Espontaneidade aparente


.

Uma vez perguntaram ao contista Luiz Vilela se a naturalidade dos diálogos em seus livros vinha de um gravador ligado embaixo das mesas de bar. Ele explicou que parecer espontâneo dá muito trabalho. O bom escritor deve ter ótima memória, por certo, mas não é só isso. Deve saber recriar o modo como as pessoas falam (e não me refiro a regionalismos ou gírias): diálogos entrecortados que voltam atrás, que deixam frases incompletas, que se repetem… E por cima dessa base que poderíamos chamar de jornalística ou documental o autor projeta os efeitos propriamente literários, os subentendidos, os equívocos, a tensão e as emoções dos falantes, as elipses.

Quem já tenha precisado transcrever entrevistas gravadas acaba percebendo o quanto o nosso discurso oral é acidentado, cheio de falsos começos, de lacunas, de coisas ditas pela metade porque são completadas por um gesto, uma expressão facial, um simples olhar.  A imprensa reconhece isto, e hoje em dia usa-se muito a inserção de ressalvas tipo “risos”, “longa pausa”, “com veemência”, etc. para dar conta desse lado visual da oralidade, que as palavras nunca cobrem por inteiro.

Tudo isso é um retrabalhamento do que no ponto de partida era espontâneo, mas tosco. O espontâneo-mesmo geralmente é fraturado, semi-coerente, porque em geral as pessoas estão improvisando, ou estão tensas, com pressa, esquecidas, etc.  A frase a que chamamos de “espontânea” é geralmente coloquial, tem bom ritmo, cai bem no ouvido, parece verdadeira (porque corresponde a um ideal subconsciente nosso a respeito de como uma frase deveria ser). Isso é resultado de muito corte e costura, mesmo que no fim, como no caso de Luiz Vilela e de tantos outros, o tecido resultante pareça liso, como a “túnica inconsútil” de Jesus.
.

……………………………[o datiloscrito de On the Road]
.
Já vi na Web fotos do imenso rolo de papel onde Jack Kerouac datilografou a primeiríssima versão de On the Road.  Há edições desse texto original, pré-revisão, edição voltada justamente para mostrar a gênese e as variantes do texto clássico. Aposto sem ver que este é mais espontâneo e mais incoerente do que o texto definitivo. Toda (tudo bem, nem toda) espontaneidade em arte é na verdade uma imitação polida, refinada. Num certo sentido, as frases límpidas de Vilela talvez deem tanto trabalho quanto as frases coruscantes de Guimarães Rosa, só que as duas vão em direções opostas. Do mesmo modo, é possível achar que para Rosa aquela fala que ele está inventando, mesmo com tanto esforço físico e psíquico, tinha a espontaneidade desabrida de quem se envolve, delira, vibra e se diverte quando sente que descobriu a relação ideal entre emoção e mente, cavalo e cavaleiro.

 

 

 

 

 

 

 

.

Braulio Tavares é escritor e compositor. Estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é Pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992). Publicou A máquina voadora, em 1994 e A espinha dorsal da memória, em 1996, entre outros. Escreve artigos diários no Jornal da Paraíba: http://jornaldaparaiba.globo.com/ Blog: http://mundofantasmo.blogspot.com/ E-mail:btavares13@terra.com.br




Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook