Coleção Poesia Viva


Poesia Viva é uma coleção de plaquetes de poesia brasileira contemporânea organizada pela Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, com o objetivo de divulgar autores de qualidade e representativos de nossa literatura contemporânea, de diversas gerações, tendências e estilos, novos ou consagrados. O conselho editorial da coleção é formado por autores respeitados em nossa crítica literária: Heloísa Buarque de Hollanda, Luiz Costa Lima, Leda Tenório da Mota, Maria Esther Maciel e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte. Cada título da coleção Poesia Viva tem tiragem de mil exemplares e a distribuição é gratuita. As plaquetes podem ser retiradas pelo público na recepção da biblioteca e na central de informações do Centro Cultural, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima e também estão disponíveis para leitura e impressão no site do CCSP, na página http://www.centrocultural.sp.gov.br/literatura_colecao_poesia_viva.asp [aqui você pode acessar a coleção completa em PDF]

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Títulos já publicados
: Quatro poemas brasileiros, de Horácio Costa, 25 Poemas escolhidos pelo autor, Armando Freitas Filho, Matinê, de Marcelo Montenegro, Tempo instável na tarde dos anjos desolados, de Ademir Assunção, Quase duelo de quase amor, de Alice Ruiz e Estrela Leminski e O cinephilo eclectico, de Glauco Mattoso.

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Confiram abaixo uma miniantologia de poemas publicados na coleção Poesia Viva:
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ARMANDO FREITAS FILHO

CORPO

Acrobata enredado
em clausura de pele
sem nenhuma ruptura
para onde me leva
sua estrutura?

Doce máquina
com engrenagem de músculo
suspiro e rangido
o espaço devora
seu movimento
(braços e pernas
sem explosão).

Engenho de febre
sono e lembrança
que arma
e desarma minha morte
em armadura de treva.

[Do livro Palavra, 1963]
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DOIS MOVIMENTOS DE PEDRA

1

A pedra treva
(fera imóvel)
dorme seu sono
informe.

A pedra aguarda
seu brusco impulso
em difusa espera
de matéria e sombra.

2

A pedra alvor
ganha ímpeto
se distancia
(corpo escalando ar).

A estrutura
fura o espaço
em livre salto
e se empenha em forma.

[Do livro Palavra, 1966]
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FLASH

Repente
a mente
sente
a árvore
desde
a semente

sente

mão vegetal
em tenra parede
fremente

braço animal
contraído
porão mineral
ruído

mental

folhafalhafolha
f a r f a l h a
vento – navalha

contra o cimento

meu pensamento

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[Do livro Dual, 1966]
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HORÁCIO COSTA


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RUMO A AQUILÉIA

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Come from the holy fire
And be the singing masters of my soul.

Yeats, sailing to byzantium

A José Saramago, in memoriam
O dia está mesmo encoberto.
Entre ruídos de telefones
celulares, eis-me enfim
a caminho de Aquiléia.

Veneza não mais interessa
e por sucumbir não termina.
Sobre canais, pontes, museus,
os habitantes, seus manteaux.

Os palácios iluminados
e os restaurantes lotados.
Constroem um novo Bucintoro
para a sanha dos turistas.

Por isso, rumo a Aquiléia.
Lá não sou amigo do rei
mas é ao velho Diocleciano
a quem hoje visitarei.

Sua viúva, sua filha,
de princesas passaram a
mendigas. Sobre a História,
que dirá o fantasma cesáreo?

Que seja em latim, tanto faz.
De sua congelada Panônia

o vulto do Imperador
algo útil me sussurrará.
Não penso em brocados, nem quero
púrpuras. Nos filmes estão
as tiaras de ametistas. Doo
aos poetas fáceis, efeitos.

Mas vim de tão longe, sou um
brasileiro. Posso ao tetrarca
exigir o real, o que é vero,
a substância, e ponto final.

Que não revele, que só confirme,
é suficiente. Que é da História?
E, dois mil anos depois, que gosto
lhe guarda o seu tanto poder?

Vilipendiadas, pelo Império
vagaram as suas princesas.
Uma vez destilada a ira,
Diocleciano, hoje, sabe.

Ou deve saber. Que me traga
a sua conclusão ou se cale.
A ele já não voltarei:
a Aquiléia se vai uma vez.

Que não esmiúce os fardos
da glória e da santidade;
poupe-me quem com olhar
galvanizava os legionários.

Que confesse ao visitante
a sua moral milenar.
Divo! conjuro-te a afirmar
que há um sentido, um destino.

Eis-me então frente a Aquiléia.
Já sei o que há por encontrar:
mosaicos, restos arqueológicos.
Patriarcas, gestas de hunos.

E que escapa à voz que míngua?
Suores. Pactos. Traições.
Ah, que não lamente a desdita
das pobres princesas reais.

Mas se o eco vier de Ausônio,
quem descreveu Aquiléia
à sombra dos últimos Césares,
celebrarei entre as ruínas.

Se for de Ausônio a voz,
que atento eu permaneça.
Que ele me conte o que queira:
não sei o que o poeta dirá.

Aquiléia, Itália, 5 XII 98

 

LENDO O JORNAL, 1º DE OUTUBRO DE 2009

Sue, a Tyranossaurus
Rex, morreu de
dor de garganta,
afirma um dinossaurista
em Wisconsin, e não
das mordidas de outros
dinossauros. Irtiersenu,
a múmia egípcia
por décadas olvidada
numa gaveta do Museu
Britânico, não morreu
de câncer de ovário,
como até há pouco
se pensava: terá tido
sete filhos e seu aparelho
reprodutor de dois mil
e seiscentos anos está
intacto. O bacilo
de Koch atravessou
o caminho entre ela
e seus netos. Até agora
não se havia confirmado
a existência da tuberculose
no Antigo Egito nem
a do parasita trychomonas
gallinae no período
cretáceo. A ação de censura
contra O Estado de S. Paulo
promovida pelo filho do
Excelentíssimo Senador
pelo Amapá José Sarney,
defensor perpétuo de sua
numerosa prole, há sessenta
e dois dias vigente, foi
mandada para o Tribunal de
Justiça do Estado do Maranhão.
O do Distrito Federal
considerou-se incompetente
para julgá-la. Quatrocentos
é o numero de bilhões
de dólares americanos que o
presidente da Petrobras considera
necessários para que
se proceda à exploração
do petróleo no pré-sal.

A tiranossaura Sue.
A múmia Irtiersenu.
A família Sarney.
O pré-sal.
Tenho companhia animada
agora que me sento à mesa
para mais uma edição
do meu café da manhã.

São Paulo, 1º de outubro de 2009
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MARCELO MONTENEGRO

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QUITUTES DE CRÂNIO
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Lactobacilos
vivos Aspirina de enigmas e o álbum
branco dos beatles Barranco
onde nasce uma planta
rara Como quem bebe
a menstruação de uma fada Agulha
na vitrola do espanto Skates
do nada Livro lido por um
incêndio e as pupilas de gelo
que a ternura ejacula na página Lapso
apalpado como se uma janela Frase
escrita na vidraça Garoa
que a luz de um poste revela

 

ESTRANHO ÍNTIMO

Mapas malucos em muros úmidos.
Bolhas num adesivo.
Dedo cortado por uma página.
O espanto é um bairro
no olhar do meu filho.

“Não se salva um navio
não o construindo”.
Cicatrizes mudas
no braile do carinho.

As janelas dos carros
fatiando meu reflexo.
Um esguicho de música
no cofre do ouvido.

 

PARMEGIANA SONG

1.
Tem dias me arreganho
Noutros me desconheço
Me pulverizo, jogo no cesto
Todo e qualquer sentido
Me sofistico, desvendo os nós
Do meu próprio avesso
Tem dias me apanho arisco
Não me convenço, me desminto
Me surpreendo, dinamitando a volta
Das pontes que eu atravesso

2.
Tem dias que penso: quanto mais épico
Mais íntimo, depois, sem jeito
Eu mesmo me desconverso
Tem dias cabaré, noutros
Convento, e retiro o que sinto
Assim, subindo meu preço

 

MATINÊ

Às vezes saio do cinema
E me ponho a andar
Cartografias pessoas
Apenas olhar
Ter a leve impressão
De que a cidade está grávida
De um outro lugar

 

TELEFÉRICO DE TERNURAS

A imagem do cais, afastando-se,
lentamente. Até desaparecer
noutra imagem. O barulhinho do motorista
destacando a passagem.
E o artesanato das nuvens
que se dissolve
na face de um velho marujo
refletida no mar.
Esse frio na barriga onde mora
o que não sabe dizer.

