Em nome do pai


.

 

Chicago, 25 e 26 de outubro de 2014

 

 

Em um dos estados do Centro-Oeste do Brasil, há aproximadamente 25 anos.

Não vou dizer meu nome – basta dizer que fui filho e que meu pai foi assassinado.

Friamente assassinado.

Cinco disparos à queima-roupa: três tiros contra o rosto, dois tiros através do coração.

Tínhamos uma fazenda em A…, perto de G…

Houve uma invasão – na sequência, houve um acerto.

Meu pai sabia negociar. Ah, se sabia!

Mas como ele poderia imaginar que aquele cigano voltaria?

Crescemos em Brasília, ou pior, nas cercanias de Brasília. Meu pai foi pedreiro na construção da capital. Me lembro bem de que só o víamos à noite. Quer dizer, só víamos os vultos, não havia luz naquele beco. Sabíamos que alguém tava chegando quando algum vira-lata começava a latir.

Crescemos no cerrado, meus irmãos e eu brincávamos ali. Quem nunca entrou no cerrado pode achar que aquilo ali é um mero descampado. Não é, não. No começo, nego entra e acha que consegue ver de tudo, que tem espaço pra andar, que não dá pra se esconder. Não é assim, não. Faz muito calor, é tudo muito igual, embaralha a vista, passa tatu, tem formiga. E dá pra fazer tocaia, sim.

Como meu pai saía muito cedo de casa, eu, o filho mais velho, tinha que pôr ordem em tudo. Era tudo muito cru, todo dia alguém morria naquela favela. Quando você cresce olhando pra defunto, a morte separa rapidinho quem é forte de quem é fraco. Se o moleque tem medo do escuro, a insônia traz alma penada. Daí corre pra barra da saia da mãe – isso se ela ainda for viva. No começo eu tinha medo, mas foi a mão do meu pai sobre o meu ombro que acabou com isso de uma vez. Me lembro como se fosse agora, F., você é que é o homem aqui, não vai deixar ninguém mexer com o barraco, não vai deixar ninguém mexer no bar, não deixa ninguém olhar torto pra tua mãe e pras tuas irmãs. Tua coragem você tem aqui, ó. Aos 10 anos eu já tinha 38.

E tem mais, F., aqui é o seguinte: aqui nego pode morrer a qualquer momento. Então a gente tem um juramento – meus irmãos e eu nem piscávamos: se alguém matar algum de nós, quem sobrar tem que vingar quem foi embora. Entenderam ou não? E não pode ser mulherzinha, não, não tem chororô aqui, não. Quem sobrar vai lá, olha pro defunto e descobre se foi embora à bala ou à facada. Olha bem pro corpo e marca de memória cada tiro ou rasgo. Na hora de pagar a vingança, na hora de cumprir o juramento, nego tem que morrer da mesma forma, a bala no mesmo lugar, o rasgo do mesmo tamanho. Olho por olho, dente por dente. Entenderam ou não? (Eu sabia que minha mãe, escondidinha, ficava ouvindo tudo, e sabia que, nessa hora, ela fazia o Pelo Sinal.)

A gente tinha um barzinho que mais parecia um balcão no barraco. Meu pai era ligeiro, meu pai era esperto. Nego precisa de pinga ali, é polícia que vem, é tapa na cara, é cusparada, é acerto de contas, é fome, é tudo. A pinga é a chave de uma outra porta, porta de saída, porta de entrada. Meu pai, que entendia de tudo, logo entendeu isso muito bem. Mas não tinha fiado lá no bar, não. E todo mundo sabia como a gente espantava nego caloteiro. E logo meu pai entendeu que não adiantava só vender. Nego que distribuía atravessava o negócio. A gente tinha que distribuir também. E mais: quem distribui corre o risco de ser roubado com a carga, é verdade, mas nunca fica parado atrás de balcão dando sopa. Ninguém acreditou quando meu pai fechou as portas do bar, mas o que que ele vai fazer?

Alugamos um galpão. Alugamos um caminhão. Aí passamos a distribuir. Tava tudo indo bem, tava tudo indo cada vez melhor, mas tinha mais serviço e mais dificuldade. Meu pai confiou em mim, meu pai achou que eu dava conta, me mandou estudar à noite, tem que saber melhor o que cê tá fazendo, F., não pode ser passado pra trás. Pra quem vem de um beco, ora!, rodar de caminhão é ver Deus. O mundo fica grande, cê praticamente não quer chegar ao destino. Cê quer ficar rodando, põe a cabeça pra fora da janela, grita e buzina quando passa outro caminhão. Se cê anda na linha do que é torto, a polícia não te enche o saco, recebe o que é dela, vira vigia do galpão, fica cercando o armazém.

Dinheiro chama dinheiro, tudo parte daí. Galpão, galpões. Caminhão, caminhões. Quem não almeja nada, lá no beco, fica encostado em balcão de bar. Quem quer mais tem que entender o que o outro quer. Quem quer mais se antecipa. Quem quer mais não pára. O sítio virou fazenda. Fazenda sem fim.

Quando meu pai descobriu que um dos engenheiros da obra lá em Brasília era vizinho da fazenda dele, ah!, aí era hora de pagar uma visita. Como é que eu vou esquecer os olhos esbugalhados do homem quando viu que o mestre de obra dele tinha virado empresário?! Pois é, doutor Oscar, a sombra é estreita, a sombra é pra poucos, mas homem gosta do que é apertado, não é verdade? Cê pensa que eu não sei quanto material daquela construção não foi desviado pra tua empreiteira? (O homem fica pálido, capanga quer pôr a mão na cintura, eu só levanto a camisa e mostro a quadrada, nego fica quietinho.) Fica tranquilo, doutor, não tô te ameaçando aqui na tua casa, não, já aceitei tua bebida, comi da tua comida, tá tudo certo. Mas lá em Brasília eu obedecia, ficava só vendo aquilo ali e não vinha nada pra mim. Agora a coisa é diferente. Em primeiro lugar, antes de mais nada, nós vamos ser bons vizinhos, não vamos, doutor Oscar? Vamos ou não vamos, doutor Oscar? (O doutor responde com mais um trago de cachaça.) E outra coisa: agora eu tenho uma transportadora, uma distribuidora. Sei que você tá precisando de caminhão, o doutor precisa é de gente de confiança, gente que quer trabalhar, gente que conhece o valor do trabalho, não é, doutor? Então, tô vindo aqui em missão de paz pra me apresentar como vizinho e pra oferecer meus serviços. É como dizem por aí: o trabalho dignifica o homem, mas tem nego que não deixa a gente trabalhar, tem nego que quer ganhar tudo sozinho e, além disso, ainda quer tomar o que o outro conseguiu com suor verdadeiro. Pergunta pro F., doutor Oscar, pergunta pro meu filho mais velho se isso é direito, pergunta. (Quando doutor Oscar olha pra mim, lhe devolvo um olhar como uma punhalada.) Então, doutor Oscar, vamos dividir nossas cercas a partir de agora, é claro, mas vamos dividir o reino também, né? Pra reinar, bom, é preciso dividir. Todo mundo fica feliz quando todo mundo sorri, não é assim?

Pouca gente nessa vida conhece o prazer do ex-subordinado que faz o patrão virar empregado. E quem é bem nascido tem o cu na mão. Não tá acostumado com o tudo ou nada, o bacana tem sempre algo a perder, o bacana acha que pode sempre passar os outros pra trás, acha que só de olhar pro peão já amedronta. Doutor Oscar ficou branco feito farinha. Meu pai ofereceu a mão em palma – aqui é no fio do bigode, doutor, o que a gente fechar aqui, pode confiar, tá sacramentado e protegido feito corpo fechado.

