Escritor? É preciso engolir espadas…


… e vomitar fogo

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Depois de publicar meu primeiro livro de contos, um livreiro me convidou a fazer palestras num certo circuito geográfico do interior do estado de São Paulo e enfrentei, então, o público estudantil, para fazer esta coisa temerária: falar sobre Literatura para jovens. Constatei, naturalmente, o que era inevitável: que a maior parte do público não tem a menor ideia do que um escritor faz e do que a vocação (mais que a profissão) de escritor significa. Na verdade, deparei-me com viciados em televisão, e fiquei meio sem saber o que fazer. Mas, qualquer escritor que se disponha a fazer isso, atualmente, topará com essas coisas. E terá que se medir com implacáveis dificuldades.

A primeira – e a mais notável delas – é uma mistura de ignorância crassa com cinismo. O que interessa é se o indivíduo que está ali, na frente, palestrando, é um nome que foi veiculado pela tevê. Se assim for, pouco importa que esteja querendo falar de Literatura ou da psicologia dos caranguejos – o que ele tem que fazer, para o público que só consegue olhar numa direção, é entretê-lo. Se não o conseguir, estará perdido: a ignorância vai se manifestar em termos de má vontade, gente que se levanta e vai embora como se tivesse sido enganada (palestras desse gênero são, em geral, gratuitas, mas o sujeito se irrita como se tivesse comprado um ingresso) ou, pior, vaias, grossuras, risadas. Se há boa vontade, virão as perguntas – que, por vezes, revelam uma indigência cultural de assombrar mesmo os mais pessimistas ou uma inocência dolorosa, do tipo: “Como é que faço pra escrever um livro e ficar famoso?”.

É terrível isso, porque revela que o sujeito mal ouvia o que o escritor estava tentando dizer: que mal e mal existe essa profissão num Brasil onde o que há, na melhor hipótese, são semi-alfabetizados que detestam ler e onde mesmo os escritores famosos nada são, em termos de fama, para a grande massa.

O desejo é um só – ficar conhecido, não importando o trabalho que se tenha que fazer: o mérito, o sacrifício, não entra em conta. A mídia, por interesses consumistas “democráticos”, negligencia o mérito, as hierarquias naturais de talento das quais ninguém escapa, bombardeia que tudo neste mundo é uma questão de oportunidade. Daí o serem todos submetidos à lógica cruel do sistema: tudo fica reduzido a precisar fazer alguma coisa para ser uma notoriedade. É toda uma geração de monstros sem cabeça que vem sendo criada, e na base da euforia, como se tudo isso fosse muito natural, quando, na verdade, a perversidade é completa. Querem ser usados, espremidos e jogados no lixo. A humilhação não os intimida. Sair na tevê é tudo. Quem se opõe a isso é esquisito, otário. A possível nobreza das recusas ou do silêncio indignado, impotente, de modo algum é considerada.
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A BUSCA DO TRANSPESSOAL
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Ser escritor é bem o contrário de ser “famoso”. Donde o desânimo que em geral se abate sobre a categoria literária, cada vez mais esmagada pela necessidade de ter a oferecer algo mais que um bom trabalho em livro. Sim, é preciso engolir espadas e vomitar fogo.

A falta de sucesso é um componente quase inevitável da atividade literária, se esta é realmente séria (não que isso seja desejável – é só uma constatação). Os livros são lançados com esperanças e muito trabalho, muito sacrifício, mas não passam daquele “sucesso de estima” de uma noite de autógrafos com poucos amigos e admiradores, algumas vendas esparsas, mais nada. Em geral, o destino da maior parte desses livros é o encalhe doméstico; a certa altura, o que o escritor faz é distribuir o que restou lá por cortesia, para diminuir a pilha. Se o sucesso popular é tudo que um escritor deseja, nada é menos indicado do que a escrita literária séria para a realização de seu sonho. Ele poderá até conquistar esse sucesso, mas verá depressa que não há nada de muito meritório nele, pela superficialidade de seus leitores, que em maioria adquiriram seu livro devido a alguma badalação marqueteira que lhe foi necessário fazer, e devido às traições à sua realidade que será doravante obrigado a empreender, a fim de manter seu relativo sucesso.