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ADEMIR ASSUNÇÃO

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ESCRITO A SANGUE

ruas escuras
atravessado
eu atravesso
reviro o avesso
nele me meço
olho de lince
encaro a face da fera
espelhos se estilhaçam
rasgam minha cara
cai a neblina do vazio
frio na barriga
pago o preço
erva bola cogumelo
volto ao começo
escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço

 

OS LEÕES ESTÃO BRINCANDO NO JARDIM

Dentes gelados, unhas à mostra

o leão arranha levemente

a pele de puro gesso: estátua branca

Peônias farfalham mudas

ante a imaginação selvagem e furiosa

vento vento vento

na tarde de abismos, constelações

de leões, centauros prontos para o bote,

o amor perigoso, atado ao tudo

ou nada: um par de olhos diante

de sua máscara de oxigênio

 

SATORI

Sentado, distraído, na pedra
ao lado da cachoeira

– eu sou um buda
de cabelos nublados
e dedos de borracha.

A água fria
franze a pele das costas.
A samambaia sorri
com suas folhas
crispadas pelo vento.

Nada fora de lugar.
Nenhum caos mental.

Pelado, pelos eriçados
– secando ao sol
sou apenas
mais uma
espécie de vida
entre muitas –
viajando pelo tempo

– que nunca existiu

 

PELE CONTRA PELE

então a brisa nos brinda
com sua auréola de nadas

& a vida se resume
ao agora:

– veja, meu amor
palavras no vapor do ar
– a vidraça se embaça
vento frio no rosto, olha
é inverno
(nenhuma flor no orvalho)

pele contra pele:
nosso melhor agasalho
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ALICE RUIZ E ESTRELA LEMINSKI
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lá o sol vai
aqui a lua vem
e você nem isso

ARS e ERL

 

raio embaixo
lua em cima
o sol foi pra china

ARS e ERL

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uma hora esperando
o voo das nove
veio andando

ARS e ERL
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raio vaga-lume
primeira estrela
uma noite cheia

ARS e ERL

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pedrinhas de gelo
nesse calor
chuva também é amor

ARS e ERL

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dente de leite
marfim
e começo de gente

ARS e ERL

.

até onde a vista alcança
tudo pertinho
a quilômetros de distância

ARS e ERL

.

engano amigo
tenho a impressão
que a lua vem comigo

ARS e ERL

.

tudo tem o seu recheio
a vida tem
os seus receios

ERL

 

que troço esquisito
que começa com pra sempre
atravessa até que a morte nos separe
e termina com
preferia nunca ter te conhecido?

ERL

 

às vezes vem a certeza
a vida agora já foi vivida
era uma vez uma menina
descobrindo a rotina

ARS

 

 

 

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Coleção Poesia Viva Coordenação Editorial
Claudio Daniel (Curador de Literatura do CCSP)

Conselho Editorial
Heloísa Buarque de Hollanda, Leda Tenório da Mota, Maria Esther Maciel, Antônio Vicente Seraphim Pietroforte e Luiz Costa Lima

Projeto Gráfico CCSP
Adriane Bertini

Impressão
Gráfica do CCSP

 




Comentários (4 comentários)

  1. Wilson Luiz Carita Lopes, Admirado e feliz pelas iniciativas editoriais do “CCSP”. Muita “semeadura”, brotos e plantações culturais, clama a terra fértil sua vontade de gerar frutos não perecíveis. Parabéns, Claudio Daniel e Conselho Editorial…
    19 fevereiro, 2012 as 10:29
  2. Dora Dimolitsas, Musa Rara parabéns pela iniciativa de semear este trabalho de amor, feito pela Curadoria do Centro Cultural.Parabéns ao Professor Claudio Daniel, Editores. Dora Dimolitsas
    22 fevereiro, 2012 as 22:27
  3. neuza pinheiro, sim, muito boa proposta. Oferecer poesia simplesmente, disponibilizar poesia a quem queira. E tem efeito multiplicador: um pega e comenta, empresta, o outro passa, pega, repassa e o movimento vai crescendo. Poesia viva, uai.
    12 abril, 2012 as 13:17

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