Já não dava mais pra percorrer a fazenda a cavalo, demorava muito. Agora, só de caminhonete. Se não fosse o meu pai, eu e meus irmãos teríamos pirado rapidinho. Imagina só: na tua infância tá tudo fechado pra você. Quando cê é criança, bom, nego ainda te acarinha o cocuruto, nego ainda tem um pouco de respeito – mas aí também tinha o dedo do meu pai, porque o que tinha de criança abusada lá no beco, meu Deus do céu! Só o nome do meu pai já apaziguava qualquer rinha: J.C.O.! Mas de pequeno eu só passava vontade, meu pai não deixava faltar comida todo dia, mas tinha dia em que minha mãe mandava a gente dormir mais cedo. Daí ela contava história da época da roça, ela dizia que tinha inventado um ritmo com a enxada que era igual dança, algo pra enganar o cansaço. Cê começa a trabalhar às 5 da madrugada, não tem nem sol direito, e tem que almoçar logo às 10. Aquilo é o inferno, fio, aquilo é o inferno. Foi teu pai que me tirou de lá, ele não me fez mais trabalhar, que eu ia olhar vocês, que ele é que ia me trazer as coisas. Todo mundo ia caindo no sono, eu ficava acordado. Tinha que esperar meu pai chegar, tinha que ouvir o chiado da porta. E isso por anos e anos. Você nem sabe o que é o mundo além do mercadinho, você não sabe nada. Por causa do meu pai a mulherada dava bastante moral pra mim. E depois eu mesmo fui criando minha reputação. Mas tudo ali, naquele cu virado no avesso, naquela vida doída que minha mãe tinha que suportar. Daí, imagina só, vai passando a adolescência, a coisa vai mudando, cê começa a comer melhor, cê começa a crescer, aí vem uma primeira sensação estranha, pois é, porque quando a gente melhorou, ué?, a primeira coisa que cê quer fazer é sair daquilo ali, é largar aquele barraco. E a gente fez isso, claro, mas no dia do vamos ver, no dia de sair, minha mãe ficou parada diante do barraco, de costas pro caminhão, ela olhava fundo, punha as mãos na cintura, não falava nada, nadinha, e se não fosse a gente pra puxar a mãe, eita, ela ia ficar ali parada, como uma estátua, como quem não acredita que pode se mover, como quem sente a dor de quem não pode se mover. Daí, imagina só, de repente, jovem de tudo, você tem poder, o mundo se abre, você tem poder líquido, dinheiro, mulheres, caminhonetes, aviãozinho, tudo, tudo. Nego que julga jogador de futebol não sabe de nada, não sabe de porra nenhuma. Me lembro daquele jogador do Palmeiras, o Edmundo, aquele que o Osmar Santos apelidou de “o animal”. Se não me engano, ele veio de uma favela ali no Rio. Pô, o cara encheu a lata de dinheiro, jogava muita bola, pegou tudo que é mulher. Mas o que você faz com as chacinas da tua infância? O dinheiro enche a barriga, é verdade. Mas o dinheiro cabe na tua mão, quero dizer, o dinheiro você toca. Tem uma raiva dentro da gente, a raiva da humilhação, a raiva de quem teve que abaixar a cabeça, a raiva que parece ficar mais forte quando tudo muda de repente. Aquele mesmo filho da puta que nem te olhava agora passa a te pedir favor. Claro, tem nego que nasceu por cima que não quer se misturar com o cheiro do ralo. Mas isso aí é batata. Agora, teve um jogo no Equador, se não me engano – não me lembro bem –, um jogo do Palmeiras pela Libertadores, sei lá, um jogo em que o Edmundo, no auge da fama, no auge da carreira, o Edmundo vai lá e, irado como sempre, o cara vai lá e se invoca com um câmera que tava muito perto do gramado, um câmera que tinha atrapalhado uma jogada dele. Os dois começam a bater boca, quem joga bola sabe que basta um pio pro cara descer o braço, futebol é jogo de homem, daí o Edmundo começa a dar bicuda no câmera, a câmera grava tudo, o cara cai no chão e apanha feito um cachorro. Ah, a mídia só mostra o “vândalo Edmundo”, “o animal”, o jogador fica preso no hotel, coisa de doido! Ninguém quer entender aquele ódio – é o esgoto que só pode cheirar mal lá na quebrada, só por lá. Meu pai entendeu isso, meu pai entendeu que a peãozada sem o talento amestrado do Edmundo precisa de pinga e de puta. E ele mostrou pra gente, sem saber, que é possível dar uma direção pra esse ódio. O mundo vive desse ódio, esse ódio é o espinho do pequi, esse ódio é o incêndio do cerrado, contra esse ódio minha mãe benzia a gente, foi esse ódio que meu pai domou, foi com esse ódio que meu pai ganhou.

Quem aguenta com uma mulher só? Minha mãe deixava pra lá, já tava tudo mais sossegado, mas meu pai gostava duma churrascada com mulher escolhida a dedo. Puta que o pariu, uma vez a gente mandou baixar um ônibus de guenga lá pra uma parte distante da fazenda. Só coisa fina. E foi filé mignon o fim de semana inteiro, graças a Deus! É assim que cê vai baixando a poeira. Nego que já foi viciado sabe das coisas quando diz que não dá pra lutar contra o pó, que é preciso deixar o pó de lado, daí dá pra viver. É assim mesmo: você não fica pensando muito no teu passado, você não fica pensando em quem e no que  deixou pra trás, você não pensa na tua primeira namoradinha, não pode pensar nisso, senão começa a doer, e é uma dor perigosa. Sei lá, o diabo sabe o que ela é, mas é uma dor de querer voltar pro lodo mesmo estando feliz, coisa de doido, você nunca que vai querer voltar pro olho do cu, mas o poder aumenta teu medo. Isso bem nascido não sabe o que é. Quem sempre teve não sabe o que é não ter. Isso parece uma babaquice, mas babaca é quem não sabe o que é isso. Você se sente o super-homem por ter conseguido uma coisa que não era pra você, nisso você é até mais forte do que o burguês de berço, mas você sabe o que é cheirar esgoto e merda, ele não sabe, então é pra você que o poder é de fato uma corda bamba. Cê fica inseguro, cê olha de lado, cê vai aproveitando de tudo, mas cê tá com um pé aqui e outro ali – é por isso que tem nego que fica louco, nego que não sabe pra onde esporrar essa violência. Mas a violência é você, a violência é de onde você veio, a violência, meu Deus!, o dinheiro não lava a violência. Aliás, tem coisa mais violenta do que o dinheiro? E tem coisa melhor?

Pois foi num final de semana de festa com as guengas que o caldo começou a entornar. Como tava todo mundo pelado, o capataz tinha medo de vir perto, meu pai dava cada esporro que só. Mas naquele dia o peão chegou branco feito nuvem, chegou gritando, e cadê o seu J.? E cadê o seu J.? A guenga mal teve tempo de sair de cima do meu pai, Seu J., invadiram a fazenda ali, é gente a dar com pau, não vão arredar pé, vai dar merda, Seu J., o senhor precisa ir lá, pelo amor de Deus!, tem gente com foice, eles devem ter arma, Seu J., eu vou lá, pai, eu logo disse, mas meu pai me mandou ficar quieto, se vestiu num pulo e falou que não era pra parar nada, que era pra continuar, que todo mundo ali trabalhava muito, que todo mundo ali tinha pouco descanso, que por isso era pro couro continuar a cantar, que ele é que tinha que ver aquilo, que na hora de decidir era ele que decidia, então pegaram a picape e foram numa toada só.

É claro que eu não consegui fazer mais nada. Justo naquele dia em que a Miriam apareceu – fazia tanto tempo que ela vinha fazendo cu doce, hoje ela tava ali só pra mim, não ia dividir aquela índia com ninguém, mas aí aconteceu isso. Não aguentei esperar, não gostava de desobedecer, eu respeitava muito meu pai, mas fui atrás deles.

Puta que o pariu, tinha muita gente mesmo. A invasão foi grande. Era família que não acabava mais. Mas negociação não é assim, não adianta pôr só o gado pra fazer pressão, general fala com general, soldado espera no quartel. Foi a primeira vez em que vi o tal do Odirlei. Fui me achegando, não era pra fazer isso, mas eu fui me achegando. E que que tem? E que que foi? Meu pai me parou longe, só com o olhar. E ali tava ele com os capatazes, o Odirlei na frente dele, um punhado de capangas. Meu pai sabia bem com quem tava tratando, aquele ali era como os preserpadas lá do beco. Nego tem ambição, mas não sabe o que fazer com ela. Nego não consegue entender como as coisas funcionam, mas tem culhão pra peitar o que tiver que peitar. Só pode virar bandido, então. Os bandidinhos, os ladrões de galinha, agem sozinhos. Eles não têm tato pra quadrilha, eles não têm tato pra política. Os melhores formam bandos, comandam geral. Mandam e desmandam. E então, mais dia, menos dia, eles tendem a bater de frente com cara graúdo como o meu pai.