Há uma incompatibilidade entre a escrita empenhada e lúcida e a indústria cultural que nunca é analisada com a devida profundidade, talvez porque o impasse tenha um significado mais profundo e trágico do que se possa tolerar. O escritor, ao conseguir algum nome, na certa acabará no sofá de alguma loura sorridente que fará o possível para torná-lo palatável à sua audiência. Mas a maquininha não está interessada em Literatura, nem nunca esteve, a não ser em redes educativas, vistas por pouquíssima gente – televisão, Fellini bem resumiu, é um eletrodoméstico, tem que produzir irrealidade o tempo todo, preencher uma programação com o que quer que seja, entreter, distrair, triturar assuntos e simplificá-los ao máximo para o entendimento de massa.

O ódio à complexidade pode ser percebido em qualquer entrevista no qual o entrevistado seja um intelectual ou escritor disposto a pensar, a revelar matizes, contradições, impasses – e isso se dá até nas emissoras ditas culturais. O entrevistador se exaspera, porque vê correr o tempo, quer preto no branco, respostas fáceis e assimiláveis pelos espectadores, e assim, submetido, o entrevistado percebe que não pode dar um passo para a elevação intelectual do público de modo algum e se rende. Esta rendição da complexidade à fórmula simplória para massas é a maior tragédia cultural de nosso tempo. A facilitação fica sendo facilitação eterna, proibida de dar o passo seguinte de informar com mais sutileza e rigor.

A facilitação é perversa. O mesmo processo, aliás, pode ser observado na defesa da leitura da literatura calculista e vagabunda, feita só para entreter, como um passo inicial no salto para leituras mais sérias e profundas. Não é verdade: o acostumado à literatura rasa e comercial, ao procurar um autor mais sério, não encontrando a facilidade de sempre, na qual se viciou, acaba é hostil ao pensamento matizado, à complexidade natural e irreversível do mundo, e detestando autores que rapidamente classificará como pedantes e chatos.

A atitude básica da televisão comercial, ao entrevistar um escritor, nunca é a de uma pessoa que realmente lê, mas de alguma tia simpática e de instrução duvidosa que está feliz porque um sobrinho ou um amigo lançou um livro e trata o assunto com aquele primarismo bem-intencionado e simplório de quem acha que isso é uma proeza – publicar um livro! O ato e o produto aparecem como fetiches ingênuos, como façanhas, não se discute a questão, pouco importa o que se escreveu de fato. Imagina-se, nesses círculos, com os quais os escritores, bem ou mal, terão que compactuar algum dia (para divulgar o seu trabalho) que há um caminho simples e linear do publicar um livro para vendê-lo, que há aí a realização de outro sonho brasileiro, em que se misturam a malandragem e o deslumbramento de gente em geral incomodada com as suas origens humildes: o de “ficar bem na vida”, o de ser uma pessoa valorizada entre doutores e sumidades. A televisão jamais se interessará pela verdade e o sofrimento que são indissociáveis da vida literária – porque, acima de tudo, a maquininha é perita na confecção de miragens: mostra sempre o esplendor dos fins sem mostrar a iniqüidade dos meios. Uma carreira só importa quando é bem-sucedida: a vala comum em que ficaram os demais candidatos à fama pouco importa, o mundo é de quem não tem coração algum, embora se mande tantos “beijos no coração” por aquela telinha. Todos se tornam hipócritas e cúmplices de uma euforia cuja essência é a crueldade.

Os escritores que realmente valem alguma coisa estão sempre na galeria dos inconformados, dos “outsiders”, dos que incomodam deliberadamente os padrões sociais. Têm o dever de erguer uma voz lúcida contra sandices e venenos vigentes na sociedade. Podem cair num mau-humor que é mortal para a regra de irrealidade eufórica a qualquer custo que impera, não escrita, mas fielmente cumprida, nas televisões.

Ora, em algumas conversas entre escritores, topa-se com outra faceta do horror: pouco se fala de arte literária, silêncio, exílio, renúncia – fala-se de livros vendidos ou não vendidos, de colegas que venderam mais (donde as eternas ciumeiras e briguinhas estúpidas). Quer dizer: reproduz-se, na tribo literária, a corrida darwiniana de ratos que vige no meio social – importa quem vai chegar primeiro, quem vai vender mais, como, quando moleques, naquelas rodinhas em que já aprendíamos a ser uns machões predadores, apostava-se quem urinava mais longe e quem era dono de uns centímetros a mais.

