eles todas manhãs em vez de caçar os pernilongos.</p>
<p>A única habitante, além de mim, que trabalha nesse sentido é a tetraneta da Genovava, minha lagartixa de estimação.</p>
<p>Só que ela não dá conta dos enxames de pernilongos que atacam minhas partes expostas a sua sanha alimentar.</p>
<p>Daí, encurralado, comprei e muito uso uma raquete elétrica que eletrocuta os invasores.</p>
<p>Putz, prá quê?</p>
<p>Fiquei, como budista, espremido entre minhas convicções e minha prática cotidiana.</p>
<p>Budista não pode matar nenhum ser senciente. Ou seja: qualquer ser vivo, pois todos tem a mesma capacidade de sentir prazer, dor e medo.</p>
<p>E o pernilongo, gostemos ou não, está nessa categoria, como todos os outros que voam, nadam, rastejam ou andam na face da Terra.</p>
<p>Pior é que adoro quando extermino com esses insetos. Plac, plac, bzz, bzz.</p>
<p>Posso estar, budisticamente falando, matando meus antepassados reencarnados.</p>
<p>Pesquisando, meditando e tentando saída para essa escolha de Sofia, dilema ético, não achei nada a favor dos pernilongos.</p>
<p>Eles, em suas mais de duas mil variações, matam (por serem vetores de doenças) cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, por ano, malária, dengue etecétera. Nas ilhas do Caribe, século 19, acabaram com todos mamíferos.</p>
<p>O problema é que não são eles, mas elas. Apenas as fêmeas pernilongais nos sugam, e contaminam, o sangue.</p>
<p>Os machos lambem e se alimentam da seiva das plantas, pacificamente.</p>
<p>Como é que eu posso saber se não matei o pernilongo errado para me defender?</p>
<p>Sei lá. É a primeira vez que odeio e ataco um animal, um ser vivo, em toda a minha vida.</p>
<p>Nem ainda consegui resposta para o que serve um pernilongo na cadeia alimentar natural.</p>
<p>Parece que pra nada, exceto seus propósitos de se perpetuar.</p>
<p>Um mistério a ser decifrado, já que surgiram há milhões de ano e continuam aí, como as baratas e as bundudas alienadas dos bebebês televisivos.</p>
<p>Fiz até um poeminha pra essa praga: “Nada sei/sobre a vidinha do pernilongo/que mato, indiferente, na parede/Mas desconfio/Que era a única que ele tinha.”</p>
<p>Epitáfio deles, pedido de perdão meu.</p>
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<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Ulisses Tavares</strong> é um pernilongo confuso sobre seu papel no mundo. Coisas de poeta. E-mail<a href="mailto:%20uuti@terra.com.br">: uuti@terra.com.br</a></p>
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		<title>Passagem para a Vida</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Apr 2013 19:43:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[RESENHISTA, As anotações do.]]></category>
		<category><![CDATA[Revista #57]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor e jornalista <b>Cláudio Portella</b> 
escreve sobre o livro <i>Passageiro do Fim do Dia</i>, de <b>Rubens Figueiredo</b>.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Passageiro-do-fim-do-dia-CAPA.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-83659" title="Passageiro do fim do dia CAPA" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Passageiro-do-fim-do-dia-CAPA.jpeg" alt="" width="500" height="746" /></a></p>
<p><strong><span style="color: #ffffff;">.</span></strong></p>
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<p>Rubens Figueiredo é um tradutor tarimbado. Professor de tradução. Só para Companhia das Letras, traduziu mais de 40 livros. Também é escritor premiado – já ganhou dois Jabutis. A palavra aventura é a mais adequada para descrever o novo romance de Figueiredo. Uma aventura pra dentro, quase clichê, uma aventura interior. Pedro é um moço de quase trinta anos que toda sexta-feira pega o mesmo ônibus para visitar a namorada. Ele é nosso anti-herói, nosso herói devolvido. E, no itinerário do ônibus, Pedro viaja nas minúcias dos corpos dos passageiros, em seus defeitos físicos e em seus hábitos. São pensamentos voláteis que podem voltar a qualquer momento como um bumerangue perdido.</p>
<p>A ideia de um romance que se passa num ônibus não é original. Mas é justamente essa facilidade que Rubens Figueiredo procura. E atinge. Não somente com a linguagem simples, coloquial até, mas com a identificação do cotidiano de pessoas humildes, trabalhadores braçais que moram nas periferias das metrópoles. O romance não faz referência a nenhuma cidade. Mas fica claro que a cidade em questão é (a do autor) o Rio de Janeiro. Isso fica óbvio quando o narrador descreve os conflitos civis e a geografia acidentada (muitos morros) do local. Há uma tensão que começa no ponto de embargue e segue por todo o trajeto. A tensão de um povo em pânico, de bairros em chamas, com ônibus incendiados, barricadas e muitas fogueiras nas periferias.</p>
<p>Pedro (vale lembrar que Rubens Figueiredo publicou em 2006, o livro <em>Contos de Pedro</em>, em que o personagem central de cada conto se chama Pedro) está indo para o Tirol. O Bairro mantém um conflito armado com a vizinhança da Várzea. No percurso, ler um livro que relata uma visita do cientista Charles Darwin à cidade em questão. Pedro vai traçando um paralelo entre a cidade no tempo em que o cientista inglês visitou, há uns 200 anos, e a cidade como está agora. O paralelo parece se estender aos humanos, aos pobres que tiveram de se adaptar e resistir a tudo para permanecer sobrevivendo, numa espécie de teoria da seleção natural de Darwin.</p>
<p>Impressiona como o autor retrata com precisão o cotidiano dos mais pobres. Inclusive com uma crítica velada aos planos assistências do governo. Exemplo disso é quando o pai e a tia da namorada de Pedro, por conta de um cartão alimentação que não funciona, são obrigados a repor nas prateleiras de um supermercado uma a uma as mercadorias que não conseguiram adquirir. O retrato do drama dos brasileiros pobres vem acompanhado do retrato do pobre na sua maneira de ser e de viver. Um pobre retratado sem caricaturas, sem dramas psicológicos.</p>
<p>No livro de Darwin aparece algumas vezes a luta entre a vespa e a aranha. Predador e presa. Assim como, também dentro do ônibus, Pedro lembra de várias passagens, contadas por sua namorada, de exploração entre proprietários e proletariados. Com analogias do gênero, o autor faz radiografia da população mais carente do país. A sucessão de pensamentos de Pedro dentro do ônibus é muito rápida: num momento está lembrando de um conflito entre vendedores ambulantes e a polícia, no qual ele saiu ferido e com uma pequena sequela; num outro está passando toda a trama de um jogo de computador. Algumas lembranças, e são justamente as lembranças que formam o romance, são demasiadamente longas. Em outras passagens, o autor se detém em detalhes desnecessários. As lembranças muito longas e a ênfase nas minúcias, às vezes, causam um pouco de enfado ao leitor. Com exceção desse preciosismo, o livro traça retrato irretocável da periferia carioca.</p>
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<p><strong>PASSAGEIRO DO FIM DO DIA / RUBENS FIGUEIREDO / COMPANHIA DAS LETRAS / 200 PÁGS.</strong></p>
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<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><strong>Cláudio Portella</strong> é escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Colabora nas mais importantes publicações do Brasil e do exterior. E-mail: <a href="mailto: clautella@ig.com.br">clautella@ig.com.br</a></p>
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		<title>Diálogo AO VIVO</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Apr 2013 20:47:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Redação #56]]></category>

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		<description><![CDATA[Acompanhe agora (às 19h30) o diálogo 
com o poeta e tradutor <b>Claudio Willer</b>, direto da <b>Casa das Rosas</b>.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/04/jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-82627" src="http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2013/04/jpg" alt="" width="500" height="707" /></a></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Acompanhe o diálogo aqui: <a href="http://mandebemnoenem.com/plataforma/ao-vivo"><strong>http://mandebemnoenem.com/plataforma/ao-vivo</strong></a></p>
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<p><span style="color: #ffffff;"><strong>.</strong></span></p>
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<p><strong>Claudio Willer</strong> (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela representada pelo surrealismo e geração beat. Publicou <em>Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia</em>, ensaio (Civilização Brasileira, 2010); <em>Geração Beat</em> (L&amp;PM Pocket, coleção Encyclopaedia, 2009); <em>Estranhas Experiências,</em> poesia (Lamparina, 2004); <em>Volta</em>, narrativa (terceira edição em 2004); <em>Lautréamont &#8211; Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas</em> (Iluminuras, nova edição em 2008) e <em>Uivo e outros poemas</em> de Allen Ginsberg (L&amp;PM Pocket, nova edição em 2010). Teve publicados, também, <em>Poemas para leer en voz alta </em>(Andrómeda, Costa Rica, 2007) e ensaios na coletânea <em>Surrealismo</em> (Perspectiva, 2008). É autor de outros livros de poesia – <em>Anotações para um Apocalipse</em> (Massao Ohno, 1964), <em>Dias Circulares</em> (Massao Ohno, 1976) e <em>Jardins da Provocação</em> (Massao Ohno / Roswitha Kempf, 1981) – e da coletânea <em>Escritos de Antonin Artaud</em>, todos esgotados. Aguarda publicação de <em>A verdadeira história do século XX</em>, poesia (Annablume) e <em>Manifestos</em> (Azougue). Poemas em grande número de antologias e inúmeros magazines e periódicos literários, no Brasil e outros países. Presidiu por vários mandatos a UBE, União Brasileira de Escritores. Trabalhou em administração cultural, inclusive como Coordenador da Formação Cultural na Secretaria Municipal de Cultura (1993-2001). Doutor em Letras na USP com <em>Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna </em>(2008), fez pós-doutorado na mesma universidade sobre <em>Religiões Estranhas, Hermetismo e Poesia</em>, onde também ministrou, como professor convidado, um curso de pós-graduação sobre surrealismo e outro de extensão cultural sobre a Geração Beat. Coordena oficinas literárias; ministra cursos e palestras sobre poesia e criação literária. Prepara um livro sobre surrealismo e uma coletânea de ensaios sobre misticismo e poesia. Mais informações em <a href="http://claudiowiller.wordpress.com/">http://claudiowiller.wordpress.com/</a></p>
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