Pois é, por que não tinham invadido a fazenda do doutor Oscar? Era coisa pra começar uma guerra, o que tinha de invasão paga era uma grandeza. Nego não tem ideia do que é o campo. Mas meu pai me parou de longe, só com o olhar, e naquela hora eu tive medo. Medo dos invasores? Mas nem de longe e nem de perto! Medo é do meu pai. Ah, mas ele ia ter que entender, eu não podia ficar ali de braço cruzado enquanto meu pai corria risco. E o tal do Odirlei queria adiantar o lado dele. Tinha muito miserável ali, muito coitado que vira massa de manobra, gente que precisava de terra de verdade, gente que nem sabia mais pra onde tava indo. Mas o tal do cigano foi logo dizendo a que veio. Pra ele a quantia negociada parecia muito dinheiro, pro meu pai era dinheiro de pinga. Mas o fulano, no começo, tava parecendo dar o papo reto. Queria terra praquela gente, que era pra eles sobreviverem, que não custava nada pro meu pai, que ele sabia como era a pobreza – o tal do Odirlei sabia com quem tava falando, sabia da história do meu pai. Meu pai chamou o cigano de canto, os capatazes de um lado e de outro ficaram se mirando, os dois foram se afastando. Até hoje eu fico imaginando o que eles disseram um pro outro. Porque eu fico pensando naquela conversa como o encontro do mesmo mundo que se rachou em dois mundos diferentes. Dois lados da mesma cerca. Meu pai tendia a respeitar quem sabia se impor. Poder só respeita poder. Já tava escurecendo, ia ficar muito perigoso, mas eu vi quando os dois apertaram as mãos. Tá tudo certo! O grito do meu pai veio fundo como o pio da coruja. Aí foi direto comigo que ele veio falar. F., vai buscar esse tanto lá onde se sabe que a gente tem dinheiro guardado, amanhã a gente vem acertar. E como é que ficou, pai? Deu certo mesmo? Meu pai me olhou com dureza. Você não disse que eu sou o melhor negociador que você já viu? Claro, pai. Então fica sabendo que quem trabalhar vai ter um cantinho de terra, sim, mas fica sempre sabendo que sempre que você agrada mais a uns que a outros a paz é garantida. Quando você dá pra todo mundo a mesma coisa, F., aí a briga é certa. O homem só fica quieto quando sabe quem tá acima e quem tá abaixo dele. Aí ele sabe quem ele deve temer e quem precisa ter medo dele. Agora, quando você reparte o pão em migalhinhas, ah!, aí o guloso vai tomar do bunda mole, o próprio bunda mole já espera por isso, o homem não tem paz no que é igual, a paz só existe como trégua, meu filho, aprenda isso. O chefe pega o que é dele, o chefe divide um pouco. Hoje em dia nego fica falando em dividir tudo. Vá pra puta que o pariu! Quer dividir tudo, mas na hora de dar a cara pra bater, na hora de correr o risco, aí quer sair da linha de frente. Aprenda isso, filho: reparte o acém direitinho, um espeto de carne moída pra cada um, mas o filé mignon você só dá pra quem merecer a manteiga. E agora vai pegar lá, eu já tô indo, vai reservando, separa a quantia certinha, porque a coisa é amanhã.

No dia seguinte, tudo certo. Era domingo, meu pai voltou pra festa animado. Negociação era com ele mesmo. E vai moda de viola, e vai sanfona, e vai pra puta que te pariu! A tarde cai bonita na fazenda. Na favela não tem horizonte, na cidade não tem horizonte, só conhece o horizonte quem já viu o entardecer numa fazenda. Naquele dia eu vi o entardecer com a Miriam montada em cima de mim – imagina o que é o laranja e o rosa do céu descendo até a pele de cobre daquela índia! Cabelo grosso e liso como juta. E senta gostoso e se inclina pra trás, vai alisando as bolas, você chama pra perto, morde o beiço dela, enfia a língua bem fundo na boca, enfia o dedo no cuzinho dela, depois troca o buraco, ela faz que vai fugir, daí você trava ela, amansa a fera, daí ela mesma cospe e molha a cabeça, daí entra. Peão já chegava a chamar a Miriam de minha namorada, eu não queria saber de dividir aquela Potira com ninguém. Ela deitou em cima de mim assim, comigo dentro dela, e a gente foi cochilando com uma brisinha de fim de tarde.

Quando os gritos me acordaram, meu pai já estava morto.

E sabe o que é o pior?

Quando você só sabe das coisas de caso falado, quando você não tava ali pra ver – e pra morrer junto.

O caso é que, até hoje, eu não sei se aquele não foi o único erro que eu vi meu pai cometer. Porque ele só acertava, até então ele só tinha acertado.

Será que ele não entendeu que aquele cigano não era homem de pouca compra? Será que ele não entendeu que o tal do Odirlei queria o mesmo que meu pai tinha?

Eu não sei, eu sei lá, me dói pensar assim.

Quem vive tomando decisões nem gosta de pensar sobre as coisas que não foram e sobre as coisas que poderiam ter sido. Mas quando nego te dá uma rasteira, cê acaba sabendo se o pasto tá ralo.