E vamos arder todos na mesma fogueira, supondo-nos alguns melhores ou mais íntegros que os outros. A vaidade que não se reconhece como tal e se impõe à frente de qualquer autocrítica é o pior inimigo do escritor, do artista em geral. O sujeito de pouco caráter e pouco talento em geral é desfibrado em sua convicção (se tem alguma) quando elogiado de maneira automática, viscosa e aduladora – os elogios criam os circuitos de compadrismo e complacência que são os responsáveis por tanto escritor ruim passando por sumidade. Na procura de holofotes, o candidato a famoso se esquece que a arte é feita lá atrás, no silêncio, na obscuridade, no trabalho sem “personalismos”. E acaba sendo inimigo visceral de gente sincera e penitente, gente que prefere, até por estratégia, colocar-se sempre criticamente, humildemente, diante do que fez.

A grande arte sempre procurou o transpessoal, não a exaltação narcisista de seu fazedor. Bom exemplo disso? Kafka, que tinha em baixa conta seus próprios escritos e teria preferido ser homem feliz a escritor de glória póstuma, certamente, mas nada podia fazer contra uma compulsão de escrever que, nele, era maior que qualquer outra consideração. A arte, em geral, é tirana assim – pouco importa que o artista durma em cama de luxo ou catre espartano, pois ele nunca passa de um instrumento privilegiado (e maldito) dela. Considerações com o sucesso e lucro são partes do homem comum, não do artista que se abriga sob a casca deste. Mas poucos são artistas, a grande maioria é homem comum mesmo.

Nada valemos como pessoas, com nossas predileções bobinhas, sobrenomes, nossos signos astrológicos e essas futilidades pelas quais as televisões se interessam. Valemos como artistas, “cavalos” de uma idéia superior, ou nada valemos, e não adianta pensar o contrário. A arte só lucra com o desinteresse, seu ritmo é outro, seu tempo é o da eternidade, não o da circunstância, do momento, que é o território da mídia.

O único fracasso que deve nos perturbar é o de escrever mal, é o de perdermos aquela fibra essencial que caracterizava um Proust ou um Graciliano. O resto é estupidez ou aquilo contra que o Eclesiastes nos advertiu – “vaidade vã”, de que os incautos se lambuzam, como se fosse um doce para lá de delicioso e não o veneno que é.

 

 

 

 

 

 

 

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Chico Lopes nasceu em Novo Horizonte, SP, em 1952, está radicado em Poços de Caldas desde 1992. Em Poços, é programador e apresentador de filmes do Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles desde 1994. Tem vários livros inéditos de ensaios sobre filmes e literatura, além de ter publicado três livros de contos: “Nó de sombras” (2000), “Dobras da noite” (2004) e “Hóspedes do vento” (2010). Em 2011, deve estrear na publicação de novelas e romances. E-mail: franciscocarlosl@yahoo.com.br




Comentários (17 comentários)

  1. Ronaldo Ferrito, Caro Chico Lopes, você colocou boas coisas aqui, muito consciente sobre a condição do escritor em geral. O último parágrafo é uma chave de ouro. Escrevi um pequeno texto recentemente aqui na Musa que vai ao encontro do seu. Enviei-lhe um e-mail. Forte abraço!
    4 julho, 2012 as 15:57
  2. Ronaldo Ferrito, Seu texto (no Musa Rara) não só apresenta bem a experiência real de quase todos os escritores comprometidos artisticamente, mas principalmente adverte aqueles que ainda embaçam com certa ilusão glamourosa o seu ofício. Malgrado a realidade cruenta e direta de seu texto, confesso que seria muito inocente de minha parte acreditar que, entre nós, a maioria dos escritores não venham a tratar essas suas conclusões com desconfiança cínica ou mesmo que não queiram – por medo de encarar o niilismo de seus nomes – permanecer iludidos pelo otimismo de tornarem-se em vida as exceções da literatura. Enfim, acho que essa atitude de crença na fama televisiva, de ser mainstream, quase hollywoodiano, é resultado de uma retroalimentação de egos no próprio meio literário (que, claro, incluindo o editorial, sofreu enorme contaminação atualmente de outros meios e de outros mercados), onde cada escritor parece querer ser o mais vendido, o mais traduzido, o mais conhecido, ainda que sem leitores séria e realmente interessados, sendo completamente irrelevante nessa busca por “broadcasting” (divulgação que exclui a interlocução) se serão um dia estudados rigorosamente ou porcamente lidos. Vejo uma confusão constante entre a esperança de ser lido seriamente por muitos e a tentação de ser reconhecido por multidões – o que é uma linha tênue ou quase invisível para o ego.
    4 julho, 2012 as 17:07
  3. chico lopes, Obrigado, Ferrito. O que coloquei aí creio que é bem conhecido por todo mundo, mas o fato de ser óbvio não esgota a questão. Há por baixo disso tudo uma pergunta trágica: para quem estamos escrevendo? por quanto tempo resistiremos com uma literatura de desacordo, de dificuldade, de complexidade?
    4 julho, 2012 as 17:07
  4. William Lial, Belo texto, Chico Lopes. As coisas são exatamente assim. Lembro que quando alguém descobre que sou escritor, entre as primeiras perguntas estão sempre “Quantos livros você escreveu?”, “Você já deu muitas entrevistas?”, “Então você é famoso?!”, “Você vende muitos livros?”. Inclusive, certa vez, quando critiquei uma banda para um conhecido, ele me saiu com “É, mas garanto que essa banda é mais reconhecida no mundo do que o nobre escritor que me fala!”. Realmente, o valor de um escritor não está no seu escrito, mas na fama que obtém: Foi comentado nos jornais? O Jô Soares entrevistou você? Está entre os dez mais vendidos? O Paulo Coelho lê você? Hum, ah, meu querido, então você é bom! Nada contra aparecer nos veículos de jornal ou televisão, seria bom que bons escritores pudessem falar ao grande público sobre seu trabalho, principalmente se for numa forma diferente da que você citou acima, Chico, mas isso não é sinônimo de qualidade, mas de publicidade, de mercado, de audiência. Enfim, não é mesmo fácil ser escritor.
    4 julho, 2012 as 17:35
  5. Fernando Rocha, Esta falsa dicotomia: talento/fama é uma mercadoria bem vendida aqui nos nossos tristes trópicos. Sua pintura dos quadros social, industrial e cultural são bem pertinentes. Há alguma chance disso ser modificado?
    4 julho, 2012 as 18:15
  6. LUIS SERGUILHA, INSTIGANTE TEXTO …do CHICO LOPES….espontaneamente relembro KAFKA ( aliás foi muito bem mencionado): É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós. (Kafka)…
    4 julho, 2012 as 18:17
  7. CHICO LOPES, Caro Lial: Obrigado pela força. Queria ressaltar que o problema de desejar o sucesso é o de desejar certo tipo de sucesso que é preciso questionar, acima de tudo. Pra quê ser lido por pessoas que não vão acrescentar nada, que vão no máximo passar o olho pela tua escrita e continuar na mesma? Pra quê se dirigir a pessoas que não são fecundadas pela literatura como um dia todos nós, escritores,fomos um dia (eu na minha juventude, pelo assombro de Dostoiévski)? Paul Valéry dizia que antes ser lido mil vezes por um do que uma vez por mil…Estava certo. A obsessão do mercado por números é cega, estúpida e desumana.
    4 julho, 2012 as 22:14
  8. CHICO LOPES, Fernando: Bem que eu gostaria de acreditar numa chance disso ser modificado. Acho que a gente consegue no máximo resistir às ondas e seguir praticando aquilo em que acredita, destoando, desafinando o coro dos contentes, como dizia o Torquato Neto…Ele se matou há muito tempo. Hoje em dia ficaria espantado com o tamanho desse coro e talvez inclinado a desanimar também, sabe Deus. Mas acredito que precisamos seguir discordando, seja lá como for.
    4 julho, 2012 as 22:16
  9. Mayra, Baita desabafo, Chico. Dureza esse mundo de amenidades perversas, de ter de ser produto/objeto pra se vender e portanto “se dar bem”. Não, nenhum bom escritor/artista nasceu pra isso. A arte exige outra atitude como vc bem enfatizou. Há uma concordância sua com Faulkner aí, não por acaso. Veja: “La finalidad de todo artista es detener el movimiento que es la vida, por medios artificiales y mantenerlo fijo de suerte que cien años después, cuando un extraño lo contemple, vuelva a moverse en virtud de qué es la vida. Puesto que el hombre es mortal, la única inmortalidad que le es posible es dejar tras de sí algo que sea inmortal porque siempre se moverá. Esa es la manera que tiene el artista de escribir “Yo estuve aquí” en el muro de la desaparición final e irrevocable que algún día tendrá que sufrir.” http://zonaliteratura.com/index.php/201/05/18/dos-entrevistas-con-william-faulkner-sobre-el-arte-de-escribir/
    5 julho, 2012 as 13:06
  10. Daniel Lopes, É isso, Chico. A única coisa que importa mesmo é continuar escrevendo e saber que seu dom (ou sua maldição) é um enigma para o qual jamais encontraremos solução. Fazer “sucesso” dentro do braço cultural do mundo historicamente instituído é no mínimo duvidoso. Os Beatles, que se preocupavam com o biscoito que ofereciam à massa, deixaram as apresentações ao vivo quando perceberam que o povo estava ali para gritar e não para ouvir música. E o fracasso, o fracasso é sempre triste, mas no artista, no escritor, é trágico. Vide o Kafka que vc citou, Herman Melville, Robert Walser, entre tantos outros. É como uma cozinheira que prepara seu melhor banquete, que compra todos os ingredientes do seu próprio bolso e, no final, ninguém aparece para comer. Agora, quero mesmo é ser como a água, encontrar o ponto mais baixo, o fundo da montanha e ficar lá quieto, escrevendo, humildemente, porque um dia de boa escrita me deixa menos morto, apesar de que o dia em que não consigo encaixar, em que não consigo ser o cavalo do humano, me sinto a pior das criaturas. Todo escritor é bipolar. E o pior, a respeito de tudo isto que vc escreveu, é que a tendência é sempre piorar. Não sei se o sistema vigente é mau pq o homem o faz, ou se o homem é mau pq o sistema o faz. Retroalimentação. Mesmo assim, há meninos solitários que estão sofrendo neste exato momento em algum rincão do planeta, atormentados pela ideia da morte e pelo mundo que os cerca, há tanta semelhança entre ele e o resto da turba teleguiada, quanto entre um cuspe e uma estrela, é pra ele que escrevo, assim como um dia Knut Hamsun escreveu Fome pra mim, Dostoiévski escreveu Os irmãos Karamazóv pra mim e Nietzsche escreveu o Zarathustra tb pra mim. Escrevo pra dizer que o amo e o compreendo. Escrevo e a corrente não pode ser quebrada. E se um dia tiver de ser, as palavras chegarão até ele, não haverá necessidade de explicações, nossos corações são o mesmo coração. Abração, irmão, continuemos, não há outra opção, o chamado é mais forte do que o ímpeto que as vezes nos toma de abandonar de vez a palavra e se dedicar à vida, sem refletir sobre ela e sem tentar captá-la na na sua fluidez no vidro rotulado que é cada verbo.
    5 julho, 2012 as 19:12
  11. Daniel Lopes, Otras cositas más, talvez algum tipo de sucesso dimimuísse essa insegurança desgraçada, bem-me-quer, mal-me-quer, escrevo mal, escrevo bem, sou um artista, sou um impostor. Essa montanha russa arrebenta nosso cotidiano, pq a obsessão pela palavra nos torna meio que aleijado para o resto. Eu nunca seria um bom programador de microcomputadores, ou um bom cirurgião dentista. E a sensação de, como disse Kurt Cobain, ser “o pior naquilo que faço de melhor” dilacera. A única coisa que acredito fazer bem é cutucar a ferida, desde pequeno tinha esse dom, mas a literatura só se realiza com o outro, o que fazer se o outro é esse estúpido parado em frente À tv que vc descreveu? E de que adianta esse saber que só nos traz sofrimento? A estupidez não seria uma benção? Todos os homens são miseráveis, mas quantos o sabem? E os que o sabem, o que podem fazer além de equilibrar a tormenta? Acaso nós, que buscamos a vida onde ele escorre, que analisamos o espírito onde ele cria bolhas, tb não fazemos aqueles que amamos sofrerem da mesma maneira, ou até pior, que os burocratas? Emocionar-se diante da beleza, sentir a fruição estética, não nos torna seres humanos melhores. A dobra onde ética e estética se tocam é confusa. Como explicar a um boneco do dinheiro a angústia inútil de Van Gogh? Como explicar o trabalho de Pierre Menard reescrevendo um livro já escrito por Cervantes, naquele conto de Borges? No fundo, todos somos pierres menards e a literatura é uma tautologia. O que pretendemos dizer já foi dito, mas precisamos dizer porque a nossa dor é nossa, e não aquela, está na nossa carne não no papel, e só o que a carne sofre é real e verdadeiro.Saber que outros passaram pelo mesmo lugar alivia, mas não consola. será que se parássemos de escrever, todos nós, agora, faria alguma diferença para as gerações futuras? Tudo já não está dito das melhores maneiras possíveis? Por que a vida (pelo menos para mim) só é possível a partir do registro dessa angústia que nos dilacera? Tb tem o seguinte, se eu aparecesse na tv, talvez ficasse um pouco maior aos olhos da minha mãe [É pra ela que construo a roseira, ainda que ela não goste de flores] talvez tb tivesse autoridade e confiança para procurar o pessoal do clube da esquina, entregar um livro meu e dizer: Escrevo para responder a música que vocês fizeram. O próprio ato de escrever este comentário acalmou um pouco. A palavra é um tábua de salvação.
    5 julho, 2012 as 19:57
  12. Carlos Trigueiro, É por aí mesmo, Chico Lopes. Para ficar só na letra “M”: Moda, Mídia e Marketing Movem as Massas e Moldam a Musa do senso comum, aliás, alienação comum.
    5 julho, 2012 as 20:21
  13. jorge elias neto, Caro Chico Lopes: É essa lucidez que admiro. É duro pensar que se perguntassemos para Darwin, nesses tempos de múltiplas mídias, qual o papel do escritor na seleção natural,provavelmente ele nos responderia: seduzir, criar número em detrimento da qualidade e perpertuar o que há de mais corriqueiro e fútil no mundo. Insisto sempre, é fundamental relativizar nossa significância. Acrescento ao comentário de Serguilha, não ler qualquer livro e não perder tempo em facebook da vida. Penso que a contemplação do verde – da natureza, uma boa música e um bom livro vale muito mais que cultivar espaços nas mídias. Despir-se dos eus em busca do sujeito. Tarefa árdua.
    5 julho, 2012 as 20:55
  14. William Lial, Você tem toda razão também sobre o tipo de sucesso que se deseja, Chico Lopes. Realmente não tem valor ser lido por aqueles que não vão além de uma leitura superficial, que não apreciam a forma e o conteúdo, que não refletem, que não assimilam nada… Lembro de um ocorrido que um amigo, certa vez, me contou: dizia que ele que um conhecido da faculdade andava sempre com o “Guerra e Paz”, de Tolstói, debaixo do braço, até que um dia apareceu sem o livro. Todos estranharam e perguntaram: “Onde está o livro, já leu?”, “Sim, já li!”, respondeu, “E o que achou, do que trata o livro, afinal?”, “Ah… fala sobre guerra… e paz!”. E acredite, não é piada – quer dizer, não é, mas é, com uma resposta dessas…
    6 julho, 2012 as 23:58
  15. Tere Tavares, “A arte, em geral, é tirana assim – pouco importa que o artista durma em cama de luxo ou catre espartano, pois ele nunca passa de um instrumento privilegiado (e maldito) dela.” Chico Lopes. escrever é antes de tudo e de mais nada um ato inevitável. Palavras!
    9 julho, 2012 as 13:57
  16. ceci constant lohmann, gostei muito do texto,da lucidez e descriçao de um assunto importanta..Parabens.
    14 fevereiro, 2013 as 23:14
  17. Nanete Neves, Texto sempre atual pela reflexão que provoca. E tem razão, com fama ou sem, “o único fracasso que deve nos perturbar é o de escrever mal”. Se fizermos direitinho a nossa parte, vamos conquistando leitores. Esse processo é lento. Mas a cada leitor conquistado, o sentimento é de dever cumprido!
    28 novembro, 2015 as 10:49

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