Dizem que houve uma nova invasão, dizem que o tal do Odirlei voltou, dizem que ele queria mais dinheiro, dizem que meu pai deu um belo tapa na cara dele, que você não é homem, seu safado!, homem mantém a palavra.

Depois que viram o corpo do meu pai estirado, aí tem história cruzada e explicação de mais e de menos. Vixe, a gente pensa tanta coisa! Meu pai não tratava mal os capatazes, mas vai saber o que foi! Por que não invadiram a fazenda do doutor Oscar? Por que eles voltaram? Você fica contando os inimigos que meu pai tinha, você não quer acreditar que aquele ciganinho filho da puta fez aquilo de caso próprio.

E, claro, o tal do Odirlei sumiu no mundo.

E é aí que o filho vira pai.

Todo mundo resmunga, é mãe que chora, é irmã que berra, é irmão que jura vingança, ó o juramento que a gente fez pro pai, F., vamos atrás dele, vamos!

Onde todo mundo fala pode apostar que ninguém ouve.

Tenho certeza de que meu pai me ajudou a cuspir aquele grito, chega, porra! Agora quem manda aqui sou eu, o pai sempre deixou isso claro. Tião, chama a peãozada toda aí e acompanha a minha família até a cidade. Qualquer coisa estranha, é bala, Tião, é bala! Mas e você, meu filho? Naquele momento, tive que olhar pra minha mãe com rispidez.

O filho morreu, mãe.

Não pude ficar muito tempo no velório do pai. Era mensagem que ia e vinha. Mas eu já tinha mobilizado tudo: mais dia, menos dia, o tal do Odirlei ia voltar a ver o filho tornado pai.

A vingança é bem diferente do ódio cego. A vingança tem foco, a vingança tem sentido, a vingança pode se esconder na moita do perdão pra abocanhar o teu pescoço. A vingança aceita arcar com os custos.

Delegados, policiais, detetives particulares, cartazes de “Procura-se”, cartazes de “Procurado”, fui aumentando o valor da recompensa, fui até sentindo, por vezes, que não tinha pressa – a gente vai se acostumando com a serpente, a gente se acostuma a caçar. Que graça tem quando a presa cai com o primeiro tiro?

2 anos, 730 dias, dia 25 de outubro de 19… O telefone toca pela manhã no escritório. Fazia algumas semanas que eu já não tinha informações, fazia um tempo que os relatos eram contraditórios, mas agora o tal do Odirlei tava entocado. Cigano é nômade, cigano foge pra viver, então não ia ser fácil encontrá-lo. Mas agora ele tava entocado. 5 patrulhas o haviam visto entrar num sítio. E, claro, as 5 patrulhas, entre públicas e privadas, queriam saber quem ia ganhar mais, se era pra matar ali mesmo, se era pra espalhar o corpo, se era pra trazer a cabeça, vinha uma bizarrice atrás da outra. Cortei todo mundo, chega de me ligar, eu só quero uma coisa: levem o tal do Odirlei pra mesma fazenda e pro mesmo lugar onde o meu pai morreu, agora! Só me liguem de volta quando ele estiver lá. Aí eu vou pegar meu carro e vou até lá. Entenderam? Mas, doutor F., tudo bem, eu abaixo o preço, eu mato ele por menos, mas me deixa dar esse prazer pro senhor! Nada, e não tem senhor, não, eu não tenho nem 30 anos, Freitas, e não tem preço, quero ele lá onde eu falei, depois vocês vão ver o que eu vou fazer. Agora, chega.

É claro que fui recebendo ligações de onde pegaram a onça até a fazenda do meu pai. O pedágio ia ficando cada vez mais barato conforme a rapaziada ia chegando ao destino. R$ 50.000,00, R$ 20.000,00, R$ 5.000,00. Tinha policial que não queria mais de R$ 1.000,00 pra dar boa noite ao filho da puta. Mas eu fui firme: quem tocasse no tal do Odirlei é que ia se ver comigo. Ah, se ia!

2 anos, 730 dias, 25 de outubro de 19… Foi aqui mesmo, Odirlei? Não falo com filho de morto! Ah, você não fala com filho de morto? Impedi que começassem a espancá-lo. Aqui não tem filho de morto, não, Odirlei. Aqui tem alguém bem vivo. Aqui tá o cara que te caçou. Você agora vai ser valente de novo, assim como no dia em que matou o meu pai. Você vai me contar exatamente o que aconteceu, tintim por tintim, ou você vai se arrepender do dia em que nasceu. Se você relar a mão em mim, rapaz, você é um homem morto! Você é bem corajoso, Odirlei, eu não vou negar. Você não me parece nada bobo. E é justamente por isso que você sabe que, desta vez, você não vai escapar. Mas a questão é: eu quero saber se você agiu sozinho. Eu quero saber se você recebeu ordens. Eu quero saber se tinha mais alguém envolvido. Você vai me contar tudo, absolutamente tudo. Eu não tenho nada a perder, seu merdinha! Vamos, me mata logo, você não vai tirar nada de mim, filho de uma rapariga!

O mais primitivamente humano seria a combinação de uma série de torturas. Assim, o cigano passaria a sentir a existência do fêmur direito, a rotação da rótula esquerda, a distensão do tendão de Aquiles, da vértebra junto à lombar e da vértebra sob o pescoço, a elasticidade da língua e do globo ocular.

Pai, com todo o respeito, eu não sou o senhor.

Pai, com todo o respeito, eu também posso ser pai.

A boa e velha sabedoria chinesa tem um princípio fundamental: a síncope da consciência vem à tona quando o corpo é reduzido a um único e ínfimo ponto. Imagine que eu amarre o cigano Odirlei a uma maca. Imagine que lhe seja impossível fechar os olhos e mover a cabeça. Agora, imagine que uma goteira passe a gotejar, uniformemente, sobre a testa de Odirlei. Segundos; minutos; horas; dias. No início, não é nada, é uma bobageira. Segundos; minutos; horas; dias. Marica de merda, gota de merda! Sim, ele pode gritar, é importante que ele consiga ouvir o próprio grito.

No início, as gotas são inofensivas, o Odirlei consegue até dormir – cochilar, a bem dizer. Em pouco tempo, os pés não existem, as pernas não existem, o quadril não existe, o tórax não existe, o rosto parece um tecido podre: só existe a testa, o pinga-pinga contra a testa, o ponto insignificante que passa a ser a encruzilhada do corpo com a consciência. Ele engasga com o próprio grito, ele pede pela mãezinha, um assassino daquele pede pela mãezinha!, ele começa a ver os rostos de todos e cada um daqueles que matou, quem diria que o remorso pode visitar uma fera, hein? E é fundamental que ele não possa ver nada além do teto de onde vem a goteira, a goteira, a goteira, a goteira, o tedo de onde vem o suplício líquido de apenas alguns gramas.

Suplício físico é para os bárbaros. Qualquer soldadinho da PM e qualquer soldadinho do tráfico sabe que um chute de coturno, se não quebrar um dente, se não rachar o crânio, logo cicatriza. O peão não pode voltar a pensar, o peão não pode voltar a sentir. O peão não pode voltar a existir. Quando a consciência é evacuada, já não importa mais se o corpo respira.

Quem suporta algo assim?

Ora, vamos parar de fazer pergunta banal.

O ponto é: quem foi o primeiro a idealizar algo assim? (Fico imaginando minha mãe, lá na bela casa onde ela mora agora, a fazer um Pelo Sinal atrás do outro.)

O fato é que não levou muito tempo pra que eu descobrisse quais e quantos eram os implicados.

Já fazia alguns dias que Odirlei me implorava para que eu o matasse.

Agora me responda: a liberdade é ou não é a coisa mais importante prum cigano?

A liberdade de ir e vir, a liberdade de cavalgar, a liberdade de fugir, a liberdade de sair impune.

Sim, Odirlei, você apenas puxou o gatilho, a ordem veio de cima. Mas você puxou o gatilho. Você pegou o dinheiro do meu pai, você fez um acordo com o meu pai.

Usei toda a minha influência pra fazer a roda da justiça funcionar. Todos os implicados desapareceram – consequentemente, minha fazenda se tornou ainda mais imensa… –, mas o cigano Odirlei foi a julgamento. Contratei um brilhante advogado de acusação para endossar o trabalho do promotor. Fomos atrás dos crimes prévios do matador de aluguel e logo desenrolamos uma longa capivara. Não foi lá tão difícil condená-lo a todos os anos de prisão – difícil foi imaginar algo ainda mais refinado do que a boa e velha sabedoria chinesa.

Você sabe o que é a solidão?

Não, não, você não sabe.

Você sabe o que é o individualismo, a porta fechada do quarto, a indiferença, a conversa calada da internet. A verdade é que ninguém sabe o que é a solidão mais aterradora.

Se a cadeia é superlotada, consegui que Odirlei ficasse na solitária. Não calculei mal quando imaginei que 2 meses seriam suficientes. Depois disso, rapaziada, vocês podem abrir a porta. Então, pessoal, dividam isso aqui entre vocês, joguem essas migalhas pros presos. O cigano não deve existir pra ninguém. Ele tem que virar um fantasma de carne e osso. E vão jogando muita lavagem na solitária pra ele comer. Ninguém deve falar com ele, ninguém deve olhar pra ele. Ninguém! Ele tem que virar um estranho pra si mesmo. Ele tem que ficar sozinho dentro do próprio corpo. Ele tem que se desencontrar dentro da própria carcaça.

Em 1 ano, os 1,81 m de Odirlei passaram de 85 kg a 145 kg.

O cigano andava alucinado pelo pátio, ele já não conseguia falar, emitia grunhidos, sons desconexos, guinchava feito um porco, ele só queria deixar a porta da solitária fechada – foi então que ordenei que a porta da cela fosse removida. Ele definhava – e engordava. Quando fui vê-lo, um dia antes de ele enfartar, até os olhos estavam gordos. O cigano há muito já não tinha pescoço, os pés pareciam patas.

Enquanto acompanhava, minuciosamente, o serviço do coveiro, me correu o corpo uma sensação estranha. Um gosto podre na boca. E agora? Que que eu vou fazer? Acabou? Tudo isso morre com o cigano? Tudo isso morre com o pai?

Você não se desfaz de tudo aquilo como a pinga que cê joga pro santo.

Não.

Não.

Quando o coveiro assentou a última pá de terra, eu decidi: agora eu me caso com a L.. Quero ser pai.

 

 

 

 

 

 

,

Flávio Ricardo Vassoler é escritor, professor universitário e autor de “Tiro de Misericórdia” (Editora nVersos, 2014) e “O Evangelho segundo Talião” (Editora nVersos, 2013) e organizador de “Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade” (Editora Intermeios, 2012). Durante o mestrado em Teoria Literária (2008-2010) pela FFLCH-USP, o escritor Fiódor Dostoiévski fez com que Flávio Ricardo se embrenhasse pela Rússia, durante um ano (2008-2009), para aprofundar, junto à Universidade Russa da Amizade dos Povos, em Moscou, o aprendizado da língua que as “Memórias do Subsolo” legaram a Stálin. Agora, durante o doutorado em Teoria Literária (2012-2015) pela FFLCH-USP, Dostoiévski e a dialética fazem o autor nômade migrar novamente, desta vez para a fronteira oposta da Guerra Fria: entre setembro de 2014 e agosto de 2015, Flávio Ricardo realiza um estágio doutoral junto à Northwestern University, em Evanston, Chicago, nos Estados Unidos. Segundas-feiras, quinzenalmente, o autor apresenta, a partir das 22h, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z, www.tvgz.com.br, o Portal Heráclito e o YouTube. Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, e o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, páginas em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

 

 




Comentários (1 comentário)

  1. Jéssica Andrade, Ótimo texto. Gosto de me deliciar com o texto antes de demarcá-lo, destrinchá-lo. Foi uma leitura agoniante, do começo para o meio, fiquei com a sensação de que algo ruim iria acontecer, talvez pelo título. Do meio para o final, fiquei suspensa sobre tantas reflexões sobre o ódio e a tortura, que de uma maneira meio sádica, ficava esperando a tortura do Odirlei como a minha própria Catarse do ódio reprimido. Realmente a trama me prendeu. Sobre a ideologia de Talião, achei que o texto foi bem explícito sobre a ideia de punição, mas não na mesma proporção. Não sabemos ao certo como o Pai morreu, mas a tortura, a prisão, a solitária e o isolamento ultrapassaram a ideia do “olho por olho, dente por dente”. Talvez, porque quando chegamos nesta fase de “aplicação da justiça”, não exista mais justiça, mas sim ódio, vingança, remorso. Sentimentos muito mais subjetivos do que objetivos. Como cristã evangélica, a graça é a maneira mais genial que Deus tem de amar. Constrange-nos a ponto de gerar arrependimento, protege-nos a ponto de sermos livres em tentar até acertar. Ainda bem que Jesus veio! rsrs Ótimo texto! Parabéns.
    27 outubro, 2014 as 22:52

Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook